Por Juliana Ewers

Atenta aos desafios relacionados à gestão de resíduos sólidos nos municípios brasileiros, a INNOVA Energias Renováveis, que licenciou a tecnologia italiana de Pirólise a Tambor Rotativo, instala sua primeira unidade de pesquisa no Brasil. Com um investimento da ordem de R$ 4 milhões – em três anos, considerando a aplicação em equipamentos, infraestrutura e pesquisa –, o laboratório da empresa será implantado no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), por meio de convênio de P&D. Essa é a primeira empresa com proposta aprovada por meio do edital de seleção para instalação do Parque.

Para o diretor-executivo da Agência de Inovação Inova Unicamp, Milton Mori, a chegada da empresa demonstra a vocação do parque para uma outra área. “Temos muitas empresas do ramo de TI (Tecnologia da Informação). Essa é a primeira empresa na área de química e energia. O interessante é que desenvolver esse tipo de tecnologia impacta não somente na geração de conhecimento, como também no direcionamento de políticas públicas”, analisa.

Para o reitor da universidade, José Tadeu Jorge, a presença da INNOVA Energias Renováveis no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp fortalece o compromisso da universidade com ações que permitem que o conhecimento gerado pelas pesquisas propicie melhores condições de vida para as pessoas. “Esforços e pesquisas em conjunto permitirão contribuir para a melhoria do meio ambiente e da qualidade de vida”, reforça.

“Nesse contexto, o Parque Científico e Tecnológico da Unicamp demonstra a importância de seu papel como agente catalisador da união do conhecimento produzido pela universidade com empresas interessadas em desenvolvimento tecnológico conjunto”, completa o diretor do Parque Científico e Tecnológico da Unicamp, Eduardo Gurgel do Amaral.

A escolha pela região, segundo o engenheiro Fernando Reichert, diretor da empresa, partiu do interesse da INNOVA Energias Renováveis em estar próximo ao corpo docente renomado da universidade, além do fato de o estado de São Paulo ser considerado o berço da inovação e de grande interesse comercial. “Essa é uma região que tem demandas claras nesse setor”, afirma.

As dificuldades de gestão de resíduos sólidos e os impactos causados como: contaminação das águas, qualidade e quantidade de recursos hídricos disponíveis atualmente, e a piora da qualidade do ar são demonstrativos da necessidade de se pensar em novas alternativas.

O caso da cidade de Campinas é um exemplo. Com a vida útil encerrada do aterro sanitário Delta A, o município teve de começar a exportar seu lixo para um aterro particular de uma cidade vizinha – Paulínia –, tendo em vista que a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) não liberou o uso do Delta B. A negativa se deu pela proximidade com o Aeroporto Internacional de Viracopos. Desta maneira, Campinas despende hoje R$ 91 milhões com o contrato de duração de um ano com um consórcio, para efetuar limpeza urbana, coleta de lixo – domiciliar, orgânico, hospitalar e seletiva – e gestão do Delta A. E mais R$ 38 milhões com o contrato com o aterro, para transporte e gestão do lixo enviado a Paulínia. Esse segundo acordo também tem validade de um ano. Campinas, que tem mais de 1,1 milhão de habitantes, produz diariamente 1,3 mil toneladas de lixo.

Alinhada com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, a tecnologia da INNOVA Energias Renováveis pode ser vista como uma das opções disponíveis para enfrentar o problema de maneira mais sustentável, pois consiste em um reator de pirólise – processo em que a matéria orgânica é decomposta após ser submetida a condições de altas temperaturas (cerca de 450º C) em ambiente desprovido de oxigênio –, que é composto por um tambor rotativo aquecido externamente. No interior do tambor, são inseridos os resíduos. Sob condição de operação controlada, a matéria se transforma em gás de síntese. Na saída do reator de pirólise, o gás de síntese – ainda com contaminantes – segue para um sistema de limpeza e purificação. Nesta etapa, são removidos particulados e gases ácidos, tornando o gás limpo, composto por hidrogênio, monóxido de carbono e hidrocarbonetos leves, com aproximadamente 50% do poder calorífico do gás natural. Parte do gás de síntese – cerca de 30% – é utilizada para alimentar o processo e o restante – 70% – pode ser utilizado para substituir outros combustíveis na produção de calor ou energia elétrica.

Sob o ponto de vista prático, a tecnologia da INNOVA Energias Renováveis converte materiais orgânicos – que possuem carbono e hidrogênio em sua composição – em gás e mantém os inorgânicos – vidro, metal, areia, pedra e sais – com suas propriedades físicas inalteradas, devido à baixa temperatura de operação.

“É preciso ressaltar a diferença entre a incineração e o aquecimento em ambiente sem oxigênio, que é o caso da pirólise. A queima direta dos resíduos em câmara de combustão produz poluentes, inclusive cancerígenos como dioxinas e furanos. Produz cinzas volantes, que são perigosas e têm alto custo de disposição. E os gases de combustão são altamente agressivos. No caso da pirólise, o processo transforma o lixo em um gás combustível limpo, similar ao gás natural, que pode substituir outros combustíveis sem qualquer risco ambiental ou à saúde pública. A tecnologia pode produzir também biochar a partir de biomassa, que pode ser usado inclusive na agricultura para o combate à desertificação e à perda de carga orgânica”, explica Reichert.

Uma usina da INNOVA Energias Renováveis tem vida útil estimada em 45 anos. Retomando o exemplo, para uma cidade do tamanho de Campinas, seria necessária a instalação de ao menos sete usinas com capacidade para processar 150 toneladas/dia, para dar conta da demanda.

No Parque Científico e Tecnológico da Unicamp, a usina será em escala laboratorial, apenas para fins de pesquisa e desenvolvimento da tecnologia. Sob a execução do professor Edson Tomaz, da Faculdade de Engenharia Química, o projeto pretende validar os resultados ambientalmente favoráveis da tecnologia e promover uma ampliação da aplicação da mesma. Uma das linhas de estudo é, por exemplo, a produção de carvão ativado para utilização em filtros.

Atualmente, a tecnologia da INNOVA Energias Renováveis se aplica a resíduos urbano, industrial, hospitalar, medicamentos vencidos, entre outros. No entanto, para fins de pesquisa no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp, o resíduo será proveniente de convênios e em baixa amostragem – não ultrapassando uma tonelada. O transporte se dará por meio de containers lacrados para impedir contaminação.

Para o desenvolvimento deste projeto e de novas unidades, a INNOVA Energias Renováveis contará com a parceria da empresa ELECTRA Energy, proprietária de unidades de geração de energia, e do grupo GSN, que possui experiência na estruturação de empreendimentos.

Juliana Ewers

Juliana Ewers é formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e possui especialização em Gestão de Comunicação com o Mercado, pela Esamc. Atuou como repórter do Jornal Metro e do Grupo Bandeirantes de Comunicação . É editora assistente da Inovação – Revista Eletrônica de P,D&I .