Por Marina Gomes

São Paulo inaugurou oficialmente, em dezembro passado, o primeiro Fab Lab Livre, uma iniciativa da prefeitura para oferecer aos estudantes da rede pública acesso a máquinas de produção digital, como impressoras 3D, para desenvolver protótipos de novos produtos. A promessa é que sejam, ao todo, 12 unidades espalhadas pela capital, atendendo 1.500 estudantes por mês.

Um fab lab (de fabrication laboratory) é um espaço compartilhado, composto, basicamente, por ferramentas eletrônicas e softwares, impressoras 3D, cortadoras laser e fresadoras. Trata-se de uma rede que se estende por mais de 70 países e já contabiliza cerca de 560 laboratórios pelo mundo. No Brasil, eram apenas 12 antes da iniciativa, localizados em São Paulo, Recife, Brasília, Rio de Janeiro, Cuiabá, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

O crescimento segue uma tendência global da chamada cultura maker e influência dos movimentos open source (código aberto) e open design (design aberto) –, que permitem o licenciamento livre e participação coletiva na construção de um programa ou design. A ideia é compartilhar ferramentas e processos, sempre focando em pesquisa e inovação. O conceito começou a tomar corpo há 15 anos, quando o diretor do Center of Bits and Atoms do MIT, Neil Gershenfeld, criou o curso How to make (almost) everything (como fazer quase tudo, em inglês), que foi um sucesso e atraiu jovens que queriam fazer suas próprias coisas, fossem games, animação, ou mesmo móveis e bicicletas.

Perfil diversificado
Os fab labs têm multiplicidade de perfis. Alguns estão nas universidades (ou contam com apoio delas); outros têm patrocínio de indústrias, ou, ainda, surgem do encontro de makers que resolvem compartilhar espaço e equipamentos para o desenvolvimento de projetos. O desafio é ter um modelo de funcionamento que garanta a sustentabilidade, sem abrir mão da filosofia de liberdade e colaboração.

“No Brasil, temos um grande envolvimento de empreendedores, o que é diferente do restante do mundo, onde os fab labs são financiados por instituições (universidades, governo, fundações). Gosto muito de destacar essa vontade e coragem de empreendedores independentes, que resolveram mudar suas vidas, possibilitando a outras tantas pessoas desfrutar de um espaço onde se possa realmente experimentar novos conceitos, a colaboração e a abertura”, destaca a diretora executiva da rede Fab Lab Brasil e professora de engenharia do Insper – Instituto de Ensino e Pesquisa, Heloisa Neves.

Ela ressalta também alguns fab labs dentro de universidades, como no Insper (SP) e em Cuiabá, que “tentam remodelar a forma como a educação é pensada, mais baseada no aprendizado por projetos e hands-on“.

Desenvolvimento de produtos e sustentabilidade do negócio

Por mais que os números de crescimento da rede no mundo nos últimos anos impressionem, ainda há muito desconhecimento em relação ao potencial de fomento à inovação. “Temos obrigação de apresentar preços competitivos. Se o custo de prototipagem for alto o empreendedor nano vai correr riscos, não vai testar novos formatos, não vai inovar. Nosso desafio é construir um modelo de negócio que garanta a nossa sustentabilidade e que, ao mesmo tempo, não nos afaste da nossa missão. Por isso, apostamos em projetos que tenham impacto social”, explica Edgar Andrade, do Fab Lab Recife.

Essa unidade começou em um espaço com 10 m² na zona norte da cidade. Agora, acaba de se mudar para o Recife Antigo. “Estamos num novo momento, numa incrível vitrine, no mais importante lugar da cidade do ponto de vista da inovação. Queremos ajudar a transformar o bairro num grande laboratório de experimentação, principalmente em prototipagem urbana”, conta.

Entre os projetos do lab está a parceria com o Instituto Euvaldo Lodi (IEL) – núcleo de empreendedorismo e inovação ligado à Confederação Nacional das Indústrias –, para a criação de um programa de estímulo à inovação por meio da fabricação digital e prototipagem eletrônica e, com o Hospital da Restauração, a formação de um grupo de pesquisa para o desenvolvimento de próteses cranianas. “Atualmente, são mais de 200 pacientes esperando pelo transplante nesse centro. Nosso objetivo é desenvolver uma tecnologia que simplifique o desenvolvimento dessas próteses”, explica Andrade.

Transformar o fab lab num negócio sustentável é um dos desafios. É preciso criar pacotes e produtos para atender um público bastante variado. Em alguns deles, há diferentes planos mensais, de acordo com a necessidade do usuário. Oferecem, ainda, oficinas de corte a laser, impressão 3D e arduino (placa utilizada para prototipagem eletrônica), rhino (software de modelagem 3D), consultoria e desenvolvimento de projetos. No amplo cardápio, cursos para crianças e até o Fab Night, happy hour mensal.

“Não queremos que o usuário passe 2 horas utilizando a cortadora a laser e depois vá embora. Queremos que ele fique por lá, trabalhando em seus projetos, tomando um cafezinho com outro usuário e trocando experiências. Estamos criando uma ferramenta que vai monitorar o resultado desse modelo e podermos provar que, mais importante do que reunir equipamentos, o que faz do fab lab um instrumento de promoção da inovação é a capacidade de reunir gente diferente”, aposta Andrade.

Futuro customizável

Neste modelo de inovação aberta, em que o processo de PD&I é compartilhado, o desenvolvimento é muito rápido e possibilita encurtar o caminho entre a ideia e o produto, já que o próprio público controla a produção. O movimento maker se baseia na fabricação digital de alta tecnologia e possibilita que pessoas comuns explorem a capacidade, que antes só as grandes fábricas tinham, de criar qualquer coisa. E uma característica desses novos produtores é a personalização.

Mesmo que os recursos atuais sejam ainda limitados, é impossível não vibrar com as possibilidades abertas pela tecnologia em desenvolvimento. A impressão comercial 3-D ainda trabalha com poucos tipos de material (metal ou plástico), mas a tendência é aumentar a variedade em médio prazo, com polpa de madeira e nanotubos de carbono. Algumas impressoras imprimem circuitos elétricos. Ou seja, de órgãos a coberturas de bolos, a gama de possibilidades é infinita – como bem aponta Chris Anderson no livro Makers, a nova revolução industrial (Elsevier, 2012). “As impressoras 3-D estão avançando rumo ao sonho dos alquimistas: fazer tudo”, diz.

“Para o futuro teremos mais pessoas utilizando estes labs e mais pessoas capacitadas para atuarem neles, seja como frequentador ou como facilitador. Ademais, acredito que o movimento possa atingir um público mais amplo. Hoje ainda está muito restrito a uma classe criativa (designers, arquitetos, artistas, engenheiros e universitários). Podemos expandir para estudantes de ensino fundamental e médio, bem como educadores. A terceira idade poderia vir ao lab trazendo suas habilidades, ensinando-as aos outros usuários e também aprendendo. Também poderiam se tornar estruturas públicas. Um espaço em que a população não venha somente fabricar coisas para sua casa ou bairro, mas também para que sirva como um local onde pequenos negócios sejam apoiados, ideias de startups sejam prototipadas, enfim, uma espécie de hub de empreendedorismo na cidade”, analisa Heloisa Neves.

Andrade, do lab Recife, vai além, e acredita que as grandes organizações também não vão ficar de fora. “As pessoas não vão querer um tênis igual ao do vizinho. Eles vão entrar no site da empresa e terão acesso a todo o acervo de conteúdo. Numa ferramenta simples, poderão escanear os pés, montar o tênis perfeito, gerar um código para pagamento do direito de reprodução, se dirigir a uma fábrica digital perto de casa e trocar o código, que só será utilizado uma vez, pelo tênis”, aposta.

Marina Gomes

Marina Gomes é formada em Jornalismo pela Unesp-Bauru, mestre em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor-Unicamp e possui especialização em Bioquímica, Fisiologia e Treinamento Desportivo pelo Labex-Unicamp. É também editora da Revista ComCiência, (Labjor) e editora associada da Inovação – Revista Eletrônica de P,D&I.