Por Carolina Octaviano

Em 2014, a cidade de Florianópolis, que ocupa a primeira posição no ranking das capitais mais inovadoras do país, realizou o depósito de 51 patentes e o registro de 45 programas de computador, de acordo com dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Além disso, a cidade apresenta outros números expressivos, tais como: uma população estimada de 461.524 pessoas – distribuídas em uma área de 675 km² –, 3 universidades públicas (UFSC, UDESC e IFSC) e 8 privadas, R$82.900.227,61 de investimentos na categoria finanças públicas – no ano passado – e 25.894 empresas em atuação, sendo que 600 delas atuam no ramo de software, hardware e serviços de tecnologia, as quais geram aproximadamente cinco mil empregos diretos.

“Florianópolis possui um ambiente bastante propício para o surgimento e desenvolvimento de startups e produtos inovadores, tendo inclusive sido eleita em um levantamento realizado pela Endeavor – que destacou as cidades brasileiras mais empreendedoras – no ano passado, como a melhor capital do país, entre as 14 analisadas, para geração de negócios de alto impacto”. A afirmação é de Leandro Carioni, diretor-executivo da Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (Certi).

No entanto, Carioni frisa que nem sempre foi assim, uma vez que a economia de Florianópolis, ainda há poucos anos, estava voltada a outras áreas. “Antes da década de 1980, a economia da cidade era baseada no funcionalismo público e no turismo. A criação da Fundação Certi, em 1984, e de sua incubadora de empresas, a Celta (Centro Empresarial para Laboração de Tecnologias Avançadas), uma das primeiras do país, contribuíram bastante para essa transição. A mão de obra qualificada proveniente da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) também foi um fator crucial nessa história”, aponta. Ele defende que a criação da Certi – que, ao longo de 31 anos, proporcionou que mais de 410 empresas fossem criadas e tivessem o suporte da instituição – está diretamente associada ao início da história do ecossistema de inovação de Florianópolis.

“A instituição foi fundada a partir do LABmetro – Laboratório de Metrologia do Departamento de Engenharia Mecânica da UFSC, por iniciativa de instituições públicas de fomento e grandes empresas clientes. Aos poucos, foi expandindo sua área de atuação e agregando mais competências ao seu leque de atividades”, lembra o diretor-executivo da Fundação. Hoje, a entidade é composta por oito centros de referência, que oferecem desde serviços de metrologia e instrumentação até soluções em convergência digital, mecaoptoeletrônica, produção cooperada, energias sustentáveis, economia verde, entre outras vertentes.

Seis anos após a criação da Certi, foi inaugurada a incubadora Celta, uma das pioneiras do país, possibilitando apoio direto às empresas de base tecnológica. Atualmente, mantém 36 empresas de base tecnológica que geram cerca de 800 empregos diretos e o faturamento anual das incubadas alcança aproximadamente R$ 70 milhões. A incubadora já colocou no mercado 83 novas empresas que hoje faturam R$ 6 bilhões, considerado o maior volume de faturamento de empreendimentos nascidos em incubadoras do país. “O início da criação das startups, em Florianópolis, foi dentro da Celta. Com seus serviços, fez surgir o Parque Tecnológico Alfa, o Sapiens Parque, entre outras instituições. Nós recebemos empreendedores e startups de diversas localidades, sendo que 90% dos empreendedores são de fora de Florianópolis. Como incentivos para a incubação na Celta, há a redução de 80% do imposto sobre Serviço (ISS) e a isenção de Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU)”, aponta Tony Chierighini, diretor da Celta. Ele menciona ainda dados referentes à geração de empregos, conquistados por empresas que têm ligação com essa incubadora: “hoje, nas empresas incubadas, são 800 pessoas trabalhando com média salarial de R$ 4.500,00. Nas graduadas são 15.000 pessoas com salário médio de R$ 6.500,00”.

Além dos dois parques tecnológicos – Parque Tecnológico Alfa e Sapiens Parque, o segundo alocado nas dependências da UFSC –, Florianópolis também possui dois condomínios de empresas, o Office Park e o Corporate Park. Já no quesito incubadora de empresas, além da Celta, a cidade apresenta outras duas opções: MIDI Tecnológico, que já apoiou 76 empresas de base tecnológica, e o Centro de Geração de Novos Empreendimentos de Software e Serviços (Geness) , que apoia desenvolve projetos apoiados por agências de fomento nacionais e internacionais nas áreas de Informática e Educação e Disseminação de Software Livre.

Uma das características mais marcantes da cidade é a atuação de forma integrada dos diversos atores e órgãos de C&T&I. Ao todo, são mais de 45 entidades atuando conjuntamente para fortalecer o ecossistema de inovação local. “Os diversos atores que compõem o ecossistema de inovação em Florianópolis (universidades, ICTs como a Certi, incubadoras de empresas, parques tecnológicos, associações, os governos municipal e estadual, entre outros) buscam sempre manter diálogo e unir forças para fazer com que o segmento de tecnologia cresça sempre e que o ecossistema de inovação siga fortalecido”, pontua Carioni.

Uma rota para englobar os diversos atores de C&T&I  

O governo não tem poupado investimentos para consolidar Florianópolis como cidade inovadora, ou seja, uma cidade que busca o desenvolvimento econômico e social a partir da inovação tecnológica. Uma dessas iniciativas é a criação da Rota de Inovação, idealizada pela prefeitura, por meio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico Sustentável em parceria com a UFSC, a Certi, Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate) e Sapiens Parque.

Lançado em 21 de março de 2013, o projeto destaca as principais instituições locais de pesquisa, tecnologia, inovação e desenvolvimento econômico, dispostas ao longo de cerca de 40 quilômetros. A rota tem início no aeroporto internacional de Florianópolis e passa pela UFSC, UDESC, Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), Centro Sapiens, Parque Tecnológico Alfa, Celta, Acate e Sapiens Parque. A proposta busca uma identidade para o eixo de desenvolvimento de Florianópolis. “Todos os destinos que compõem a Rota da Inovação são oriundos de iniciativas que só puderam ser colocadas em prática porque decorrem da sintonia e de parcerias estratégicas entre a academia, o poder público, o terceiro setor e a iniciativa privada”, complementa José Henrique Domingues Carneiro, secretário municipal de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico Sustentável.

Entretanto, vale salientar também os percalços para atingir esses resultados. “Os maiores desafios nos tempos atuais são a criação de um contingente de mão de obra qualificada que atenda à exigente e rápida demanda de mercado – que requer cada vez mais altos padrões de qualidade para que as empresas continuem competitivas –, a celeridade na abertura e regularização de empresas, a aprovação e operacionalização do Fundo Municipal de Inovação – que está sendo viabilizada por meio da alteração do Projeto de Lei atual – e a atração de empresas por meio de incentivos fiscais – ainda em fase de estudo”, aponta o secretário.

Sinapse da inovação: estímulo para o surgimento de startups

O programa Sinapse da Inovação, concebido pela Certi e executado em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado de Santa Catarina (Fapesc), e replicado no estado do Amazonas, visa estimular o empreendedorismo inovador. De acordo com Carioni, o Programa é importante uma vez que permite que qualquer pessoa com vontade de empreender participe, além de proporcionar aproximação entre a academia e a indústria, já que há docentes e pesquisadores de universidades envolvidos nestes projetos que visam gerar inovações para a indústria.

“Nas cinco edições – uma piloto, em Florianópolis, e outras quatro de abrangência estadual –, o Sinapse já deu origem a quase 300 startups e levou à geração de mais de 1,2 mil empregos diretos e depósito de 94 patentes. Além disso, a taxa de sobrevivência das empresas criadas com o programa é de 83%. As ´sinápticas´, como são conhecidas, apresentaram faturamento estimado de R$120 milhões em 2014”, revela Carioni.

Para o diretor-executivo da Certi, o programa é um dos principais exemplos de como o trabalho em conjunto entre as diversas instituições de C&T&I pode ocasionar resultados positivos. “Um exemplo dessa união é o próprio Sinapse da Inovação, que é promovido pelo Governo do Estado, executado pela Certi e tem o apoio do Sebrae e de outros parceiros. Cerca de 18 entidades (entre universidades e instituições) estão envolvidas no Sinapse que também tem o apoio de cerca de 19 incubadoras em todo o estado”, conclui.

A seleção de ideias para o Sinapse da Inovação se dá em três etapas. Primeiro, ocorre a verificação se a ideia é de fato inovadora, se tem potencial e traz benefícios para a sociedade. Depois, as ideias são aprovadas com base em um projeto que detalha o plano de negócios. Ainda nesta segunda etapa, os empreendedores passam por capacitações em empreendedorismo. A terceira etapa, que recebe até 200 propostas, consiste no desenvolvimento de um projeto, no qual se apresentam detalhadamente o orçamento e o planejamento de execução. Ao final, os projetos contemplados recebem uma subvenção em dinheiro e passam pelo processo de pré-incubação.

C&T&I, economia e desenvolvimento sustentável

Ciente da importância de investir em ciência, tecnologia e inovação para estimular o desenvolvimento econômico e social, o governo municipal tem pensado em uma série de medidas para o setor. Dentre as iniciativas e políticas públicas da pasta, o secretário municipal de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Sustentável, José Henrique Domingues Carneiro, elenca desde projeto de lei que visa desburocratizar a abertura de novas empresas, apresentado na Câmara de Vereadores no último dia 23 de setembro, até o estabelecimento de incubadoras de empresas de base tecnológica e parques científicos no município.

“Essas medidas vão desde Projetos de Lei Complementar para a promoção da celeridade na abertura de empresas, criação de incentivos fiscais para startups, operacionalização do fundo municipal de inovação, isenção de impostos, à criação de espaços para promoção e aceleração do desenvolvimento do setor da ciência, tecnologia e inovação, tais como: espaços coworking, pré-incubadoras, incubadoras, Fab labs, centros de pesquisa e inovação, parques tecnológicos, entre outros”, comenta Carneiro.

Contudo, o secretário ressalta a atuação não somente do setor público, mas também das demais esferas da sociedade, para que a cidade se desenvolva de fato. “Florianópolis atualizou e adequou o seu Plano Diretor, levando em conta a sustentabilidade como fator imprescindível para que haja crescimento e desenvolvimento. Não é só o poder público e os órgãos reguladores e fiscalizadores que zelam pela cidade, mas também as entidades do terceiro setor e os cidadãos conscientes que atuam como agentes mantenedores e fiscalizadores do meio ambiente em prol da preservação da qualidade de vida”, corrobora. O secretário aponta ainda para a importância do desenvolvimento sustentável. “Florianópolis talvez seja uma das poucas capitais do mundo que poderá continuar crescendo e se desenvolvendo de forma ordenada sem comprometer o meio ambiente e sem que seus habitantes tenham perdas em seus índices de qualidade de vida, característica marcante da cidade”, finaliza.

Confira aqui a reportagem com o ranking das cidades mais inovadoras.

Saiba mais sobre a Fundação CERTI e a Celta, clicando aqui e aqui.

Para mais informações sobre a cidade de Florianópolis, acesse: http://www.pmf.sc.gov.br/

 

Crédito das fotos: Divulgação

Carolina Octaviano

Carolina Octaviano é jornalista formada pela PUC-Campinas, com especialização em Jornalismo Científico pelo Labjor da Unicamp. Atuou como produtora e repórter na VTV-SBT Campinas, redatora do Site Em Campo e repórter na Revista ComCiência e no Jornal Cana. É analista de comunicação da Agência de Inovação Inova Unicamp e colaboradora da Inovação - Revista Eletrônica de P,D&I.