Por Juliana Ewers

Alinhado ao projeto europeu Human Smart Cities, Eduardo da Costa – que é diretor do ÁgoraLab e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e da PUC-Rio – questiona a atual forma de se pensar as cidades. Defensor do conceito de cidades mais humanas, inteligentes e sustentáveis, ele propõe que façamos as “perguntas corretas” para chegar a uma solução adequada para os problemas que assolam os grandes municípios brasileiros, como é o caso da capital paulista. Confira a seguir a entrevista de Costa à Inovação – Revista Eletrônica de P,D&I sobre as “smart cities”.

[Inovação] Muito se fala hoje em dia em “smart cities”. O que você considera “smart city”?

A cidade inteligente é um conjunto de bairros humanos e inteligentes. Paris, por exemplo, é inteligente. Você passa uma semana, visita toda a cidade e não usa o carro. Los Angeles é burra, há alguns anos a cidade tinha mais carros do que o Brasil.

[Inovação] Com base nesse conceito e no que vemos hoje pelas ruas, onde foi que nós erramos? Como as cidades chegaram a esse modelo insustentável? Na sua opinião, quem é o grande vilão da história?

Nós mesmos, com o foco que demos ao automóvel. Nas nossas cidades, o carro é quase parte da “família real”, não pode ser molestado. O prefeito de SP tentou encarar o problema e estão querendo esfolá-lo vivo! O outro problema ė a segregação das funções morar, trabalhar e divertir-se em lugares diferentes da cidade, com locomoção de carro, naturalmente. Deu no que deu.

[Inovação] Você poderia listar maus exemplos que escancaram a falta de planejamento e/ou o planejamento mal pensado?

Calçada, por exemplo. A largura das nossas calçadas chega a ser ridícula. Tente empurrar uma cadeira de rodas na calçada de qualquer cidade grande no Brasil: é um desastre! As que eram boas foram encurtadas para aumentar a rua para os carros. Outro exemplo são os condomínios estritamente residenciais. Cada membro da família tem que ter um carro, assim como a empregada, o jardineiro etc. Será que a gente não quer ter uma padaria na esquina?

[Inovação] Quais são os verdadeiros “custos” desse modelo de cidade para seus habitantes?

Além da poluição, engarrafamentos, violência, etc., temos os custos escondidos, como o custo financeiro e pessoal dos acidentes de trânsito, o custo das obras e vias públicas, entre outros. Quando um prefeito resolve alargar uma avenida, por exemplo, ninguém questiona os custos da obra, é quase como que aceito a priori que tudo que for para o bem do carro, é bom para a cidade. Já uma nova praça ou ciclovia, todo mundo quer saber quanto custa para fazer!

[Inovação] Você acha que é possível reverter esse caos, em especial, em cidades como São Paulo?

Sim, e a fórmula existe. Quando a cidade de Nova Iorque teve a coragem de fechar a Broadway, por exemplo, não o fez de uma tacada. Primeiro foi a Times Square, durante um fim de semana, e depois, aos poucos, o resto. Como a lógica do carro é prevalente, precisamos mostrar outras possibilidades aos poucos, para que as pessoas decidam por si próprias que as medidas podem ser boas. Fechar um bairro ou uma região da cidade para carros pode ser um bom começo. Só entrariam os carros que têm garagem ali. Como os brasileiros estão viajando bem mais ao exterior, já há uma consciência de que dá para fazer muitas coisas boas. Na discussão sobre o destino do Minhocão, por exemplo, as pessoas já fazem comparação com o “Highline” em Nova Iorque, o que é ótimo.

[Inovação] Por ser um defensor do conceito CHIS (Cidade mais Humana, Inteligente e Sustentável), gostaria que você analisasse a forma com que isso está sendo pensado atualmente. Como você avalia o papel desempenhado pelo governo, pela universidade, pelas empresas e pela própria comunidade para colaborar com a instalação de locais mais habitáveis?

Infelizmente, as universidades não têm colaborado muito com esse tema por serem extremamente disciplinares. Você vê alguém falando sobre o problema da água, outro sobre o trânsito, outro ainda sobre o planejamento urbano, pois os departamentos universitários lidam com uma disciplina apenas. O tema das Cidades mais Humanas, Inteligentes e Sustentáveis é multidisciplinar e exige o envolvimento de todos esses atores. Os governos estão começando a se mexer e as comunidades locais também.

[Inovação] Quais são os principais atores das chamadas “smart cities” hoje no Brasil? Seriam as empresas? Você acredita que os grandes idealizadores desses projetos nacionais estejam fazendo isso de maneira correta? Eles estão praticando a co-criação?

Muito pouco. Os fornecedores têm vendido os seus equipamentos com o discurso da “smart city”. No nosso laboratório, o LabCHIS, insistimos muito no conceito que as cidades precisam fazer as perguntas certas. Por exemplo, o problema não é o tráfego de automóveis, é a mobilidade das pessoas. Temos que pensar na solução dos problemas reais das pessoas, e aí sim investir em soluções para estes problemas. A tecnologia é muito importante mas ela tem que estar a serviço de algum problema real.

[Inovação] Observando alguns projetos, vemos estruturas muito baseadas em tecnologia e comunicação. É esse o caminho? Existem alguns quesitos importantes sendo deixados de lado? Para você, quais são os principais pontos que devem ser repensados para tornar os bairros lugares melhores para se viver?

A receita é sempre identificar os problemas em conjunto com a população local. No Rio, por exemplo, a prefeitura marcou uma discussão com a população da Rocinha sobre o novo teleférico que ela queria implantar lá. Para surpresa geral, os habitantes disseram que não queriam teleférico, queriam antes escola de qualidade, esgoto, acesso à internet…

[Inovação] Quando você diz que o “foco deve estar nas pessoas”, o que você sugeriria como solução mais urgente a ser buscada?

Transporte coletivo. Tem que haver uma decisão firme do governo local a favor do transporte coletivo em detrimento do transporte individual. E, ao mesmo tempo, incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte para o trabalho, não apenas no lazer.

[Inovação] Em relação aos parques tecnológicos, temos o Porto Digital, no Recife, por exemplo, que vem implementando iniciativas interessantes nesse sentido. Quais são as outras boas experiências atuais que você elencaria?

Os parques tecnológicos em diversas cidades, no Brasil e outros países, foram implementados como “modernos” distritos industriais. Longe da cidade, na margem de uma rodovia, sem nenhuma preocupação com o entorno. O parque tecnológico deve ser implementado na verdade como um bairro humano, inteligente e sustentável, como são os bairros de Paris. Uma boa dica para as cidades é implementar o parque no centro velho da cidade, em geral uma área degradada. Os únicos parques de sucesso no Brasil são urbanos, o Porto Digital, o TecnoPuc e, de certa forma, o parque da UFRJ.

[Inovação] Apesar de termos esses bons exemplos, as “smart cities” ainda são algo muito incipiente no país. Em quais experiências, considerando as internacionais, você acredita que devemos nos inspirar?

O ideal ė estudarmos tudo que deu certo em outras cidades como Paris, Barcelona, Lisboa, Nova Iorque, Londres, Helsinki, e vermos o que se aplica melhor ao Brasil. Os princípios entretanto são os mesmos: foco nas pessoas, restrição aos automóveis, atração de pessoas e empresas criativas, bairros de uso misto, cocriação etc.

[Inovação] E, voltando ao Brasil, por onde você acha que essas mudanças devem começar? Ou melhor, por onde você começaria?

Eu começaria por um bairro, que faria o efeito demonstração. Meu laboratório está trabalhando o bairro Primavera, em Florianópolis, e estamos iniciando um trabalho no bairro da Glória, no Rio e no antigo bairro têxtil de Brusque, Santa Catarina. Diversas outras cidades estão também avaliando essa possibilidade como Campinas, Fortaleza, Porto Alegre e Belo Horizonte.

[Inovação] Observando alguns projetos, vemos estruturas muito baseadas em tecnologia e comunicação. É esse o caminho? Existem alguns quesitos importantes sendo deixados de lado? Para você, quais são os principais pontos que devem ser repensados para tornar os bairros lugares melhores para se viver?

A receita é sempre identificar os problemas em conjunto com a população local. No Rio, por exemplo, a prefeitura marcou uma discussão com a população da Rocinha sobre o novo teleférico que ela queria implantar lá. Para surpresa geral, os habitantes disseram que não queriam teleférico, queriam antes escola de qualidade, esgoto, acesso à internet…

[Inovação] Quando você diz que o “foco deve estar nas pessoas”, o que você sugeriria como solução mais urgente a ser buscada?

Transporte coletivo. Tem que haver uma decisão firme do governo local a favor do transporte coletivo em detrimento do transporte individual. E, ao mesmo tempo, incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte para o trabalho, não apenas no lazer.

[Inovação] Em relação aos parques tecnológicos, temos o Porto Digital, no Recife, por exemplo, que vem implementando iniciativas interessantes nesse sentido. Quais são as outras boas experiências atuais que você elencaria?

Os parques tecnológicos em diversas cidades, no Brasil e outros países, foram implementados como “modernos” distritos industriais. Longe da cidade, na margem de uma rodovia, sem nenhuma preocupação com o entorno. O parque tecnológico deve ser implementado na verdade como um bairro humano, inteligente e sustentável, como são os bairros de Paris. Uma boa dica para as cidades é implementar o parque no centro velho da cidade, em geral uma área degradada. Os únicos parques de sucesso no Brasil são urbanos, o Porto Digital, o TecnoPuc e, de certa forma, o parque da UFRJ.

[Inovação] Apesar de termos esses bons exemplos, as “smart cities” ainda são algo muito incipiente no país. Em quais experiências, considerando as internacionais, você acredita que devemos nos inspirar?

O ideal ė estudarmos tudo que deu certo em outras cidades como Paris, Barcelona, Lisboa, Nova Iorque, Londres, Helsinki, e vermos o que se aplica melhor ao Brasil. Os princípios entretanto são os mesmos: foco nas pessoas, restrição aos automóveis, atração de pessoas e empresas criativas, bairros de uso misto, co-criação etc.

[Inovação] E, voltando ao Brasil, por onde você acha que essas mudanças devem começar? Ou melhor, por onde você começaria?

Eu começaria por um bairro, que faria o efeito demonstração. Meu laboratório está trabalhando o bairro Primavera, em Florianópolis, e estamos iniciando um trabalho no bairro da Glória, no Rio de Janeiro e no antigo bairro têxtil de Brusque, em Santa Catarina. Diversas outras cidades estão também avaliando essa possibilidade como Campinas, Fortaleza, Porto Alegre e Belo Horizonte.

[Inovação] Por fim, qual o futuro das nossas cidades?

Do conjunto das nossas cidades é difícil dizer. Mas creio que algumas vão se destacar e serão as cidades onde eu, você e toda a indústria criativa vamos querer morar. A escolha é virar Barcelona ou Detroit. Mas eu sou otimista, acho que a conscientização já aumentou bastante. É muito gratificante trabalhar em um assunto que vai impactar diretamente a qualidade de vida de nossos filhos e netos. Mas é preciso começar logo, porque a competição entre as cidades vai ser ferrenha!

Juliana Ewers

Juliana Ewers é formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e possui especialização em Gestão de Comunicação com o Mercado, pela Esamc. Atuou como repórter do Jornal Metro e do Grupo Bandeirantes de Comunicação . É editora assistente da Inovação – Revista Eletrônica de P,D&I .