Por Lucas V. de Araujo [2]

No cenário mundial atual as empresas de mídia estabelecidas, como jornais impressos e emissoras de rádio e TV, enfrentam problemas financeiros em virtude do enfraquecimento do modelo de negócio baseado no custeio do jornalismo pela publicidade. A esses problemas de ordem econômica somam-se à redução da credibilidade no jornalismo, provocada por notícias falsas, as quais são geradas, em grande parte pelas novas mídias (CARLSON; USHER, 2016). Por conta disso, têm aumentado o interesse e as pesquisas com foco nas intercessões entre inovação e comunicação. Esta pesquisa buscou identificar e caracterizar os principais movimentos de inovação em comunicação no Brasil e de que forma eles se sustentam e interagem com o ecossistema. Para tanto, coletou dados em: i) startups; ii) empresas de mídia tradicionais ou estabelecidas de âmbito nacional ou regional; e iii) fundos de investimento e organizações de fomento à inovação[3].

A pesquisa também coletou dados do Sistema Paulista de Parques Tecnológicos (SPTec), que busca promover a ciência, a tecnologia e a inovação por meio da integração de centros de conhecimento (universidades, centros de pesquisas e escolas) com o setor produtivo (empresas em geral). Um dos principais objetivos é criar um ambiente propício à criação de startups intensivas em tecnologia (SÃO PAULO, 2014, 2015, 2016). Foram estipulados universos, unidades, categorias e subcategorias de análise que nortearam a forma como as informações foram avaliadas. Esta metodologia baseou-se em pesquisas internacionais sobre o ecossistema de inovação em comunicação, como Bruno e Nielsen (2012) e Sirkkunen e Cook (2012). As figuras de 1 a 3 sintetizam o modelo metodológico utilizado neste estudo.

 

Análise e resultados de pesquisa

UNIVERSO 1: STARTUPS

Categoria de análise 1: inovatividade

As startups entrevistadas apresentam elevado grau de inovatividade no âmbito nacional, mas baixo no mercado externo. Apenas uma startup atua no exterior –nos Estados Unidos.

O fato das startups selecionadas atuarem, basicamente, na área de marketing e vendas dificulta a entrada no mercado externo. Embora tenham desenvolvido tecnologias próprias, as startups, de forma geral, precisam de motores de busca, redes sociais e plataformas de distribuição de conteúdo digital para atuarem no mercado. As empresas de mídia digital captam boa parte da verba outrora dirigida às agências de propaganda e às empresas de mídia estabelecidas produtoras de conteúdo. Portanto, ao mesmo tempo que criam a possibilidade de outras empresas trabalharem em parceria com elas, as novas mídias restringem a inovação à medida que atrelam novos produtos e serviços às tecnologias que possuem.

Estes aspectos explicam, em parte, a ausência de startups cuja proposta de valor seja a produção de conteúdo jornalístico. Embora esse tipo de empresa nascente de base tecnológica seja preponderante nos estudos acadêmicos internacionais (BRUNO; NIELSEN, 2012; SIRKKUNEN; COOK, 2012), não se verificou o mesmo aspecto nesta pesquisa. Como o principal critério de seleção neste estudo foi receber o aporte de fundo de investimento, as startups de jornalismo brasileiras demonstraram baixo grau de maturidade do negócio.

Categoria de análise 2: maturidade

Todas as startups participantes da pesquisa apresentaram bom grau de maturidade. Uma delas, a Predicta, é auditada por companhia externa e tem um conselho de administração, o qual elegeu um presidente para conduzir a empresa em consonância com o planejamento estratégico estabelecido. Para atingir esses patamares a empresa contou com aporte do fundo de investimento e.Bricks, que em 2011 mudou radicalmente os rumos da empresa. Seus fundadores assumiram papeis mais estratégicos e deixaram a gestão dos negócios no dia-a-dia. O número de funcionários foi reduzido drasticamente, de 200 para 40, e a empresa deixou de dedicar-se apenas a serviços em mídia digital para realizar também consultoria e outros negócios.

Para atingirem grau maior de maturidade, porém, as startups tiveram que captar recursos externos. Todas receberam algum tipo de incentivo financeiro, seja por meio de fundos de investimento, family offices ou aceleradoras. Nesse aspecto, a maturação do negócio das startups brasileiras de comunicação foi elevado mesmo se comparado com startups europeias e norte-americanas da mesma área de atuação. Bruno e Nielsen (2012) citam apenas uma startup, dentre as nove integrantes do estudo, que recebeu recursos de capital de risco. Sirkkunen e Cook (2012), cuja pesquisa abrangeu um universo de 69 startups em nove países, não fizeram menção a nenhum caso.

Categoria de análise 3: modelo Triplo Hélice [4]

Nenhuma das startups avaliadas nesse estudo passou por incubadoras ou nasceu em uma universidade ou centro de pesquisa. As firmas foram criadas, majoritariamente, por empreendedores que se conheceram em eventos organizados pela iniciativa privada. Ademais, nenhum empreendedor entrevistado relatou a necessidade de procurar uma incubadora, universidade ou centro de pesquisa para auxiliá-lo na estruturação do negócio ou no desenvolvimento de tecnologia.

O modelo Triplo Hélice, portanto, não vem trazendo resultados significativos para a formação e desenvolvimento de startups de comunicação no Brasil. Os elementos centrais do modelo não contribuíram de forma significativa para que qualquer das startups avaliadas fossem criadas e se desenvolvessem. Exceções ao fato de que uma das startups foi acelerada em um programa público e que dois grupos empresariais de mídia formaram fundos de investimento em startups de comunicação.

Constatação semelhante obteve-se após a análise do Sistema Paulista de Parques Tecnológicos (SPTec). Mesmo sendo um dos sistemas mais organizados do Brasil em termos de integração entre empresas, universidades e governo, o SPPT padece com diversos problemas. Dentre eles destacam-se: i) dependência muito grande do governo como investidor; ii) reduzida ou inexistente integração das empresas da região com os parques; e ii) falta de programas que integrem os esforços entre os diversos entes do ecossistema de inovação (SÃO PAULO, 2014, 2015, 2016).

UNIVERSO 2: MEIOS DE COMUNICAÇÃO TRADICIONAIS DE ÂMBITO NACIONAL E REGIONAL

Categoria de análise 1: desenvolvimento de inovação em comunicação

O desenvolvimento de propostas inovadoras nas empresas de mídia brasileiras tem sido reativo e a partir de tecnologias criadas fora do país. Quando destoam do cenário externo, acrescentam pouco às propostas de valor das empresas, que tentam sobreviver em meio a um mercado altamente volátil em constante mudança. A falta de recursos, gerada por fatores legais e redução no faturamento, foi apontada pelos gestores como a principal causa para o reduzido grau de investimento em inovação.

Relatório recente feito em 36 países, dentre eles o Brasil, avaliou o comportamento de 70 mil pessoas sobre o consumo de notícias. Apenas 22% dos brasileiros entrevistados afirmaram que empregariam dinheiro para ter acesso a notícias (NEWMAN et al, 2017). Sem assinaturas suficientes para compensar a redução de receita publicitária, as firmas de mídia investem sobretudo no intraempreendedorismo. No entanto, os mesmos entrevistados admitiram dificuldade dos gestores em desenvolverem inovação em meio às tarefas do cotidiano e ainda os empecilhos criados pelas rotinas administrativas e estruturas hierarquizadas.

A participação em fundos de investimento é uma estratégia adotada em grande medida no exterior para desenvolver inovação em meio às tarefas do cotidiano das empresas. Todavia apenas os Grupos RBS e Abril investiram em startups de mídia. Aspectos legais despontam como um dos principais fatores para essa limitação. A Constituição do Brasil prevê que no mínimo 70% do capital votante de empresas de mídia pertença a brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos.

Sem participar de fundos e demasiadamente presas à inovação interna, não é surpresa que nenhum veículo de comunicação no Brasil utilize tecnologias como algoritmos, inteligência artificial e Natural Language Generation (NLG)[5] para produção e distribuição de notícias. Os entrevistados mostraram-se preocupados com o custo da tecnologia face aos benefícios que ela gera em termos de redução nos gastos. Além do custo elevado, alguns entrevistados apontaram problemas em relação a fatores legais e normativos, como a extinção de empregos e mudanças nas atribuições dos jornalistas e na própria estrutura dos cargos das redações.

Categoria de análise 2: modelo Triplo Hélice

As firmas de mídia, de âmbito nacional ou regional, não têm qualquer relação com universidades ou entidades vinculadas ao governo. Esse fator se traduz na ausência de pesquisa e desenvolvimento (P&D) para inovação nas empresas de mídia brasileiras. Os gestores consultados nesta pesquisa afirmam que procuram inovar por meio de técnicas como bechmarking. O modelo Triplo Hélice, assim como ocorreu com as startups, não vem trazendo resultado em virtude do distanciamento do setor produtivo em relação aos outros entes do ecossistema: governo e universidades. A distância não apenas impede um trabalho conjunto como prejudica todo o sistema de inovação brasileiro, que fica fragilizado e perde eficiência à medida que os entes não trabalham em sintonia. Essa constatação vem ao encontro de outros estudos que avaliaram todo o sistema brasileiro de inovação e não apenas o ecossistema da área de comunicação (MAZZUCATO; PENNA, 2015).

UNIVERSO 3: FUNDOS DE INVESTIMENTOS E ORGANIZAÇÕES DE FOMENTO À INOVAÇÃO

Categoria de análise 1: desenvolvimento de inovação em comunicação

Nenhum dos fundos consultados para este trabalho afirmou que fez investimentos em startups de comunicação. Os fundos preferem avaliar as propostas de inovação não a partir de segmentos, mas de perfil de empresa. Eles demonstraram simpatia por startups com “um time de fundadores classe A, bem complementares, que estiverem atacando um problema relevante, num mercado grande e com uso de tecnologia/internet como um dos pilares de sua atuação”, conforme afirmou um dos entrevistados neste trabalho.

O concurso Acelera Fiesp, promovido pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), criou uma categoria voltada às startups em comunicação em 2016. Assim como os fundos de investimento, o comitê organizador do concurso atribuiu especial relevância à tecnologia empregada pelas propostas inovadoras, mas destacou a importância de se avançar em áreas como a curadoria da informação diante da grande quantidade de notícias falsas presentes na internet. Importante ressaltar que os membros do concurso veem a comunicação a partir de notícias, produto jornalístico, sem vinculação ao marketing e à publicidade.

Categoria de análise 2: modelo Triplo Hélice

Conforme Bellavitis et al (2017), enquanto o financiamento de capital de risco representa uma pequena parcela das finanças empresariais nos países desenvolvidos, ele desempenha um papel ainda menor nos mercados emergentes. Esta situação é exacerbada pelo fato de que empreendimentos empresariais em mercados emergentes têm níveis relativamente baixos de transparência corporativa. Tais aspectos endossam os resultados alcançados nesta pesquisa, em decorrência de que apenas uma das startups avaliadas criou instrumentos de governança corporativa – Predicta Group.

Face às limitações do mercado em suprir as carências por fontes de financiamento, os empreendedores têm buscado alternativas. As que mais se destacam são microcrédito, crowdfunding ou operações de empréstimo sem a intermediação de instituições financeiras. No entanto, nenhuma empresa ou startup participante desta pesquisa utiliza essas fontes de financiamento.

Conclusões

Em todos os universos de pesquisa as inovações encontradas foram incrementais e o grau de inovação é baixo. O mercado nacional de inovação em comunicação é reduzidíssimo em determinados aspectos, como o uso de algoritmos e inteligência artificial para produção de conteúdo, e incipiente em outros, como a participação em fundos de investimento em startups.

A falta de conexão entre os entes também vem prejudicando a inovação. Os três entes do modelo Triplo Hélice: governo, universidades e empresas estão distantes e realizando projetos isoladamente, criando um círculo vicioso difícil de romper. É preocupante também a ausência de entidades representativas das empresas e dos trabalhadores da área de comunicação na realização de concursos nacionais de incentivo às startups e ao empreendedorismo.

 

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Referências Bibliográficas

BELLAVITIS, C. et al. Entrepreneurial finance: new frontiers of research and practice. Venture Capital: An International Journal of Entrepreneurial Finance, v. 19, n.1-2, p. 1-16, 2017.

BRUNO, N.; NIELSEN, R. K. Survival is Success: Journalistic Online Start-Ups in Western Europe. Oxford: Reuters Institute for the Study of Journalism, 2012.

CARLSON, M.; USHER, N. News Startups as Agents of Innovation: For-profit digital news startup manifestos as metajournalistic discourse. Digital Journalism, London, v. 4, n. 5, p. 563-581, 2016.

ETZKOWITZ, H.; LEYDESDORFF, L. The dynamics of innovation: from National Systems and “Mode 2” to a Triple Helix of university–industry–government relations. Research policy, Amsterdam, v. 29, n. 2, p. 109-123, 2000.

MAZZUCATO, M; PENNA, C. The Brazilian Innovation System: a mission-oriented policy proposal. Brasília: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2015.

NEWMAN, N. et al. Reuters Institute Digital News Report 2017. Oxford: University of Oxford, 2017.

REITER, E.; DALE, R. Building Applied Natural Language Generation Systems. Natural Language Engineering, Cambridge, v.3, n.1, p. 57-87, 1997.

SÃO PAULO. Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação. Relatórios anuais – 2013/2014 – referentes aos parques tecnológicos com credenciamento definitivo no Sistema Paulista de Parques Tecnológicos (SPTec). São Paulo, 2014.

SÃO PAULO. Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação. Relatórios anuais – 2014/2015 – referentes aos parques tecnológicos com credenciamento definitivo no Sistema Paulista de Parques Tecnológicos (SPTec). São Paulo, 2015.

SÃO PAULO. Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação. Relatórios anuais – 2015/2016 – referentes aos parques tecnológicos com credenciamento definitivo no Sistema Paulista de Parques Tecnológicos (SPTec). São Paulo, 2016.

SIRKKUNEN, E.; COOK, C. (Ed.). Chasing sustainability on the net: international research on 69 journalistic pure players and their business models. Tampere: Comet, 2012.

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[1] Este artigo foi baseado na tese de doutorado do autor, apresentada e aprovada no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo. Disponível no link: http://tede.metodista.br/jspui/handle/tede/1733.

[2] Lucas V. de Araujo é doutor em Comunicação e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

[3] Startups: Celebryts / Klipbox / Numooh / Predicta Group / Rock Content / Sambatech / Stilingue. Empresas de mídia: Grupo Abril / Grupo Estado / Grupo Folha / Grupo Globo / Grupo Record / SBT / Grupo RBS / Grupo RIC / EPTV. Fundos de investimento e organizações de fomento à inovação: Redpoint eventures / Monashess / e.Bricks Ventures / Abril Participações / Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – Concurso Acelera Startup.

[4] O modelo Triplo Hélice (TH) é uma forma de criar e desenvolver inovação nos mais variados setores da economia. Esta abordagem se baseia na visão de que as universidades e centros de pesquisa atuam como indutores nos ambientes de inovação, dando suporte às empresas privadas e ao governo (ETZKOWITZ; LEYDESDORFF, 2000).

[5] Natural Language Generation (Geração de Linguagem Natural) é um subcampo da Natural Language Processing (Processamento de Linguagem Natural, NLP), uma subárea da ciência da computação, inteligência artificial e linguística que estuda os problemas de compreensão automática de línguas humanas. A NLG utiliza dados brutos como dados numéricos para produção de textos escritos sem a intervenção humana. Dentre os campos de aplicação da NLG estão a geração de previsões meteorológicas textuais a partir de mapas e gráficos e a medicina (REITER; DALE, 1997).

Revista Inovação

A Inovação – Revista Eletrônica de P,D&I é uma publicação online, feita a partir de uma parceria entre a Agência de Inovação Inova Unicamp e o Labjor. Lançada em setembro de 2014, a revista eletrônica é fruto da junção de dois projetos anteriores: Conhecimento & Inovação e o Boletim Inovação Unicamp.