Por Gustavo Steffen de Almeida

Quem nunca ouviu falar em pato no tucupi ou em tacacá? Estas receitas, que fazem parte da culinária de estados como o Pará – e são sucesso entre os turistas –, têm como um de seus ingredientes mais importantes o jambu (Acmella oleracea). Planta pertencente à família Asteracea, o jambu, também conhecido como agrião-do-norte, é originário da região amazônica, mas é encontrado até em países asiáticos.

Mas não é só na culinária que o jambu se destaca. Na cultura dos povos indígenas da Amazônia – que segue mantida por seus descendentes habitantes das cidades e ribeirinhos – é comum o uso do jambu na medicina popular, principalmente contra dores de dente ou ferimentos.

 

20161125_095027

Planta do jambu seca, que tem mostrado aplicabilidade em produtos médicos, além do uso na culinária

 

Tornando-se conhecida por essa fama de “remédio” dentre as populações ribeirinhas, a planta passou a despertar o interesse de pesquisadores de diferentes universidades brasileiras. O interesse na bioprospeccção – processo de obtenção de novos compostos químicos a partir da biodiversidade – tem levado a A. oleracea ao foco de consistentes pesquisas científicas, que já renderam, inclusive, depósitos de ao menos quatro patentes para a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Rodney Alexandre Ferreira Rodrigues, pesquisador do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas – CPQBA, da Unicamp, vem realizando uma ampla gama de projetos envolvendo o jambu e, mais especificamente, seu principal composto ativo, chamado espilantol.

“Ao comerem pratos contendo o jambu, as pessoas relatam sentir certa sensação de dormência na boca”, conta Rodrigues. Aliando-se isso ao uso na experimentação popular, explica, surgiu o interesse em entender o porquê dessa dormência, que poderia estar relacionada ao suposto efeito analgésico. Pesquisas preliminares demonstraram que a substância espilantol, da classe química das alquilamidas, seria a principal responsável pelo efeito.

Dada à expertise que o CPQBA possui em plantas medicinais, e ao cultivo no próprio centro experimental, foi possível compreender melhor as características agronômicas da planta e avaliar como as formas de cultivo interferem na concentração de compostos. Utiliza-se, para a obtenção do extrato, a chamada parte aérea da planta – caule, folhas e flores. “Está se avaliando se vale a pena usar partes distintas. Nas flores o constituinte químico é mais concentrado”, revela Rodrigues.

 

O pesquisador Rodney Rodrigues mostra os equipamentos usados para extrair o espilantol do jambu.

O pesquisador Rodney Rodrigues mostra os equipamentos usados para obter o extrato de jambu


Uma planta, muitas possibilidades

Rodney Rodrigues já orientou dois projetos de pós-graduação utilizando o extrato de jambu. Num deles, da farmacêutica Verônica Santana de Freitas-Blanco, foi levado em conta o uso popular como remédio para dor de dente para o desenvolvimento de um produto analgésico mucoadesivo de uso oral. “A indicação de uso é como pré-anestésico. O filme seria aplicado na gengiva do paciente que, após um tempo, tomaria a anestesia definitiva”, resume o pesquisador. O extrato foi adicionado a uma base composta de quitosana – polímero muito versátil extraído da carapaça de crustáceos – para se obter um filme que pudesse ser aplicado na região. Após teste em animais conhecido como tail flick (erguedura de cauda), foi demonstrada a eficácia analgésica do produto desenvolvido na pesquisa de Verônica, que exibiu performance superior a analgésicos comercialmente utilizados. Além disso, outro ensaio, chamado Célula Vertical de Franz, comprovou a permeabilidade das substâncias do extrato em modelos que simulam a pele humana. O resultado da pesquisa foi publicado na prestigiada revista PLOS One.

Como parte do projeto foi desenvolvido um processo de clarificação do extrato, originalmente esverdeado, que gerou uma patente. “O mercado que utiliza esses extratos muitas vezes não quer [que o produto final tenha] cor”, explica Rodrigues.

A outra pesquisa de mestrado, da também farmacêutica Lais Thiemi Yamane, teve o objetivo de unir a ação anestésica do extrato de jambu ao potencial anti-inflamatório anteriormente comprovado – em pesquisa realizada no próprio CPQBA – do óleo essencial de outra planta, a macela (Achyrocline satureioides). Por questão de afinidade química, a quitosana foi aqui substituída por uma matriz celulósica. Os resultados nos testes com animais foram bastante positivos e o potencial analgésico novamente se mostrou superior ao de produtos comercialmente disponíveis. De igual maneira, os testes de permeabilidade em modelos que simulam a pele humana foram bastante satisfatórios. Novamente, o grupo conseguiu uma publicação científica e o depósito de outra patente, evidenciando o caráter inovador da pesquisa.

A importância da interdisciplinaridade

Na ciência moderna, de caráter internacional, as pesquisas de mais alto nível são usualmente derivadas de parcerias entre diferentes grupos, de distintas áreas. Isso é o que se chama de pesquisa interdisciplinar.

“A gente faz colaboração para somar forças. Às vezes você tem intenção de fazer um estudo aprofundado e não tem estrutura e/ou expertise para fazer os ensaios”. A fala é de Júlio Pastre, pesquisador e docente do Instituto de Química da Unicamp (IQ). O professor Pastre foi procurado por Rodrigues para contribuir em novas etapas da pesquisa com o jambu, nas quais a ideia é utilizar o princípio ativo do extrato, o espilantol, visando às mesmas aplicações, porém com efeito possivelmente mais acentuado, além de aplicabilidades inovadoras.

Pastre trabalha com síntese de compostos orgânicos e aceitou o desafio de sintetizar artificialmente o espilantol. Apesar de ser encontrado comercialmente, o preço do espilantol isolado (por volta de US$ 30 mil o grama) é um impeditivo para seu uso em pesquisa científica. Assim, o professor do IQ e sua orientada de mestrado, Isabella Alonso, conseguiram desenvolver uma nova rota de síntese total da molécula para produzir o material. Segundo Pastre, “a partir de compostos mais simples, usando reações que conhecemos, preparamos o espilantol”. Congruente à essência inovadora da Unicamp, a equipe de Pastre depositou a patente do novo processo. “Além de ser uma rota curta (4 etapas), conseguimos preparar o espilantol com a estereoquímica que queríamos; com grau de pureza elevado”, exalta o docente.

Um desdobramento interessante da pesquisa de Alonso e Pastre foi a obtenção de análogos químicos (compostos com estrutura química similar) do espilantol e a constatação de efeito anestésico também por parte dessas novas substâncias. Nos ensaios tail flick realizados juntamente com Rodrigues, do CPQBA, tanto o espilantol quanto alguns de seus análogos mostraram-se superiores ao produto comercial no que diz respeito à ação analgésica. A surpresa foi o fato de dois dos análogos obtidos terem se mostrado substancialmente mais eficazes que o próprio espilantol. “A atividade foi bem mais alta e se manteve por muito mais tempo”, assegura o professor do Instituto de Química. “Agora, através do teste de permeação, será avaliado o motivo do análogo ter apresentado resultado superior; se em virtude de ser mais ativo ou possuir maior permeabilidade à pele humana”, complementa.  O análogo em questão encontra-se em processo de patenteamento e seu nome segue sob sigilo – já uma quarta patente a partir do jambu.

Os resultados são promissores e, de acordo com Pastre, as próximas etapas da pesquisa, que contarão com pareceria do Instituto Butantã, já estão sendo traçadas: “investigar o mecanismo de ação desses compostos e, uma vez identificado, preparar mais compostos e avaliar quais partes da molécula são responsáveis pela atividade biológica. E, quem sabe, conseguir preparar até compostos mais ativos”.

Mais aplicações para o remédio da Amazônia

O pesquisador do CPQBA busca cada vez mais parcerias, no Brasil e no exterior, para descobrir do que mais o jambu é capaz. Conforme ressalta, o extrato e a molécula de espilantol estão sendo testados em aplicações diversas na área da saúde, mas vão além.

Verônica fez parte de seu doutorado nos EUA, junto ao professor Ramiro Murata, da University of Southern California, e investigou a possibilidade de aplicação do espilantol no combate ao HIV, comenta Rodrigues. Outra possível ação antiviral considerada é contra o Zika vírus, em projeto em parceria com a professora Ana Silvia Prata Soares, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp.

Planeja-se, também, um estudo para aplicar a substância no tratamento de mucosite oral, condição decorrente de quimioterapia e que traz queda na qualidade de vida de muitos pacientes oncológicos. Para isso, conta-se com parceria de um grupo da Universidade de Sorocaba – Uniso, liderado pelo professor Marco Vinícius Chaud. “Outras aplicações estudadas envolvem uso carrapaticida do extrato e até mesmo aplicação em produtos cosméticos e do mercado erótico”, elenca Rodrigues.

Além da interdisciplinaridade, a marca desses projetos é que os pesquisadores visam à aplicabilidade quando pensam nos trabalhos. “Queremos fazer uma pesquisa e ver isso no mercado”, conclui Rodney.