Em junho, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) divulgou — pela primeira vez — os resultados da nova Sondagem da Inovação, realizada por meio de questionário aplicado trimestralmente a uma amostra escolhida entre as 1.650 empresas industriais do País com mais de 500 empregados. A
primeira rodada da pesquisa mostrou, entre outros achados, que 71,4% dessa amostra — que reúne cerca de 300 grandes empresas inovadoras — investiu em inovação tecnológica entre janeiro e março de 2010. O relatório não traz a lista das empresas consultadas.
"Escolhemos um núcleo de empresas, responsáveis pela maior parte das atividades de pesquisa e desenvolvimento e dos investimentos em bens de capital realizados no Brasil", explicou a
Inovação João de Alberto de Negri, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), sobre as 300 firmas que compõem a amostra. Negri integrou a equipe técnica responsável pela execução da Sondagem. A ABDI contratou a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Ipead), apoiados por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) para realizar o levantamento, até 2012.
A escolha do núcleo de empresas se deu, segundo Negri, pelo fato de as decisões dessas empresas determinarem o movimento industrial do País. "A Sondagem não é, nem pretendeu ser, um retrato de toda a indústria, e sim dessa amostra. Só que a movimentação desse núcleo define muito do que acontece dentro da cadeia em que essas grandes empresas estão inseridas", justifica o pesquisador. "Essas empresas trazem, de arrasto, as pequenas e médias que integram a cadeia. Firmas como Petrobras, Vale, Embraer, Natura e Weg carregam consigo grande parte das empresas de pequeno e médio portes que integram suas cadeias produtivas", completa.
A Sondagem define inovação como o lançamento de produto ou processo novo no mercado, conforme definição dada por manuais internacionais de referência em pesquisa e indicadores de P&D&I (Frascati e Oslo). "Já sabemos que pequenas e médias empresas inovam mais por aquisição de máquinas e equipamentos", afirmou Negri. Dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram ainda que as companhias de porte médio e pequeno têm dificuldade em investir e podem ficar mais de dez anos sem fazê-lo. "Há uma outra parcela, de empresas que investem, que fazem P&D para inovar. Para esse esforço, não tínhamos indicadores que nos permitissem saber o que está acontecendo no curto prazo", comenta.
De acordo com Negri, o levantamento permitirá o monitoramento sistemático da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), especialmente no que diz respeito à macrometa de ampliação dos investimentos privados em P&D. Uma meta da Política seria levar o investimento privado em P&D a 0,65% do Produto Interno Bruto (PIB) do País até o final de 2010. Um
balanço da PDP já divulgado, e apresentado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em abril último, mostrou que essa meta não será alcançada. De acordo com indicadores do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) atualizados este ano, essa taxa está em 0,50% do PIB.
Primeira rodada e formação bruta de capital fixoDe acordo com a primeira rodada da pesquisa, divulgada em 8 de junho, a taxa de inovação — indicador que mede a introdução de inovações (novos produtos e processos) no mercado — das grandes empresas deve subir de 71,4% para 74,3% no segundo trimestre. Das empresas da amostra, 57,1% disseram pretender lançar, no segundo trimestre, produto novo para a empresa; e 55,2% disseram que vão lançar processo novo para a empresa, ante os 48,5% e 48,6% detectados no primeiro trimestre. No caso de produto novo para o mercado, a taxa deve sair dos 18,1% para 29,5%, e, no caso de processo, se manterá em 24,8%, o índice apurado no primeiro trimestre.
Esses números serão ou não confirmados pela próxima Sondagem de Inovação, a ser divulgada em agosto, como informa a diretora da ABDI, Maria Luisa Campos Machado Leal, que supervisionou a equipe de execução.
A Sondagem também averiguou os investimentos realizados pelas grandes empresas para ampliação da capacidade física da produção — a formação bruta de capital fixo. Esse indicador tem relação com os investimentos em inovação porque, no geral, a ampliação da capacidade de produção pode levar a empresa a absorver novos conhecimentos e inovar. Nesse quesito, 39% das firmas declararam ter ampliado o investimento no último trimestre; e 49,5% disseram ter mantido o nível de investimento do trimestre anterior. Apenas 2,86% das empresas falaram que reduziram o investimento em capital fixo, e 8,57% afirmaram não ter ampliado sua capacidade física de produção.
"Os resultados identificados na Sondagem da ABDI são consistentes com uma tendência que verificamos nos
Indicadores Fapesp, que é o dispêndio em P&D empresarial ser fortemente correlacionado com a formação bruta de capital fixo", comenta Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, lembrando a discussão que propôs na
X Conferência Anpei. "A formação bruta capta um investimento feito pela empresa que pode ser para produzir mais do mesmo ou produzir algo novo. Se os esforços de inovação e de ampliação da capacidade de produção estiverem crescendo juntos, teremos um sinal bastante positivo", acrescenta Negri.
Diferença em relação à PintecPerto dos
números da Pintec 2005, a última pesquisa de caráter nacional que mostra a situação dos investimentos em inovação por parte de empresas de todos os portes no Brasil, os números obtidos na Sondagem são muito positivos. A Pintec 2005 aferiu que a taxa de inovação da indústria brasileira era de 33,4% (no triênio 2003-2005). "A Sondagem não se propõe a dizer que é o quadro geral das empresas. O foco é nas empresas que inovam", reitera Maria Luisa. João Alberto de Negri, do Ipea, ressalva que a Sondagem afere 14 itens. A Pintec tem 210 itens analisados.
A diretora da ABDI conta que a idéia de realização da Sondagem nasceu durante a crise econômica em 2008. "Na época havia informações muito diversas e até contraditórias sobre o comportamento das empresas em relação aos seus investimentos em inovação. Então, notamos que era importante ter indicadores que mostrassem o que estava ocorrendo", diz. O propósito da Sondagem é diferente do da Pintec, do IBGE. "A Pintec capta o estoque, o longo prazo, e nossa Sondagem quer verificar o fluxo e trabalha com o curto prazo", explica.
Segundo ela, o período de três meses escolhido pelos pesquisadores envolvidos seria suficiente para capturar o movimento das empresas e acompanhar a evolução dos investimentos. Ela explica que, de fato, há companhias em que as inovações demoram mais a serem lançadas, mas outras, como o setor de cosméticos, por exemplo, lançam novos produtos a todo momento. "Como estamos analisando as grandes empresas, estamos falando de companhias dinâmicas, que sempre têm coisas a contar em termos de inovação", completa.
Perfil das empresas participantes da SondagemAs 1.650 grandes empresas das quais foi retirada a amostra de 300 para a Sondagem representam 75% do investimento em bens de capital e 78,7% dos investimentos em P&D feitos no País. Elas detêm uma taxa de inovação de 79,2%, segundo a Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec 2005), realizada pelo IBGE. De acordo com a Pintec, 33,4% dessas 1.650 grandes empresas brasileiras fizeram inovação para lançar novo produto no mercado; 27,1% inovaram e introduziram novo processo no mercado; 39,1% delas têm relações de cooperação para inovar e 70% investem de forma contínua em P&D, uma das formas de se inovar.
As 1.650 empresas são de todos os segmentos industriais, sendo que as empresas de produtos alimentícios; de fabricação de veículos automotores, reboques e carrocerias; e de preparação de couros e fabricação de artefatos de couro e calçados são as mais representativas, em números absolutos, com 361, 132 e 90 firmas, respectivamente, dentro do universo total de 1.650 companhias. A maioria está no Sudeste (61,8%), seguida das regiões Sul (25,8%) e Nordeste (6,5%). O Norte (3,6%) e o Centro-Oeste (2,6%) são menos industrializados.
Para a metodologia e elaboração do questionário, a ABDI escolheu um comitê consultivo, formado por David Kupfer (UFRJ), Carlos Pinkusfeld Monteiro Bastos (UFF), Germano Mendes de Paula (UFU), José Maria Campos dos Santos (Unicamp), Evando Mirra de Paula e Silva (CGEE) e Mario Sérgio Salerno (USP). O IBGE também ajudou no trabalho, com informações dos cadastros das empresas e assistência técnica para elaboração do questionário e definição da amostra.
As cerca de 300 firmas da amostra, que representaria o conjunto de 1.650 grandes companhias brasileiras, responderam a um questionário de 14 perguntas, divididos em quatro blocos: inovação realizada e intenção de inovar; esforço para inovar; motivação para inovar; investimento em capacidade produtiva. Além disso, explicou Negri a
Inovação, a Sondagem quer captar o investimento feito na aquisição de novos conhecimentos para inovação, o que se dá pela atividade de P&D.
Mais resultados da primeira SondagemO levantamento da Agência mostrou também que, em relação ao último trimestre de 2009, 34% das empresas da amostra declaram ter aumentado o investimento em inovação; 47% dizem ter mantido o nível de investimento; 12% reduziram os investimentos; e 7% não fizeram investimento. A pesquisa da ABDI constatou que, entre as 71,4% das empresas industriais que inovaram no primeiro trimestre deste ano, 33,2% lançaram até três inovações de produto ou processo no período; 19% lançaram entre quatro e seis inovações; e 19,1% lançaram sete ou mais.
Entre as empresas que inovaram, 10,5% o fizeram em produto e em processo; 48,5% das grandes empresas lançaram produtos novos para a empresa, mas já existentes no mercado brasileiro, enquanto 18,1% lançaram produtos que eram novos para o mercado; 48,6% introduziram processo novo para a empresa e 24,8% lançaram um processo novo para o mercado nacional.
A pesquisa também levantou as atividades de inovação nas quais as empresas investiram. Prevalecem os gastos em aquisição de máquinas e equipamentos: 40,66% delas ampliaram os investimentos nesse quesito; 35,16% mantiveram o volume de recursos para compra de equipamentos em nível semelhante ao do último trimestre de 2009; apenas 2,20% disseram ter reduzido e 21,98% não investiram nessas aquisições no primeiro trimestre desse ano.
Já os investimentos em P&D interno aumentaram em 25,27% das empresas; se mantiveram no mesmo nível do último trimestre para 53,85% das empresas; caíram para 4,40% delas, e 16,48% afirmaram não ter feito dispêndio em P&D interno. Em investimento em P&D externo à empresa (feito para a empresa, mas por terceiros), aumentou para 19,78% das firmas, se manteve para 32,97% delas, caiu para 7,69%, e 39,56% não o fizeram.
A Sondagem conseguiu averiguar, ainda, que 74% das empresas consultadas têm pessoal de nível superior dedicado exclusivamente à área de P&D. A maioria dos profissionais de P&D tem nível de graduação (76%), seguido por mestres (18%) e doutores (6%). Ainda de acordo com o estudo, entre as empresas que declararam ter feito inovação no primeiro trimestre deste ano, 21% têm doutores ocupados em P&D; 42% possuem mestres; e 84% têm graduados.
Como fatores que influenciaram na decisão de inovar e continuar inovando no segundo trimestre de 2010, as empresas alegam as exigências dos clientes (63,74% deram essa motivação como a principal), o crescimento da demanda interna (57,14%), e as pressões de custo (57,14%).
Maria Luisa, da ABDI, diz que os resultados observados foram muito positivos, pois a maior parte das empresas declarou que manteve ou ampliou seus investimentos em inovação no trimestre. Para ela, o quadro é bom, especialmente pelo fato de fazer a comparação com o último trimestre de 2009, quando a crise econômica já tinha arrefecido e os investimentos já estavam sendo retomados. Para ela, a Sondagem mostra um quadro mais persistente de manutenção ou elevação de investimentos em inovação.
Negri, do Ipea, igualmente destaca que a Sondagem é mais um indicador do momento positivo para o setor industrial e de que a crise foi revertida. "A maior parte afirmou que manterá ou vai aumentar os investimentos, que já são elevados, e esse indicador é muito bom", afirma.
Sondagem é instrumento positivoCarlos Henrique de Brito Cruz, da Fapesp, é um defensor de estudos sistemáticos que mostrem as tendências dos investimentos em inovação. Além de ser um formulador de política pública, por conta de seu cargo na maior fundação de apoio à pesquisa do País, ele é um estudioso dos indicadores em ciência, tecnologia e inovação (C&T&I). Em palestra na
X Conferência Anpei de Inovação Tecnológica, promovida pela Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), na cidade de Curitiba, Paraná, entre os dias 26 e 28 de abril, ele cobrou por mais pesquisas que mostrassem o que está ocorrendo em relação aos investimentos em C&T&I.
Em entrevista concedida por
e-mail a
Inovação, Brito Cruz afirma que a Sondagem é muito util. "Ela não substitui uma pesquisa anual detalhada, a qual precisamos muito que seja feita, mas traz informações muito importantes sobre as tendências momentâneas", destaca. Ele explica, ainda, que uma sondagem, como a feita pela ABDI, necessariamente tem de abranger um universo mais limitado do que uma pesquisa completa, e diz que o universo escolhido, as empresas com mais de 500 empregados, parece fazer sentido e pode dar uma ideia das tendências. "Mas é muito importante não se confundir a Sondagem com uma pesquisa abrangente", ressalta.
Como limitação do estudo apresentado pela ABDI, ele cita apenas que a Sondagem nada diz sobre o setor de serviços, "incluindo dois importantíssimos para P&D, que são
software e telecomunicações". A Sondagem só abrangeu empresas industriais, ao contrário da Pintec, por exemplo, que também trouxe na edição de 2005 as empresas de serviços. Empresas de
software e telecomunicações são caracterizadas por elevadas taxas de inovação, dada a dinâmica do mercado em que atuam.
"O ponto mais positivo me parece ser o fato de o Ministério do Desenvolvimento [
ao qual a ABDI está ligada – Nota da E.] demonstrar este grau de interesse em inovação tecnológica e P&D", ressalta Brito Cruz. "Isso mostra uma mudança importante para as políticas de C&T&I no Brasil, que podem estar passando a ser políticas organicamente ligadas à política industrial", finaliza. Maria Luisa, da ABDI, informa que a Sondagem deverá analisar as empresas, mais para frente, de acordo com o nível de intensidade tecnológica, que varia de alta, média-alta, média-baixa, e baixa tecnologia.