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12 de julho de 2010

Parques tecnológicos
Rússia anuncia adesão de Boeing, Cisco, Nokia e MIT à futura
Innograd; governo promete US$ 3,5 bi à parceria público-privada

Guilherme Gorgulho

O projeto do governo da Rússia de criar um centro de tecnologia e inovação nos subúrbios de Moscou ganhou força em junho com a adesão de grandes empresas norte-americanas, como a Boeing e a Cisco, e do Massachusetts Institute of Technology (MIT). A Innograd, ou cidade da inovação, deverá nascer, na visão do governo do presidente Dmitry Medvedev, de consórcio formado por capital público e privado com o objetivo de atrair líderes mundiais em pesquisa e desenvolvimento e modernizar a economia russa, considerada muito dependente de petróleo e gás natural.

O plano prevê que o chamado "Vale do Silício russo" será construído em Skolkovo, área na região sudoeste de Moscou. O governo russo informa na página oficial na internet da iniciativa que a primeira fase do projeto será financiada com recursos federais, mas não especifica os valores previstos para o aporte. De acordo com o jornal russo Vedomosti, com base na proposta de orçamento federal para 2011, o governo pretende investir US$ 3,5 bilhões no projeto até 2015. O empresário ucraniano Viktor Vekselberg, presidente da Fundação Skolkovo, responsável pelo projeto, informou que serão necessários cerca de US$ 2 bilhões em investimentos públicos e privados pelos próximos três anos para concluir as obras de infraestrutura da Innograd, segundo a agência de notícias RIA Novosti; as obras devem começar no final de 2011.

No início de junho, a fabricante de telefones celulares finlandesa Nokia anunciou que tem planos de instalar um centro em Skolkovo para coordenar projetos de pesquisa em desenvolvimento de softwares. No final de maio, o fundo de investimentos privado Siguler Guff, dos Estados Unidos, se tornou o primeiro grupo estrangeiro a aderir ao projeto da Innograd; o fundo vai investir US$ 250 milhões em infraestrutura digital e serviços de tecnologia da informação no centro de inovação em Moscou.

No Vale do Silício

Na viagem que fez aos EUA na última semana de junho, Medvedev esteve no Vale do Silício, na Califórnia, para persuadir empresários norte-americanos a investir em Skolkovo e discutir com o colega Barack Obama as possibilidades de intercâmbio entre os dois países na área de tecnologia, principalmente em eficiência energética e energia limpa. No dia 23 de junho, Medvedev se reuniu com o CEO da Cisco, John Chambers, para tratar de investimentos em inovação tecnológica. Em comunicado à imprensa divulgado pela Cisco, a fornecedora mundial de soluções em telecomunicações se comprometeu a investir US$ 1 bilhão na Rússia nos próximos dez anos para estimular o "empreendedorismo e a inovação sustentável". O plano da empresa é aportar o capital em parcerias no país como parte de um plano em cinco etapas que transcorrerão paralelamente.

No encontro, Chambers e Medvedev assinaram um memorando de entendimento que destaca o comprometimento da Cisco com o projeto Skolkovo e indica que o centro tecnológico russo será sua principal plataforma dentro desse plano de investimento. "A Cisco imediatamente começará a despender recursos relacionados a desenvolvimento de negócios, liderança em inovação, serviços e consultoria para dar forma a esse compromisso", disse a empresa no comunicado, ressaltando que a presença física em Skolkovo permitirá contribuir para transformar a Innograd em um dos centros de tecnologia "mais avançados do mundo".

Ceticismo

Mesmo com a campanha para angariar apoio internacional para Skolkovo desencadeada pelo presidente russo, analistas ouvidos pelo jornal britânico Financial Times, em matéria publicada em 31 de março, alertam que problemas históricos da Rússia, como a corrupção e o excesso de burocracia, devem desencorajar os investimentos de alto risco em inovação no país asiático. Críticos do projeto de Medvedev, segundo reportagem da revista norte-americana BusinessWeek de 16 de junho, citam ainda outros fatores que dificultarão os aportes de empresas estrangeiras no território russo: a insegurança do sistema institucional, a vulnerabilidade da economia do país às variações de preços das commodities, e a desconfiança no modelo que quer estimular a inovação de "cima para baixo".

Parceria em tecnologia aeroespacial e ensino superior


O ceticismo do jornal inglês parece não ter impedido a Boeing de se associar ao projeto. A empresa dos EUA já tem centros de pesquisa em Moscou. Um dia após o anúncio da Cisco, a empresa de tecnologia aeroespacial informou por meio de comunicado à imprensa que formalizou um acordo para implantar em Skolkovo uma divisão de seu Centro de Design de Moscou. Empresas russas que já são suas parceiras — a companhia de serviços de engenharia Progresstech e a empresa de informação tecnológica Luxoft — estarão juntas no projeto com a Boeing. De acordo com o texto divulgado, a nova unidade empregará aproximadamente 300 engenheiros, pesquisadores e especialistas em tecnologia da informação, que darão suporte aos programas de aviação comercial da empresa.

A Boeing destacou que vem desenvolvendo um trabalho em parceria com a indústria aeroespacial da Rússia há 15 anos, e que sua participação na Innograd vai abranger também o ensino superior. "Como parte dessa colaboração, a Boeing vai participar da Universidade de Tecnologia de Skolkovo, compartilhando programas de treinamento da Boeing sobre modernos métodos de administração de projetos e design, e sobre execução de técnicas avançadas de controle de qualidade e de abordagens para modernização empresarial baseadas no sistema Lean [que reúne práticas de gestão da produção voltadas para a redução dos desperdícios]", diz o comunicado. A companhia considera ainda a possibilidade de incluir nas parcerias de pesquisa em Skolkovo a Universidade Estadual de Moscou e o Instituto de Tecnologia da Aviação de Moscou.

Com o MIT

Durante a visita de Medvedev a Washington, em 24 de junho, o MIT e a Fundação Skolkovo assinaram um acordo para avaliar opções de colaboração em ensino e pesquisa em futuras parcerias. As instituições preveem concluir a análise das possibilidades de trabalho conjunto do centro de tecnologia norte-americano com universidades e institutos de pesquisa da Rússia até o final de 2010. Um acordo definitivo deve ser negociado e firmado no primeiro trimestre de 2011, segundo o documento divulgado pelo MIT. O MIT estuda a possibilidade de estruturar uma rede de trabalho conjunta entre laboratórios de pesquisa que reúna profissionais norte-americanos e russos ou então a criação de uma nova instituição acadêmica em Skolkovo. De acordo com o texto divulgado à imprensa, o MIT também avalia uma participação mais ativa na implantação da Innograd, como um dos parceiros do projeto.

Cinco focos da cidade da inovação

Medvedev anunciou em março que a Innograd vai priorizar as áreas de energia, tecnologia da informação, telecomunicações, biotecnologia e tecnologia nuclear. Segundo o projeto apresentado pelo Kremlin, a iniciativa visa a "criar um ambiente especial que concentrará recursos intelectuais e estimulará a criatividade irrestrita e a investigação científica". Para conduzir o projeto foi criada em maio uma fundação sem fins lucrativos, a Fundação para o Desenvolvimento do Centro de Pesquisa e Comércio de Novas Tecnologias. A também chamada Fundação Skolkovo foi estabelecida, segundo a página oficial na internet, pela Academia de Ciências da Russia, pela corporação estatal Banco para o Desenvolvimento e Assuntos Econômicos Estrangeiros, por uma universidade estatal de tecnologia com sede em Moscou, entre outras entidades.

O empresário Viktor Vekselberg, um dos homens mais ricos da Rússia, foi escolhido presidente. Sempre de acordo com as informações oficiais, também fazem parte do projeto o ex-CEO da Intel Craig Barrett, na posição de vice-presidente do Conselho Consultivo para Gerenciamento Empresarial, e de dois vencedores do Prêmio Nobel, o físico Zhores Alferov e o químico Roger Kornberg, nas posições de co-presidentes do Conselho Técnico e Científico da Cidade da Inovação.

No parque tecnológico de Skolkovo serão edificados laboratórios, escritórios corporativos, centros de pesquisa e desenvolvimento, uma incubadora tecnológica, escritórios de comercialização e transferência de tecnologia, uma instituição de ensino superior e infraestrutura para construção de residências e serviços. Para atrair profissionais e empresas para a Innograd, o Kremlin está criando uma série de incentivos, como isenção por dez anos do imposto de renda, taxas de importação reduzidas, aluguéis baratos e pouca burocracia.

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