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28 de junho de 2010

Ensino Superior
Para formar o engenheiro do século XXI, currículo abrangente
deve mostrar desafios e dar formação básica, diz docente dos EUA

Guilherme Gorgulho

Os avanços tecnológicos do século XXI estão impondo desafios para a formação dos novos engenheiros que a sociedade demanda. Nesta década de 10, a interdisciplinaridade estará cada vez mais presente nas carreiras de engenharia, o que exigirá modificações nos currículos para permitir aos profissionais suprirem as necessidades do mercado. Esta foi a ideia central apresentada pelo professor Michael Corradini, do departamento de Engenharia Física da Universidade de Wisconsin — Madison (EUA), na palestra que proferiu na Unicamp em 26 de maio. Corradini, que coordena o Comitê de Educação da Academia Nacional de Engenharia dos Estados Unidos, apresentou suas ideias para professores e alunos dentro do programa "Conversando Sobre a Graduação", promovido pela Pró-Reitoria de Graduação (PRG) da Unicamp.

O professor de Madison propõe a criação de uma grade curricular básica a ser seguida por todos os estudantes que iniciam um bacharelado em engenharia. No primeiro ano, esses alunos teriam uma formação geral baseada em matemática e ciências de maneira interdisciplinar. Essa nova abordagem também poderia ser empregada no segundo ano do curso, estima Corradini; findas essas matérias básicas, o estudante escolheria o ramo da engenharia que seguiria até completar os oito a dez semestres do curso.

"O jovem que se forma e consegue emprego não vai se sentar com um grupo de engenheiros mecânicos somente, vai se sentar com gente da Engenharia Elétrica, do Departamento Jurídico e da área ambiental, por exemplo. É com tudo isso que é preciso aprender a lidar", argumenta o professor. "As equipes interdisciplinares são a realidade." Para Corradini, a grade curricular básica permitiria contato com novas tecnologias não estritamente relacionadas com a engenharia e possibilitaria a aquisição de um vocabulário mais diversificado, necessário ao trabalho em grupos multidisciplinares. Entre as matérias que comporiam o curso básico para a graduação estariam, segundo ele, biologia, nanotecnologia, energia e ambiente, materiais, análise de riscos e negócios, entre outras.

Durante a palestra — que denominou "Educando o Engenheiro de 2020" e foi proferida no auditório da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (Feec) —, o professor de Madison também enfatizou que tornar as universidades e escolas de engenharia ambientes "estimulantes, criativos, ousados, acurados e exigentes" é tão importante quanto definir novos padrões curriculares. Segundo ele, demonstrar a aplicabilidade dos avanços científicos em discussão no meio acadêmico atualmente é também essencial para determinar o sucesso do processo de ensino de engenharia.

Indicadores apontam menor procura pela área

Um problema que vem preocupando o meio acadêmico nos Estados Unidos nos últimos anos é a diminuição do interesse pela carreira da engenharia por parte dos estudantes que ingressam em instituições de ensino superior, de acordo com Corradini. Dados da Fundação Nacional de Ciência (National Science Foundation, ou NSF) mostram que, entre 1985 e 2007, houve redução de 12% no total de engenheiros formados nos EUA: no meio da década de 1980, formaram-se 77.572 engenheiros no País; ante 68.274 em 2007. Outro ponto que chamou a atenção da Academia Nacional de Engenharia foi a baixa proporção de graduados em engenharias em relação aos cursos de ciências naturais (geociências, ciências biológicas, ciências físicas, ciências agrárias, ciências da computação e matemática). Segundo o documento "Indicadores de Ciência e Engenharia", publicado em 2010 pela NSF, os estudantes formados em engenharia representam 5% do total de alunos concluintes do ensino superior dos EUA, enquanto os de ciências naturais são 12% do total.

Corradini destaca que, em países europeus e asiáticos, a proporção de graduados nas engenharias é maior do que em ciências naturais. Na Ásia, a distribuição é de 21% para engenharias e 13% para ciências naturais; na Europa, 12% para engenharias e 10% para ciências naturais. O Brasil enfrenta situação similar à norte-americana, com apenas 5% em ramos da engenharia e 8% em carreiras de ciências naturais, de acordo com dados da NSF. "Acredito que, seguramente, para os EUA melhorarem sua posição econômica, ou ao menos mantê-la, a engenharia terá que reverter isso. Tudo começa na educação", diagnosticou o professor de Madison.

Projetos para restabelecer o interesse pela engenharia

Uma das formas encontradas pela Academia Nacional de Engenharia dos Estados Unidos para tentar inverter essa situação é a criação de programas que visam a estimular a discussão e o interesse pela carreira. Um deles é o "Fronteiras da Engenharia", que aborda os novos campos do conhecimento e tecnologias e dissemina inovações em pesquisas. Outro projeto é o "Grandes Desafios da Engenharia", que promove séries de eventos em universidades de todo o país para criar diálogo e motivar os estudantes a respeito de temas de engenharia, ciência e empreendedorismo tecnológico. "Há grande preocupação com a constante queda na população de engenheiros e no número de engenheiros se graduando. Os programas servem para reenergizar os profissionais", disse Corradini.

Um terceiro programa norte-americano, similar ao "Fronteiras da Engenharia", mas que difere deste por não ter a pesquisa como foco e sim o ensino, chama-se "Fronteiras do Ensino de Engenharia". Segundo Corradini, o programa foi criado no segundo semestre de 2009 e trata de processos, técnicas e estratégias pedagógicas no ensino de engenheiros em novas áreas. O primeiro simpósio do projeto — que reuniu cerca de 50 professores no Estado da Virginia, em novembro de 2009 — teve como função principal a discussão de abordagens educacionais inovadoras.

Desafios para os futuros profissionais


Na palestra, o engenheiro norte-americano também citou a importância das novas áreas que desafiam a capacidade do profissional do futuro. Uma comissão da Academia Nacional de Engenharia sugeriu, em 2008, um conjunto de tópicos com os grandes desafios do século XXI, contou ele. Entre eles: restaurar e melhorar a infraestrutura urbana, desenvolver métodos para o sequestro de carbono, oferecer acesso a água potável, baratear o custo da energia solar, produzir avanços nas tecnologias de saúde, aprimorar a realidade virtual e oferecer mais segurança ao ciberespaço. "O ensino de engenharia deve se orientar para esses grandes desafios. Se não for explicado àqueles em formação a importância do que estão fazendo, com base nesses novos desafios, é possível que eles percam a motivação", concluiu.

Corradini lembrou que, na pesquisa em energia, o governo Barack Obama está implantando institutos de inovação, cuja missão principal é "incitar a pesquisa e realmente fazer com que a comunidade científica e os engenheiros estejam envolvidos". Um desses institutos, segundo Corradini, está sob a responsabilidade da Universidade de Wisconsin e tem entre seus focos os biocombustíveis. A cana-de-açúcar brasileira — tema de um estudo de caso desse centro de pesquisa de bioenergia atualmente — é um exemplo citado pelo engenheiro norte-americano sobre como a globalização está afetando o ensino de engenharia. "Podemos ver que muito do que está sendo desenvolvido nos EUA também está sendo desenvolvido em outras partes do mundo, como na China e na Índia." Corradini defende ainda que os efeitos da globalização no ensino de engenharia também podem ser sentidos na pós-graduação. Historicamente, os EUA recebiam estudantes de algumas partes do mundo, que variavam geograficamente ao longo dos anos. Atualmente, segundo ele, os alunos de pós-graduação estrangeiros não estão mais procurando os EUA como antigamente, já que tem mais possibilidades para fazer o curso dentro de seus próprios países.

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