Os novos laboratórios e escritórios do Centro
de Pesquisa da Petrobras (Cenpes) em construção na
Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, devem começar a
funcionar em setembro deste ano. A estimativa é de Carlos
Tadeu da Costa Fraga, gerente executivo do Cenpes, e foi feita durante
a palestra sobre os desafios tecnológicos da Petrobras que apresentou
na tarde do dia 27 de abril na
X
Conferência Anpei. Com a ampliação,
a área do Cenpes vai ficar maior do que o dobro da atual -- de 122
mil para 305 mil metros quadrados. Estão em construção
nove prédios de laboratórios de pesquisa, escritórios e um
Centro de Convenções. O investimento da Petrobras
na expansão do Cenpes é de R$ 900 milhões.
Segundo Fraga, os laboratórios que entram em operação
em setembro serão dedicados a pesquisas relacionadas ao pré-sal,
com destaque para a caracterização de rochas e de
fluidos, energias renováveis, petroquímica e gestão ambiental.
Hoje o Cenpes abriga 1.610 funcionários, sendo 783 pesquisadores, 323 engenheiros e 504 técnicos de laboratório e de planta-piloto. Dos quase 800 pesquisadores, 48% são mestres e 24% doutores. A Petrobras investe cerca de US$ 800 milhões em pesquisa e desenvolvimento -- em 2001, esse investimento não chegava a US$ 200 milhões. O conjunto infraestrutura, equipe e recursos financeiros, que fez da Petrobras a maior exploradora de petróleo em águas profundas, levou a empresa a ficar em primeiro lugar em inovação entre as maiores companhias do setor de petróleo e gás do
ranking Fortune 500, da revista
Fortune.
Além da base física na Ilha do Fundão, o Cenpes gerencia cinco unidades experimentais fora do Rio de Janeiro, para pesquisa e desenvolvimento em refino, tecnologia de poço, garantia de escoamento e processamento, biocombustíveis e biolubrificantes. Também cuida da cooperação em P&D. A lei 9.478/1997, a chamada Lei do Petróleo, estabeleceu o sistema de concessão para exploração do petróleo e gás no Brasil. A lei prevê que, nos contratos de concessão de campos de alta produtividade, as empresas devem investir 1% do valor produzido, na forma de participação especial, em atividades de P&D. Uma parte deste 1% precisa ser destinada a projetos em cooperação com as universidades e institutos de pesquisa.
Sempre segundo o palestrante, o investimento anual da empresa nas
instituições de ensino superior é de R$ 400
milhões – um crescimento de 4,5 vezes no volume de recursos
direcionados para universidades em relação a 2005.
A Petrobras se relaciona com o setor acadêmico pelas chamadas
Redes
Temáticas, formadas de acordo com assuntos de
interesse da companhia. A Petrobras identificou pesquisadores com
maior competência nesses temas e, com eles, organizou 50 diferentes
redes de P&D virtual, em 80 universidades.
"A área construída nessas universidades é quatro vezes maior do que a do Cenpes hoje", afirmou Fraga às pessoas presentes no auditório da X Conferência. Segundo ele, o investimento da empresa na infraestrutura das universidades, especialmente na construção de laboratórios, foi fundamental para a firma assegurar que os pesquisadores pudessem executar os projetos de interesse da empresa. "Agora a Petrobras conduz no Brasil ensaios que eram feitos no Hemisfério Norte [usando as estruturas construídas nas universidades]", contou. Além de reduzir o custo da atividade de P&D, a Petrobras ganhou em agilidade, pois não tem de esperar vagas em laboratórios estrangeiros para conduzir testes. "Também conseguimos nuclear em torno dos laboratórios a formação de recursos humanos com a qualidade e na quantidade que a Petrobras precisa", completou.
De acordo como o gerente do Cenpes, essa primeira fase, em que predominou o investimento em infraestrutura, está sendo concluída e o perfil dos dispêndios da Petrobras nas universidades deve mudar, com a empresa passando a investir mais na elaboração e execução de projetos de P&D propriamente dito.
O que terá na nova área do CenpesA assessoria de imprensa da Petrobras informa que, com o projeto de ampliação, o Cenpes passará a ter 227 laboratórios de pesquisas, em 23 prédios dedicados -- nove deles na parte nova. Alguns laboratórios de experimentos ganharão maior amplitude, em especial os de biotecnologia, meio ambiente e gás e energia. A área nova também abrigará o Centro Integrado de Processamento de Dados (CIPD). A instalação do CIPD poderá aumentar a demanda por trabalhos de P&D das empresas de informática na Ilha do Fundão, onde estão também o parque tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o próprio Cenpes.
Outra estrutura a ser instalada no novo espaço é o Centro de Realidade Virtual (CRV). Nele serão criados ambientes para desenvolvimento de estudos, projetos e pesquisas com simulação tridimensional. O CRV poderá ser operado de forma remota, o que evitaria o deslocamento de pesquisadores até o Rio de Janeiro para sua utilização. O CRV será composto por salas de visualização compartilhada e dois ambientes de imersão, denominados HoloSpace e Caverna Digital (Cave). Neles, telas gigantes receberão projeções de altíssima resolução operadas por computadores gráficos de última geração.
O HoloSpace terá três lados: uma parede frontal, outra lateral e piso. A Cave possuirá o formato de um grande cubo aberto, obtendo-se em cada uma dessas faces a visualização da imagem tridimensional do modelo virtual estudado, por meio de projeção estereoscópica, tipo de projeção que proporciona a ilusão de se ver um objeto no espaço, em três dimensões, apesar de projetado em telas planas, criando a sensação de total imersão. O HoloSpace e a Cave se somarão ao Espaço Galileu e ao Laboratório de Visualização 3D (LabVis), que já permitem essas simulações no prédio atual do Cenpes.
Atração de centros internacionais de P&DCom o pré-sal, a Petrobras traçou uma estratégia diferenciada para fazer parcerias. "Queremos uma relação comercial e intelectual com a construção de centros de P&D [dos fornecedores e prestadores de serviço] no Brasil", explicou. O executivo do Cenpes disse que a empresa não esperava resultados tão rápidos: as empresas FMC Technologies, Schulumberger, Barker Hughes e a Usiminas já estão construindo centros de P&D na Ilha do Fundão, perto do Cenpes e da UFRJ, uma das principais parceiras da Petrobras. "Queremos construir uma capacidade local diferenciada", comentou.
De acordo com Fraga, o Cenpes trabalha atualmente para ampliar a articulação de seus parceiros nacionais com atores internacionais e aumentar a integração de seus fornecedores com as universidades brasileiras. Também quer abrir oportunidades para investir em P&D em outras empresas. Sobre os desafios tecnológicos, precisa atuar em vários eixos. O chamado eixo expansão dos limites dos negócios tradicionais trata de inovações em atividades e produtos que a Petrobras já faz, como a identificação da ocorrência de petróleo e gás; recuperação avançada de óleo nos campos; formas de produção em águas profundas e no pré-sal; melhoria de produtos; desenvolvimento da logística para operar as plataformas mais distantes da costa. No eixo aumento do
mix de produtos estão as energias renováveis. É de interesse da Petrobras fazer P&D em energia eólica, solar e biocombustíveis. No eixo sustentabilidade, há desafios para a P&D como redução no consumo de água, aumento da eficiência energética e diminuição das emissões de gases de efeito estufa, em especial o carbono.
Durante a palestra, o gerente do Cenpes afirmou considerar que um dos maiores desafios impostos pela descoberta e exploração do pré-sal está na capacidade da cadeia produtiva da Petrobras de acompanhar as necessidades da companhia para a produção desses novos poços. "É um desafio muito maior do que o desafio da inovação tecnológica", disse. Pelo fato de os fornecedores da Petrobras terem pequena inserção internacional, competem pouco com empresas de seu setor, o que tem como consequência nível baixo de inovação. A escala das encomendas para o pré-sal é muito maior do que a capacidade dos fornecedores nacionais de atendê-las. "Temos fornecedores capazes, mas precisamos ampliar isso, sob pena de termos de comprar lá fora", acrescentou.
Por fim, ele tocou no assunto que tem mobilizado empresas de vários setores: a falta de profissionais para P&D, especialmente engenheiros. A situação da Petrobras não é tão grave com a de outros setores, explicou Fraga, porque a empresa consegue ser atrativa para os profissionais que se formam. O problema maior é o número de formandos, muito baixo frente à demanda em áreas críticas, como geofísica. Esse ano, a Petrobras vai conceder R$ 50 milhões em bolsas para poder formar mais profissionais para suas atividades de P&D.
Política de patentesAo final da apresentação, uma pessoa da platéia perguntou a Fraga se a empresa espera aumentar o número de pedidos de patentes em razão do pré-sal. O gerente do Cenpes informou que a Petrobras patenteia suas tecnologias não para comercializá-las, mas para protegê-las com o objetivo duplo de garantir seu uso pela Petrobras e impedir que terceiros as utilizem. Em exploração de petróleo e gás, por exemplo, a empresa quase não deposita patentes, preferindo o segredo industrial. "Vemos o pré-sal como uma oportunidade para nossos fornecedores fazerem mais inovação e registro de patentes", comentou. (
J.S.)