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Publicada em 11 de dezembro 2006

Pesquisa e Desenvolvimento em Etanol
Workshop para subsidiar políticas públicas discute gargalos
na colheita; declividade e compactação do solo são problemas

Janaína Simões

Pesquisadores e representantes da indústria de álcool e açúcar levantaram desafios e gargalos para a pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D&I) em colheita de cana-de-açúcar durante o II Workshop do Projeto Diretrizes de Políticas Públicas para a Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo, realizado dia 29 de novembro no hotel Sol Inn, em Campinas. O projeto, financiado no âmbito do programa Políticas Públicas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), prevê a realização de nove workshops; é coordenado por Luís Cortez, docente e pesquisador da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp. Os resultados e informações dos workshops serão agrupados em um documento de recomendação ao governo do Estado de São Paulo, que conterá diretrizes para políticas públicas para o setor sucroalcooleiro. Participaram desse segundo workshop 70 pessoas. O terceiro workshop, sobre hidrólise, acontecerá dia 14 de dezembro no Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT). O primeiro, realizado dia 10 de novembro, teve destilação e fermentação como tema.

"A idéia dos encontros não é fazer uma atualização tecnológica, mas explorar o futuro das tecnologias, para onde estamos indo", explica Cortez. Ele ressalta que o Brasil alcançou sua competitividade atual em etanol com base em avanços até conservadores. "É possível que algumas tecnologias estejam chegando ao limite. O volume de recursos que alguns países colocam agora na pesquisa em biocombustíveis pode tirar nossa liderança", alerta.

Os workshops pretendem construir um roadmap tecnológico para o setor. As reuniões seguem uma metodologia: os organizadores enviam aos palestrantes, antes do encontro, um termo de referência das tecnologias e dos pontos mais importantes a serem tratados. Os palestrantes, pessoas reconhecidas pela competência técnico-científica, escrevem "position papers", onde respondem às perguntas constantes no termo de referência. As respostas são apresentadas durante o workshop, quando debatedores convidados fazem perguntas ou contestam as afirmações, oferecendo novos subsídios para o documento final.

Os palestrantes do workshop sobre colheita da cana

Maurílio de Oliveira Mello, engenheiro agrícola da Usina São Martinho, de Pradópolis, falou no primeiro painel do workshop, "Colheita da cana-de-açúcar nas áreas atuais e de expansão". Marcos Fahrat, engenheiro agrônomo da Associação dos Fornecedores de Cana de Piracicaba (Afocapi), apresentou seu trabalho sobre "Colheita de cana pelos fornecedores e prestadores de serviços". Tomaz Ripoli, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), apresentou o tema "Recuperação da palha para fins energéticos". Por último, Oscar Braunbeck, pesquisador da Feagri Unicamp, discutiu o tema "Quebra de paradigma na colheita de cana".

Diminuir perdas é a ordem

Segundo Mello, da São Martinho, um dos maiores desafios na colheita é lidar com as perdas. As visíveis são os pedaços da cana que ficam no campo porque as lâminas das colhedoras não conseguem cortar tão rente ao chão como um trabalhador braçal pode fazer. "O processo de corte precisa de muito aprimoramento ainda", afirmou. Pode-se até perder a cana inteira, por conta de ela se quebrar ao invés de apenas envergar durante o corte. Já as perdas invisíveis, difíceis de se mensurar, podem se dar na forma de caldo, serragem ou estilhaço de cana.

Jorge Neves, representante do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e um dos debatedores do primeiro painel, contou que medições feitas pelo instituto indicam que as perdas visíveis e invisíveis, somadas, estão em 10%. Em contrapartida, a soja, por exemplo, está chegando a 1% de perdas.

Outro grande desafio em termos de P&D&I diz respeito à compactação do solo, causada pela pressão exercida pelos pneus das colhedoras, das carretas de transbordo e até mesmo pela presença dos trabalhadores no campo. A São Martinho perde 6,5 toneladas de cana por hectare por causa da compactação. Para diminuir o problema, fez um projeto de "canteirização" do canavial, separando os locais de passar veículos de transporte dos lugares onde está a cana plantada.

"Gostaríamos de diminuir essas passagens, e colhedoras de duas linhas que diminuíssem o tráfego no canavial seriam bem-vindas", sugeriu Rafaella Rossetto, agrônoma da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), debatedora do primeiro tema. Para ela, conseguir transbordos mais leves, pneus e máquinas que compactem menos são os melhores caminhos.

Jorge Neves, do CTC, afirmou que os custos globais para colheita da cana queimada mecanizada são de R$ 17 por tonelada, contra R$ 16 da colheita manual. Ele considerou impossível colher cana com eficiência usando-se o sistema de duas linhas proposto por Rafaella — mantido o nível atual de P&D do País nesse quesito.

Um dos principais desafios tecnológicos para se implantar a colheita mecanizada é a declividade dos terrenos. Para se chegar a 100% de mecanização, é preciso haver equipamentos capazes de andar em terrenos de maior declividade, defendeu Neves. "Na faixa de 11% a 15% de declividade, começa a ficar muito difícil mecanizar", comentou.

Inovações nas colhedoras

Oscar Braunbeck, palestrante do último painel do dia, apresentou um projeto inovador da Feagri que pode resolver o problema da declividade em algumas regiões. O sistema em desenvolvimento na Unicamp prende a cana na base e a puxa para cima, separando as operações de corte e alimentação. As colhedoras disponíveis no mercado fazem o corte da cana e a jogam cortada para dentro da máquina em uma única operação. Essa colhedora, segundo Braunbeck, é ideal para locais de maior declividade porque justamente não usa o sistema de base de corte.

Também debatedor do painel de Braunbeck, Daniel Marçal de Queiroz, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), lembrou do excesso de peso das colhedoras. "Podemos produzi-las mais leves e baratas. É um ponto que precisamos atacar." O consumo de energia das máquinas também pode ser melhorado, disse.

O consultor Luiz Nitsch, outro debatedor, chamou a atenção para o fato de que nenhuma fábrica fará qualquer máquina se não houver mercado. "Se não fomentarmos a demanda, jamais veremos o que aqui foi acenado", disse, referindo-se ao projeto da Feagri. Ele explicou que há muito ceticismo entre os clientes do setor, que não aceitam facilmente as novas tecnologias.

João Carlos Rocha Abdo, representante do Grupo GVO, contou no debate que essa empresa trabalha no uso do piloto automático com GPS de altíssima precisão nas colhedoras. "Tem funcionado, mas é uma tecnologia muito cara, custa US$ 40 mil, US$ 50 mil. Como nacionalizar isso?", questionou. A tecnologia permite ao operador melhorar a precisão na operação de corte de base, porque ele não precisa focar sua atenção na condução da máquina. Para Adbo, outros pontos críticos na mecanização são o consumo de diesel e óleo hidráulico nos veículos de corte e transporte utilizados.

O impacto da mecanização para os pequenos produtores

O aumento da mecanização impacta os chamados fornecedores, pequenos produtores de cana que vendem sua colheita para as grandes usinas. O palestrante Marcos Fahrat, da Afocapi, disse que São Paulo tem 13 mil fornecedores, responsáveis por 25% da cana produzida no Estado. Segundo ele, esses fornecedores deverão continuar existindo, apesar da expansão, do predomínio das grandes usinas e da mecanização da produção. "Comprar desses fornecedores oferece uma boa relação custo-benefício para a usina. Há tendência de terceirização de áreas de produção para fornecedores", enumerou. "Produção em pequena escala pode ser a contramão da economia, mas não podemos ignorar a questão social", acrescentou.

Fahrat apresentou alguns desafios. Qual tecnologia deve ser oferecida para colher a cana crua, já que por lei os produtores não poderão mais queimá-la antes de colher? É preciso resolver o problema dos altos custos e da baixa eficiência na colheita manual de cana crua, dado o pouco acesso ao crédito e à mecanização. Outra demanda para P&D é ajudar esses produtores a lidar com o manejo da palha.

"Tecnologia para isso existe, mas o governo federal não quer remunerar pela co-geração como faz com a energia hidrelétrica", apontou. A co-geração seria uma saída para gerar renda, que poderia dar a esses produtores as novas tecnologias. Mas como os preços em leilão de energia são muito baixos, não dão o retorno para o investimento na tecnologia.

Marcelo Pierossi, do CTC, que tem 12 mil fornecedores e 17 associações de fornecedores associados, afirmou ser fundamental discutir o tipo de terra que o fornecedor terá nas áreas de expansão. "É mais fácil mecanizar em Goiás do que em Piracicaba”" destacou. Ele disse ainda que a tecnologia aplicada para a colheita da cana crua, sem a queima, é baseada no modelo australiano, que usa máquinas de grande porte. "Temos de partir de paradigmas e conceitos diferentes, para novos sistemas e equipamentos, de menor peso e porte, pois estamos falando de áreas pequenas", acrescentou.

Uma política de P&D para o desenvolvimento do setor precisa também estar atenta aos aspectos econômicos. "Os fornecedores e os prestadores de serviço no setor não têm acesso ao BNDES", ressaltou o debatedor Eduardo Cunali, da Terra Verde Concessionária JD, distribuidora de máquinas agrícolas. Uma solução, disse, seria os fornecedores se reunirem em condomínios, na forma de associações ou cooperativas.

O debatedor Antonio Tittoto, fornecedor de cana e consultor, ressaltou a questão cultural. "O fornecedor é conservador, medroso, trabalha à margem desse frenesi de tecnologia que vemos nas usinas", afirmou. Para ele, falta "tecnificação" dos fornecedores.

Aproveitamento da palha se torna lucrativo

Para falar dos melhores usos do que sobra no canavial depois da colheita, Tomaz Caetano Ripoli, da Esalq, apresentou a palestra "Palhiço de cana: opção para geração?". Palhiço é o que sobrou da colheita — além da palha, inclui a terra que se misturou à sobra, ervas, ponteios, raízes etc.

Segundo ele, uma tonelada de palhiço equivale a algo entre 1,2 e 2,8 EBP (equivalentes barris de petróleo, um padrão de medição utilizado para preços e custos em energia). "Como em um hectare de canavial ficam de quatro a nove toneladas de palhiço [peso seco], temos uma usina de energia renovável", ressaltou. Ele pesquisa o aproveitamento do palhiço e do bagaço para gerar energia. Um dos focos do seu trabalho foi o processo de recolhimento desse palhiço, estudado junto com o grupo Cosan. "Vimos que o ideal é deixar 50% do palhiço no campo, para fins agronômicos, e também deixar a terra, para não afetar a microbiota", explicou.

Já o debatedor Edgard Beauclair, também da Esalq, defendeu um planejamento nas usinas que faça uma divisão clara entre a cana produzida para energia e a destinada para açúcar. A cana para fins energéticos requer colheita integral, para ter aproveitamento total. Contudo, o teor de fibra contido nesse material traz uma série de problemas industriais que precisam ser estudados. "Acredito muito no desenvolvimento de novas tecnologias em fermentação de celulose, desenvolvida para madeira. Poderíamos entrar nesse esquema", sugeriu.

Outro debatedor, Ricardo Soares de Arruda Pinto, consultor da Idea News, apontou para o problema tecnológico de separar a terra da palha. "É importante priorizar isso", indicou. Para o consultor, as pesquisas precisam aproveitar a janela da co-geração, dadas as projeções de falta de 3 mil megawatts de energia na matriz brasileira em 2009.

Parcerias no Projeto Políticas Públicas

O projeto é resultado de uma parceria entre a Unicamp e a Apta, que coordena os centros de pesquisa estaduais da Secretaria de Agricultura paulista: Instituto Agronômico de Campinas, Instituto Biológico, Instituto de Economia Agrícola, Instituto de Pesca, Instituto de Zootecnia e Instituto de Tecnologia de Alimentos. Também participam do projeto o CTC, a Embrapa Instrumentação Agropecuária, o IPT, a Rede Interuniversitária para Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro (Ridesa), por meio da integrante regional dessa rede, a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Jaboticabal, e duas unidades da USP, a Escola de Engenharia de Lorena (EEL — antiga Faculdade de Engenharia Química de Lorena, a Faenquil) e a Esalq, de Piracicaba.


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