Sistema Paulista de Parques Tecnológicos
Estágio de implantação varia
de cidade para cidade; São José
dos Campos, São Carlos e Campinas são os mais avançados
Janaína
Simões
Quando o governador Geraldo Alckmin assinou o decreto que criou o Sistema Paulista de Parques Tecnológicos, no dia 6
de fevereiro, o trabalho de implantação deles já
havia sido iniciado; e o estágio em que a implantação
de cada um dos parques se encontra difere bastante de cidade para cidade.
O parque tecnológico de São José dos Campos, por
exemplo, já tem área delimitada e deve ser o primeiro, entre
os cinco previstos, a ter seu núcleo em atividade — ainda
em 2006. Em Campinas, o próximo passo a ser dado depende de a prefeitura
modificar o zoneamento da área potencialmente mais interessante
para a instalação do parque — que é a extensão
do projeto do Pólo Tecnológico de Campinas, Pólo
Ciatec II, constituído na década de 1970. Já em São
Carlos, a prefeitura está prestes a lançar um chamamento
público para empreendedores interessados em construir o parque
ou oferecer área para sua instalação.
Os dois outros parques — São Paulo e Ribeirão Preto
— estão em estágio mais precoce. Em São Paulo,
a equipe de implantação está estudando, em parceria
com a equipe local, duas opções de terreno para instalação
do parque tecnológico da Região Metropolitana. Caso a opção
por instalar o núcleo do parque seja o campus da Universidade de
São Paulo (USP), há possibilidade de o parque começar
a operar ainda em 2006, porque já existem infra-estrutura e empresas
na área selecionada, além da facilidade do prédio
central, que envolve a nova incubadora, poder ficar pronto ainda este
ano. Em Ribeirão Preto, a equipe local acaba de iniciar os estudos
de viabilidade e deve sair com o chamamento de terras, para identificar
proprietários de glebas interessados em participar do empreendimento.
O chamado grupo de implantação do Sistema Paulista de Parques
Tecnológicos — um dos 47 projetos estratégicos do
Estado — começou a trabalhar bem antes da assinatura do decreto
de sua criação. No dia 30 de novembro de 2004, o governador
Geraldo Alckmin assinou o convênio que delegou à Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em
associação com a Secretaria de Ciência, Tecnologia
e Desenvolvimento Econômico, a coordenação do processo
de implantação de parques no Estado. João Steiner
coordena o grupo, composto por quatro pessoas, especialistas em políticas
públicas. A partir da instalação do escritório
na Avenida Faria Lima, em setembro de 2005, o ritmo apertou. Em 2004,
o Estado aportou R$ 2,5 milhões para o início dos estudos
de viabilidade. Para 2006, o orçamento total é de R$ 11
milhões, sendo R$ 9 milhões livres para investimento.
São José dos Campos
A prefeitura de São José dos Campos publicou no dia 17 de
fevereiro o decreto de desapropriação do terreno da Solectron,
localizado à beira da Dutra, onde será construído
o parque tecnológico. A área vai abrigar também um campus da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e outro da
Universidade Estadual Paulista (Unesp), uma unidade do Instituto de Pesquisas
Tecnológicas (IPT) e outra do Instituto de Tecnologias Biomédicas
(ItecBio). A Embraer cogita instalar no parque um novo centro de pesquisa
e desenvolvimento, mas ainda não quer se manifestar oficialmente.
A presença da quarta maior empresa aeronáutica mundial é
considerada decisiva para a consolidação do parque.
O espaço ocupado pela Solectron vai ser o núcleo inicial
do parque tecnológico da cidade. No ano passado, a prefeitura,
o Centro para Competitividade do Cone Leste Paulista (Cecompi) —
entidade de direito civil privada voltada para promoção
do empreendedorismo e da inovação — e o governo estadual
fizeram um chamamento para identificar proprietários privados interessados
em participar do desenvolvimento do parque. Há proprietários
propondo um empreendimento de uso misto.
"Estamos na fase de implantação. O foco do parque é
o setor aeronáutico e aeroespacial. Mas áreas complementares
em pesquisa, desenvolvimento e inovação também nos
interessam. Um exemplo de competências laterais ao setor é
petróleo — que tem relação com o combustível
de avião. Software é o mesmo caso", explica
Agliberto Chagas, gerente executivo do Cecompi.
O Cecompi organizou os estudos de viabilidade e implantação
do parque de São José — como o estudo prospectivo
das melhores áreas para instalação, que definiu quatro
locais viáveis. Há também um estudo sobre modelos
de gestão de parques tecnológicos, que analisa experiências
já existentes. "Estamos concluindo um parecer jurídico
que dirá qual modelo é mais indicado", conta Chagas.
Agora, a equipe trabalha no plano urbanístico e no detalhamento
do perfil científico e tecnológico do parque.
Segundo Carlos Américo Pacheco, membro do grupo de implantação
do Sistema Paulista de Parques, o governo estadual deverá aportar
recursos para a reforma do prédio desapropriado da Solectron, para
aprontar rapidamente o espaço destinado ao condomínio industrial
de empresas de base tecnológica (EBTs). O Sistema também
deverá ajudar na contratação de um gestor profissional
que se encarregue da implantação do parque. Valores ainda
não foram definidos porque, neste momento, a equipe de implantação
do Sistema está discutindo como alocar os R$ 9 milhões disponíveis
para investimentos em 2006 em reformas, construções e eventuais
contratações de gestores ou desenvolvedores em todos os
parques.
Campinas
Já existe uma área delimitada para implantação
do parque tecnológico de Campinas, o Pólo II do Ciatec,
com várias propriedades particulares. Na lei de zoneamento urbano,
a sede do parque tecnológico está situada entre a Unicamp
e a PUC-Campinas. Diversas estruturas já estão instaladas
no local, como o antigo centro de pesquisa da Telebrás, o CPqD,
o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e empresas
da área farmacêutica, de tecnologia da informação,
muitas delas desdobramento das atividades da Unicamp e do CPqD.
Como destacou o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge, em
artigo do Correio Popular (22 de dezembro
de 2005), as 30 empresas ali instaladas empregam hoje quase 3 mil pessoas,
e se beneficiam da presença de nove institutos de pesquisa e da
infra-estrutura existente: uma boa malha rodoviária, o aeroporto
internacional de Viracopos, a rede de telefonia e de transmissão
de dados. Segundo a Agência de Inovação da Unicamp,
39 empresas já manifestaram o interesse por se instalar no parque
— companhias da área de tecnologia da informação,
competência central do parque, e também de biotecnologia
e fármacos, setores de destaque em Campinas. A informação
foi veiculada em reportagem do Jornal da Unicamp de 20 de fevereiro.
"A própria concepção do parque tem muito da
Unicamp, uma vez que a própria universidade fez o projeto do parque,
junto com a prefeitura de Campinas e o Ciatec", ressaltou o reitor
em entrevista a Inovação Unicamp.
"A Unicamp é grande fornecedora de conhecimento e formadora
de recursos humanos qualificados. Seguramente será motivo de atração
de empresas para esse parque", diz. A universidade será uma
das grandes parceiras das empresas que ali se instalarão, nos projetos
de desenvolvimento de novos produtos e processos. "O projeto do parque
prevê a instalação de uma incubadora de empresas,
para o qual o apoio da universidade será fundamental", acrescenta.
"Como geradora de novos conhecimentos, a Unicamp tem como objetivo
encontrar mecanismos para colocar esse conhecimento a serviço da
comunidade. Licenciar patentes, ajudar na concretização
de novos produtos e processos são atividades que ocorrem com intensidade
em ambientes como os parques tecnológicos, e isso está na
base do interesse da Unicamp pelo empreendimento", finaliza.
Como lembrou o reitor, a Unicamp e a prefeitura fizeram um grande estudo para a implantação do parque, financiado pela Fapesp e pela
Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). O estudo propôs uma
conceituação para o parque, levantou as condições
físico-territoriais e formulou alternativas para um plano urbanístico
básico. O projeto prevê uma área corporativa para
as atividades de base tecnológica, um núcleo central onde
ficarão a pré-incubadora e a incubadora de empresas, instalações
de serviços compartilhados e a sede do parque. Uma segunda área,
de uso misto, inclui comércio, serviços e um espaço
residencial.
O estudo serviu de base para a formulação de propostas de
ação conjunta entre Estado e prefeitura para 2006, apresentadas
em janeiro pela equipe do Sistema. No documento, ainda não respondido
pela prefeitura, o governo do Estado se propõe a apoiar o núcleo
central do parque e a mudança na lei de uso e ocupação
do solo da área, necessária para facilitar a implementação
do parque. "Estamos dispostos também a alocar recursos para
atrair desenvolvedores que sejam capazes de assumir esse empreendimento,
com condições jurídicas e financeiras de empreender
a instalação do parque", destaca Carlos Américo
Pacheco, que também é professor do Instituto de Economia
da Unicamp.
Em paralelo, a equipe do Sistema está trabalhando com as instituições
da região, como o CPqD, a Fundação Fórum Campinas
e a Agência de Inovação da Unicamp, para detalhar
o perfil do parque, que dirá o tipo de atividades e de empresas
que poderiam se instalar na área. Há uma tendência
a considerar tecnologia da comunicação e informação
o foco do parque de Campinas.
São Carlos
Em São Carlos, a prefeitura assumiu a coordenação
da equipe local, integrada por representantes da Universidade Federal
de São Carlos (UFSCar), USP, Unesp Araraquara e as duas unidades
da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) —
a Instrumentação Agropecuária (CNPDia) e a Pecuária
Sudeste. Foram três reuniões, em que se chegou a um plano
de trabalho e à minuta do documento de chamamento público
para empresas interessadas em construir o parque ou em oferecer terras
para a construção. "Estamos esperando a autorização
da equipe de implantação do Sistema de Parques para podermos
publicar esse chamamento e o plano de trabalho", conta Edson Leal,
vice-prefeito e secretário municipal de Desenvolvimento.
A partir da escolha da área, será feito o estudo de viabilidade
do parque. "Pensamos em criar um centro de estudo em inovação
tecnológica, que ajude as empresas a interagir com o setor acadêmico.
Essa é uma idéia em estudo", revela.
Ribeirão Preto
Um gerente e três pessoas trabalhando full time já
pertencem à equipe local de implantação do parque
de Ribeirão. Em março deverá ser publicado um chamamento
de terras para identificar os proprietários de glebas interessados
em participar da constituição do parque. De acordo com Geciane
Porto, diretora presidente da Fundação Instituto Pólo
Avançado da Saúde de Ribeirão Preto (Fipase) e coordenadora
do pólo de Ribeirão Preto da Agência de Inovação
da USP, o prazo para apresentação de propostas será
de 90 dias. Haverá uma reunião pública para explicar
o projeto. A Fipase apóia as empresas do setor de saúde
da região objetivando a criação de um cluster de empresas de equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos.
A equipe trabalhou no estudo de viabilidade, fará o levantamento
fundiário e de competências tecnológicas das instituições
presentes em Ribeirão. Também mapeará as empresas
interessadas, do setor de saúde — que inclui empresas de
biotecnologia e de equipamentos médico-hospitalares e odontológicos.
A Fapesp e a Finep apoiarão esses estudos. "Devemos concluir
neste ano os estudos e ter a definição do modelo jurídico
e operacional para dar início às operações
do parque em 2007", diz. O apoio informal, mas conhecido, do Ministro
da Fazenda e ex-prefeito da cidade, Antonio Palocci, vem tornando mais
ágil o andamento do projeto.
O parque será instalado em alguma área disponível
próxima da USP. "Precisamos de uma área grande, com
cerca de 1 milhão de metros quadrados, e de acesso fácil
— o que existe no entorno da universidade", explica. A equipe
local planeja a construção, no parque, de um centro tecnológico
com laboratórios de uso conjunto, serviços de certificação,
de metrologia, entre outras infra-estruturas tecnológicas.
São Paulo
Na Grande São Paulo, está sendo concluída a avaliação
de algumas glebas pertencentes ao Estado, na área metropolitana.
"Pedimos a avaliação de consultores sobre a pertinência
de se empreender um parque tecnológico nessas glebas do Estado,
para saber se é viável", conta Carlos Américo
Pacheco. Em paralelo, está sendo avaliado um outro projeto referente
à reurbanização do entorno da USP. O terreno em exame
está situado na região de Guarulhos, na Grande São
Paulo. Na outra vertente, o grupo examina o estabelecimento do núcleo
do parque tecnológico de São Paulo no campus USP, no Butantan,
em um terreno de 24.600 metros quadrados do Instituto de Pesquisas Energéticas
e Nucleares (Ipen). Nesse terreno funciona, hoje, o Centro Incubador de
Empresas Tecnológicas (Cietec), atualmente abrigando 104 empresas.
A construção dos prédios do parque está em
fase de licitação, segundo Desirée Zouain, conselheira
do Cietec. "Prevemos a inauguração do núcleo
do parque, já com algumas empresas instaladas, para o final do
ano de 2006", diz. Desirée fez doutorado sobre o tema parques
tecnológicos urbanos, no âmbito do Programa de Políticas
Públicas da Fapesp. Seu trabalho resultou em um livro, que detalha
teoricamente o modelo, a ser publicado brevemente pela Associação
Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos de Tecnologias Avançadas
(Anprotec), em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às
Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). O livro foi escrito por ela e por
Guilherme Ary Plonski, diretor do Instituto de Pesquisas Tecnológicas
do Estado de São Paulo (IPT), que também participa do projeto.
No caso de se optar pela revitalização
do entorno da USP, o projeto prevê, na segunda fase, o estímulo
à ocupação das regiões que rodeiam o campus da universidade, buscando-se o apoio da prefeitura de São Paulo,
principalmente no que concerne a questões de incentivos urbanísticos
e fiscais para a instalação de empresas de base tecnológica
na região, conveniadas com o parque. Para a ocupação
do parque serão lançados editais. "Estamos estudando
ainda a possibilidade de instalação de empresa âncora",
conta Desirée. O estudo vocacional para essa região está
sendo desenvolvido com auxílio de bolsista do Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). "Acreditamos
que a primeira etapa do projeto, com a caracterização vocacional
da região, esteja concluída em maio deste ano", revela.
A Secretaria de Ciência e Tecnologia de São Paulo pretende
promover o desenvolvimento de municípios da área leste da
Região Metropolitana da capital, e pediu ao grupo que fizesse estudos
de viabilidade para a implantação do parque tecnológico
em terreno cedido pelo governo estadual, localizado entre as cidades de
Itaquaquecetuba, Arujá e Guarulhos. "Esses estudos devem estar
prontos possivelmente ao final da primeira quinzena de março, contando
com um detalhado estudo vocacional da região", afirma. As
entidades que conduzem o projeto do Núcleo do Parque Tecnológico
de São Paulo são a USP, o IPT, o Ipen, o Sebrae e o Ministério
da Ciência e Tecnologia (MCT), com apoio da Secretaria de Ciência,
Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado. |