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Bem
longe do trivial
Fabricação
de nanotubos em larga
escala é gargalo para a indústria
Rachel
Bueno
Os nanotubos
de carbono são 100 mil vezes mais
finos que um fio de cabelo e invisíveis
até para microscópios ópticos.
Apesar disso, possuem a maior resistência
mecânica dentre todos os materiais
conhecidos não quebram nem
deformam quando dobrados ou submetidos à
alta pressão. Destacam-se também
como dos melhores condutores de calor que
existem e, para completar, podem ser capazes
de transportar eletricidade. A reunião
de tais propriedades em uma única
estrutura (e tão pequena!) ativa
a imaginação de cientistas
e homens de negócios: adicionados
a plásticos, os nanotubos podem endurecê-los
ou torná-los condutores de eletricidade;
a tecidos, poderiam torná-los invulneráveis;
por serem extremamente pequenos e leves,
podem chegar ao interior de uma célula
e serem usados como sensores para diagnósticos
médicos.
O entusiasmo
com as possibilidades abertas pelas propriedades
dos nanotubos para o desenvolvimento de
novos materiais excita homens de negócios,
e também os cientistas da área.
No Brasil, há uma comunidade de pesquisadores
estudando nanotubos. Eles estão concentrados
em universidades públicas (UFMG,
UFPR, UFRJ, Unicamp, e USP, entre outras)
e centros de pesquisa (Laboratório
Nacional de Luz Síncrotron, em Campinas,
SP). "Existe a crença de que
os nanotubos venham a substituir o silício
na era da nanoeletrônica", ressalta
Marcos Pimenta, professor do Departamento
de Física da UFMG e coordenador do
Instituto do Milênio de Nanociências.
Para que
os nanotubos cheguem a se incorporar a materiais
de uso comum, há um obstáculo
a ser vencido: desenvolver uma tecnologia
barata e confiável para produzir
o material em quantidade, e segundo especificações
pré-determinadas requisitos
imprescindíveis para seu uso industrial.
Os processos conhecidos de síntese
dessas estruturas não dão
conta de uma produção em larga
escala. Luiz Orlando Ladeira, professor
que pesquisa estes processos no Departamento
de Física da UFMG, diz que a dificuldade
deriva do fato de a descoberta dos nanotubos
ter acontecido recentemente o primeiro
artigo cientifico foi publicado em 1991.
"A ciência ainda está
aprendendo a dar uma função
para eles", diz. Aldo Zarbin, do Departamento
de Química da UFPR, acrescenta que
os estudos básicos na área
também estão longe de serem
concluídos. Dentre os pontos que
ainda precisam ser explorados, ele cita
o desenvolvimento de métodos adequados
para retirar impurezas das amostras, o estudo
da variação das propriedades
dos nanotubos quando combinados a outros
materiais, e o desenvolvimento de métodos
de síntese que possam ser transformados
depois em processo industrial.
Mas,
afinal, o que é um nanotubo?
Imagine
uma folha de papel enrolada, formando um
cilindro. Agora imagine que a folha, ao
invés de ser de papel, seja feita
de átomos de carbono, e tenha a espessura
de apenas um átomo; essa folha enrolada
é o nanotubo de carbono. Ocos por
dentro, os nanotubos têm as extremidades
fechadas, e seu diâmetro é
de cerca de um nanômetro a
bilionésima parte do metro. Há
duas décadas, o diamante e o grafite
eram os únicos materiais conhecidos
formados somente por carbono. Em 1985, os
cientistas descobriram que átomos
de carbono também podiam se organizar
no espaço como bolas os fulerenos.
Seis
anos mais tarde apareceram os nanotubos.
O que distingue estas quatro formas de "carbono
elementar" é a maneira pela
qual os átomos estão organizados
e ligados uns aos outros no material. No
diamante, cada átomo de carbono liga-se
a quatro outros, que se dispõem no
espaço como se estivessem nos vértices
de um tetraedro. O grafite, por sua vez,
é constituído por folhas de
grafeno estruturas planas de carbono,
da espessura de um átomo, em que
cada carbono se liga a três vizinhos,
o que resulta num desenho semelhante a uma
colméia de hexágonos. O grafite
se forma pela sobreposição
dessas folhas como num maço de papel.
No fulereno mais conhecido, o C60, as ligações
atômicas estão organizadas
em superfícies curvas semelhantes
a uma bola de futebol. Os nanotubos também
resultam da organização dos
átomos de carbonos em folhas, como
no grafite; mas em lugar de estarem empilhadas,
cada folha se enrola num cilindro. O tubo
que resulta de uma só folha é
chamado de nanotubo de parede única.
Quando várias folhas se enrolam de
maneira concêntrica, tem-se o nanotubo
de parede múltipla.
"As
propriedades dos nanotubos de carbono estão
diretamente relacionadas ao fato de serem
de parede única ou múltipla.
Dependem também do diâmetro,
do número de camadas concêntricas
(no caso dos de parede múltipla)
e da maneira pela qual a folha se enrola",
explica Zarbin. Essa forma de enrolar determina
se os nanotubos serão condutores
ou semicondutores. Essa diferença
é crucial para as aplicações
mais sofisticadas, como a eletrônica,
mas de menor importância para os usos
que dependem exclusivamente das propriedades
mecânicas dos tubos pois todos os
tipos são duros e resistentes. No
momento, a ciência já sabe
como produzir separadamente exemplares de
parede única e de parede múltipla.
Mas a síntese isolada, por exemplo,
de nanotubos condutores, ainda é
um mistério a ser desvendado.
Como
os nanotubos são feitos atualmente?
Hoje,
quem consome nanotubos são os laboratórios
acadêmicos ou industriais interessados
em nanociência e nanotecnologia. Os
pesquisadores brasileiros optaram por produzir
eles próprios as amostras de nanotubos
que utilizam em seus experimentos. Em parte,
porque é mais barato sintetizá-los
do que comprá-los prontos. "O
preço comercial dos nanotubos é
extremamente elevado", justifica Zarbin.
Há várias empresas que fabricam
nanotubos* para vender, entre elas a belga
Nanocyl
e a norte americana Carbon Nanotechnologies
Inc. (leia
mais). A Nanocyl
vende o grama de nanotubos de parede única
sem impurezas por €$ 500,00 e a Carbon
Nanotechnologies por US$ 500,00. Outro motivo
para a fabricação caseira
é o interesse em aprimorar a técnica:
"O processo de síntese ainda
está em plena atividade de pesquisa",
ressalta o pesquisador. Na USP de Ribeirão
Preto, por exemplo, o grupo coordenado por
José Maurício Rosolen, do
Departamento de Química, começou
recentemente a sintetizar nanotubos de parede
dupla. Na UFMG, o professor Ladeira está
estudando técnicas de fabricação
em larga escala, embora ressalte que sua
maior preocupação é
com a qualidade e não com a quantidade.
Atualmente seu laboratório é
capaz de sintetizar, segundo os cálculos
do recém doutor André Ferlauto,
cerca de 100 mg de nanotubos puros em meio
dia através do processo CVD (de Chemical
Vapour Deposition, Deposição
Química de Vapor).
A outra
maneira de obter nanotubos chama-se "descarga
de arco". As universidades brasileiras
empregam e dominam ambos os métodos.
De acordo com Ladeira, o método por
descarga de arco dá origem a nanotubos
mais perfeitos, por trabalhar com altíssimas
temperaturas. Mas tem a desvantagem de produzir
uma grande quantidade de carbonos amorfos.
Nos carbonos amorfos, ao contrário
do que acontece nas formas cristalinas do
carbono (nanotubos, fulerenos, diamante
e grafite), os átomos estão
desordenados, sem posicionamento nem espaçamento
definidos entre eles. A purificação
envolve uma série de processos químicos
e térmicos complicados. Já
a fabricação por deposição
química, explica o professor, é
mais controlada e não gera tantos
carbonos amorfos. Mesmo assim, há
uma etapa de purificação necessária
para eliminar os resíduos dos catalisadores
usados. Ambos os processos produzem nanotubos
de parede única e de parede múltipla.
Mudanças em determinados parâmetros,
como a pressão, determinam a produção
de um ou de outro.
Por descarga de arco ou por deposição
química de vapor
Na síntese
por descarga de arco uma corrente elétrica
de alta intensidade é aplicada a
dois eletrodos de grafite, que são
aquecidos a temperaturas próximas
dos 3700° C. A essas temperaturas, o
grafite primeiro vira vapor e em seguida
se condensa, na forma de uma fuligem que
contém nanotubos. O processo ocorre
em atmosfera controlada, geralmente preenchida
por um gás, mas também pode
ser feito dentro da água. Na USP
de Ribeirão Preto, Rosolen dispõe
de três reatores de descarga de arco:
dois em atmosfera de gás hélio
e um em água. Os nanotubos foram
descobertos por descarga de arco em 1991
pelo pesquisador japonês Sumio Iijima,
que os comparou a agulhas. Segundo ele,
cada "agulha" compreendia de dois
a 50 tubos concêntricos formados por
folhas de grafeno. Os nanotubos de parede
única só ficaram conhecidos
dois anos depois.
Gases como
o metano e o etileno (compostos por átomos
de hidrogênio e de carbono) são
a matéria-prima do processo por deposição
química. O gás é introduzido
em um forno junto com o catalisador metálico
(ferro, níquel ou cobalto). Ambos
são aquecidos até aproximadamente
900° C, para que se decomponham. Os
átomos de carbono provenientes do
gás grudam nas nanopartículas
do metal dissolvido. Os nanotubos crescem
então a partir destas partículas
o diâmetro deles depende do
tamanho delas. A equipe do professor Zarbin
utiliza uma molécula "dois em
um" no processo CVD. O ferroceno, cuja
fórmula é Fe(C5H5)2, possui
em sua composição carbono
e ferro, que atua como catalisador.
Separar
os nanotubos depois de produzidos é
um problema
Os nanotubos
de carbono geralmente passam por uma espécie
de controle de qualidade, a caracterização.
"A primeira experiência que toda
pessoa que trabalha com síntese de
nanotubos faz é a de espalhamento
Raman. É uma medida que dá
várias informações
sobre a qualidade da amostra", explica
o professor Marcos Pimenta. O espalhamento
é uma das técnicas de caracterização
mais difundidas. Nele, um feixe de laser
é emitido sobre os nanotubos, que
respondem espalhando a luz. Quando analisada
em um espectrômetro, a luz espalhada
pode revelar, entre outras características,
o grau de pureza, o diâmetro, a quantidade
de paredes e até a condutividade
dos tubos. Apesar disso, ainda não
é possível separar os nanotubos
que apresentam as mesmas propriedades. "Este
tem sido um grande desafio", diz Pimenta.
Segundo ele, apenas alguns laboratórios
nos Estados Unidos estão começando
a estudar alternativas para viabilizar este
tipo de separação.
IBM fez transistor usando nanotubos em seus
laboratórios
Atualmente, os componentes de computadores
são feitos de silício, mas
a miniaturização no setor
impulsiona a busca por materiais que possam
ser usados em chips cada vez menores. Em
2001, cientistas do departamento da IBM
dedicado a pesquisas em nanociências
(Nanoscale Science Research Department)
deram o primeiro passo para mostrar a viabilidade
da aposta: conseguiram desenvolver um transistor
apenas com nanotubos de carbono. Os transistores
funcionam como pontes que levam dados de
um lugar para o outro. Quanto menores eles
forem, mais transistores caberão
em um mesmo chip e, conseqüentemente,
maior será a velocidade do computador.
Até então, a barreira para
esta aplicação tornar-se realidade
era a impossibilidade de se produzir nanotubos
semicondutores separadamente dos condutores.
Transistores precisam de semicondutores.
Os métodos conhecidos de síntese,
entretanto, dão origem a uma espécie
de corda, na qual os nanotubos de ambos
os tipos estão fortemente ligados.
A única maneira conhecida de isolá-los
era manipulá-los individualmente,
um processo bastante lento.
A solução
encontrada no laboratório da IBM
foi chamada de "destruição
construtiva". A técnica consiste
em destruir os indesejáveis nanotubos
condutores através de um choque elétrico.
Após a síntese, a "corda"
é depositada sobre uma fina camada
de silício. Os cientistas utilizam
esta camada como um eletrodo capaz de "desligar"
os nanotubos semicondutores, o que impede
que qualquer corrente os atravesse. Em seguida,
aplicam uma voltagem apropriada à
camada de silício contendo nanotubos.
Os condutores, desprotegidos, acabam sendo
destruídos, enquanto os semicondutores
permanecem intactos.
Em
http://www.personal.rdg.ac.uk/~scsharip/tubes.htm,
há uma lista de empresas que comercializam
nanotubos.
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