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..Publicada em 04 de novembro 2004

Quase como no filme "Viagem Fantástica"

Software desenvolvido em tese de doutorado antecipa
medicina do futuro baseada em nanotecnologias

Leia a entrevista de Adriano Cavalcanti, criador do software
que simula a navegação de nanorrobôs no interior do corpo

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Software
desenvolvido em tese de doutorado antecipa
medicina do futuro baseada em nanotecnologias

Rachel Bueno

Robôs que medem um micrômetro de comprimento trafegam pela corrente sanguínea desviando-se dos glóbulos vermelhos — obstáculos seis vezes maiores do que as minúsculas máquinas. Dotados de sensores e barbatanas que facilitam a navegação, eles se movem pelo líquido viscoso impulsionados por suas hélices. Seguem rumo a uma célula cancerosa do fígado, na qual depositarão a carga de material radioativo que levam consigo. Por dentro do paciente do leito ao lado, os nanorrobôs realizam uma tarefa diferente, não menos importante: usam suas garras diminutas para remover um coágulo que obstrui uma artéria do coração.

Em seu estágio atual a nanotecnologia não oferece os meios necessários à construção de estruturas tão pequenas, complexas e precisas como as descritas acima, nem garante que, se existissem, poderiam realizar tais tarefas. Os cientistas, contudo, já criam ferramentas que se encaixam nessa especulação sobre o futuro. Um trabalho nesse sentido é o software Nanorobot Control Design (NCD), desenvolvido por Adriano Cavalcanti, aluno de doutorado da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação (Feec) da Unicamp. O NCD cria um ambiente virtual, em três dimensões, com condições semelhantes às do corpo humano. Figuras representando os nanorrobôs, telecontroladas, movimentam-se por esse ambiente e executam tarefas como em uma situação clínica real. A performance dos modelos computadorizados fornece informações valiosas para os grupos empenhados em projetar e fabricar nanorrobôs, além de prever como eles se comportarão quando forem construídos e aplicados à medicina.

De acordo com Cavalcanti, haverá dois tipos de nanorrobôs: os que farão intervenções cirúrgicas e os que monitorarão as funções vitais do corpo humano. Com o NCD é possível representar ambas as ações. Um dos diversos estudos conduzidos pelo doutorando (os estudos estão listados no site www.nanorobotdesign.com) simulou o monitoramento dos níveis nutricionais em pessoas com problemas críticos de anorexia. Há trabalhos em andamento nos quais os nanorrobôs virtuais extraem células-tronco da medula óssea e as empregam no tratamento de doenças como a diabete e o mal de Alzheimer. "A utilização de células-tronco e nanorrobôs resultará em um impacto expressivo quanto à expectativa de melhoria na qualidade e duração da vida do ser humano", acredita Cavalcanti.

Os ensaios de situações clínicas e o aprimoramento do software contam com a colaboração de pesquisadores de outros países, que fornecem desde algoritmos matemáticos até informações sobre as propriedades do sangue. Para exemplificar, há colaboradores na Universidade de Stanford e no HP Labs (laboratório de pesquisa da Hewlett-Packard), ambos nos Estados Unidos, e na Universidade de Tel Aviv, em Israel. Depois de participar de um congresso na cidade norte-americana de Salt Lake City, no final de setembro, Cavalcanti firmou mais uma parceria — dessa vez, com um especialista na construção de nanomotores da Universidade de Utah.

O criador do NCD crê que os primeiros nanorrobôs poderão ficar prontos em cinco anos. Já para os mais sofisticados, revestidos com materiais à base de estruturas de diamantes mecanicamente manipuladas, imagina um prazo de uma década. Segundo ele, essas estruturas estão em desenvolvimento e são extremamente resistentes. Essa característica permite que o material seja manipulado e moldado para a confecção e montagem de peças específicas, com dimensões mínimas, sem se desmanchar.

Luiz Carlos Kretly, professor do Departamento de Microonda e Óptica (DMO) da Feec e orientador do doutorado de Cavalcanti, explica que os nanorrobôs serão injetados em grandes quantidades no organismo porque nem todos terão sucesso em sua tarefa. Um dos perigos que correm é o de sofrerem fagocitose (as células englobam corpos estranhos sólidos, os destroem e eliminam os resíduos). Para que isso não aconteça, os nanorrobôs devem ser feitos de materiais biocompatíveis — ou seja, aqueles que o organismo não rejeita e nem considera um corpo estranho. Outra coisa importante é o sistema de controle, para evitar a colisão com outros robôs ou com glóbulos vermelhos, por exemplo. Na opinião do professor, é possível que cada nanorrobô carregue um chip autônomo capaz de resolver problemas individuais, mas as principais orientações deverão vir de fora, através de um software. "Uma nave tem computadores, mas Houston também controla", diz ele, referindo-se ao centro de comando das missões espaciais tripuladas da Nasa.

Em outra comparação, destacando a importância de um trabalho científico de simulação como o NCD, Kretly diz que embora uma missão tripulada a Marte ainda não tenha ocorrido, "existe muita pesquisa simulando a viagem por computador, calculando a estrutura da nave, o tipo e a quantidade de combustível, as reações dos tripulantes etc". E acrescenta: "A pesquisa em simulação, de um evento que ainda não ocorreu, antevê problemas e permite otimizar o projeto, como é o caso dos nanorrobôs."

Adriano Cavalcanti começou a pesquisa para desenvolver o NCD na universidade alemã TU Darmstadt, onde passou quatro anos com uma bolsa de estudos, motivado pela "inexistência de ferramentas para análise, prototipagem, construção e controle de nanorrobôs". De volta ao Brasil, entrou este ano no doutorado na Unicamp. Deverá defender sua tese, baseada no software, daqui um ano e meio. Até agora foram três anos de dedicação integral ao simulador. As perspectivas, segundo ele, são excelentes: "Temos recebido inúmeras propostas e convites de parcerias, tanto para a comercialização da atual versão do sistema como para o desenvolvimento de novos projetos." Cavalcanti ainda está modernizando o NCD e pretende criar várias versões dele, para públicos diferenciados. O programa já despertou o interesse das empresas que contribuíram para o seu desenvolvimento, como a HP.

Com os objetivos de congregar pesquisadores da área e viabilizar projetos e cooperações com centros nacionais e internacionais, Cavalcanti fundou o Center for Automation in Nanobiotech (CAN), ou Centro para Automação em Nanobiotecnologia. O capital para a abertura do centro, registrado no endereço residencial do pesquisador, veio de "contribuições de diversos simpatizantes". "O CAN na realidade tem como seu maior patrimônio o know-how dos participantes, que vêm se empenhando para o rápido desenvolvimento de nanorrobôs aplicados à medicina", afirma. Os participantes são pesquisadores de institutos, universidades e empresas espalhados pelo mundo. Coordenados por Cavalcanti, eles trabalham em projetos que envolvem o desenvolvimento de sistemas de controle, simulações de aplicações biomédicas e construção de protótipos físicos de nanorrobôs. (Leia o que mais Adriano disse sobre o CAN)

Além do CAN, a Universidade Politécnica de Montreal, no Canadá; a Universidade Carnegie Mellon e o Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos; a Universidade de Lausanne, na Suíça; a Unicamp e outras instituições estão engajadas na fabricação de nanorrobôs. "Vale lembrar que boa parte desses centros tem utilizado o trabalho que estamos desenvolvendo como ponto de referência na área de sistemas de controle para nanorrobôs", salienta Cavalcanti. O grupo da Unicamp é o coordenado por Kretly. Dois alunos seus de doutorado em microeletrônica estão desenvolvendo micromanipuladores. O professor diz ter conhecimento e tecnologia suficientes para construir uma garra de proporções nanométricas, semelhante a uma que já foi feita na Suécia. Também está em seus planos propor uma parceria ao Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas (SP). Através do equipamento de ressonância magnética nuclear, do tipo existente no LNLS, é possível estudar a estrutura da enzima adenosina trifosfatase ou ATP sintase. A organização dessa enzima, que sintetiza a adenosina trifosfato (ATP), responsável pela liberação de energia em processos biológicos, produz um movimento de rotação. Se acoplada a uma hélice artificial, a enzima pode operar como um nanomotor para a propulsão de nanorrobôs.


Leia a entrevista de Adriano Cavalcanti, criador do software
que simula a navegação de nanorrobôs no interior do corpo

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