| Educação
em Nanotecnologia
Projeto
de educação e divulgação
ganha prioridade do governo e
obtém apoio da Fapesp e da Vitae;
mas ainda falta a manutenção
O projeto NanoAventura,
de divulgação científica
para crianças em idade escolar, acaba
de receber R$ 1,8 milhão da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de
São Paulo (Fapesp) e da Fundação
Vitae. O objetivo do projeto, cujo coordenador
é Marcelo Knobel, professor do Instituto
de Física da Unicamp, é ensinar
de maneira "lúdica e interessante"
alguns conceitos fundamentais da nanociência
e da nanotecnologia. As escalas diminutas
do mundo nano e o modo como átomos
e moléculas se organizam para formar
a matéria são alguns desses
conceitos. "Outra coisa que queremos
passar é que aqui no Brasil se faz
boa nanociência — certamente
no sentido de estimular que no futuro também
se faça boa nanotecnologia",
diz ele. O projeto foi incluído como
prioritário na proposta para nanotecnologia
que o Ministério da Ciência
e Tecnologia (MCT) está preparando
para apresentar à Presidência
da República nas próximas
semanas.
A NanoAventura foi criada
no âmbito da comissão que cuida
da implantação do futuro Museu
de Ciências da Unicamp; e será
implementada em parceria com o Laboratório
Nacional de Luz Síncrotron (LNLS)
e com o Instituto Sangari — organização
não-governamental focada em educação
básica e projetos de ciência
e tecnologia.
É um jogo ao vivo,
semelhante a uma "caça ao tesouro",
cujos temas são a nanociência
e a nanotecnologia. Criar o conteúdo
desse jogo, que deve seguir um enredo, com
começo, meio e fim, requer a contratação
de uma equipe multidisciplinar: arquitetos,
monitores, atores, especialistas em software,
tecnologia da informação,
animação gráfica etc.
O apoio da Fapesp e da Vitae vai financiar
essa fase do projeto. Mas a NanoAventura
tem custos de manutenção,
e também de itinerância: os
parceiros querem levar o jogo a outras cidades
brasileiras, além de Campinas. Para
isso, ainda não há dinheiro.
Knobel estima uma verba anual de R$ 700
mil a R$ 1 milhão para manter o projeto
funcionando, dependendo do tamanho da equipe
envolvida.
Os
detalhes
O jogo foi pensado da seguinte
forma: grupos de até 40 crianças
ou adolescentes, divididos em equipes, entram
em um ambiente — uma tenda, por exemplo
— e recebem um enigma. Para solucioná-lo,
precisam seguir uma série de pistas.
Enquanto interagem com colegas e monitores,
os participantes ficam em contato com diversas
formas de mídia e objetos concretos.
São filmes, animações,
softwares, microscópios, lentes,
discos rígidos de computador, vidros
autolimpantes etc — tudo relacionado
com nanociência e nanotecnologia.
Como as pistas podem admitir mais de uma
resposta, a solução final
varia conforme os caminhos escolhidos.
"É um projeto
fortemente interativo", classifica
Marcelo Knobel. Ele compara a resolução
do enigma da NanoAventura ao processo de
se fazer ciência — em ambos
os casos as equipes teriam, ao mesmo tempo,
de competir e colaborar entre si. "Isso
estimula o trabalho em equipe, a decisão
em grupo", afirma. Knobel ressalta
a intenção de se trabalhar
com elementos do cotidiano, para que as
crianças saiam da experiência
com um outro olhar sobre eles. A elaboração
de oficinas com professores e de material
didático para discussão em
sala de aula, entre outros elementos, também
faz parte do projeto. A idéia é
que as crianças participem de atividades
anteriores e posteriores ao jogo.
De início, o conteúdo
da NanoAventura será voltado para
um público de quinta a oitava série.
Outros períodos escolares poderão
ser incluídos em etapas seguintes
do projeto, assim como novos temas. "Começamos
com nanociência, mas por que não
podemos ir para a questão do lixo,
da água, da energia, da biodiversidade?",
indaga Knobel.
A previsão de inauguração
da NanoAventura é abril de 2005,
no Rio de Janeiro, durante o IV Congresso
Internacional de Centros e Museus de Ciência.
Lá ela passará pelo crivo
"dos melhores avaliadores do mundo",
que são os diretores de museus internacionais
de ciências. Voltará a Campinas,
para ser aprimorada, e em julho deverá
seguir para Fortaleza, onde acontecerá
a Reunião Anual da Sociedade Brasileira
para o Progresso da Ciência (SBPC).
O último destino programado para
o ano que vem é Recife, antes do
retorno definitivo a Campinas.
A comissão para
o Museu de Ciências da Unicamp solicitou
recursos à Financiadora de Estudos
e Projetos (Finep) para viabilizar as viagens
da NanoAventura pelo País. Interessada
no apoio da iniciativa privada, também
inscreveu o projeto como candidato aos benefícios
da Lei Roaunet. A Intel e a Fundação
Abrinq já estão em contato
com a Unicamp.
Outro
projeto do grupo
Outro projeto da comissão
é o TecnoDesafio, também em
parceria com o Instituto Sangari. A coordenação
é do professor Marcelo Firer, do
Instituto de Matemática da Unicamp.
Ainda não há recursos captados,
mas Marcelo Knobel acredita no potencial
da idéia para atrair patrocinadores.
"O TecnoDesafio é um projeto
que tem tudo a ver com a inovação",
afirma. Ele foi elaborado nos moldes da
competição anual "The
Tech Challenge", organizada pelo
The Tech Museum of Innovation, localizado
em San Jose, na Califórnia (EUA).
Seu presidente, Peter Giles, participou
de um workshop na Unicamp em agosto
de 2003, junto com outros diretores de museus
internacionais de ciências. Ele está
assessorando a comissão com a experiência
do The Tech.
O projeto é dividido
em dois tipos de ações, o
Grande Desafio e os Pequenos Desafios. No
primeiro caso, a universidade lançará,
uma vez ao ano, um desafio de caráter
tecnológico. Divididos em equipes,
e com a ajuda de um tutor, os alunos das
escolas da cidade terão alguns meses
para solucionar um problema prático.
No Dia do Grande Desafio, que provavelmente
acontecerá no Ginásio da Unicamp,
uma comissão julgadora avaliará
as soluções apresentadas e
distribuirá às equipes diversas
categorias de prêmios. Poderão
participar estudantes dos ensinos fundamental
e médio, dependendo do grau do desafio.
Os Pequenos Desafios terão
a duração de um dia e acontecerão
em uma escola por vez. Um caminhão
levando ferramentas e materiais —
uma "oficina ambulante" —
irá até a escola, onde os
alunos, novamente em equipes, deverão
resolver um problema prático mais
simples. A Unicamp já começou
a fazer pilotos do projeto. Dia 20 de novembro,
um sábado, estudantes de uma escola
municipal de Campinas foram até a
universidade para participar de um pequeno
desafio.
De acordo com Marcelo Knobel,
a estimativa de custo do TecnoDesafio, considerando
apenas a região de Campinas, é
de R$ 600 mil anuais. "Vamos começar
por aqui, mas nossa intenção
é crescer", diz ele. Em sua
opinião, a NanoAventura e o TecnoDesafio
"são um belíssimo cartão
de visitas para dar aos futuros patrocinadores
uma pequena amostra do que pode vir a ser
o Museu de Ciências". Outros
dois projetos "estão sendo lentamente
iniciados" — são exposições
permanentes, uma sobre energia e outra sobre
o corpo humano.
Ainda não se sabe
quando o museu será criado, mas sua
localização já está
definida: o centro, e não o campus
da universidade. "Queremos que seja
um museu da cidade de Campinas, e não
somente da Unicamp", explica Knobel.
Segundo ele, é "extremamente
complicado" montar e gerenciar um museu
como o desejado — "compatível
com os melhores museus de ciências
do mundo, fortemente lúdico, interativo,
moderno".
A operação
envolve, entre outras coisas, a contratação
de consultores e arquitetos, a organização
de uma estrutura jurídico-administrativa
e a captação de recursos.
Quando o museu existir, planeja-se que sua
manutenção seja custeada pelo
governo, pela iniciativa privada e pela
venda de ingressos aos visitantes —
cada fonte contribuiria com cerca de um
terço da verba total. "Nossa
idéia é criar uma estrutura
auto-sustentável, sem onerar o orçamento
da Unicamp." (R.B.)
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