.NOTÍCIAS
..Publicada em 16 de dezembro 2004

Educação em Nanotecnologia

Projeto de educação e divulgação ganha prioridade do governo e
obtém apoio da Fapesp e da Vitae; mas ainda falta a manutenção

O projeto NanoAventura, de divulgação científica para crianças em idade escolar, acaba de receber R$ 1,8 milhão da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Fundação Vitae. O objetivo do projeto, cujo coordenador é Marcelo Knobel, professor do Instituto de Física da Unicamp, é ensinar de maneira "lúdica e interessante" alguns conceitos fundamentais da nanociência e da nanotecnologia. As escalas diminutas do mundo nano e o modo como átomos e moléculas se organizam para formar a matéria são alguns desses conceitos. "Outra coisa que queremos passar é que aqui no Brasil se faz boa nanociência — certamente no sentido de estimular que no futuro também se faça boa nanotecnologia", diz ele. O projeto foi incluído como prioritário na proposta para nanotecnologia que o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) está preparando para apresentar à Presidência da República nas próximas semanas.

A NanoAventura foi criada no âmbito da comissão que cuida da implantação do futuro Museu de Ciências da Unicamp; e será implementada em parceria com o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e com o Instituto Sangari — organização não-governamental focada em educação básica e projetos de ciência e tecnologia.

É um jogo ao vivo, semelhante a uma "caça ao tesouro", cujos temas são a nanociência e a nanotecnologia. Criar o conteúdo desse jogo, que deve seguir um enredo, com começo, meio e fim, requer a contratação de uma equipe multidisciplinar: arquitetos, monitores, atores, especialistas em software, tecnologia da informação, animação gráfica etc. O apoio da Fapesp e da Vitae vai financiar essa fase do projeto. Mas a NanoAventura tem custos de manutenção, e também de itinerância: os parceiros querem levar o jogo a outras cidades brasileiras, além de Campinas. Para isso, ainda não há dinheiro. Knobel estima uma verba anual de R$ 700 mil a R$ 1 milhão para manter o projeto funcionando, dependendo do tamanho da equipe envolvida.

Os detalhes

O jogo foi pensado da seguinte forma: grupos de até 40 crianças ou adolescentes, divididos em equipes, entram em um ambiente — uma tenda, por exemplo — e recebem um enigma. Para solucioná-lo, precisam seguir uma série de pistas. Enquanto interagem com colegas e monitores, os participantes ficam em contato com diversas formas de mídia e objetos concretos. São filmes, animações, softwares, microscópios, lentes, discos rígidos de computador, vidros autolimpantes etc — tudo relacionado com nanociência e nanotecnologia. Como as pistas podem admitir mais de uma resposta, a solução final varia conforme os caminhos escolhidos.

"É um projeto fortemente interativo", classifica Marcelo Knobel. Ele compara a resolução do enigma da NanoAventura ao processo de se fazer ciência — em ambos os casos as equipes teriam, ao mesmo tempo, de competir e colaborar entre si. "Isso estimula o trabalho em equipe, a decisão em grupo", afirma. Knobel ressalta a intenção de se trabalhar com elementos do cotidiano, para que as crianças saiam da experiência com um outro olhar sobre eles. A elaboração de oficinas com professores e de material didático para discussão em sala de aula, entre outros elementos, também faz parte do projeto. A idéia é que as crianças participem de atividades anteriores e posteriores ao jogo.

De início, o conteúdo da NanoAventura será voltado para um público de quinta a oitava série. Outros períodos escolares poderão ser incluídos em etapas seguintes do projeto, assim como novos temas. "Começamos com nanociência, mas por que não podemos ir para a questão do lixo, da água, da energia, da biodiversidade?", indaga Knobel.

A previsão de inauguração da NanoAventura é abril de 2005, no Rio de Janeiro, durante o IV Congresso Internacional de Centros e Museus de Ciência. Lá ela passará pelo crivo "dos melhores avaliadores do mundo", que são os diretores de museus internacionais de ciências. Voltará a Campinas, para ser aprimorada, e em julho deverá seguir para Fortaleza, onde acontecerá a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O último destino programado para o ano que vem é Recife, antes do retorno definitivo a Campinas.

A comissão para o Museu de Ciências da Unicamp solicitou recursos à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para viabilizar as viagens da NanoAventura pelo País. Interessada no apoio da iniciativa privada, também inscreveu o projeto como candidato aos benefícios da Lei Roaunet. A Intel e a Fundação Abrinq já estão em contato com a Unicamp.

Outro projeto do grupo

Outro projeto da comissão é o TecnoDesafio, também em parceria com o Instituto Sangari. A coordenação é do professor Marcelo Firer, do Instituto de Matemática da Unicamp. Ainda não há recursos captados, mas Marcelo Knobel acredita no potencial da idéia para atrair patrocinadores. "O TecnoDesafio é um projeto que tem tudo a ver com a inovação", afirma. Ele foi elaborado nos moldes da competição anual "The Tech Challenge", organizada pelo The Tech Museum of Innovation, localizado em San Jose, na Califórnia (EUA). Seu presidente, Peter Giles, participou de um workshop na Unicamp em agosto de 2003, junto com outros diretores de museus internacionais de ciências. Ele está assessorando a comissão com a experiência do The Tech.

O projeto é dividido em dois tipos de ações, o Grande Desafio e os Pequenos Desafios. No primeiro caso, a universidade lançará, uma vez ao ano, um desafio de caráter tecnológico. Divididos em equipes, e com a ajuda de um tutor, os alunos das escolas da cidade terão alguns meses para solucionar um problema prático. No Dia do Grande Desafio, que provavelmente acontecerá no Ginásio da Unicamp, uma comissão julgadora avaliará as soluções apresentadas e distribuirá às equipes diversas categorias de prêmios. Poderão participar estudantes dos ensinos fundamental e médio, dependendo do grau do desafio.

Os Pequenos Desafios terão a duração de um dia e acontecerão em uma escola por vez. Um caminhão levando ferramentas e materiais — uma "oficina ambulante" — irá até a escola, onde os alunos, novamente em equipes, deverão resolver um problema prático mais simples. A Unicamp já começou a fazer pilotos do projeto. Dia 20 de novembro, um sábado, estudantes de uma escola municipal de Campinas foram até a universidade para participar de um pequeno desafio.

De acordo com Marcelo Knobel, a estimativa de custo do TecnoDesafio, considerando apenas a região de Campinas, é de R$ 600 mil anuais. "Vamos começar por aqui, mas nossa intenção é crescer", diz ele. Em sua opinião, a NanoAventura e o TecnoDesafio "são um belíssimo cartão de visitas para dar aos futuros patrocinadores uma pequena amostra do que pode vir a ser o Museu de Ciências". Outros dois projetos "estão sendo lentamente iniciados" — são exposições permanentes, uma sobre energia e outra sobre o corpo humano.

Ainda não se sabe quando o museu será criado, mas sua localização já está definida: o centro, e não o campus da universidade. "Queremos que seja um museu da cidade de Campinas, e não somente da Unicamp", explica Knobel. Segundo ele, é "extremamente complicado" montar e gerenciar um museu como o desejado — "compatível com os melhores museus de ciências do mundo, fortemente lúdico, interativo, moderno".

A operação envolve, entre outras coisas, a contratação de consultores e arquitetos, a organização de uma estrutura jurídico-administrativa e a captação de recursos. Quando o museu existir, planeja-se que sua manutenção seja custeada pelo governo, pela iniciativa privada e pela venda de ingressos aos visitantes — cada fonte contribuiria com cerca de um terço da verba total. "Nossa idéia é criar uma estrutura auto-sustentável, sem onerar o orçamento da Unicamp." (R.B.)

2004 - Inovação Unicamp - Direitos Reservados