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..Publicada em 20 de maio 2004


Nove peixes em contato com fulerenos
sem cobertura sofrem dano cerebral

Rachel Bueno

Um estudo da toxicologista ambiental Eva Oberdörster, da Southern Methodist University, de Dallas, no Texas, mostrou que nove peixes jovens da espécie Micropterus salmoides apresentaram danos no tecido cerebral após serem expostos a uma forma solúvel de fulerenos do tipo C60, também conhecidos como buckybolas. Os fulerenos são nanoestruturas formadas apenas por átomos de carbono; nas buckybolas, 60 átomos de carbono se organizam numa estrutura fechada. A exposição dos peixes durou 48 horas e resultou, segundo o estudo, em uma "peroxidação lipídica" no cérebro 17 vezes maior que a observada nos peixes-controle. Na peroxidação lipídica, um átomo de oxigênio extra liga-se às moléculas de gordura. As reações de oxidação levam à produção de radicais livres, nocivos à saúde. As guelras e o fígado dos animais não sofreram danos. Na opinião da pesquisadora, é possível que essa discrepância se deva ao fato de as guelras e o fígado possuírem melhores defesas contra reações oxidantes do que o cérebro.

Os pesquisadores que trabalham com fulerenos usam-nos encapados por materiais biocompatíveis, agregados ao material no momento em que são sintetizados. Em seu experimento, no entanto, Eva optou por exemplares desencapados, doados pelo Centro para Nanotecnologia Biológica e Ambiental da Rice University. Quando estão aparentes, sem cobertura, as superfícies dos fulerenos provocam reações de óxido-redução (reações em que há transferência de átomos de oxigênio), que mudam a estrutura de outras moléculas — como aconteceu com as gorduras do cérebro dos peixes. A justificativa da pesquisadora para o uso de fulerenos desencapadas é que ainda não se sabe ao certo por quanto tempo os revestimentos resistem intactos quando expostos às condições do meio-ambiente. A pesquisadora também escreveu em seu artigo que fulerenos clareiam águas turvas; a hipótese que criou para explicar essa observação é de que as nanoestruturas desencapadas podem ser letais para as bactérias normalmente encontradas em aquários.

Os resultados foram apresentados em um encontro nacional da American Chemical Society (Sociedade Americana de Química), realizado dia 28 de março na cidade de Anaheim, na Califórnia. No final de seu trabalho, Eva Oberdörster diz que novos estudos in vivo, usando fulerenos e outros nanomateriais, precisam ser feitos para determinar como essas estruturas se distribuem por todo o corpo e quais são os efeitos correspondentes. Ela também afirma que os fulerenos — considerados uma boa opção para dispositivos de entrega de drogas — devem ser transportados para as regiões ricas em lipídios, como o cérebro, antes que seus revestimentos se rompam.

A pesquisadora utilizou, no total, 28 peixes da espécie Micropterus salmoides em dois experimentos. No primeiro, ela colocou três peixes em um aquário com 0,5 parte por milhão (ppm) de nC60, uma solução preparada previamente com as buckybolas, e outros três em um aquário para controle. No experimento seguinte, havia um aquário com 1 ppm e dois com 0,5 ppm de nC60, além de dois aquários de controle e dois com peróxido de hidrogênio misturado à água. Com exceção do primeiro aquário, onde foram colocados quatro peixes menores (cerca de 2g), cada um recebeu três animais, em 7 litros de água. Após 24 horas, 30% do volume foi trocado e foi feita uma nova dosagem das substâncias. Ao final de 48 horas, ela matou os peixes. Os quatro peixes menores, do aquário com concentração de fulerenos de 1 ppm, não sofreram alterações. Os demais peixes expostos aos fulerenos aquosos pesavam em média 5,3g.

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