| Sistema
Paulista de Inovação
Nova lei vai regular
parcerias entre setores privado e público;
tramitação deve ocorrer facilmente, avalia
deputado aliado
Por
Janaína
Simões
O governador
do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin,
assinou hoje (06), no auditório da
Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp),
na capital, o Projeto de Lei de Inovação
e o decreto que cria o Sistema Paulista
de Parques Tecnológicos. Ambas as
medidas pretendem incentivar a inovação
e facilitar a parceria entre universidades
e institutos de pesquisa públicos
estaduais e a iniciativa privada. O governo
vai investir R$ 9 milhões em 2006
para a implantação do Sistema
de Parques. Em seu discurso, Geraldo
Alckmin ressaltou o
fato de o Projeto de Lei de Inovação
criar "um sistema paulista de inovação
tecnológica". Os parques tecnológicos,
de acordo com o projeto de lei complementar,
são um dos integrantes desse sistema.
Na mesa
da solenidade, ao lado do governador, estavam
os secretários de Ciência e
Tecnologia e Desenvolvimento Econômico,
João Carlos de Souza Meirelles, e
da Casa Civil, Arnaldo Madeira, os três
reitores das universidades paulistas —
Suely Vilela, da Universidade de São
Paulo (USP), José Tadeu Jorge, da
Unicamp, e Marcos Macari, da Universidade
Estadual Paulista (Unesp) —, o presidente
do Conselho Superior da Fapesp, Carlos Vogt,
e seus diretores, Carlos Henrique de Brito
Cruz, Ricardo Brentani, Joaquim Engler.
Participaram do evento aproximadamente 350
pessoas. Empresários como Cláudio
Vaz, presidente do Centro das Empresas de
São Paulo (Ciesp), José Ricardo
Roriz Coelho, diretor do Departamento de
Competitividade e Tecnologia da Federação
das Indústrias do Estado de São
Paulo (Decomtec-Fiesp), e Ronald Dauscha,
presidente da Associação Nacional
de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia
das Empresas Inovadoras (Anpei); os deputados
Júlio Semeghini (PSDB-SP), federal,
e Célia Leão (PSDB), estadual,
que acompanham, no legislativo, os temas
da Ciência e Tecnologia. Arnaldo Jardim
(PPS), deputado estadual, e o vereador José
Aníbal (PSDB), ex-secretário
de Ciência e Tecnologia do Estado,
também assistiram à cerimônia.
Do governo federal, veio Roberto Jaguaribe,
presidente do Instituto Nacional da Propriedade
Industrial (INPI).
O
sistema de parques tecnológicos
De acordo
com o discurso do secretário Meirelles,
o parque de São José dos Campos
apresenta uma "densidade enorme"
de empresas no setor aeroespacial e de defesa,
mas não tem a mesma concentração
de centros de pesquisa e desenvolvimento
(P&D) privados. A USP, o Instituto de
Pesquisas Energéticas (Ipen) e o
Instituto de Pesquisas Tecnológicas
(IPT) serão os parceiros no parque
tecnológico a ser montado na Grande
São Paulo, voltado para atração
de atividades de pesquisa, desenvolvimento
e inovação (P&D&I)
em nanotecnologia e biotecnologia. O parque
de Campinas será direcionado para
a instalação de centros de
P&D em tecnologias da comunicação
e informação, confirmando
o que disse Alckmin a Inovação.
Em São Carlos será instalado
um parque voltado para ótica e instrumentação
avançada em agricultura. Ribeirão
Preto irá dedicar-se a atividades
em medicina e ciências biomédicas.
O astrofísico
e diretor do Instituto de Estudos Avançados
da USP, João Steiner, lidera o grupo
montado pelo governo do Estado, por meio
da Fapesp, para implantar os parques. No
momento, esse grupo, que também tem
como coordenador o ex-secretário
executivo do Ministério da Ciência
e Tecnologia (MCT), Carlos Américo
Pacheco, articula os diferentes atores imprescindíveis
para a criação de um parque
tecnológico: prefeituras, investidores
imobiliários, proprietários
de terrenos, empresas interessadas em instalar-se
nos parques, universidades e institutos
de pesquisa de cada uma das regiões.
Segundo Steiner, estão mais adiantados
na implementação os parques
de Campinas, São Carlos e São
José dos Campos. Esta fase deve ser
concluída ainda este ano e as obras,
iniciadas em 2007. Os estudos de viabilidade
estão sendo financiados pela Fapesp,
que já investiu R$ 3,9 milhões
nesta fase.
Em seu discurso,
o primeiro da cerimônia, Carlos Vogt
lembrou que, "desde os anos 80, o Estado
de São Paulo discute a criação
de parques tecnológicos" —
distintos dos distritos industriais por
atraírem e concentrarem atividades
de pesquisa e inovação das
empresas. Carlos Henrique de Brito Cruz,
diretor científico da Fapesp, ressaltou
o mérito da iniciativa. "Um
dos nossos desafios é promover a
aproximação entre os setores
público e privado, mas só
a interação entre empresas
e centros de pesquisa ou universidades não
basta. Precisamos levar a atividade de P&D
para dentro das empresas e essa iniciativa
é mais uma contribuição
nesse sentido", destacou ele.
Na
Assembléia
Para o deputado
Arnaldo Jardim (PPS), o Projeto de Lei de
Inovação apresenta uma visão
equilibrada em relação ao
que pode ser feito para incentivar a inovação.
Ele destaca a preocupação
da lei em promover a articulação
entre os setores envolvidos nos processos
de pesquisa, desenvolvimento e inovação
— universidades e centros de pesquisa,
empresas, governo e agência de fomento,
no caso a Fapesp (leia abaixo). "Com
isso, procura-se evitar a dispersão
de recursos. (O projeto) traz
uma visão casada com as linhas
da Fapesp voltadas à inovação
e com a iniciativa da criação
do sistema de parques tecnológicos",
completou. O deputado também chama
a atenção para os estímulos
para que os pesquisadores do sistema público
acadêmico participarem de projetos
de inovação.
"É
ótimo. Mas, para ser um instrumento
completo, precisa abordar a questão
dos incentivos fiscais e compensações
tributárias para incentivar as empresas",
ressaltou Jardim. Questionado sobre a possibilidade
de os benefícios fiscais serem deixados
para a regulamentação, Jardim
explica que, em sua avaliação,
se não houver pelo menos uma previsão
de que haverá incentivos e compensações
tributárias já no anteprojeto
de lei, não será possível
incluir o tema na regulamentação.
O secretário
João Carlos de Souza Meirelles explicou
aos jornalistas no evento que, ao contrário
do que ocorre no nível federal, há
poucas possibilidades de se criar incentivos
fiscais no âmbito dos Estados, pois
as duas únicas tributações
desse nível de governo são
os Impostos sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços (ICMS)
e sobre Propriedade de Veículos Automotores
(IPVA). "Mas nada nos impede de discutir
a criação de incentivos durante
a tramitação do anteprojeto
na Assembléia", ponderou.
O deputado
Arnaldo Jardim acredita que a tramitação
do projeto não será difícil,
dada a relevância do tema e o consenso
sobre a importância da inovação
para o desenvolvimento do Estado. Ele ressalta
que o governador tem uma maioria apertada
na Assembléia e que, muito provavelmente,
acordos serão necessários
para a aprovação do projeto.
Depois de
encaminhado aos deputados, o projeto terá
um prazo de cinco sessões para receber
emendas e passará a tramitar nas
comissões. Deve passar pelas Comissões
de Justiça; Cultura, Ciência
e Tecnologia; e Finanças. Após
isso, vai a plenário, o que deve
ocorrer entre abril e maio. A partir desse
mês, as eleições devem
interferir mais no trabalho da Assembléia
e a tramitação de projetos
será mais complicada, afetada pelo
período eleitoral. Para o deputado,
o fato de o governador estar disputando
dentro do PSDB a indicação
para concorrer à Presidência
da República não deve interferir
na tramitação. "Até
lá, o partido já deve ter
resolvido essa questão", concluiu.
O governador
Geraldo Alckmin acredita que a eleição
em outubro não deverá influenciar
na tramitação do projeto de
lei. O secretário Meirelles já
está agendando com as comissões
da Assembléia reuniões para
discussão do anteprojeto.
O
que prevê o Projeto de Lei de Inovação
Há
dois pontos conceituais em que a lei paulista
avança em relação à
lei federal. O primeiro é o projeto
de lei estadual tratar de incentivos não
só à inovação
e à pesquisa científica e
tecnológica, mas também à
engenharia não-rotineira e à
extensão tecnológica. O outro
ponto importante se refere ao Capítulo
II, onde se define quem são os integrantes
do Sistema Paulista de Inovação.
Não há artigo equivalente
que fale sobre o sistema de inovação
na lei federal.
A lei proposta
pelo Executivo paulista regulamenta a relação
entre o setor público de pesquisa
e as empresas, prevendo mecanismos de parceria.
O projeto de lei paulista acompanha a Lei
de Inovação federal, ao eliminar
a necessidade de se fazer concorrência
pública quando se trata de licenciamento
ou transferência de tecnologia com
cláusula de exclusividade.
O projeto
também traz medidas de incentivo
à participação do pesquisador
público no processo de inovação
tecnológica, prevendo que alunos
de pós-graduação e
pesquisadores recebam parte dos royalties
quando uma criação sua for
explorada. Os cientistas do setor público
poderão licenciar-se do emprego para
prestar colaboração ou serviço
a outra instituição científica
e de pesquisa; para constituir empresa que
tenha como foco de negócio a aplicação
da inovação tecnológica
criada por eles; e para prestar assessoria
ao setor privado.
No capítulo
que trata do estímulo à participação
das empresas no processo de inovação
tecnológica, o projeto de lei prevê
o compartilhamento de pessoal, materiais
e infra-estrutura; e também a concessão
de apoio financeiro direto. As empresas
estão obrigadas à contrapartida.
Também nesse capítulo está
previsto que os órgãos públicos
podem contratar empresas para realização
de atividades de P&D&I que envolvam
riscos e busquem solução de
problema técnico ou um produto ou
processo inovador.
O anteprojeto
regulamenta a participação
do Estado em empresas de base tecnológica.
O poder público, nesse caso, poderá
participar, por prazo determinado, do capital
da empresa, aportando capital semente. Se
aprovada da forma como está, a Lei
de Inovação Paulista autoriza
o Estado a participar como cotista em fundos
de investimento em empresas "cuja atividade
principal seja a inovação
tecnológica". Os fundos que
receberão os investimentos serão
aprovados pelo Conselho de Ciência
e Tecnologia (Concit). Meirelles afirmou
que o Estado não deverá criar
uma agência de financiamento à
inovação, nos moldes da Financiadora
de Estudos e Projetos (Finep), para operacionalizar
os instrumentos da lei, pois a secretaria
pode fazer isso e tem dado conta de atender
às necessidades do Estado quanto
ao apoio ao desenvolvimento industrial. |