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Na
Europa
Política
européia reforça centros,
incentiva redes
e aposta que nanobiociência vai dar
dinheiro já-já
Juan Ramón Morante
ou Joan Morante, na versão
catalã é professor
do Departamento de Eletrônica da Faculdade
de Física da Universidade de Barcelona.
Ele veio ao Brasil para falar sobre nanotecnologia
top-down na Europa, durante o workshop
"Nanotecnologia: Possibilidades e Desafios".
Coordenado pelo professor Patrick Verdonck,
da USP, e organizado por um comitê
composto por pesquisadores de diversas universidades
e centros de pesquisa brasileiros, o encontro
discutiu tecnologias de nanofabricação
top-down para a formação
de uma "Rede de Plataformas de Nanofabricação".
No mundo nano, chama-se técnica top-down
(de cima para baixo) o modo de fabricação
pelo qual os pesquisadores chegam à
nanoestrutura desejada partindo de um bloco
maior de material. Através de processos
de estamparia muito sofisticados (por isso,
'de cima para baixo'), esculpe-se no material
a estrutura desejada, retirando-se as partes
desnecessárias. A outra técnica
existente de nanofabricação
chama-se bottom-up (de baixo
para cima), e utiliza átomos e moléculas
como se fossem tijolos. Eles vão
sendo empilhados e unidos até que
a estrutura esteja completa. Se o futuro
da nanofabricação vai ser
'bottom-up' ou 'top-down',
eis aí um assunto que divide os pesquisadores
das áreas nano. Na platéia
do auditório da Biblioteca Central
da Unicamp, onde aconteceu o encontro nos
dia 12 e 13 de fevereiro, a aposta é
na tecnologia de cima para baixo.
Havia também não-acadêmicos
no auditório, como Eduardo Lodi Manzano,
da Aegis, empresa do setor microeletrônico.
Ele gostou de ouvir a palestra de Morante,
sobre a técnica 'top down'
na Europa: o espanhol falou sobre a necessidade
de se produzir resultados concretos na universidade,
e não apenas artigos científicos.
Além da Aegis, outras duas empresas
interessadas em participar da nova rede,
Cromateck e PPA Portas e Portões
Automáticos, apresentaram suas atividades.
No entanto, essas empresas ainda trabalham
com tecnologias já conhecidas, e
não com nanofabricação.
Num dos intervalos entre as palestras, Morante
concedeu a seguinte entrevista a Raquel
Bueno de Inovação Unicamp:
Como
a Europa apóia a pesquisa em nanotecnologia
e nanociências?
O investimento é menor que o dos
Estados Unidos e Japão, mas está
crescendo. A nanotecnologia é um
dos principais objetivos dos programas de
pesquisa de nível europeu. Em paralelo,
cada país pertencente à União
Européia possui programas especiais
em nanotecnologia. Nos últimos três
anos, a Europa passou da situação
de não ter quase nada na área
para dispor dos sérios programas
agora em andamento.
E os
programas espanhóis, em particular?
A primeira chamada para propostas em nanotecnologia
vai acontecer em fevereiro ou começo
de março. Com ela, iniciaremos uma
nova ação nacional. A nanotecnologia
tem sido considerada uma ação
estratégica horizontal. A cada quatro
anos, modificamos os programas nacionais
para atender aos novos objetivos e às
novas estratégias. Existem 19 ou
20 programas em diferentes áreas:
biologia, materiais, energia, eletrônica
etc; esses programas têm objetivos
verticais. A ação nacional
em nanotecnologia, ao contrário,
é horizontal e atravessa todos os
outros programas. É transversal a
todos os programas nacionais, e divide-se
em duas partes: o investimento em infraestrutura
instalações, instrumentos;
e o desenvolvimento de projetos que demonstrem
a conveniência de usar a nanotecnologia
para oferecer novas soluções
a problemas científicos e tecnológicos.
A principal área de pesquisa na Espanha
é nanobiociência biologia
molecular, química orgânica,
indústria farmacêutica, medicina.
Em seguida, vêm os nanomateriais,
nanocatálises, nanosínteses
de pequenas estruturas. Física, química
e engenharia estão envolvidas aí.
Outros objetivos são os pontos quânticos,
os materiais fotoluminescentes... Isso está
orientado para os novos dispositivos nanofotônicos,
ligados à comunicação
óptica. Outro tópico incluído
é a nanoeletrônica e, só
para terminar talvez existam outros,
como o desenvolvimento de nanoinstrumentos
, o que eu gostaria de destacar são
os nanosensores.
De onde
vêm os investimentos?
O governo fala em aproximadamente €60
milhões em três anos. Essa
quantia deverá cobrir os investimentos
em infraestrutura e também os projetos,
mas o governo espera que 20% dos custos
dos projetos possam ser pagos por empresas.
Então
as empresas irão participar dos programas?
Sim, mas deixe-me dizer que isso parece
um sonho. Muitas vezes as empresas não
se voltam para desenvolver novos produtos
e novas idéias, porque isso é
feito em suas sedes, que não se localizam
na Espanha e sim nos Estados Unidos,
na Alemanha ou na Suécia. Há
alguns anos, começaram a aparecer
na Espanha empresas que agregam muito valor
a seus produtos. Elas estão em fase
de crescimento e são muito interessantes
para estimular o desenvolvimento de novos
dispositivos usando nanotecnologia.
Atualmente
existem empresas pesquisando e investindo
em nanotecnologia?
Poucas. As empresas espanholas estão
começando a se preocupar com isso.
Na Europa, existem empresas investindo em
nanotecnologia já há alguns
anos; na Espanha, talvez comece agora.
Onde
estão as empresas que já investem
em nanotecnologia?
Na Europa, Alemanha, Inglaterra, Dinamarca,
Suécia, Suíça... As
empresas de alta tecnologia descobriram
que a nanotecnologia oferece novas opções,
especialmente para bioaplicações.
A segunda área de interesse são
os nanomateriais, a nanocatálise
e aplicações de nanopartículas;
finalmente, a área de energia: os
nanomateriais podem melhorar dispositivos
para novas energias, como as células
combustíveis, por exemplo. Indústrias
do setor de energia estão fazendo
investimentos em nanomateriais e nanotecnologia
somente para melhorar os produtos existentes.
As indústrias
tiram proveito da pesquisa feita nas universidades?
Sim. Existem várias maneiras de se
trabalhar com as indústrias. Uma
maneira é a indústria contatar
a universidade e dizer no que está
interessada; se houver acordo, ambas fazem
um contrato. Nesse caso, a empresa é
dona dos resultados, incluindo as patentes.
Outra maneira é participar de projetos
europeus: a empresa é membro de um
consórcio de pesquisa, do qual podem
fazer parte várias empresas, universidades
ou equipes acadêmicas. Ela incorpora
os custos da pesquisa e pode obter 50% deste
valor das autoridades européias,
mas deve bancar a outra metade. As patentes
e os resultados são divididos pelo
consórcio empresas e também
universidades podem obter direitos de exploração.
Em diferentes países europeus, há
também a possibilidade de se definirem
projetos com a participação
de empresas. Nesse caso, o governo paga
30%, 40% do orçamento da empresa
e todos os custos da universidade. Para
um projeto de 100 milhões, por exemplo,
os custos da universidade podem ser de 40
milhões e os da indústria,
60 milhões. Os 40 milhões
da universidade são pagos pelo governo;
já os 60 milhões da indústria
são pagos parte pelo governo e parte
pela própria empresa. As leis de
garantia da concorrência não
autorizam o governo a pagar o custo total
de uma atividade de pesquisa da qual participam
uma ou duas empresas. Portanto, a quantia
que as empresas podem receber do governo
é limitada. Nesse exemplo, cujo custo
da indústria era de 60 milhões,
o governo poderia pagar 20 ou 25 milhões,
menos da metade do total.
Quais
são as principais linhas de pesquisa
em nanotecnologia nas universidades européias?
Nanobiociência é uma delas;
a verba para a área aumentou muito
nos últimos anos. Os novos resultados
a respeito do genoma humano e a possibilidade
de sintetizar proteínas humanas geraram
muitos investimentos. Para cumprir as promessas,
a biologia molecular, a farmacêutica
e a química orgânica precisam
de nanotecnologia. Não é possível
avançar na análise e nas aplicações
do DNA sem biochips. Também
não é possível fazer
novas análises de comportamento celular
sem ferramentas em escala nano para manipular
e controlar as células. A principal
conseqüência dos investimentos
crescentes em biociências foi a demonstração
de que sem nanotecnologia os passos necessários
não podem ser dados. Na Europa e
também nos Estados Unidos, é
esse o principal tópico em nanociência
e nanotecnologia. Talvez o segundo tópico
na Europa sejam os nanomateriais, para muitas
e muito diferentes aplicações.
Por exemplo, sintetizar nanomateriais em
diferentes formas, como os "nanobelts"
um material muito estreito em duas
dimensões e muito comprido em outra
dimensão. A indústria farmacêutica
já usa nanopartículas de titânio,
por exemplo, para produzir os protetores
solares mais avançados. Os negócios
na área de nanosensores também
estão crescendo e gerando novos mercados.
Os Estados Unidos estão preocupados
com o terrorismo. Muitas universidades e
centros de pesquisa trabalham para desenvolver
sensores baseados em nanodispositivos para
detectar moléculas de explosivos
e gases venenosos. Outra aplicação
são as nanomemórias, mas esse
é um negócio das grandes empresas
de eletrônica. Você não
pode desenvolver nada novo em nanomemórias
fora dos laboratórios da Motorola,
da Philips e das outras grandes companhias
de eletrônica.
De quais
universidades européias o senhor
destacaria o esforço em nanotecnologia?
É difícil apontar as universidades
em razão da forma pela qual os recursos
têm sido distribuídos. Os governos
dos paises europeus decidiram investir em
certos lugares, não em todos os lugares.
Por exemplo, escolhe-se investir para criar
um centro de facilidades em nanotecnologia
numa determinada universidade. Não
haverá dinheiro suficiente para fazer
o mesmo nas outras. Os pesquisadores precisam
se coordenar em tornos desses centros para
pedir serviços realizar experimentos,
por exemplo. Outra dificuldade para avaliar
o peso de cada universidade é que,
na Europa, um centro pode estar no campus,
mas pertencer a algum conselho de pesquisa;
ou, em alguns casos, embora o centro pertença
à universidade, fica separado das
faculdades e das escolas, porque abriga
as pesquisas mais avançadas, enquanto
a estrutura da universidade se relaciona
mais às atividades de ensino e aos
primeiros estágios de pesquisa. Aliás,
as pesquisas mais avançadas têm
se mudado dos departamentos e das faculdades
para esses centros. Há facilidades
para pesquisa, mas não está
misturado com os alunos. Existem centros
em cada país da Europa: Edimburgo,
Surrey e Southhampton, no Reino Unido; em
Grenoble, Toulouse e Lyon, na França.
Na Alemanha é diferente, lá
existem as universidades e os institutos
Max Plank e Fraunhöfer. São
três maneiras paralelas de organizar
a pesquisa. Os Institutos Max Plank são
mais voltados para a pesquisa básica;
existem vários deles no país,
congregados na Max Plank Society. A pesquisa
que realizam é primorosa. Um deles,
em Munique, é voltado para nano.
Há outra organização
de institutos que é a Fraunhöfer,
cujo objetivo é a pesquisa aplicada.
Existem as universidades, em Berlim, Freiburg...
Mas, em geral, cada país organiza
uma rede. As pessoas da rede conversam e
definem os objetivos, possibilidades etc.
As autoridades recebem essa informação
e então decidem onde é melhor
investir. A rede é o primeiro núcleo
para estabelecer as conexões para
o futuro, porque se as autoridades estão
investindo em poucos lugares, as equipes
precisam ter garantias de que poderão
utilizar esses serviços e instalações.
O senhor
concorda com a idéia de criar uma
rede de nanotecnologia top-down no
Brasil?
Pode ser uma boa iniciativa. Eu acredito
que é necessário dar uma direção
comum para a pesquisa, e a rede é
a melhor maneira de pressionar as autoridades
a tomá-la. Mas existem muitas outras
redes sobre o mesmo assunto. As pessoas
precisam negociar para se unir ou selecionar
uma ou duas redes para cada tópico.
Em alguns países europeus foi necessário
unir redes, em outros as autoridades decidiram
as redes que preferiram para nanobiociência,
nanomateriais, nanoeletrônica, nanosensores.
Se existem várias redes sobre o mesmo
tema e elas não se unem, o governo
não faz nada, pois ele olha e diz:
"Isto está um pouco confuso,
as pessoas não se entendem entre
si e por isso não é bom colocar
dinheiro aí". Ou então
o governo decide qual é a melhor.
Na Europa, é comum as autoridades
receberem dezenas de propostas quando anunciam
que querem cobrir um tema. Elas selecionam
a melhor. Com muitas redes sobre o mesmo
tema, os investimentos e as atividades se
diluem completamente; depois de dois ou
três anos, as pessoas não obtêm
nada. Isso é muito negativo, porque
os políticos dizem "Bem, nós
colocamos dinheiro e não deu em nada.
Não é uma boa idéia
colocar mais". É melhor evitar
excessos de opções sobre um
mesmo assunto, definir um objetivo claro
e reunir as pessoas para pedir o dinheiro.
Quando as idéias estão claras
e as pessoas conseguem o dinheiro, depois
de dois ou três anos começam
a aparecer os resultados. É importante
publicar em boas revistas especializadas
internacionais, só para dizer "Bem,
aqui estão pessoas do Brasil trabalhando
em alto nível", mas também
é importante alcançar resultados
que chamamos de demonstradores ou protótipos.
É a maneira de mostrar que a sua
atividade está seguindo em uma direção
clara. É claro que os resultados
também dependem de outras magnitudes
da sociedade: infraestrutura, número
de indústrias que existem no país,
de que tipos são essas indústrias.
Os
nanocintos (em inglês, nanobelts)
trazem no próprio nome o objeto
ao qual se assemelham na forma. São
compridos e estreitos como um cinto ou
uma fita mas, é claro, em
escala nanométrica. Sua largura
varia de 30 a 300 nanômetros; a
espessura é de cinco a dez vezes
menor que esse valor; o comprimento, a
alguns milímetros.
A
síntese de nanocintos, obtidos
a partir do pó de óxidos
de zinco, estanho, índio e cádmio,
foi relatada pela primeira vez na revista
Science, dia 9 de março
de 2001 dez anos depois da primeira
publicação científica
sobre nanotubos. Um dos autores, o pesquisador
Zhong Lin Wang, é diretor do Centro
para Nanociência e Nanotecnologia
do Georgia Institute of Technology, em
Atlanta, EUA.
O
site The
Why Files
traz as possíveis aplicações
para os nanocintos apontadas por Wang:
nanosensores o óxido de
zinco já é utilizado para
detectar gases inflamáveis; nanodispositivos
eletrônicos e optoeletrônicos;
displays avançados e janelas inteligentes,
capazes de reduzir a entrada de luz ultravioleta
em resposta às alterações
de temperatura o óxido de
estanho tratado com outras substâncias
já é usado para essa finalidade.
Recentemente, o grupo de Wang utilizou
nanocintos para fazer um transistor de
efeito de campo e sensores de um único
fio.
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