| Embraco, empresa que
inova
Diretor de tecnologia
conta a história dos laboratórios
da empresa
e mostra que mercado determinou as prioridades
do P&D
Janaína
Simões
O diretor
corporativo de tecnologia da Embraco,
Laércio Hardt, 47 anos, começou
a trabalhar na empresa com 25 anos, depois
do início da carreira como engenheiro
de desenvolvimento de produto na empresa
Tupy S/A, também em Joinville.
Três anos depois, o executivo assumiu
a gerência de desenvolvimento de
produtos da Embraco. Em 1987, foi destacado
para implementar o escritório da
companhia nos Estados Unidos. E assumiu
a gestão de tecnologia da companhia
em setembro de 1993, cargo que ocupa até
hoje.
Formado
em Engenharia Mecânica na Faculdade
de Engenharia de Joinville (FEJ) e em
Administração de Empresas
pela Universidade da Região de
Joinville (Univille), antiga Furj, praticante
de golfe nas horas vagas, Hardt completa
22 anos de Embraco em 2004. Ele acompanhou
todo o processo de estruturação
da equipe de pesquisa e desenvolvimento
da Embraco. "Primeiro fizemos o alicerce,
investimos nos fundamentos, e quando percebemos
que tínhamos competência,
habilidade, infra-estrutura capaz de suportar
um projeto de um compressor, chegamos
à conclusão de que aquela
era a hora de focarmos em um produto",
lembra ele, ao falar sobre como a Embraco
iniciou a fabricação de
seu primeiro compressor, o EM.
Em
entrevista a Inovação
Unicamp, dada na sede da empresa
em Joinville, Hardt explica porque a Embraco
precisou investir em desenvolvimento tecnológico
próprio, fala do papel estratégico
da inovação para assegurar
a liderança da empresa na fabricação
de compressores, e conta como se dá
a gestão da tecnologia na companhia.
Como começaram as atividades de
P&D na Embraco?
A empresa em 1971 começou a produzir
compressores para o mercado nacional. Percebemos
ali que, para ter continuidade, precisávamos
de escala, o que nos levou às primeiras
exportações, em 1978. Notamos
que, ao longo desse período, para
atingir a escala necessária de crescimento,
precisaríamos nos diferenciar. Os
mercados que absorviam grandes volumes eram
Estados Unidos e Europa e vimos que era
necessário sermos líderes
em conteúdo tecnológico. Ficou
claro que a inovação, o desenvolvimento
tecnológico, seriam primordiais.
Também percebemos que depender tecnologicamente
de alguém não era o melhor
modelo. Sempre que surgia um problema, percebíamos
a falta de conhecimento. Em 1983, a empresa
decidiu investir na formação
de um grupo de pesquisa. Algumas definições
importantes foram tomadas. Uma delas é
que pesquisa aplicada seria o foco do grupo.
Percebíamos também um hiato
de conhecimento na pesquisa básica
e procuramos as universidades; o próprio
Ernesto (Ernesto Heinzelmann, presidente
da empresa) liderou o processo. Várias
tentativas se frustraram, uma vez que as
universidades não tinham a perspectiva
de trabalhar com a indústria. Mas
localizamos um grupo na Universidade Federal
de Santa Catarina (UFSC), que se empolgou
com a possibilidade de trabalhar com uma
empresa a longo prazo. Começamos
a investir também em modelos de simulação,
trabalhando estreitamente com a UFSC, para
entender o funcionamento teórico
do compressor. Uma outra frente se abriu,
voltada para o investimento em laboratórios
e experimentos, no sentido de conseguir
modelar e realizar experiências que
validassem os conceitos teóricos.
Esses foram os primeiros passos.
E como vocês migraram da importação
de componentes para o desenvolvimento de
um compressor 'nacional'?
Percebemos que trabalhar só na questão
teórica não traria a velocidade
que precisávamos para gerar novos
experimentos. Criamos um objetivo para esse
grupo de pesquisadores: desenvolver o primeiro
compressor Embraco, com 100% de tecnologia
própria. O primeiro passo foi avaliar
as possibilidades mercadológicas
para um novo produto. Fizemos benchmark
dos concorrentes e procuramos nos diferenciar,
avaliando o que seria necessário
para um cenário futuro. Precisávamos
de compressores com vários consumos
de energia e baixos níveis de vibração.
Então, em 1987, o compressor EM foi
lançado. As primeiras grandes vendas
desse produto foram para o mercado norte-americano.
Fomos muito felizes porque justamente nesse
período iniciou-se uma nova regulamentação
do Departamento de Energia dos EUA para
a área de refrigeradores e freezers.
Não estava claro como seria implementada,
mas nos baseamos no histórico daquele
mercado. Começamos pelos EUA e migramos
para outros mercados, como o europeu e o
próprio Brasil. Nossa meta foi atingida
porque olhamos a necessidade do mercado.
Essa fase inicial de formação
de mão-de-obra é um pouco
onerosa para as empresas. A Embraco contou
com ajuda governamental para isso?
O risco e o investimento todos foram da
Embraco. Mas eu questiono muito essa palavra,
onerosa, porque se você acha que é
um custo, coloca muitas restrições.
Olhamos isso como investimento, o que é
um fator de sucesso e uma diferenciação
importante da Embraco em relação
a outras empresas. Quando temos crise nos
ciclos econômicos, o departamento
de tecnologia é um dos últimos
afetados. Estamos cientes do que a empresa
precisa fazer, mas os investimentos em pesquisa
não são afetados da mesma
maneira que em outras áreas. Existe
uma política contínua de investimentos
em P&D, independente do cenário
econômico. A Embraco investe até
3% do seu faturamento líquido na
área de P&D.
Vocês começaram as operações
de P&D no período de inflação
elevada no Brasil. Como vocês conseguiram
investir em P&D, que normalmente não
tem resultado no curto prazo, em um contexto
tão desfavorável?
Enxergamos sempre o mercado de exportação
como algo muito importante para nosso sucesso.
Em 1983, 1984, quando começamos com
o grupo de tecnologia, já exportávamos.
Existia um objetivo maior, ser o maior fabricante
de compressores do mundo, subentendido nesse
planejamento. Se não investirmos
em P&D durante os períodos críticos
tiraremos um pilar de sustentação
e o objetivo principal deixará de
ser atendido. Isso valia para aquela época
e vale hoje. A crise econômica é
um ponto de inspiração e de
diferenciação, porque quando
se entra em crise estão todos no
mesmo patamar. Nesse momento, a gente se
prepara para a fase de crescimento. Esses
ciclos são aproveitados para organizar
a empresa, para gerar conhecimento e ter
uma linha de produtos avançada. Dentro
do nosso segmento — isso nos é
dito por clientes —, somos a empresa
que mais investe em tecnologia. Nossa área
de P&D hoje é uma das poucas
que contrata na Embraco, o grupo está
crescendo.
Quem são os profissionais que
trabalham em P&D na Embraco?
Temos várias competências.
Quando contrato um pesquisador, tenho de
contratar um técnico para implementar
as idéias e fazer os experimentos.
Temos técnicos, engenheiros, mestres
e doutores de diferentes campos das ciências.
Muitas dessas pessoas formaram-se na graduação
com foco nas necessidades da Embraco, fizeram
estágio e foram contratadas. Depois
de alguns anos de trabalho, colocamos esses
profissionais para fazer o mestrado, dando
incentivos que incluem recursos financeiros.
Hoje devemos ter de 20 a 25 pessoas fazendo
mestrado. Esses profissionais vêm
de universidades do Paraná, São
Paulo, Rio Grande do Sul, aqui de Joinville,
e principalmente da UFSC. Temos também
cerca de 40 a 50 pessoas em universidades
trabalhando para a Embraco hoje. Existe
um grupo que semanalmente está em
contato com as equipes das universidades,
pois manter um acompanhamento próximo
é um aspecto muito importante, mostra
o interesse da empresa. Investimos também
na compra de equipamentos para as universidades.
Inauguramos no começo de maio uma
estação do Laboratório
de Acústica da UFSC. Estamos construindo
um prédio de quatro andares e 2 mil
metros quadrados junto com a Fundação
da UFSC e a Finep. O foco será pesquisa
nas áreas de projeção
de calor, termodinâmica, acústica,
procurando soluções para as
questões de refrigeração
por compressores ou qualquer outra tecnologia
relacionada.
Soluções de refrigeração?
Quando falamos em soluções
de refrigeração significa
que vamos agregar valor aos compressores
observando todo o ciclo de refrigeração,
a unidade selada como um todo. Numa unidade
selada você tem o refrigerador, o
compressor, o evaporador, os tubos que abrigam
o ar refrigerante. Nós só
fabricávamos o compressor. Agora,
a missão da empresa é ser
o melhor provedor de soluções
de refrigeração para nossos
clientes. Com isso em mente, partimos para
agregar valor ao ciclo. Hoje fornecemos
a parte da unidade condensadora, que seria
o compressor mais o condensador estático,
com ventilador. Estamos migrando para um
modelo mais complexo, que vai ser oferecido
para clientes nos Estados Unidos e consiste
em agregar o evaporador e o refrigerante.
Desde o início da década de
90 estamos investindo, em parceria com as
universidades, na geração
do conhecimento do sistema. Muitos dos nosso
clientes nos usam como consultores no desenvolvimento
dos seus projetos. Somos provedores de um
compressor ou sistema, e também de
conhecimento, fazemos parte do time de desenvolvimento
dos sistemas dos nossos clientes. No Laboratório
de Aplicação, oito câmeras
testam esses sistemas, fazem a validação
dos produtos deles.
É o caso da Coca-Cola, não?
Exato. Muitos dos nossos clientes dependem
dos nossos laboratórios para validar
e testar seus sistemas. É uma interação
entre a engenharia e a pesquisa. O caso
da Coca-Cola é interessante porque
ela não faz o sistema de refrigeração,
ela vende xarope. Mas tem exigências,
por exemplo, em relação a
como esse produto é entregue ao consumidor.
Precisa estar na temperatura adequada. Não
é só a Coca-Cola, mas todos
esses fabricantes têm exigências
muito fortes em relação ao
tempo de refrigeração e nível
de temperatura. Os gabinetes onde estão
os produtos da Coca-Cola são feitos
por fabricantes de várias partes
do mundo e que trabalham sob especificações,
controle e distribuição da
Coca-Cola. Quem fazia a avaliação
dos gabinetes era a própria Coca-Cola.
Sugerimos que a Embraco fizesse esses testes.
Eles vieram aqui certificar nossos laboratórios
e hoje todos os produtos fabricados para
a Coca-Cola para refrigeração,
feitos na América Central e do Sul
vêm para a Embraco, onde fazemos os
testes de validação e aprovação,
emitimos os relatórios e enviamos
para os fabricantes e para a Coca-Cola,
sugerindo melhorias ou fazendo a constatação
de que o gabinete está de acordo
com as especificações.
Como vocês acompanham o que os
concorrentes estão fazendo?
Há mais de uma maneira. Uma delas
é ficar antenado ao que está
sendo lançado. Assim que um produto
concorrente chega ao mercado, nós
o adquirimos. Outra forma é observar
a emissão de patentes, informação
que indica a direção dos concorrentes.
Usamos isso como balizamento, não
como um espelho para nossos desenvolvimentos.
A Embraco usa mais o registro de patentes
ou segredo industrial para se proteger?
Patente de inovação é
a grande maioria e é a melhor forma
de proteção da essência
da criação, quando se fala
em produtos. Fazemos o pedido nos diferentes
mercados onde atuamos. Temos 375 patentes.
Fazemos o primeiro depósito no Brasil
e temos depósito nos EUA, Ásia,
Europa. As patentes fundamentais são
depositadas primeiro no Brasil. De acordo
com a legislação internacional,
temos um determinado período para
fazer o depósito nos mercados em
que queremos proteção.
O que vocês acham do financiamento
público para ciência e tecnologia?
Temos uma relação com a Finep
interessante. Conquistamos dois Prêmios
Finep. Sete ou oito projetos foram aprovados
pela Finep em diferentes ramos de pesquisa,
desde voltados para soluções
em refrigeração e compressores
até pesquisas alternativas, e que
envolveram a UFSC. Dentro do nosso planejamento
estratégico de tecnologia temos uma
carteira de projetos de longo prazo. Com
o incentivo da Finep, podemos colocar mais
recursos e fazer o projeto em um tempo menor
e sermos mais agressivos. Como conseqüência,
estaremos no mercado com algo inovador,
teremos maior competitividade e exportaremos
antes. Geraremos recursos para o País
e resultados para o organização
mais cedo. Abrimos mais frentes de pesquisa.
Há efeitos indiretos que beneficiam
o País: colocamos mais pessoas pesquisando.
Qual a real necessidade de uma empresa
como a Embraco, que tem uma equipe de P&D
própria, ter uma universidade como
parceira em um caso como esse, em que o
projeto vem da própria companhia?
Sempre trabalhamos com centros de pesquisa
e esses projetos da Finep são voltados
para a pesquisa básica, conhecimento
que fica dentro da universidade. Nós
fazemos projetos de produto, mas muitas
vezes não temos o conhecimento para
chegar lá. Vamos procurá-lo
na universidade. Você transforma o
conhecimento em pesquisa aplicada e gera
um produto. A necessidade do conhecimento
é percebida pelos centros de pesquisa
de acordo com os diagnósticos que
são feitos em conjunto com a empresa.
A grande maioria das idéias para
pesquisa surgiu por causa da convivência.
A universidade tem um raio X das nossas
necessidades em termos de conhecimento,
e aí vêm propostas. Acho que
sua pergunta tenta separar e o segredo está
justamente na convivência que gera
oportunidades. Isoladamente, você
não tem energia potencial. Colocando
juntas empresa e universidade, você
se torna mais criativo.
No ambiente industrial, há quem
defenda que o recurso dos fundos setoriais
vá para as empresas. A empresa alega
que, se tem um pesquisador dela, não
vê motivo para recorrer à universidade
nem para o dinheiro não ir para a
empresa diretamente.
Essa flexibilização deve ocorrer,
mas não de uma forma irrestrita,
pois a tendência pode ser dos recursos
irem para as empresas e as universidades
continuarem na mesma. A Embraco tem a convicção
de que é preciso investir em nossas
bases e não olhar apenas para a organização.
Países mais avançados como
os EUA têm os dois modelos. Não
precisamos reinventar a roda. Acho que precisamos
ter mais agilidade, aprovarmos as coisas
de maneira mais rápida, mas a iniciativa
da Finep funciona. Vários colegas
meus disseram que é complexo, que
é difícil preencher formulários,
mas eu não enxergo dessa forma. O
dinheiro tem de ser bem aplicado e controlado,
é o que a Finep está fazendo.
Apreciei muito a continuidade dos programas
com a mudança de governo, sinalizou
que ciência e tecnologia deveriam
estar desvinculadas das questões
políticas, do contrário teremos
paradas a cada quatro anos.
Qual o papel da Embraco, no setor de
bens de capital nacional, como uma 'puxadora'
da inovação?
Já nos deparamos com a situação
de que o mercado não tinha equipamentos
com a acuracidade necessária para
medição. Procuramos nossos
fornecedores, colocamos as nossas dificuldades
e eles geraram programas de pesquisa para
desenvolver equipamentos para nossas necessidades.
Importamos equipamentos, mas existem empresários
empreendedores que enxergaram as oportunidades
e começaram a investir na pesquisa
do processo de manufatura.
Do ponto de vista da empresa, qual a
importância de se manter o centro
de P&D no Brasil?
Temos laboratórios no Brasil, na
Europa e um pequeno laboratório nos
Estados Unidos porque lá se faz muita
pesquisa tecnológica. Em 1997, na
reorganização da empresa,
tive de decidir entre centralizar ou descentralizar
a pesquisa. A parte de desenvolvimento de
produto ficou onde tem fábrica, mas
é de minha responsabilidade: as indústrias
têm engenheiros fazendo desenvolvimento
de produtos na China, na Eslováquia
e Itália. A pesquisa que gera propriedade
intelectual, contudo, centralizamos no Brasil.
Temos um parque de laboratórios bastante
extenso em Joinville. O sustentáculo
está na Embraco, conectado com a
UFSC, com as universidades de Uberlândia,
São Carlos, Purdue, Finlândia,
Escócia, Alemanha. Nossa relação
com UFSC, por exemplo, completa 23 anos
e correu sem interrupção.
O diferencial mais forte foi a competência
das nossas pessoas. Um exemplo: participamos
de uma conferência sobre compressores
que acontece a cada dois anos em Illinois,
na Universidade de Toulouse. A Embraco é
uma das empresas que mais apresenta papers
no evento. Nessa conferência, levamos
professores da universidade que também
mostram seus papers. Como os investimentos
nas universidades são deficientes,
compramos equipamentos, financiamos as pessoas.
Muitas vezes levamos os professores daqui
conosco quando vamos conversar com pesquisadores
de outros países porque entendemos
que parte do investimento tem que ser a
exposição dos professores
junto a outros centros de pesquisa.
Quais oportunidades a Embraco está
vendo em desenvolvimento tecnológico,
em que áreas ela está investindo?
Nanotecnologia é uma delas?
Não posso falar onde nós vamos
aplicar em nanotecnologia daqui a alguns
anos. Temos negócios na eletrônica,
estamos trabalhando fortemente no desenvolvimento
de softwares — uma das patentes
mais importantes que temos se refere ao
sistema que gerencia os compressores de
velocidade variável. Temos inúmeras
oportunidades na questão da transmissão
de calor, em novos conceitos de refrigeração.
Asseguramos aos nossos clientes que se algo
novo surgir em refrigeração,
a Embraco estará na linha de frente.
Essa é a nossa motivação.
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