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..Publicada em 5 de agosto 2004

Embraco, empresa que inova

Diretor de tecnologia conta a história dos laboratórios da empresa
e mostra que mercado determinou as prioridades do P&D

Janaína Simões

O diretor corporativo de tecnologia da Embraco, Laércio Hardt, 47 anos, começou a trabalhar na empresa com 25 anos, depois do início da carreira como engenheiro de desenvolvimento de produto na empresa Tupy S/A, também em Joinville. Três anos depois, o executivo assumiu a gerência de desenvolvimento de produtos da Embraco. Em 1987, foi destacado para implementar o escritório da companhia nos Estados Unidos. E assumiu a gestão de tecnologia da companhia em setembro de 1993, cargo que ocupa até hoje.

Formado em Engenharia Mecânica na Faculdade de Engenharia de Joinville (FEJ) e em Administração de Empresas pela Universidade da Região de Joinville (Univille), antiga Furj, praticante de golfe nas horas vagas, Hardt completa 22 anos de Embraco em 2004. Ele acompanhou todo o processo de estruturação da equipe de pesquisa e desenvolvimento da Embraco. "Primeiro fizemos o alicerce, investimos nos fundamentos, e quando percebemos que tínhamos competência, habilidade, infra-estrutura capaz de suportar um projeto de um compressor, chegamos à conclusão de que aquela era a hora de focarmos em um produto", lembra ele, ao falar sobre como a Embraco iniciou a fabricação de seu primeiro compressor, o EM.

Em entrevista a Inovação Unicamp, dada na sede da empresa em Joinville, Hardt explica porque a Embraco precisou investir em desenvolvimento tecnológico próprio, fala do papel estratégico da inovação para assegurar a liderança da empresa na fabricação de compressores, e conta como se dá a gestão da tecnologia na companhia.


Como começaram as atividades de P&D na Embraco?
A empresa em 1971 começou a produzir compressores para o mercado nacional. Percebemos ali que, para ter continuidade, precisávamos de escala, o que nos levou às primeiras exportações, em 1978. Notamos que, ao longo desse período, para atingir a escala necessária de crescimento, precisaríamos nos diferenciar. Os mercados que absorviam grandes volumes eram Estados Unidos e Europa e vimos que era necessário sermos líderes em conteúdo tecnológico. Ficou claro que a inovação, o desenvolvimento tecnológico, seriam primordiais. Também percebemos que depender tecnologicamente de alguém não era o melhor modelo. Sempre que surgia um problema, percebíamos a falta de conhecimento. Em 1983, a empresa decidiu investir na formação de um grupo de pesquisa. Algumas definições importantes foram tomadas. Uma delas é que pesquisa aplicada seria o foco do grupo. Percebíamos também um hiato de conhecimento na pesquisa básica e procuramos as universidades; o próprio Ernesto (Ernesto Heinzelmann, presidente da empresa) liderou o processo. Várias tentativas se frustraram, uma vez que as universidades não tinham a perspectiva de trabalhar com a indústria. Mas localizamos um grupo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que se empolgou com a possibilidade de trabalhar com uma empresa a longo prazo. Começamos a investir também em modelos de simulação, trabalhando estreitamente com a UFSC, para entender o funcionamento teórico do compressor. Uma outra frente se abriu, voltada para o investimento em laboratórios e experimentos, no sentido de conseguir modelar e realizar experiências que validassem os conceitos teóricos. Esses foram os primeiros passos.


E como vocês migraram da importação de componentes para o desenvolvimento de um compressor 'nacional'?
Percebemos que trabalhar só na questão teórica não traria a velocidade que precisávamos para gerar novos experimentos. Criamos um objetivo para esse grupo de pesquisadores: desenvolver o primeiro compressor Embraco, com 100% de tecnologia própria. O primeiro passo foi avaliar as possibilidades mercadológicas para um novo produto. Fizemos benchmark dos concorrentes e procuramos nos diferenciar, avaliando o que seria necessário para um cenário futuro. Precisávamos de compressores com vários consumos de energia e baixos níveis de vibração. Então, em 1987, o compressor EM foi lançado. As primeiras grandes vendas desse produto foram para o mercado norte-americano. Fomos muito felizes porque justamente nesse período iniciou-se uma nova regulamentação do Departamento de Energia dos EUA para a área de refrigeradores e freezers. Não estava claro como seria implementada, mas nos baseamos no histórico daquele mercado. Começamos pelos EUA e migramos para outros mercados, como o europeu e o próprio Brasil. Nossa meta foi atingida porque olhamos a necessidade do mercado.


Essa fase inicial de formação de mão-de-obra é um pouco onerosa para as empresas. A Embraco contou com ajuda governamental para isso?
O risco e o investimento todos foram da Embraco. Mas eu questiono muito essa palavra, onerosa, porque se você acha que é um custo, coloca muitas restrições. Olhamos isso como investimento, o que é um fator de sucesso e uma diferenciação importante da Embraco em relação a outras empresas. Quando temos crise nos ciclos econômicos, o departamento de tecnologia é um dos últimos afetados. Estamos cientes do que a empresa precisa fazer, mas os investimentos em pesquisa não são afetados da mesma maneira que em outras áreas. Existe uma política contínua de investimentos em P&D, independente do cenário econômico. A Embraco investe até 3% do seu faturamento líquido na área de P&D.


Vocês começaram as operações de P&D no período de inflação elevada no Brasil. Como vocês conseguiram investir em P&D, que normalmente não tem resultado no curto prazo, em um contexto tão desfavorável?
Enxergamos sempre o mercado de exportação como algo muito importante para nosso sucesso. Em 1983, 1984, quando começamos com o grupo de tecnologia, já exportávamos. Existia um objetivo maior, ser o maior fabricante de compressores do mundo, subentendido nesse planejamento. Se não investirmos em P&D durante os períodos críticos tiraremos um pilar de sustentação e o objetivo principal deixará de ser atendido. Isso valia para aquela época e vale hoje. A crise econômica é um ponto de inspiração e de diferenciação, porque quando se entra em crise estão todos no mesmo patamar. Nesse momento, a gente se prepara para a fase de crescimento. Esses ciclos são aproveitados para organizar a empresa, para gerar conhecimento e ter uma linha de produtos avançada. Dentro do nosso segmento — isso nos é dito por clientes —, somos a empresa que mais investe em tecnologia. Nossa área de P&D hoje é uma das poucas que contrata na Embraco, o grupo está crescendo.


Quem são os profissionais que trabalham em P&D na Embraco?
Temos várias competências. Quando contrato um pesquisador, tenho de contratar um técnico para implementar as idéias e fazer os experimentos. Temos técnicos, engenheiros, mestres e doutores de diferentes campos das ciências. Muitas dessas pessoas formaram-se na graduação com foco nas necessidades da Embraco, fizeram estágio e foram contratadas. Depois de alguns anos de trabalho, colocamos esses profissionais para fazer o mestrado, dando incentivos que incluem recursos financeiros. Hoje devemos ter de 20 a 25 pessoas fazendo mestrado. Esses profissionais vêm de universidades do Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul, aqui de Joinville, e principalmente da UFSC. Temos também cerca de 40 a 50 pessoas em universidades trabalhando para a Embraco hoje. Existe um grupo que semanalmente está em contato com as equipes das universidades, pois manter um acompanhamento próximo é um aspecto muito importante, mostra o interesse da empresa. Investimos também na compra de equipamentos para as universidades. Inauguramos no começo de maio uma estação do Laboratório de Acústica da UFSC. Estamos construindo um prédio de quatro andares e 2 mil metros quadrados junto com a Fundação da UFSC e a Finep. O foco será pesquisa nas áreas de projeção de calor, termodinâmica, acústica, procurando soluções para as questões de refrigeração por compressores ou qualquer outra tecnologia relacionada.


Soluções de refrigeração?
Quando falamos em soluções de refrigeração significa que vamos agregar valor aos compressores observando todo o ciclo de refrigeração, a unidade selada como um todo. Numa unidade selada você tem o refrigerador, o compressor, o evaporador, os tubos que abrigam o ar refrigerante. Nós só fabricávamos o compressor. Agora, a missão da empresa é ser o melhor provedor de soluções de refrigeração para nossos clientes. Com isso em mente, partimos para agregar valor ao ciclo. Hoje fornecemos a parte da unidade condensadora, que seria o compressor mais o condensador estático, com ventilador. Estamos migrando para um modelo mais complexo, que vai ser oferecido para clientes nos Estados Unidos e consiste em agregar o evaporador e o refrigerante. Desde o início da década de 90 estamos investindo, em parceria com as universidades, na geração do conhecimento do sistema. Muitos dos nosso clientes nos usam como consultores no desenvolvimento dos seus projetos. Somos provedores de um compressor ou sistema, e também de conhecimento, fazemos parte do time de desenvolvimento dos sistemas dos nossos clientes. No Laboratório de Aplicação, oito câmeras testam esses sistemas, fazem a validação dos produtos deles.


É o caso da Coca-Cola, não?
Exato. Muitos dos nossos clientes dependem dos nossos laboratórios para validar e testar seus sistemas. É uma interação entre a engenharia e a pesquisa. O caso da Coca-Cola é interessante porque ela não faz o sistema de refrigeração, ela vende xarope. Mas tem exigências, por exemplo, em relação a como esse produto é entregue ao consumidor. Precisa estar na temperatura adequada. Não é só a Coca-Cola, mas todos esses fabricantes têm exigências muito fortes em relação ao tempo de refrigeração e nível de temperatura. Os gabinetes onde estão os produtos da Coca-Cola são feitos por fabricantes de várias partes do mundo e que trabalham sob especificações, controle e distribuição da Coca-Cola. Quem fazia a avaliação dos gabinetes era a própria Coca-Cola. Sugerimos que a Embraco fizesse esses testes. Eles vieram aqui certificar nossos laboratórios e hoje todos os produtos fabricados para a Coca-Cola para refrigeração, feitos na América Central e do Sul vêm para a Embraco, onde fazemos os testes de validação e aprovação, emitimos os relatórios e enviamos para os fabricantes e para a Coca-Cola, sugerindo melhorias ou fazendo a constatação de que o gabinete está de acordo com as especificações.


Como vocês acompanham o que os concorrentes estão fazendo?
Há mais de uma maneira. Uma delas é ficar antenado ao que está sendo lançado. Assim que um produto concorrente chega ao mercado, nós o adquirimos. Outra forma é observar a emissão de patentes, informação que indica a direção dos concorrentes. Usamos isso como balizamento, não como um espelho para nossos desenvolvimentos.


A Embraco usa mais o registro de patentes ou segredo industrial para se proteger?
Patente de inovação é a grande maioria e é a melhor forma de proteção da essência da criação, quando se fala em produtos. Fazemos o pedido nos diferentes mercados onde atuamos. Temos 375 patentes. Fazemos o primeiro depósito no Brasil e temos depósito nos EUA, Ásia, Europa. As patentes fundamentais são depositadas primeiro no Brasil. De acordo com a legislação internacional, temos um determinado período para fazer o depósito nos mercados em que queremos proteção.


O que vocês acham do financiamento público para ciência e tecnologia?
Temos uma relação com a Finep interessante. Conquistamos dois Prêmios Finep. Sete ou oito projetos foram aprovados pela Finep em diferentes ramos de pesquisa, desde voltados para soluções em refrigeração e compressores até pesquisas alternativas, e que envolveram a UFSC. Dentro do nosso planejamento estratégico de tecnologia temos uma carteira de projetos de longo prazo. Com o incentivo da Finep, podemos colocar mais recursos e fazer o projeto em um tempo menor e sermos mais agressivos. Como conseqüência, estaremos no mercado com algo inovador, teremos maior competitividade e exportaremos antes. Geraremos recursos para o País e resultados para o organização mais cedo. Abrimos mais frentes de pesquisa. Há efeitos indiretos que beneficiam o País: colocamos mais pessoas pesquisando.


Qual a real necessidade de uma empresa como a Embraco, que tem uma equipe de P&D própria, ter uma universidade como parceira em um caso como esse, em que o projeto vem da própria companhia?
Sempre trabalhamos com centros de pesquisa e esses projetos da Finep são voltados para a pesquisa básica, conhecimento que fica dentro da universidade. Nós fazemos projetos de produto, mas muitas vezes não temos o conhecimento para chegar lá. Vamos procurá-lo na universidade. Você transforma o conhecimento em pesquisa aplicada e gera um produto. A necessidade do conhecimento é percebida pelos centros de pesquisa de acordo com os diagnósticos que são feitos em conjunto com a empresa. A grande maioria das idéias para pesquisa surgiu por causa da convivência. A universidade tem um raio X das nossas necessidades em termos de conhecimento, e aí vêm propostas. Acho que sua pergunta tenta separar e o segredo está justamente na convivência que gera oportunidades. Isoladamente, você não tem energia potencial. Colocando juntas empresa e universidade, você se torna mais criativo.


No ambiente industrial, há quem defenda que o recurso dos fundos setoriais vá para as empresas. A empresa alega que, se tem um pesquisador dela, não vê motivo para recorrer à universidade nem para o dinheiro não ir para a empresa diretamente.
Essa flexibilização deve ocorrer, mas não de uma forma irrestrita, pois a tendência pode ser dos recursos irem para as empresas e as universidades continuarem na mesma. A Embraco tem a convicção de que é preciso investir em nossas bases e não olhar apenas para a organização. Países mais avançados como os EUA têm os dois modelos. Não precisamos reinventar a roda. Acho que precisamos ter mais agilidade, aprovarmos as coisas de maneira mais rápida, mas a iniciativa da Finep funciona. Vários colegas meus disseram que é complexo, que é difícil preencher formulários, mas eu não enxergo dessa forma. O dinheiro tem de ser bem aplicado e controlado, é o que a Finep está fazendo. Apreciei muito a continuidade dos programas com a mudança de governo, sinalizou que ciência e tecnologia deveriam estar desvinculadas das questões políticas, do contrário teremos paradas a cada quatro anos.


Qual o papel da Embraco, no setor de bens de capital nacional, como uma 'puxadora' da inovação?
Já nos deparamos com a situação de que o mercado não tinha equipamentos com a acuracidade necessária para medição. Procuramos nossos fornecedores, colocamos as nossas dificuldades e eles geraram programas de pesquisa para desenvolver equipamentos para nossas necessidades. Importamos equipamentos, mas existem empresários empreendedores que enxergaram as oportunidades e começaram a investir na pesquisa do processo de manufatura.


Do ponto de vista da empresa, qual a importância de se manter o centro de P&D no Brasil?
Temos laboratórios no Brasil, na Europa e um pequeno laboratório nos Estados Unidos porque lá se faz muita pesquisa tecnológica. Em 1997, na reorganização da empresa, tive de decidir entre centralizar ou descentralizar a pesquisa. A parte de desenvolvimento de produto ficou onde tem fábrica, mas é de minha responsabilidade: as indústrias têm engenheiros fazendo desenvolvimento de produtos na China, na Eslováquia e Itália. A pesquisa que gera propriedade intelectual, contudo, centralizamos no Brasil. Temos um parque de laboratórios bastante extenso em Joinville. O sustentáculo está na Embraco, conectado com a UFSC, com as universidades de Uberlândia, São Carlos, Purdue, Finlândia, Escócia, Alemanha. Nossa relação com UFSC, por exemplo, completa 23 anos e correu sem interrupção. O diferencial mais forte foi a competência das nossas pessoas. Um exemplo: participamos de uma conferência sobre compressores que acontece a cada dois anos em Illinois, na Universidade de Toulouse. A Embraco é uma das empresas que mais apresenta papers no evento. Nessa conferência, levamos professores da universidade que também mostram seus papers. Como os investimentos nas universidades são deficientes, compramos equipamentos, financiamos as pessoas. Muitas vezes levamos os professores daqui conosco quando vamos conversar com pesquisadores de outros países porque entendemos que parte do investimento tem que ser a exposição dos professores junto a outros centros de pesquisa.


Quais oportunidades a Embraco está vendo em desenvolvimento tecnológico, em que áreas ela está investindo? Nanotecnologia é uma delas?
Não posso falar onde nós vamos aplicar em nanotecnologia daqui a alguns anos. Temos negócios na eletrônica, estamos trabalhando fortemente no desenvolvimento de softwares — uma das patentes mais importantes que temos se refere ao sistema que gerencia os compressores de velocidade variável. Temos inúmeras oportunidades na questão da transmissão de calor, em novos conceitos de refrigeração. Asseguramos aos nossos clientes que se algo novo surgir em refrigeração, a Embraco estará na linha de frente. Essa é a nossa motivação.


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