| Embraco, empresa que
inova
Líder mundial em
compressores, Embraco agora se volta para
conquistar o mercado de fornecimento de
sistemas de refrigeração
Janaína
Simões
Nos anos
90, o objetivo da Embraco (Empresa Brasileira
de Compressores) era ser a líder
na fabricação desse equipamento
no mundo. Hoje, com 25% de participação
no mercado mundial e lucro líquido
de R$ 67,7 milhões em 2003, considera
a meta atingida. Determinou para si, então,
um novo desafio: ser a primeira quando se
trata também de soluções
em refrigeração, conceito
que envolve agregar valor a todo o ciclo
de um refrigerador.
O investimento
em desenvolvimento tecnológico foi
a estratégia que transformou a fábrica
catarinense em líder mundial. A companhia
investe até 3% de seu faturamento
em inovação. No ano passado,
foram aplicados R$ 7,9 milhões em
P&D no Brasil — mas não
revela quanto isso representa do faturamento.
São 32 laboratórios distribuídos
ao redor do mundo: 12 no Brasil, oito na
Itália, cinco na Eslováquia,
seis na China e um nos EUA. Inovar em tantos
países gerou 374 cartas-patentes,
gerenciadas pelo Centro de Documentação
e Memória, a um custo de US$ 800
mil por ano, em média. A Embraco
está entre as cinco empresas com
sede no Brasil que mais depositaram patentes
no USPTO, o escritório de patentes
e marcas norte-americano.
Tanto sucesso
gerou em 2003 R$ 1,1 bilhão de receita
líquida, depois de impostos, descontos
e devoluções. No setor de
mecânica e também de máquinas
e equipamentos, a Embraco produziu no Brasil
quase 15 milhões de compressores
em 2003. Desse total, 23% foram vendidos
aqui. Os outros 71% foram exportados, principalmente
para os Estados Unidos, onde a empresa responde
por mais da metade do mercado. Mas há
outras fábricas: em Riva Presso Chieri,
na Itália, Spisská Nova Vês,
na Eslováquia, em Beijing, na China,
e também unidades de negócio
na Itália e nos Estados Unidos.
Fundada
em março de 1971 por iniciativa de
três grandes fabricantes de refrigeradores
da época — Consul, Springer
e Prosdócimo —, teve como objetivo
primeiro abastecer essas indústrias,
dependentes da importação
de compressores. Começou a produzir
um modelo em 1974, com tecnologia adquirida
no exterior. Seu segundo compressor, cuja
produção iniciou em 1983,
ainda era feito com componentes importados.
O primeiro produto com tecnologia própria
veio em 1981. O EM, um compressor muito
menor e mais econômico do que os existentes
no mercado, foi o primeiro resultado do
início das atividades de um grupo
de pesquisa e desenvolvimento. Desde o projeto,
a empresa já sabia que o destino
do EM seria o mercado norte-americano —
porque, para crescer, a empresa percebeu
que precisava exportar.
Quando,
em 1997, a fabricante norte-americana de
eletrodomésticos Whirlpool tornou-se
acionista majoritária da Multibrás
e levou junto a Embraco. A Embraco chegou
à Multibrás quando da fusão
com o grupo Brasmotor, em 1994. A performance
da empresa, sua primazia tecnológica,
garantiu a permanência do controle
das atividades de P&D no Brasil. Elas
são gerenciadas pelo departamento
de Gestão de Tecnologias de Produto
e Processo (GTPP), que o crescimento da
empresa nunca mudou de sua sede, em Joinville.
A
divisão dos negócios da Embraco
Do pioneiro
EM desenvolvido há pouco mais de
20 anos, a Embraco saltou para 11 modelos,
classificados por siglas para diferenciar
as especificações de cada
um quanto a tamanho, consumo de energia,
potência, aplicação,
nível de ruído etc. Na matriz
em Joinville, a Embraco produz hoje os compressores
das famílias F, EM, EG e VCC (velocidade
variável), vendidos no Brasil, América
Latina, África do Sul e EUA. São
5.486 funcionários e capacidade de
fazer 16 milhões de compressores
ao ano. Na cidade catarinense ainda estão
a fundição e a Embraco
Eletronic Controls (EECON), que desenvolve
e comercializa controles eletrônicos
para os produtos da linha branca, como freezers
e refrigeradores. Na unidade de Itaiópolis,
também em Santa Catarina, são
montadas as unidades condensadoras e seladas,
ou seja, conjuntos que reúnem o compressor
a outros componentes de um sistema de refrigeração,
como o ventilador, condensador e evaporador,
que são adquiridos pela empresa.
Essas unidades são usadas em congeladores,
bebedouros, balcões frigoríficos
e outras aplicações comerciais.
Na Itália,
a fábrica adquirida em 1994 faz compressores
das famílias BP e EM. São
mil funcionários e capacidade de
produção de 4 milhões
de compressores ao ano. Na Eslováquia,
onde a Embraco está desde 1998, são
feitos os compressores J, NJ, T, NE e NB
e as unidades condensadoras. Cerca de 1,2
mil pessoas são empregadas nessa
planta, com capacidade produtiva de 4 milhões
de compressores ao ano. A Europa absorve
a produção de ambos os países.
Na Embraco Snowflake, joint-venture
com a empresa chinesa Snowflake em 1995,
é fabricado o EC, compressor especialmente
produzido para atender as exigências
de baixo ruído e consumo energético
do mercado asiático. Nos EUA, a Embraco
está presente desde 1987, com um
escritório comercial responsável
pela venda dos produtos da empresa nos EUA,
Canadá e México. São
12 depósitos de produtos e atendimento
a mais de 500 distribuidores, além
do escritório. A empresa conta com
50 funcionários nesse país.
Cerca de
80% da produção da Embraco
se destinam para a refrigeração
doméstica, no caso freezers
e refrigeradores. O restante vai para aplicações
comerciais leves, como as instalações
em bebedouros, expositores refrigerados,
máquinas de fazer gelo e de sorvete,
e outros, mais direcionados para o mercado
europeu.
O último
grande passo da Embraco na diversificação
de sua atuação foi a parceria
firmada no início de 2003 com a empresa
norte-americana Bristol Compressors Inc.
A Bristol passou a fabricar com exclusividade
para a Embraco compressores de até
3,5 HP, conhecidos como Embraco Aspera.
Equipamentos como esses, de maior potência,
são voltados para a refrigeração
comercial, nicho de interesse da Embraco.
A companhia também distribui no mercado
de reposição nas Américas
os compressores Bristol com capacidade de
até 25 HP, para condicionadores de
ar.
Os
múltiplos papéis do Gestão
de Tecnologia de Produtos e Processo (GTPP)
O que explica
todo esse crescimento da Embraco nessas
três décadas é a visão
da companhia quanto à importância
da inovação direcionada ao
mercado como estratégia para a ampliação
de seus negócios. Ao investir em
P&D e fazer compressores cada vez mais
avançados, aumentou sua participação
no mercado, gerando mais recursos para se
expandir. E quem cuida de tudo o que se
relaciona com o desenvolvimento tecnológico
da Embraco hoje é um departamento
mais conhecido pela sigla GTPP, o Gestão
de Tecnologia de Produtos e Processo. O
trabalho desse do grupo, que conta com seis
doutores, 33 mestres, 98 graduados e 94
técnicos, extrapola as atividades
de P&D. Isso porque o contato com os
clientes se dá não só
via vendas e marketing, mas pelo
próprio GTPP, que presta suporte
técnico.
O monitoramento
dos concorrentes é feito pelo pessoal
de vendas em conjunto com o GTPP, que também
acompanha a legislação dos
diversos países. "Temos uma
pessoa que estabelece relacionamento com
entidades do mundo inteiro para entender
a definição desses regulamentos
para os mercados", contou Ernani Pautasso
Nunes Jr., gestor corporativo de tecnologia
da Embraco.
Um exemplo
é o caso da Europa, que caminha para
limitar nos próximos cinco anos o
uso dos HFCs, que substituíram os
CFCs como fluido refrigerante. Ambos são
produzidos artificialmente. O uso dos CFCs
(clorofluorcarbonos) foi reduzido ou eliminado
em vários países, por conta
dos danos à camada de ozônio.
Em seu lugar, os fabricantes usam os HFCs
(hidrofluorcarbonos), que atacam menos a
atmosfera. A Embraco foi uma das pioneiras
nessa fase: em 1992, lançou os primeiros
compressores com HFCs.
"O
esforço em pesquisa foi grande porque
a passagem do CFC para o HFC envolveu todo
um novo aprendizado, mudamos o produto e
os processos de fabricação.
E não se tratava apenas de adotar
uma nova forma de fazer esse produto, mas
de entender o que estávamos fazendo
para ter perfeito domínio",
ressaltou Nunes. Nesse sentido, foi fundamental
a participação da universidade,
uma fonte de conhecimento sobre os gases
HFC. Além de toda a estrutura de
laboratórios, a Embraco conta com
uma parceria especialmente importante, a
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
São 23 anos de convívio estreito
e sem interrupções, conta
o diretor corporativo de tecnologia da companhia,
Laércio Hardt, em entrevista
a Inovação Unicamp.
Em 1994,
um fabricante da Alemanha desenvolveu um
refrigerador que usava um refrigerante natural,
o isobutano. Além de não ter
potencial de destruição da
camada de ozônio, o isobutano se degrada
mais rapidamente do que o HFC, que contribui
para o efeito estufa. A empresa produz há
alguns anos compressores com isobutano e,
recentemente, passou a fabricar compressores
com propano — outro refrigerante natural
e parente do isobutano —, em aplicações
comerciais, para refrigeradores maiores.
Na Europa, a Embraco ainda produz compressores
para ar condicionado que usam os CFCs, permitidos
pela legislação.
Onde
e como inovar? Mercado, concorrentes e legislação
respondem
Como mostram
as experiências acima, os clientes
da Embraco, a legislação e
o comportamento dos concorrentes formam
uma cadeia que orienta a inovação
praticada pela empresa. "Nossos clientes
solicitam produtos mais avançados
ou de menor custo a medida em que vão
explorar nichos de mercado ou procuram posicionar
seus produtos", comentou Ernani Pautasso
Nunes. "A legislação,
não só no que diz respeito
a energia, mas também ambiental,
nos induz a fazer novos desenvolvimentos
e estamos constantemente monitorando os
nossos concorrentes para que tenhamos sempre
produtos mais competitivos que os deles",
completou. Um quarto fator importante para
a inovação é o próprio
posicionamento da Embraco, sua estratégia
de colocação de produtos no
mercado e o tipo de cliente que vai atender
ou o crescimento que está buscando.
"A
Embraco não faz investimento em P&D
somente em coisas extremamente avançadas
e, portanto, com maior chance de insucesso.
Pegamos todas as idéias e projetos,
os recursos financeiros, dividimos e classificamos
de acordo com sua natureza", esclareceu
Nunes. Alguns projetos, chamados de tecnologia
core (núcleo, em inglês),
são relacionados à parte fundamental
do negócio da Embraco. São
tecnologias em que a empresa precisa trabalhar
continuamente como, por exemplo, acústica
e consumo de energia. "Para esses programas
de pesquisa já se destina uma parte
fixa (de dinheiro), aqui a gente não
mexe", revelou. A empresa também
investe nas tecnologias de ponta, em que
pouca gente trabalha e o risco é
bem maior. É o caso hoje da nanotecnologia
e da eletrônica, principalmente softwares.
A Embraco procura balancear sua carteira
de projetos, de modo que possa investir
em tecnologias que trarão resultados
no curto, médio e longo prazos.
A empresa
conta com cerca de 400 profissionais atuando
em P&D integral ou parcialmente, entre
a equipe de 150 engenheiros, mais os pesquisadores
e técnicos do GTPP. Muitos pesquisadores
estão na Embraco há mais de
10 anos. Alguns chegaram antes mesmo da
formação da equipe de P&D,
como o pesquisador sênior do Departamento
de Engenharia Mecânica da empresa,
Dietmar Lilie, técnico mecânico
formado em 1978 pela Escola Técnica
Tupy, em Joinville. Começou a trabalhar
na Embraco em 1980, em manutenção,
mas sempre foi muito curioso e desmontava
todas as máquinas que caíam
nas suas mãos. Em 1983, ele passou
para a área de desenvolvimento de
produto, integrando o primeiro grupo de
pesquisa.
Ele
e outras três pessoas participaram
do projeto que culminou no primeiro compressor
Embraco, o EM. "Tivemos dificuldades
enormes e foi uma fase de grande aprendizagem",
recordou ele, ao falar de um tempo em que
os projetos eram desenhados em papel e os
modelos para análise de layout
eram feitos em madeira. Naquela época
também não havia Internet.
A Conferência de Purdue, a universidade
e a pouca literatura científica existente
na época eram as fontes dos pesquisadores.
"Além disso, tinha nossa própria
curiosidade mesmo, saber como funcionava
o compressor me motivava", completou.
|