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..Publicada em 5 de agosto 2004

Embraco, empresa que inova

Líder mundial em compressores, Embraco agora se volta para conquistar o mercado de fornecimento de sistemas de refrigeração

Janaína Simões

Nos anos 90, o objetivo da Embraco (Empresa Brasileira de Compressores) era ser a líder na fabricação desse equipamento no mundo. Hoje, com 25% de participação no mercado mundial e lucro líquido de R$ 67,7 milhões em 2003, considera a meta atingida. Determinou para si, então, um novo desafio: ser a primeira quando se trata também de soluções em refrigeração, conceito que envolve agregar valor a todo o ciclo de um refrigerador.

O investimento em desenvolvimento tecnológico foi a estratégia que transformou a fábrica catarinense em líder mundial. A companhia investe até 3% de seu faturamento em inovação. No ano passado, foram aplicados R$ 7,9 milhões em P&D no Brasil — mas não revela quanto isso representa do faturamento. São 32 laboratórios distribuídos ao redor do mundo: 12 no Brasil, oito na Itália, cinco na Eslováquia, seis na China e um nos EUA. Inovar em tantos países gerou 374 cartas-patentes, gerenciadas pelo Centro de Documentação e Memória, a um custo de US$ 800 mil por ano, em média. A Embraco está entre as cinco empresas com sede no Brasil que mais depositaram patentes no USPTO, o escritório de patentes e marcas norte-americano.

Tanto sucesso gerou em 2003 R$ 1,1 bilhão de receita líquida, depois de impostos, descontos e devoluções. No setor de mecânica e também de máquinas e equipamentos, a Embraco produziu no Brasil quase 15 milhões de compressores em 2003. Desse total, 23% foram vendidos aqui. Os outros 71% foram exportados, principalmente para os Estados Unidos, onde a empresa responde por mais da metade do mercado. Mas há outras fábricas: em Riva Presso Chieri, na Itália, Spisská Nova Vês, na Eslováquia, em Beijing, na China, e também unidades de negócio na Itália e nos Estados Unidos.

Fundada em março de 1971 por iniciativa de três grandes fabricantes de refrigeradores da época — Consul, Springer e Prosdócimo —, teve como objetivo primeiro abastecer essas indústrias, dependentes da importação de compressores. Começou a produzir um modelo em 1974, com tecnologia adquirida no exterior. Seu segundo compressor, cuja produção iniciou em 1983, ainda era feito com componentes importados. O primeiro produto com tecnologia própria veio em 1981. O EM, um compressor muito menor e mais econômico do que os existentes no mercado, foi o primeiro resultado do início das atividades de um grupo de pesquisa e desenvolvimento. Desde o projeto, a empresa já sabia que o destino do EM seria o mercado norte-americano — porque, para crescer, a empresa percebeu que precisava exportar.

Quando, em 1997, a fabricante norte-americana de eletrodomésticos Whirlpool tornou-se acionista majoritária da Multibrás e levou junto a Embraco. A Embraco chegou à Multibrás quando da fusão com o grupo Brasmotor, em 1994. A performance da empresa, sua primazia tecnológica, garantiu a permanência do controle das atividades de P&D no Brasil. Elas são gerenciadas pelo departamento de Gestão de Tecnologias de Produto e Processo (GTPP), que o crescimento da empresa nunca mudou de sua sede, em Joinville.

A divisão dos negócios da Embraco

Do pioneiro EM desenvolvido há pouco mais de 20 anos, a Embraco saltou para 11 modelos, classificados por siglas para diferenciar as especificações de cada um quanto a tamanho, consumo de energia, potência, aplicação, nível de ruído etc. Na matriz em Joinville, a Embraco produz hoje os compressores das famílias F, EM, EG e VCC (velocidade variável), vendidos no Brasil, América Latina, África do Sul e EUA. São 5.486 funcionários e capacidade de fazer 16 milhões de compressores ao ano. Na cidade catarinense ainda estão a fundição e a Embraco Eletronic Controls (EECON), que desenvolve e comercializa controles eletrônicos para os produtos da linha branca, como freezers e refrigeradores. Na unidade de Itaiópolis, também em Santa Catarina, são montadas as unidades condensadoras e seladas, ou seja, conjuntos que reúnem o compressor a outros componentes de um sistema de refrigeração, como o ventilador, condensador e evaporador, que são adquiridos pela empresa. Essas unidades são usadas em congeladores, bebedouros, balcões frigoríficos e outras aplicações comerciais.

Na Itália, a fábrica adquirida em 1994 faz compressores das famílias BP e EM. São mil funcionários e capacidade de produção de 4 milhões de compressores ao ano. Na Eslováquia, onde a Embraco está desde 1998, são feitos os compressores J, NJ, T, NE e NB e as unidades condensadoras. Cerca de 1,2 mil pessoas são empregadas nessa planta, com capacidade produtiva de 4 milhões de compressores ao ano. A Europa absorve a produção de ambos os países. Na Embraco Snowflake, joint-venture com a empresa chinesa Snowflake em 1995, é fabricado o EC, compressor especialmente produzido para atender as exigências de baixo ruído e consumo energético do mercado asiático. Nos EUA, a Embraco está presente desde 1987, com um escritório comercial responsável pela venda dos produtos da empresa nos EUA, Canadá e México. São 12 depósitos de produtos e atendimento a mais de 500 distribuidores, além do escritório. A empresa conta com 50 funcionários nesse país.

Cerca de 80% da produção da Embraco se destinam para a refrigeração doméstica, no caso freezers e refrigeradores. O restante vai para aplicações comerciais leves, como as instalações em bebedouros, expositores refrigerados, máquinas de fazer gelo e de sorvete, e outros, mais direcionados para o mercado europeu.

O último grande passo da Embraco na diversificação de sua atuação foi a parceria firmada no início de 2003 com a empresa norte-americana Bristol Compressors Inc. A Bristol passou a fabricar com exclusividade para a Embraco compressores de até 3,5 HP, conhecidos como Embraco Aspera. Equipamentos como esses, de maior potência, são voltados para a refrigeração comercial, nicho de interesse da Embraco. A companhia também distribui no mercado de reposição nas Américas os compressores Bristol com capacidade de até 25 HP, para condicionadores de ar.

Os múltiplos papéis do Gestão de Tecnologia de Produtos e Processo (GTPP)

O que explica todo esse crescimento da Embraco nessas três décadas é a visão da companhia quanto à importância da inovação direcionada ao mercado como estratégia para a ampliação de seus negócios. Ao investir em P&D e fazer compressores cada vez mais avançados, aumentou sua participação no mercado, gerando mais recursos para se expandir. E quem cuida de tudo o que se relaciona com o desenvolvimento tecnológico da Embraco hoje é um departamento mais conhecido pela sigla GTPP, o Gestão de Tecnologia de Produtos e Processo. O trabalho desse do grupo, que conta com seis doutores, 33 mestres, 98 graduados e 94 técnicos, extrapola as atividades de P&D. Isso porque o contato com os clientes se dá não só via vendas e marketing, mas pelo próprio GTPP, que presta suporte técnico.

O monitoramento dos concorrentes é feito pelo pessoal de vendas em conjunto com o GTPP, que também acompanha a legislação dos diversos países. "Temos uma pessoa que estabelece relacionamento com entidades do mundo inteiro para entender a definição desses regulamentos para os mercados", contou Ernani Pautasso Nunes Jr., gestor corporativo de tecnologia da Embraco.

Um exemplo é o caso da Europa, que caminha para limitar nos próximos cinco anos o uso dos HFCs, que substituíram os CFCs como fluido refrigerante. Ambos são produzidos artificialmente. O uso dos CFCs (clorofluorcarbonos) foi reduzido ou eliminado em vários países, por conta dos danos à camada de ozônio. Em seu lugar, os fabricantes usam os HFCs (hidrofluorcarbonos), que atacam menos a atmosfera. A Embraco foi uma das pioneiras nessa fase: em 1992, lançou os primeiros compressores com HFCs.

"O esforço em pesquisa foi grande porque a passagem do CFC para o HFC envolveu todo um novo aprendizado, mudamos o produto e os processos de fabricação. E não se tratava apenas de adotar uma nova forma de fazer esse produto, mas de entender o que estávamos fazendo para ter perfeito domínio", ressaltou Nunes. Nesse sentido, foi fundamental a participação da universidade, uma fonte de conhecimento sobre os gases HFC. Além de toda a estrutura de laboratórios, a Embraco conta com uma parceria especialmente importante, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). São 23 anos de convívio estreito e sem interrupções, conta o diretor corporativo de tecnologia da companhia, Laércio Hardt, em entrevista a Inovação Unicamp.

Em 1994, um fabricante da Alemanha desenvolveu um refrigerador que usava um refrigerante natural, o isobutano. Além de não ter potencial de destruição da camada de ozônio, o isobutano se degrada mais rapidamente do que o HFC, que contribui para o efeito estufa. A empresa produz há alguns anos compressores com isobutano e, recentemente, passou a fabricar compressores com propano — outro refrigerante natural e parente do isobutano —, em aplicações comerciais, para refrigeradores maiores. Na Europa, a Embraco ainda produz compressores para ar condicionado que usam os CFCs, permitidos pela legislação.

Onde e como inovar? Mercado, concorrentes e legislação respondem

Como mostram as experiências acima, os clientes da Embraco, a legislação e o comportamento dos concorrentes formam uma cadeia que orienta a inovação praticada pela empresa. "Nossos clientes solicitam produtos mais avançados ou de menor custo a medida em que vão explorar nichos de mercado ou procuram posicionar seus produtos", comentou Ernani Pautasso Nunes. "A legislação, não só no que diz respeito a energia, mas também ambiental, nos induz a fazer novos desenvolvimentos e estamos constantemente monitorando os nossos concorrentes para que tenhamos sempre produtos mais competitivos que os deles", completou. Um quarto fator importante para a inovação é o próprio posicionamento da Embraco, sua estratégia de colocação de produtos no mercado e o tipo de cliente que vai atender ou o crescimento que está buscando.

"A Embraco não faz investimento em P&D somente em coisas extremamente avançadas e, portanto, com maior chance de insucesso. Pegamos todas as idéias e projetos, os recursos financeiros, dividimos e classificamos de acordo com sua natureza", esclareceu Nunes. Alguns projetos, chamados de tecnologia core (núcleo, em inglês), são relacionados à parte fundamental do negócio da Embraco. São tecnologias em que a empresa precisa trabalhar continuamente como, por exemplo, acústica e consumo de energia. "Para esses programas de pesquisa já se destina uma parte fixa (de dinheiro), aqui a gente não mexe", revelou. A empresa também investe nas tecnologias de ponta, em que pouca gente trabalha e o risco é bem maior. É o caso hoje da nanotecnologia e da eletrônica, principalmente softwares. A Embraco procura balancear sua carteira de projetos, de modo que possa investir em tecnologias que trarão resultados no curto, médio e longo prazos.

A empresa conta com cerca de 400 profissionais atuando em P&D integral ou parcialmente, entre a equipe de 150 engenheiros, mais os pesquisadores e técnicos do GTPP. Muitos pesquisadores estão na Embraco há mais de 10 anos. Alguns chegaram antes mesmo da formação da equipe de P&D, como o pesquisador sênior do Departamento de Engenharia Mecânica da empresa, Dietmar Lilie, técnico mecânico formado em 1978 pela Escola Técnica Tupy, em Joinville. Começou a trabalhar na Embraco em 1980, em manutenção, mas sempre foi muito curioso e desmontava todas as máquinas que caíam nas suas mãos. Em 1983, ele passou para a área de desenvolvimento de produto, integrando o primeiro grupo de pesquisa.

Ele e outras três pessoas participaram do projeto que culminou no primeiro compressor Embraco, o EM. "Tivemos dificuldades enormes e foi uma fase de grande aprendizagem", recordou ele, ao falar de um tempo em que os projetos eram desenhados em papel e os modelos para análise de layout eram feitos em madeira. Naquela época também não havia Internet. A Conferência de Purdue, a universidade e a pouca literatura científica existente na época eram as fontes dos pesquisadores. "Além disso, tinha nossa própria curiosidade mesmo, saber como funcionava o compressor me motivava", completou.


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