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..Publicada em 21 de outubro 2004

Localização de laboratórios industriais

Daitan Labs pretende trazer para o Brasil atividades de
pesquisa de empresas norte-americanas de telecomunicações

Atrair para o Brasil as atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D&I) das empresas de telecomunicações norte-americanas é o foco da Daitan Labs, fundada em fevereiro deste ano e presidida por Augusto Savio Cavalcanti. Trata-se de um exemplo de empresa atuando no outsourcing de P&D&I, apostando no processo de globalização dessas atividades, baseada, principalmente, no potencial brasileiro quanto ao oferecimento de recursos humanos qualificados. Um escritório em Chicago, nos Estados Unidos, e um sócio norte-americano demonstram a ambição da empresa, cujo nome se inspira na palavra japonesa que significa ousadia.

Basicamente, a Daitan Labs oferece uma estrutura básica (espaço físico, computadores) e monta equipes de P&D&I para empresas de telecomunicações norte-americanas que queiram executar essas atividades no Brasil. O objetivo é atrair projetos que sejam estratégicos para os negócios das empresas (chamados core). Para isso, a companhia precisa mostrar que o Brasil é o melhor país para se desenvolver projetos de P&D&I. As equipes são multidisciplinares e apresentam variedade em relação à idade dos profissionais e função, além de níveis de formação diferenciados, que vão do técnico ao doutor.

Cada empresa cliente tem uma equipe dedicada, que não tem contato com as demais. Se um cliente visitar a Daitan Labs, não passará pelas salas, técnicos e equipamentos de outro cliente da empresa brasileira. Tudo em nome do sigilo. Por conta dessa necessidade, a Daitan Labs alugou um andar inteiro de um dos prédios do centro empresarial Galleria, que fica à beira da rodovia Dom Pedro I, em Campinas. Os pesquisadores são funcionários da Daitan Labs, não dos clientes. Quando é preciso usar laboratórios que não existem aqui, os profissionais vão até a empresa do cliente para usar a infra-estrutura.

Por que vir para o Brasil?

O argumento básico de Cavalcanti e seus sócios para convencer os clientes a virem para o Brasil é a qualidade dos recursos humanos disponíveis aqui. Qualidade que não se resume à qualificação profissional dos doutores brasileiros. "Somos criativos, temos princípios, valores, posicionamentos morais que para nós parecem normais, mas que no exterior são incomuns e valorizados", argumenta. Além da propalada criatividade brasileira — anteriormente traduzida negativamente como jeitinho brasileiro —, o Brasil tem a seu favor uma sociedade que busca o convívio entre as pessoas. "No Brasil, é mais fácil achar uma pessoa que fale italiano, japonês, espanhol, alemão, do que nos Estados Unidos, por exemplo. Os norte-americanos valorizam muito essa diversidade de línguas, de opiniões, de culturas", comenta.

A retenção é outra característica importante da mão-de-obra brasileira. No Brasil, em cargos relacionados a atividades de P&D&I, a rotatividade é baixa entre os profissionais. "Quando as pessoas deixam a empresa, perde-se o investimento em treinamento, em fazer o funcionário entender a tecnologia, e esse conhecimento vai para o concorrente", aponta. A mentalidade empreendedora, de ter o próprio negócio, também é uma característica do Brasil que Cavalcanti valoriza junto a seus clientes. "Isso gera uma postura em que cada pessoa se responsabiliza pelo que vai fazer como se fosse dona daquilo, ela se torna responsável e é ponto de honra chegar até o fim." A posição geográfica também pesa favoravelmente ao Brasil, quando se olha o mercado nos Estados Unidos: apenas uma hora de fuso horário, contra mais de dez horas para a Índia. Existe ainda a identificação cultural mais próxima entre norte-americanos e brasileiros.

Há dois componentes fundamentais para a atração de centros e atividades de P&D&I para o País, conforme apontado pelo estudo da Economist Intelligence Unit (EIU) e confirmado por Cavalcanti. Primeiro, o mercado de telecomunicações do Brasil é muito atrativo, dado seu tamanho e potencial de crescimento. Segundo, os custos com recursos humanos no Brasil são muito menores, apesar do nível dos profissionais nacionais se equiparar, tanto em conhecimento quanto em performance, ao dos países desenvolvidos. Esse é o argumento básico dado pela Daitan Labs ao cliente que pergunta por que deve contratá-los. "Além da nossa competência, o custo aqui é um terço menor se comparado com os Estados Unidos. E seremos mais ágeis", afirma.

Ele explica que alguns dos pontos fracos brasileiros não afetam a área na qual busca seus clientes, a de telecomunicações. É o caso da propriedade intelectual. "Nesse setor, há um absoluto respeito pela propriedade intelectual no Brasil", diz. Mesmo em relação à macroeconomia o Brasil está bem situado, pois há pequenas oscilações do dólar em relação ao real que não chegam a comprometer a situação de seus clientes. O mais crítico seria a questão dos impostos, muito elevados. "Poderíamos não pagar impostos para equipamentos destinados para P&D&I, mas a gente busca alternativas, como emprestar equipamentos, por exemplo. Não gosto muito dessa postura de que o governo precisa fazer as coisas, o empresário tem de fazer acontecer."

Bases na pequena e grande empresa

São sócios de Cavalcanti na empresa James Bergamini, presidente para a área de vendas, profissional que cuidava das fusões e joint-ventures na Lucent e hoje fica sediado no escritório da Daitan Labs em Chicago; Carlos Seo, diretor de desenvolvimento de negócios; Paulo Dantas, diretor de operações; Helio Kinoshita, diretor de tecnologia; e Fabio Matsumoto, diretor técnico. Além dos sócios, há uma equipe de 17 pessoas, ligadas às atividades de P&D&I, atendendo a dois clientes, cujos nomes são mantidos em sigilo.

Para entender a Daitan Labs, é preciso olhar o histórico de Cavalcanti, fundador da companhia. Formado em Engenharia Elétrica na Unicamp em 1983, um ano depois estava trabalhando na IBCT, empresa que desenvolveu uma central comunitária de telefonia. Depois de um ano e meio de trabalho no projeto — partiu da concepção para o desenvolvimento de software, hardware, placas, tudo feito nacionalmente — com uma equipe que ia e vinha de Campinas a São Paulo todos os dias, o produto ficou pronto, mas a IBCT decidiu sair deste mercado.

"Ficávamos quase duas horas nessas viagens de São Paulo a Campinas, sem o que fazer. Conversávamos e daí tivemos a idéia de fazer uma nova empresa. Surgiu a Zetax, formada por pessoas que tinham visão de negócio, o que foi um grande diferencial na hora de lidar com o cliente", lembra. Essa companhia se especializou no atendimento do mercado de centrais telefônicas, desenvolvendo inicialmente um produto de 600 terminais de capacidade – o ZTX-600. Um ano depois de idealizado o produto, obtiveram o certificado da Telebrás e começaram a fabricá-lo. Ele custava um terço menos do que o dos concorrentes, empresas do porte da Siemens, Ericsson e NEC. Conseguiram 32% de participação no mercado interno, resultado esse relacionado ao fato de que P&D&I era fundamental para a companhia desde o início. "Chegamos a investir 18% do faturamento em desenvolvimento", lembra.

Em 1999, a Zetax foi vendida para a Lucent Technologies, que estava interessada em conquistar o mercado de central telefônica. Cavalcanti foi, então, transferido para a Lucent, como vice-presidente do Bell Labs no Brasil. "Adotei como missão pessoal mostrar que tínhamos um time de primeira linha no Brasil", afirma. Ele elaborou um projeto para levar 15 pesquisadores daqui para o Bell Labs nos Estados Unidos. A Lucent aprovou o envio de cinco pessoas, que ficaram por três anos fora do País. Cavalcanti, quando percebia que um projeto de P&D da Lucent podia ser desenvolvido no Brasil, convencia a corporação a enviar o projeto para cá. Isso aconteceu em wireless, em central telefônica e em outras áreas. "Multiplicamos por dez o número de pessoas em P&D aqui no Brasil se comparado com a equipe da Zetax, isso em um período difícil por conta do estouro da bolha da Internet", destaca.

Todo esse histórico, segundo o presidente da Daitan Labs, trouxe um diferencial para a empresa em relação a outras que atuam em outsourcing de P&D&I. "Temos a experiência da pequena empresa, a dificuldade de sobreviver que nos moldou, por conta da Zetax, e temos a visão global, trazida pelo trabalho desenvolvido na Lucent", enumera. Esse conhecimento gerou uma visão mais complexa do outsourcing e do próprio processo de inovação. Os executivos não encaram como missão apenas atrair uma atividade pontual de P&D&I, mas trabalham em um contexto mais amplo, motivando seus clientes a fazerem mais projetos no Brasil e também a produzirem aqui o resultado desses projetos. "Damos suporte em produção local, em gerenciamento de produto, apoio ao cliente direto, à tecnologia como um todo, enfim, oferecemos valor agregado, vamos além do P&D", lista. (J.S.)

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