| Localização
de laboratórios industriais
Daitan Labs pretende trazer
para o Brasil atividades de
pesquisa de empresas norte-americanas de
telecomunicações
Atrair para
o Brasil as atividades de pesquisa, desenvolvimento
e inovação (P&D&I)
das empresas de telecomunicações
norte-americanas é o foco da Daitan
Labs, fundada em fevereiro deste ano e presidida
por Augusto Savio Cavalcanti. Trata-se de
um exemplo de empresa atuando no outsourcing
de P&D&I, apostando no processo
de globalização dessas atividades,
baseada, principalmente, no potencial brasileiro
quanto ao oferecimento de recursos humanos
qualificados. Um escritório em Chicago,
nos Estados Unidos, e um sócio norte-americano
demonstram a ambição da empresa,
cujo nome se inspira na palavra japonesa
que significa ousadia.
Basicamente,
a Daitan Labs oferece uma estrutura básica
(espaço físico, computadores)
e monta equipes de P&D&I para empresas
de telecomunicações norte-americanas
que queiram executar essas atividades no
Brasil. O objetivo é atrair projetos
que sejam estratégicos para os negócios
das empresas (chamados core). Para
isso, a companhia precisa mostrar que o
Brasil é o melhor país para
se desenvolver projetos de P&D&I.
As equipes são multidisciplinares
e apresentam variedade em relação
à idade dos profissionais e função,
além de níveis de formação
diferenciados, que vão do técnico
ao doutor.
Cada empresa
cliente tem uma equipe dedicada, que não
tem contato com as demais. Se um cliente
visitar a Daitan Labs, não passará
pelas salas, técnicos e equipamentos
de outro cliente da empresa brasileira.
Tudo em nome do sigilo. Por conta dessa
necessidade, a Daitan Labs alugou um andar
inteiro de um dos prédios do centro
empresarial Galleria, que fica à
beira da rodovia Dom Pedro I, em Campinas.
Os pesquisadores são funcionários
da Daitan Labs, não dos clientes.
Quando é preciso usar laboratórios
que não existem aqui, os profissionais
vão até a empresa do cliente
para usar a infra-estrutura.
Por
que vir para o Brasil?
O argumento
básico de Cavalcanti e seus sócios
para convencer os clientes a virem para
o Brasil é a qualidade dos recursos
humanos disponíveis aqui. Qualidade
que não se resume à qualificação
profissional dos doutores brasileiros. "Somos
criativos, temos princípios, valores,
posicionamentos morais que para nós
parecem normais, mas que no exterior são
incomuns e valorizados", argumenta.
Além da propalada criatividade brasileira
— anteriormente traduzida negativamente
como jeitinho brasileiro —, o Brasil
tem a seu favor uma sociedade que busca
o convívio entre as pessoas. "No
Brasil, é mais fácil achar
uma pessoa que fale italiano, japonês,
espanhol, alemão, do que nos Estados
Unidos, por exemplo. Os norte-americanos
valorizam muito essa diversidade de línguas,
de opiniões, de culturas", comenta.
A retenção
é outra característica importante
da mão-de-obra brasileira. No Brasil,
em cargos relacionados a atividades de P&D&I,
a rotatividade é baixa entre os profissionais.
"Quando as pessoas deixam a empresa,
perde-se o investimento em treinamento,
em fazer o funcionário entender a
tecnologia, e esse conhecimento vai para
o concorrente", aponta. A mentalidade
empreendedora, de ter o próprio negócio,
também é uma característica
do Brasil que Cavalcanti valoriza junto
a seus clientes. "Isso gera uma postura
em que cada pessoa se responsabiliza pelo
que vai fazer como se fosse dona daquilo,
ela se torna responsável e é
ponto de honra chegar até o fim."
A posição geográfica
também pesa favoravelmente ao Brasil,
quando se olha o mercado nos Estados Unidos:
apenas uma hora de fuso horário,
contra mais de dez horas para a Índia.
Existe ainda a identificação
cultural mais próxima entre norte-americanos
e brasileiros.
Há
dois componentes fundamentais para a atração
de centros e atividades de P&D&I
para o País, conforme apontado pelo
estudo da Economist
Intelligence Unit (EIU)
e confirmado por Cavalcanti. Primeiro, o
mercado de telecomunicações
do Brasil é muito atrativo, dado
seu tamanho e potencial de crescimento.
Segundo, os custos com recursos humanos
no Brasil são muito menores, apesar
do nível dos profissionais nacionais
se equiparar, tanto em conhecimento quanto
em performance, ao dos países desenvolvidos.
Esse é o argumento básico
dado pela Daitan Labs ao cliente que pergunta
por que deve contratá-los. "Além
da nossa competência, o custo aqui
é um terço menor se comparado
com os Estados Unidos. E seremos mais ágeis",
afirma.
Ele explica
que alguns dos pontos fracos brasileiros
não afetam a área na qual
busca seus clientes, a de telecomunicações.
É o caso da propriedade intelectual.
"Nesse setor, há um absoluto
respeito pela propriedade intelectual no
Brasil", diz. Mesmo em relação
à macroeconomia o Brasil está
bem situado, pois há pequenas oscilações
do dólar em relação
ao real que não chegam a comprometer
a situação de seus clientes.
O mais crítico seria a questão
dos impostos, muito elevados. "Poderíamos
não pagar impostos para equipamentos
destinados para P&D&I, mas a gente
busca alternativas, como emprestar equipamentos,
por exemplo. Não gosto muito dessa
postura de que o governo precisa fazer as
coisas, o empresário tem de fazer
acontecer."
Bases
na pequena e grande empresa
São
sócios de Cavalcanti na empresa James
Bergamini, presidente para a área
de vendas, profissional que cuidava das
fusões e joint-ventures
na Lucent e hoje fica sediado no escritório
da Daitan Labs em Chicago; Carlos Seo, diretor
de desenvolvimento de negócios; Paulo
Dantas, diretor de operações;
Helio Kinoshita, diretor de tecnologia;
e Fabio Matsumoto, diretor técnico.
Além dos sócios, há
uma equipe de 17 pessoas, ligadas às
atividades de P&D&I, atendendo a
dois clientes, cujos nomes são mantidos
em sigilo.
Para entender
a Daitan Labs, é preciso olhar o
histórico de Cavalcanti, fundador
da companhia. Formado em Engenharia Elétrica
na Unicamp em 1983, um ano depois estava
trabalhando na IBCT, empresa que desenvolveu
uma central comunitária de telefonia.
Depois de um ano e meio de trabalho no projeto
— partiu da concepção
para o desenvolvimento de software,
hardware, placas, tudo feito nacionalmente
— com uma equipe que ia e vinha de
Campinas a São Paulo todos os dias,
o produto ficou pronto, mas a IBCT decidiu
sair deste mercado.
"Ficávamos
quase duas horas nessas viagens de São
Paulo a Campinas, sem o que fazer. Conversávamos
e daí tivemos a idéia de fazer
uma nova empresa. Surgiu a Zetax, formada
por pessoas que tinham visão de negócio,
o que foi um grande diferencial na hora
de lidar com o cliente", lembra. Essa
companhia se especializou no atendimento
do mercado de centrais telefônicas,
desenvolvendo inicialmente um produto de
600 terminais de capacidade – o ZTX-600.
Um ano depois de idealizado o produto, obtiveram
o certificado da Telebrás e começaram
a fabricá-lo. Ele custava um terço
menos do que o dos concorrentes, empresas
do porte da Siemens, Ericsson e NEC. Conseguiram
32% de participação no mercado
interno, resultado esse relacionado ao fato
de que P&D&I era fundamental para
a companhia desde o início. "Chegamos
a investir 18% do faturamento em desenvolvimento",
lembra.
Em 1999,
a Zetax foi vendida para a Lucent Technologies,
que estava interessada em conquistar o mercado
de central telefônica. Cavalcanti
foi, então, transferido para a Lucent,
como vice-presidente do Bell Labs no Brasil.
"Adotei como missão pessoal
mostrar que tínhamos um time de primeira
linha no Brasil", afirma. Ele elaborou
um projeto para levar 15 pesquisadores daqui
para o Bell Labs nos Estados Unidos. A Lucent
aprovou o envio de cinco pessoas, que ficaram
por três anos fora do País.
Cavalcanti, quando percebia que um projeto
de P&D da Lucent podia ser desenvolvido
no Brasil, convencia a corporação
a enviar o projeto para cá. Isso
aconteceu em wireless, em central
telefônica e em outras áreas.
"Multiplicamos por dez o número
de pessoas em P&D aqui no Brasil se
comparado com a equipe da Zetax, isso em
um período difícil por conta
do estouro da bolha da Internet", destaca.
Todo
esse histórico, segundo o presidente
da Daitan Labs, trouxe um diferencial para
a empresa em relação a outras
que atuam em outsourcing de P&D&I.
"Temos a experiência da pequena
empresa, a dificuldade de sobreviver que
nos moldou, por conta da Zetax, e temos
a visão global, trazida pelo trabalho
desenvolvido na Lucent", enumera. Esse
conhecimento gerou uma visão mais
complexa do outsourcing e do próprio
processo de inovação. Os executivos
não encaram como missão apenas
atrair uma atividade pontual de P&D&I,
mas trabalham em um contexto mais amplo,
motivando seus clientes a fazerem mais projetos
no Brasil e também a produzirem aqui
o resultado desses projetos. "Damos
suporte em produção local,
em gerenciamento de produto, apoio ao cliente
direto, à tecnologia como um todo,
enfim, oferecemos valor agregado, vamos
além do P&D", lista. (J.S.) |