Política
de C&T
— No dia 5
de agosto, Sheila Jasanoff, da Universidade
de Harvard, esteve no Instituto de
Estudos Avançados (IEA) da
Universidade de São Paulo (USP).
Em uma frase, ela disse aos que assistiram
à sua palestra que, atualmente,
a "nova política das políticas
de ciência e tecnologia"
é ter o conhecimento como capital
e a sustentabilidade como objetivo.
Sheila deixou claro que, nos dias
de hoje, inovação e
velocidade são as palavras
de ordem: segundo ela, não
basta inovar para obter novos produtos
e processos e para conquistar novos
mercados e consumidores; é
preciso inovar o mais rápido
possível para evitar que alguém
alcance e proteja primeiro o resultado
que se está buscando. No caso
de novidades científicas, como
transgênicos ou células-tronco
embrionárias, ela disse ser
importante pensar a respeito de quem
deve decidir o que é e o que
não é aceitável,
e verificar se há fóruns
adequados de discussão e instituições
com autoridade para resolver as divergências.
Os elaboradores de políticas
públicas, acrescentou, devem
levar em consideração
não só os riscos físicos
das novas tecnologias, mas também
os riscos sociais e os impactos econômicos
e éticos que elas podem trazer.
Ela afirmou que a regulação
é uma forma de a sociedade
monitorar as mudanças tecnológicas
e sociais e observou que as regras
têm de ser orientadas para os
processos de produção,
e não para produtos em particular.
A pesquisadora chamou a atenção
para o fato de os países democráticos
possuírem características
que tornam suas políticas de
ciência e tecnologia diferentes
umas das outras: alguns, como os Estados
Unidos, aceitam correr mais riscos,
enquanto outros, como a Alemanha,
são mais precavidos, exemplificou.
Ela lembrou que as populações
também se mobilizam de maneiras
diferentes diante de assuntos polêmicos.
Para ilustrar, comparou o modo como
vários países tratam
a questão das células-tronco
embrionárias: nos Estados Unidos,
pesquisas nessa área só
podem ser feitas com recursos privados;
no Reino Unido, apenas se o governo
aprovar; na Itália, a única
pesquisa permitida é a baseada
na transferência nuclear de
células somáticas; e
na Alemanha, não se faz de
jeito nenhum. Sheila Jasanoff estuda
interações entre direito,
ciência e política nas
sociedades democráticas. O
livro mais recente da professora,
publicado em 2005, é Designs
on Nature: Science and Democracy in
Europe and the United States. Trata-se
de um estudo comparativo — o
tipo preferido de Sheila — entre
as políticas de biotecnologia
do Reino Unido, da Alemanha e dos
Estados Unidos. A conferência
foi organizada pelo escritório
de São Paulo do Programa de
Estudos sobre o Brasil do Centro David
Rockefeller de Estudos Latino-Americanos
de Harvard, em parceria com o Grupo
de Filosofia, História e Sociologia
da Ciência e da Tecnologia do
IEA.
Carvão
— O ministro de Minas
e Energia, Edison Lobão, e
o subsecretário de Energia
dos Estados Unidos, Jeffrey Kupfer,
encontraram-se dia 5 de agosto. Ao
final do encontro, foi emitida uma
declaração conjunta,
em que os países afirmam seu
compromisso em "compartilhar
progressos nos esforços para
desenvolver biocombustíveis
de segunda geração;
promover iniciativas visando à
eficiência energética
em nível internacional; apoiar
esforços para atrair maiores
investimentos no setor energético;
garantir que administração,
tecnologia e capital de ponta sejam
direcionados a projetos-chave de desenvolvimento
energético; e aumentar a cooperação
bilateral na tecnologia de carvão
limpo". Esse último foi
o tópico mais detalhado na
declaração conjunta.
De acordo com ela, a cooperação
entre Brasil e EUA buscará
a troca de conhecimento sobre políticas,
programas e tecnologias, com ênfase
na geração de produção
de combustíveis limpos. O documento
cita as tecnologias de gaseificação
do carvão; de combustão
para carvão com alto índice
de geração de cinzas;
o processo de transformação
de carvão e biomassa em líquidos;
estudos sobre segurança em
minas de carvão e tecnologias
para melhorar sua exploração;
seqüestro e armazenamento de
gás carbônico; e apoio
na capacitação para
essas tecnologias. Segundo a declaração
conjunta, a ênfase ao carvão
nessa reunião ocorreu porque
os dois países querem cobrir
pontos que os outros acordos bilaterais
atualmente em vigor não previram
em energia de carvão limpo.
Segundo o Balanço Energético
Nacional (BEN) de 2007, feito pela
Empresa de Pesquisas Energéticas
(EPE), vinculada ao Ministério
de Minas e Energia (MME), a participação
do carvão mineral e seus derivados
como fonte de energia primária
no País foi de 6,2%; já
o carvão vegetal e a lenha
responderam por 12,5%. Dia 20 de agosto,
o Grupo Diretor e Comitê Consultivo
Estados Unidos–Brasil para Cooperação
em Biocombustíveis realizará
sua terceira reunião.
Sibratec
— A Financiadora de
Estudos e Projetos (Finep) lançou
as duas chamadas públicas para
selecionar as instituições
que integrarão as redes do
Sistema Brasileiro de Tecnologia (Sibratec).
Estão previstos R$ 40 milhões
para o edital. O objetivo das Redes
de Extensão Tecnológica,
foco do primeiro edital, é
promover a assistência técnica
especializada ao processo de inovação.
Na primeira fase de seleção
do edital, a instituição
apresentará uma proposta preliminar,
até 28 de agosto. Serão
avaliados projetos com valor entre
R$ 1 milhão e R$ 3 milhões.
A segunda chamada selecionará
instituições para integrar
as Redes de Prestação
de Serviços Tecnológicos.
Essas redes devem apoiar prioritariamente
as micro, pequenas e médias
empresas quanto à prestação
de serviços de metrologia,
normalização e avaliação
de conformidade visando à superação
de exigências técnicas
para o acesso a mercados, assim como
para atender demandas estratégicas
do País. Poderão se
candidatar instituições
públicas ou privadas sem fins
lucrativos, definidas como de ensino,
pesquisa ou desenvolvimento, que comprovem
experiência na prestação
de serviços tecnológicos
de calibração, ensaios
e análises (incluindo ensaio
de proficiência) ao setor empresarial.
A documentação deve
ser enviada até 6 de setembro.
Institutos
Nacionais —
O Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico
(CNPq) lançou em 4 de agosto
o edital para o programa Institutos
Nacionais de Ciência, Tecnologia
e Inovação, anunciado
dia
14 de julho durante a
60ª Reunião Anual da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC). Já a Financiadora de
Estudos e Projetos (Finep) lançou
duas chamadas públicas, em
31 de julho, para selecionar as instituições
que integrarão as Redes de
Extensão Tecnológica
e de Prestação de Serviços
Tecnológicos do Sistema Brasileiro
de Tecnologia (Sibratec), criado em
novembro de 2007. No caso do edital
para os Institutos Nacionais, há
R$ 435 milhões para aplicação
em três anos. São R$
270 milhões do Ministério
da Ciência e Tecnologia (MCT)
e mais R$ 135 milhões das Fundações
de Amparo à Pesquisa dos Estados
de Minas Gerais (Fapemig), Rio de
Janeiro (Faperj) e São Paulo
(Fapesp). Embora os três Estados
respondam por 78% da produção
científica nacional (2007),
eles vão receber apenas 50%
dos recursos federais envolvidos no
programa. A Coordenadoria de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior
(Capes), do Ministério da Educação,
entrará com R$ 30 milhões,
em bolsas. O Ministério da
Saúde, o Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES), a Petrobras e outras
empresas também poderão
financiar os institutos futuramente,
se fizerem acordos com o MCT. O CNPq
receberá propostas até
18 de setembro e o resultado está
previsto para 17 de novembro de 2008.
Ceitec
— O presidente Luiz
Inácio Lula da Silva sancionou
dia 31 de julho a Lei 94/2008, que
faz do Centro Nacional de Tecnologia
Eletrônica Avançada (Ceitec
S/A) uma empresa pública, vinculada
ao Ministério da Ciência
e Tecnologia (MCT). A transformação
do Ceitec em empresa pública,
segundo o governo, abre a possibilidade
de repasse de mais recursos do Orçamento
da União. Até julho
de 2008, o Ceitec, sediado em Porto
Alegre (RS), havia recebido cerca
de R$ 250 milhões em investimentos
do governo federal. Outros R$ 20 milhões
serão necessários para
viabilizar a fabricação
do primeiro circuito integrado pela
empresa. A expectativa é grande:
os recursos serão repassados
nos próximos quatro anos, prazo
que o governo federal considera suficiente
para que a empresa passe a atuar nos
mercados nacional e internacional
e gerar lucro. Na previsão
do Ceitec, o primeiro chip
projetado e desenvolvido no Brasil
deve sair da linha de produção
até o fim de 2009. O plano
de negócios do centro prevê
que, em 2012, a unidade terá
uma receita bruta de R$ 100 milhões,
com lucro aproximado de R$ 20 milhões.
O Ceitec foi projetado para atuar
como fábrica de semicondutores
e como unidade de pesquisa e formação
de profissionais. Um dos projetos
em execução hoje é
de um chip para codificação
de vídeo para receptores de
TV Digital. Sempre de acordo com o
Ceitec, há possibilidade de
a empresa desenvolver e fabricar o
semicondutor para atender ao Sistema
Nacional de Identificação
Automática de Veículos
(Siniav), que está em estudo
no Departamento Nacional de Trânsito
(Denatran) e prevê a identificação
eletrônica de todos os veículos
do País. O Ceitec também
poderá desenvolver um chip
com tecnologia de identificação
por rádio freqüência
(RFD,na sigla em inglês),
que permite o monitoramento de produtos.
Uma das aplicações possíveis
é nos programas de rastreabilidade
bovina. Toda a demanda de semicondutores
do Brasil é importada, o que
contribui para o déficit da
balança comercial. Apenas com
eletrônicos, as importações
somam US$ 9 bilhões, dos quais
US$ 6 bilhões são com
circuitos integrados.
Mamona
não —
Óleo de mamona, sozinho, não
serve como matéria-prima para
produzir biodiesel. O governo federal
investiu no óleo de mamona
em seu programa de biodiesel, pela
possibilidade de geração
de renda para os produtores do semi-árido
nordestino. Ocorre que, de acordo
com a Agência Nacional do Petróleo
(ANP), biodiesel feito de óleo
de mamona não atende aos critérios
definidos pela agência em sua
Resolução Número
7. Nela foram estabelecidos vários
critérios físicos e
químicos para o biodiesel.
Pelos parâmetros, o biodiesel
produzido apenas com mamona é
muito viscoso e, por isso, não
pode ser usado diretamente nos motores,
pois poderia danificá-los.
Para a ANP, a mamona foi a única
oleaginosa que não se enquadrou
nos parâmetros técnicos
do biocombustível. As demais
— soja, pinhão-manso,
algodão — podem ser usadas
para produzir biodiesel sem precisar
de mistura. Com a edição
da resolução da ANP,
para usar óleo de mamona na
produção de biodiesel,
é preciso misturá-lo
com o óleo de algum outro vegetal
ou outro material gorduroso. Ainda
dentro do programa de biodiesel, o
Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico
(CNPq) lançou, dia 8 de agosto,
dois editais para apoiar atividades
de pesquisa e inovação
para produção do biocombustível.
Serão repassados cerca de R$
9,5 milhões para projetos nas
áreas previstas nos editais.
O primeiro edital é direcionado
para projetos na área de cultivo
de plantas de ciclo curto para produção
de biodiesel. O valor total dos financiamentos
será de R$ 4,5 milhões.
O outro edital selecionará
projetos que visam à utilização
de co-produtos associados à
cadeia produtiva de biodiesel. As
propostas aprovadas serão financiadas
com recursos no valor global de R$
5 milhões. As propostas devem
ser submetidas até 22 de setembro.
Os resultados serão divulgados
a partir de 24 de outubro e os projetos
serão contratados a partir
de 24 de novembro.
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