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..Atualizada em 16 de junho de 2004; publicada em 10 de junho

Política Industrial, centro gaúcho de prototipagem

Edital de R$ 5,4 milhões para levantar a instalação do Ceitec
anima os pesquisadores, quatro anos depois da criação do Centro

O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) anunciou o lançamento de um edital no valor de R$ 5,4 milhões para o Centro de Excelência em Tecnologia Avançada (Ceitec), situado em Porto Alegre. O valor será aplicado na licitação do prédio para abrigar um centro de design de chips e no plano para o estabelecimento de planta para fabricação em pequena escala. "Viabilizar a instalação do Centro Gaúcho de Prototipagem", a partir do Ceitec, é uma das medidas para a área de semicondutores incluída no detalhamento da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior apresentado pelo governo no dia 31 de março último. A Motorola doou os equipamentos ao Ceitec em 2002.

Sérgio Dias, diretor presidente do Centro, explica o que pretende o Ceitec. Segundo ele, a missão do centro é formar recursos humanos e ajudar o Brasil a se inserir no mercado de fabricação de chips. "Vamos fazer pesquisa e desenvolvimento e teremos uma pesada relação com a área industrial, desenvolvendo chips que serão usados pela indústria." Dias conta que essa transferência pode se dar partindo de projetos de chips desenvolvidos pelo Ceitec, em parceria com centros de pesquisa e universidades, ou de encomendas feitas ao centro por uma empresa. Com a sala limpa, o Ceitec poderá construir pequenos lotes. "Dependendo do consumo, poderemos fazer toda a produção também", acrescenta o diretor.

O orçamento

A estrutura do Ceitec é formada, basicamente, pelo centro de design, núcleo que fará o projeto dos chips em computadores, criando a forma dos circuitos, e pela sala limpa, onde são fabricados os chips. O Ceitec ficou praticamente parado até o ano passado, basicamente por falta de investimento do governo. Conseguiu fazer o projeto básico e estudo de mercado. Recebeu um terreno de 6 mil hectares, doado pela Prefeitura de Porto Alegre. Em 2003, obteve da Finep R$ 7,5 milhões - R$ 5,8 milhões vindos de emenda parlamentar dentro do Fundo Nacional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e R$ 1,7 milhão originários do Fundo Verde-Amarelo, informa o diretor de Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Finep, Odilon Marcuzzo do Canto. Os recursos da Finep foram voltados para a elaboração do projeto do centro de design, de acordo com Sérgio Dias.

Em 2004, devem começar a construção do núcleo de design e a compra de equipamentos para ele, pois os existentes até agora são para a prototipagem dos chips. "Esperamos ter o núcleo pronto até o final deste ano", afirma Dias. Segundo o ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, o edital de R$ 5,4 milhões será para a primeira etapa das obras e para a execução do projeto da sala limpa. Henrique de Oliveira Miguel, coordenador-geral de microeletrônica da Secretaria de Política de Informática e Tecnologia (Seitec) do MCT, conta que o orçamento de 2004 para o Ceitec é de R$ 6.022.741,00.

A construção da sala limpa, necessária para a prototipagem, é mais complicada. Trata-se de um ambiente em que a concentração de partículas no ar, a temperatura, a umidade e a pressão são controladas e sua construção minimiza a entrada de partículas no seu interior. A obra está orçada em um valor entre R$ 80 e R$ 90 milhões, de acordo com Sérgio Dias. O projeto engloba a construção de uma sala limpa de 800 metros quadrados com ambientes classes 10 e 100, e outra com 500 metros quadrados com ambiente classe 10.000. Os índices numéricos indicam o nível de pureza do ar. Quanto menor o número da classe, maior o grau de pureza do ambiente. Além disso, é necessária uma infra-estrutura de apoio ao funcionamento das salas limpas, também constante no projeto.

Sérgio Dias explica que R$ 40 milhões estão previstos para o Ceitec no Programa Plurianual do MCT, para 2004 a 2007. O PPA está sendo revisto pelo ministro Eduardo Campos, mas, pelo menos por enquanto, prevê para o Centro metade do valor que precisaria ser investido apenas para se fazer a sala limpa. "Decidimos na reunião de 5 de abril do conselho que a obra física da sala limpa vai ser responsabilidade do MCT. O governo está agora definindo de onde sairão os recursos para o Ceitec. O fato de termos os recursos garantidos do MCT não significa que não termos de utilizar recursos de outras fontes", afirma.

Dias diz também que os recursos podem ser captados de outros fundos e órgãos além do MCT, mas que quem vai fazer essa captação será o ministério. Henrique de Oliveira Miguel, do MCT, explica que por integrar a política industrial, o Ceitec poderá contar com novos recursos. O governo ainda estuda as fontes de recurso para financiar as medidas da política industrial. O ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, afirma que o orçamento total do Ceitec é de R$ 122 milhões.

Uma das dificuldades do Cietec na questão do recebimento de verbas públicas é que ele é uma associação sem fins lucrativos. Precisaria ser qualificada como organização social para receber recursos orçamentários. "Essa formatação jurídica dificulta porque só recebemos financiamento via projetos", afirma. "Estamos dois anos atrasados, já era para termos os primeiros lotes de chips, mas agora, se tudo correr dentro do previsto, só os teremos no final de 2005 ou começo de 2006", completa.

Olhar o mercado

Para um dos diretores do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Fiesp, Flavio Grynszpan, o Ceitec precisa de um plano de negócios. "Deve-se fazer um business plan para o Centro, o MCT seria apenas um pedaço. O laboratório precisa se manter ao longo do tempo", afirma o empresário, que era presidente da Motorola na época da doação dos equipamentos de prototipagem para a USP, em 1997. Para ele, um plano de negócios poderia ajudar a definir qual papel o Ceitec irá ocupar.

"É preciso estar sensível à realidade do mercado. Não adianta formar doutor se não tem empresa em microeletrônica", exemplifica. "O gargalo da microeletrônica no Brasil é a falta de empresas que viabilizem o negócio. Precisamos de empresas que ganhem dinheiro, que exportem, produzindo aqui ou não, pois devemos olhar para o lugar onde está o dinheiro, e não necessariamente para onde está a fábrica", completa.

Segundo o empresário, cada uma das etapas da produção de um chip tem valor agregado diferente. Há companhias que encomendam o design, o protótipo e os testes para terceiros e depois entregam o produto pronto para seu cliente. O diretor da Fiesp defende que o importante em semicondutores não é saber onde vai projetar ou fazer o chip, mas ter quem compre o produto, pois o poder hoje, em semicondutores, está migrando para quem controla o cliente.(J.S)

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