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..Publicada em 5 de agosto 2004

Agência de Inovação da Unicamp

Empresas de biotecnologia buscam se transformar
em bons negócios; Brasil tem dianteira na área de pesquisa

Thiago Guimarães
Rachel Bueno

De manhã, representantes do governo e empresários mostrando dificuldades de financiar projetos de biotecnologia. Pela tarde, pesquisadores explicando bons projetos de pesquisa que precisam de dinheiro para montar uma empresa. Assim foi organizada a terceira edição do congresso da Associação Brasileira de Empresas de Biotecnologia (Abrabi), que aconteceu em 15 de julho, no Centro de Convenções da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Com o tema "Transformando Biotecnologia em Bionegócios", o evento pretendia aproximar investidores de pesquisadores. Compareceram cerca de cinqüenta pessoas, entre acadêmicos, empresários e representantes do governo.

O primeiro a discursar foi o vice-reitor da Unicamp e professor da Faculdade de Engenharia Agrícola, José Tadeu Jorge. "Se tivermos como conseqüência a utilização do conhecimento no sentido produtivo, gerando emprego a serviço da população brasileira, a universidade estará cumprindo seu papel", afirmou Tadeu. O engenheiro elétrico e diretor-executivo da Agência de Inovação da Unicamp, Roberto de Alencar Lotufo, falou que a universidade também ganharia com professores "mais sintonizados com a realidade e conhecedores dos desafios da sociedade". A Agência firmou quinze parcerias em menos de um ano. Segundo ele, parcerias respondem por 7% do orçamento da Unicamp, número semelhante ao de universidades do exterior. Em sua opinião, biotecnologia tem um dos maiores potenciais de investimento pelo capital privado.

Marcelo Dini, da Unidade de Inovação e Acesso à Tecnologia do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP) ressaltou a importância dos pequenos negócios na economia paulista até concluir: "A gestão da inovação é fundamental para o desenvolvimento da pequena empresa". Em seguida, o novo presidente da Associação Brasileira de Capital de Risco (ABCR), Álvaro Gonçalves, explicou o encadeamento de investimentos requerido por uma nova empresa, desde seu nascimento até atingir sua maturidade. Enquanto não tiver acesso aos mercados líquidos de capital (como o mercado de ações, os títulos de renda fixa e os contratos derivativos), a empresa precisa do capital semente, do capital empreendedor e dos fundos de participações.

Gonçalves defendeu o abandono da expressão "capital de risco"; para ele, "venture capital" se traduz como "investimento de longo prazo na capitalização de empresas e de projetos de infra-estrutura, em segmentos competitivos e também nas novas frentes de competitividade da economia nacional". E aí entra a biotecnologia, um setor de vanguarda, de acordo com Gonçalves. “Estamos na frente de muitos países; podemos assegurar a vantagem se aplicarmos corretamente”, afirmou. Ele se comprometeu a discutir junto com a Abrabi formas de atrair os capitais de risco para a biotecnologia. Para isso, a ABCR terá de convencer os poupadores a usar os recursos de fundos de pensão para as pequenas empresas do setor.

O secretário da Câmara Técnica de Biotecnologia da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) Gilberto Soares lembrou que o governo brasileiro fala em investir em biotecnologia desde a década de 1980, mas ainda está preso ao "arcabouço jurídico-institucional" e a uma difícil situação financeira. Soares reconheceu que a Finep atualmente não pode correr risco, mas terá de encontrar "métodos e maneiras de trabalhar de forma mais modernizada".

O debate foi mediado por Antônio Paes de Carvalho, presidente da Abrabi e da Extracta Moléculas Naturais S.A. Dizendo que vivemos "no limiar de uma nova era do conhecimento", Carvalho criticou a universidade ("Formamos gente para grandes e não pequenas empresas tecnológicas"), a política do governo ("O dinheiro público pode e deve ir para o setor privado"), o mercado de capital de risco ("A indústria de capital de risco não pode operar como banco comercial; tem de investir, não para dois anos, mas para retornos enormes no futuro") e as leis ("A legislação brasileira mata as possibilidades de a pequena empresa progredir"). Tomando por exemplo os Estados Unidos, onde pequenas empresas de base tecnológica respondem por "70% ou 80% da inovação", o empresário criticou o pensamento típico brasileiro que não admite transferências do setor público para o privado. "Precisamos parar com essa subcultura, porque, depois, as empresas devolvem à sociedade muito mais, em forma de impostos, bem-estar e primazia do país", disse.

Projetos

Projetos promissores nas áreas de saúde pública e biomédica foram apresentados a partir das 14 horas, quando Gonçalves e representantes do governo já não estavam. Maria do Carmo Bittencourt Oliveira anunciou um novo método de monitoramento da qualidade da água para consumo humano e animal. Utilizando marcadores moleculares para uma toxina liberada por algas chamada microcistina, a pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) conseguiu resultados mais precisos por um método dez vezes mais barato e sete vezes mais rápido do que o tradicional teste com camundongos.

Companhias públicas de água e esgoto e a população sairiam ganhando, garante a pesquisadora. Episódios como o ocorrido em Caruaru (PE), em 1996, seriam evitados com mais eficácia. Lá, a contaminação da água causou a morte de 76 pessoas; outras sessenta desenvolveram câncer de fígado. O investimento em infra-estrutura necessário para pôr em prática o novo método gira em torno de US$ 6 mil. "Mas os pesquisadores da universidade não sentiram nesse evento a oportunidade de passar a pesquisa para fora", afirmou Maria do Carmo.

Outro projeto de destaque no congresso da Abrabi foi "Obtenção em larga escala de insulina humana madura em sementes de milho". Normalmente, a insulina é obtida a partir da pró-insulina artificialmente produzida por bactérias. Com base no conhecimento acumulado ao longo de duas décadas do Instituto de Biologia da Universidade de Campinas, cinco pesquisadores estão a menos de seis meses de extrair insulina do milho. E precisam de aproximadamente R$ 150 mil para concluir se o projeto merece investimento industrial ou não. O método de sintetizar insulina no endosperma do milho está sendo mantido sob sigilo e deve ser patenteado pela Agência de Inovação da Unicamp.

Mário Paniago, um dos pesquisadores, diz que o metabolismo do milho — ao contrário do das bactérias — não é tão afetado quando passa a produzir pró-insulina pois esta é armazenada apenas na semente e não na planta inteira. Embora não tenha garantias de que esse método seja mais eficiente, aposta na redução do custo de produção da insulina. "A pesquisa deve beneficiar a população em geral e trazer economia ao governo, já que boa parte da insulina é distribuída pelo Sistema Único de Saúde", concluiu Paniago.

Na apresentação intitulada "O futuro do mercado da virômica no Brasil: desenvolvimento e produção de vetores de DNA, matéria-prima da terapia gênica e celular", o professor Bryan Eric Strauss, do Instituto do Coração (Incor) da Faculdade de Medicina da USP, defendeu a criação de uma unidade de produção de vetores virais. Os vetores são vírus capazes de transportar genes com potencial terapêutico diretamente para as chamadas células alvo, como as células cancerosas. Por esse motivo, Strauss afirmou que a virômica é uma ponte entre a genômica e a terapia gênica. Segundo ele, estudos demonstram que aproximadamente 5 mil dos cerca de 35 mil genes humanos podem ser usados no tratamento de doenças. Um deles é o p53, um supressor de tumores.

O palestrante trabalha no projeto de pesquisa com sua mulher, a professora Eugenia Costanzi Strauss, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Eles ainda estão em fase de pesquisa básica, mas já produzem o adenovírus, o retrovírus e o lentivírus. Os vetores são usados nos estudos sobre a terapia gênica do câncer que o casal conduz em conjunto, financiados pela Fapesp. A tecnologia que possui, disse Strauss em entrevista a Inovação Unicamp, suportaria uma produção mediana de vírus, mas não uma em larga escala, dez vezes superior à atual. Ele considera necessária uma parceria com a indústria para a incorporação de novas tecnologias, adequadas à produção comercial. Uma unidade de produção de vetores virais "bem feita" custaria, na estimativa do professor, entre US$ 400 e US$ 500 mil. Strauss espera conseguir verba para a reforma das instalações (se a unidade ficar dentro da USP), compra de equipamento e contratação de funcionários. Em uma cotação recente, ele verificou que uma quantidade de adenovírus suficiente para se fazer um ensaio em laboratório custa em torno de US$ 2 mil.


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