| Agência de
Inovação da Unicamp
Empresas de biotecnologia
buscam se transformar
em bons negócios; Brasil tem dianteira
na área de pesquisa
Thiago
Guimarães
Rachel
Bueno
De
manhã, representantes do governo
e empresários mostrando dificuldades
de financiar projetos de biotecnologia.
Pela tarde, pesquisadores explicando bons
projetos de pesquisa que precisam de dinheiro
para montar uma empresa. Assim foi organizada
a terceira edição do congresso
da Associação Brasileira de
Empresas de Biotecnologia (Abrabi), que
aconteceu em 15 de julho, no Centro de Convenções
da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Com o tema "Transformando Biotecnologia
em Bionegócios", o evento pretendia
aproximar investidores de pesquisadores.
Compareceram cerca de cinqüenta pessoas,
entre acadêmicos, empresários
e representantes do governo.
O primeiro
a discursar foi o vice-reitor da Unicamp
e professor da Faculdade de Engenharia Agrícola,
José Tadeu Jorge. "Se tivermos
como conseqüência a utilização
do conhecimento no sentido produtivo, gerando
emprego a serviço da população
brasileira, a universidade estará
cumprindo seu papel", afirmou Tadeu.
O engenheiro elétrico e diretor-executivo
da Agência de Inovação
da Unicamp, Roberto de Alencar Lotufo, falou
que a universidade também ganharia
com professores "mais sintonizados
com a realidade e conhecedores dos desafios
da sociedade". A Agência firmou
quinze parcerias em menos de um ano. Segundo
ele, parcerias respondem por 7% do orçamento
da Unicamp, número semelhante ao
de universidades do exterior. Em sua opinião,
biotecnologia tem um dos maiores potenciais
de investimento pelo capital privado.
Marcelo
Dini, da Unidade de Inovação
e Acesso à Tecnologia do Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas
Empresas de São Paulo (Sebrae-SP)
ressaltou a importância dos pequenos
negócios na economia paulista até
concluir: "A gestão da inovação
é fundamental para o desenvolvimento
da pequena empresa". Em seguida, o
novo presidente da Associação
Brasileira de Capital de Risco (ABCR), Álvaro
Gonçalves, explicou o encadeamento
de investimentos requerido por uma nova
empresa, desde seu nascimento até
atingir sua maturidade. Enquanto não
tiver acesso aos mercados líquidos
de capital (como o mercado de ações,
os títulos de renda fixa e os contratos
derivativos), a empresa precisa do capital
semente, do capital empreendedor e dos fundos
de participações.
Gonçalves
defendeu o abandono da expressão
"capital de risco"; para ele,
"venture capital" se
traduz como "investimento de longo
prazo na capitalização de
empresas e de projetos de infra-estrutura,
em segmentos competitivos e também
nas novas frentes de competitividade da
economia nacional". E aí entra
a biotecnologia, um setor de vanguarda,
de acordo com Gonçalves. “Estamos
na frente de muitos países; podemos
assegurar a vantagem se aplicarmos corretamente”,
afirmou. Ele se comprometeu a discutir junto
com a Abrabi formas de atrair os capitais
de risco para a biotecnologia. Para isso,
a ABCR terá de convencer os poupadores
a usar os recursos de fundos de pensão
para as pequenas empresas do setor.
O secretário
da Câmara Técnica de Biotecnologia
da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep)
Gilberto Soares lembrou que o governo brasileiro
fala em investir em biotecnologia desde
a década de 1980, mas ainda está
preso ao "arcabouço jurídico-institucional"
e a uma difícil situação
financeira. Soares reconheceu que a Finep
atualmente não pode correr risco,
mas terá de encontrar "métodos
e maneiras de trabalhar de forma mais modernizada".
O debate
foi mediado por Antônio Paes de Carvalho,
presidente da Abrabi e da Extracta Moléculas
Naturais S.A. Dizendo que vivemos "no
limiar de uma nova era do conhecimento",
Carvalho criticou a universidade ("Formamos
gente para grandes e não pequenas
empresas tecnológicas"), a política
do governo ("O dinheiro público
pode e deve ir para o setor privado"),
o mercado de capital de risco ("A indústria
de capital de risco não pode operar
como banco comercial; tem de investir, não
para dois anos, mas para retornos enormes
no futuro") e as leis ("A legislação
brasileira mata as possibilidades de a pequena
empresa progredir"). Tomando por exemplo
os Estados Unidos, onde pequenas empresas
de base tecnológica respondem por
"70% ou 80% da inovação",
o empresário criticou o pensamento
típico brasileiro que não
admite transferências do setor público
para o privado. "Precisamos parar com
essa subcultura, porque, depois, as empresas
devolvem à sociedade muito mais,
em forma de impostos, bem-estar e primazia
do país", disse.
Projetos
Projetos
promissores nas áreas de saúde
pública e biomédica foram
apresentados a partir das 14 horas, quando
Gonçalves e representantes do governo
já não estavam. Maria do Carmo
Bittencourt Oliveira anunciou um novo método
de monitoramento da qualidade da água
para consumo humano e animal. Utilizando
marcadores moleculares para uma toxina liberada
por algas chamada microcistina, a pesquisadora
da Universidade de São Paulo (USP)
conseguiu resultados mais precisos por um
método dez vezes mais barato e sete
vezes mais rápido do que o tradicional
teste com camundongos.
Companhias
públicas de água e esgoto
e a população sairiam ganhando,
garante a pesquisadora. Episódios
como o ocorrido em Caruaru (PE), em 1996,
seriam evitados com mais eficácia.
Lá, a contaminação
da água causou a morte de 76 pessoas;
outras sessenta desenvolveram câncer
de fígado. O investimento em infra-estrutura
necessário para pôr em prática
o novo método gira em torno de US$
6 mil. "Mas os pesquisadores da universidade
não sentiram nesse evento a oportunidade
de passar a pesquisa para fora", afirmou
Maria do Carmo.
Outro projeto
de destaque no congresso da Abrabi foi "Obtenção
em larga escala de insulina humana madura
em sementes de milho". Normalmente,
a insulina é obtida a partir da pró-insulina
artificialmente produzida por bactérias.
Com base no conhecimento acumulado ao longo
de duas décadas do Instituto de Biologia
da Universidade de Campinas, cinco pesquisadores
estão a menos de seis meses de extrair
insulina do milho. E precisam de aproximadamente
R$ 150 mil para concluir se o projeto merece
investimento industrial ou não. O
método de sintetizar insulina no
endosperma do milho está sendo mantido
sob sigilo e deve ser patenteado pela Agência
de Inovação da Unicamp.
Mário
Paniago, um dos pesquisadores, diz que o
metabolismo do milho — ao contrário
do das bactérias — não
é tão afetado quando passa
a produzir pró-insulina pois esta
é armazenada apenas na semente e
não na planta inteira. Embora não
tenha garantias de que esse método
seja mais eficiente, aposta na redução
do custo de produção da insulina.
"A pesquisa deve beneficiar a população
em geral e trazer economia ao governo, já
que boa parte da insulina é distribuída
pelo Sistema Único de Saúde",
concluiu Paniago.
Na apresentação
intitulada "O futuro do mercado da
virômica no Brasil: desenvolvimento
e produção de vetores de DNA,
matéria-prima da terapia gênica
e celular", o professor Bryan Eric
Strauss, do Instituto do Coração
(Incor) da Faculdade de Medicina da USP,
defendeu a criação de uma
unidade de produção de vetores
virais. Os vetores são vírus
capazes de transportar genes com potencial
terapêutico diretamente para as chamadas
células alvo, como as células
cancerosas. Por esse motivo, Strauss afirmou
que a virômica é uma ponte
entre a genômica e a terapia gênica.
Segundo ele, estudos demonstram que aproximadamente
5 mil dos cerca de 35 mil genes humanos
podem ser usados no tratamento de doenças.
Um deles é o p53, um supressor de
tumores.
O
palestrante trabalha no projeto de pesquisa
com sua mulher, a professora Eugenia Costanzi
Strauss, do Instituto de Ciências
Biomédicas (ICB) da USP. Eles ainda
estão em fase de pesquisa básica,
mas já produzem o adenovírus,
o retrovírus e o lentivírus.
Os vetores são usados nos estudos
sobre a terapia gênica do câncer
que o casal conduz em conjunto, financiados
pela Fapesp. A tecnologia que possui, disse
Strauss em entrevista a Inovação
Unicamp, suportaria uma produção
mediana de vírus, mas não
uma em larga escala, dez vezes superior
à atual. Ele considera necessária
uma parceria com a indústria para
a incorporação de novas tecnologias,
adequadas à produção
comercial. Uma unidade de produção
de vetores virais "bem feita"
custaria, na estimativa do professor, entre
US$ 400 e US$ 500 mil. Strauss espera conseguir
verba para a reforma das instalações
(se a unidade ficar dentro da USP), compra
de equipamento e contratação
de funcionários. Em uma cotação
recente, ele verificou que uma quantidade
de adenovírus suficiente para se
fazer um ensaio em laboratório custa
em torno de US$ 2 mil.
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