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III Conferência
de Ciência, Tecnologia e Inovação
Brasil tem vantagem
tecnológica em etanol, mas está
em vias
de perdê-la, diz Prêmio Nobel;
presidente da Embrapa concorda
O Brasil perderá
a vantagem tecnológica que tem na
produção de etanol em, no
máximo, três anos. Esse foi
o alerta dado pelo Prêmio Nobel de
Química, o PhD Alan MacDiarmid, na
terceira sessão plenária do
segundo dia da III Conferência Nacional
de Ciência, Tecnologia e Inovação,
promovida em Brasília entre 16 e
18 de novembro. Em entrevista a Inovação,
o presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa), Silvio Crestana,
concordou com a previsão de MacDiarmid
e revelou que a Embrapa vai fazer com a
cana-de-açúcar o mesmo trabalho
de pesquisa que fez com a soja. Desenvolverá
variedades geneticamente modificadas para
resistir a estresse hídrico, de forma
a poder ampliar a produção
de cana para áreas fora da região
Centro-Sul do Brasil. A janela de oportunidade
para o Brasil quando se trata de etanol
também foi mencionada, no dia anterior
à palestra de MacDiarmid, na mesa
sobre economia do conhecimento, por Carlos
Henrique de Brito Cruz. "O Brasil deveria
jogar-se nessa janela, para aproveitar a
vantagem que temos neste momento",
disse o diretor científico da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de
São Paulo (Fapesp).
Antes da palestra de MacDiarmid,
o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues,
havia apontado como gargalos sérios
para a agricultura nacional a limitação
de recursos, incluindo dinheiro para pesquisa
e desenvolvimento, ressaltando a queda de
investimentos na Embrapa ao longo dos anos.
"Falta de investimentos em C&T
implica diminuição relativa
da produtividade da agropecuária,
menor crescimento em relação
à agricultura de outros países
e, conseqüentemente, perda de competitividade,
além da disseminação
de pragas e doenças", destacou
o ministro, na segunda plenária do
dia 17 da conferência.
Prêmio
Nobel fala sobre a liderança do Brasil
na produção de etanol
MacDiarmid abriu sua palestra
falando sobre as potencialidades em torno
dos polímeros condutores ou metais
sintéticos, plásticos que
têm propriedades ópticas, magnéticas,
eletrônicas de um metal, mas que mantêm
as propriedades mecânicas de polímero.
Depois, ele passou para o tema energia,
afirmando que essa é uma área
na qual o Brasil tem grande experiência
e possibilidades de explorar, dado o crescimento
da demanda de energia, a exaustão
das fontes de energia baseada em combustíveis
fósseis e as preocupações
ambientais em torno do aumento do dióxido
de carbono e do aquecimento global.
Ao tratar de biocombustíveis,
o pesquisador fez um rápido histórico
sobre o Proálcool, mostrando que
acompanha de perto o que o Brasil faz na
área. "O País está
muitíssimo à frente, mas o
resto do mundo não sabe o que vocês
fizeram ou estão fazendo. Um desafio
importante para o futuro será como
o Brasil vai mostrar isso ao resto do mundo",
apontou. Ele mostrou uma edição
da revista Time da semana da conferência
que trazia uma reportagem da Ford falando
de novos modelos que usam álcool,
mas não citava nada sobre o Brasil.
"O mundo está
rapidamente se aproximando e em dois ou
três anos o Brasil não será
mais o líder mundial na área
de biodiesel e álcool, a menos que
pense no que precisa ser feito para estar
um passo à frente de todos",
alertou o pesquisador. Outros países
estão desenvolvendo fontes para etanol,
que MacDiarmid chama de bioálcool,
e ele vê uma oportunidade única
para o Brasil. "O País pode
realmente oferecer uma contribuição
enorme para o combustível mundial,
mas a questão é: será
um líder ou vai apenas acompanhar
os demais? O que pode fazer imediatamente
para se manter nessa liderança?"
Em seguida, o pesquisador
projetou no telão uma frase de um
relatório do Departamento de Energia
dos Estados Unidos: "A capacidade de
usar a gama completa de material celulósico,
de grama a árvores e resíduos
de papel possibilitam que a produção
de etanol atenda a toda a demanda de gasolina
dos EUA." Ele repetiu a frase durante
sua exposição por outras duas
vezes. Contou que os EUA pesquisam os chamados
materiais celulósicos — celulose,
madeira, jornais, bagaço, restos
da produção de cana —
que podem ser convertidos em bioálcool.
Como alternativa, recomendou que o Brasil
desenvolva as biorrefinarias, que podem
produzir uma grande gama de químicos
junto com biocombustíveis e biomassa.
Ele destacou ainda que
os EUA e outros países estão
dominando a hidrólise enzimática,
processo de quebra da celulose para produzir
açúcares e enzimas que podem
ser fermentadas para produzir etanol. "O
país que liderar isso terá
um produto muito valioso", apontou.
"Imagino que haverá um mercado
muito interessante no qual o Brasil se desenvolverá,
talvez em parceria com outros atores, como
os países da Austrália, Malásia,
China, até como forma de driblar
os EUA e ter acesso a mercados potencialmente
enormes", indicou.
Uma fonte abundante de
material celulósico que pode ser
convertido em álcool é a soja.
"Não seria maravilhoso para
o Brasil e outros países ter capacidade
de obter 100% de energia, sob a forma de
bioálcool, a partir da soja ou de
qualquer outro grão? Essa perspectiva
é a que estamos vendo para o Brasil",
animou-se, sugerindo que o País procure
parcerias internacionais no setor para partilhar
os custos da pesquisa básica. Outra
grande oportunidade, segundo ele, está
na economia do hidrogênio. "O
uso de etanol é uma maneira incrível
de armazenar e transportar hidrogênio",
disse.
Crestana
comenta palestra de McDiarmid e conta o
que a Embrapa vai fazer
O presidente da Embrapa,
Silvio Crestana, assistiu à palestra
de Alan McDiarmid. Ele concordou com a previsão
do Prêmio Nobel sobre a perda de liderança
do Brasil em etanol, baseado principalmente
no que está acontecendo nos Estados
Unidos. "Eles estão encostando
no Brasil em termos de produção
de álcool, que fazem a partir do
milho, principalmente por causa do subsídio
ao setor que o governo norte-americano dá",
apontou.
Para Crestana, o Brasil
está bem na produção
agronômica, mas na tecnologia industrial
ainda é muito frágil. Daí
ter uma visão ainda mais pessimista
do que McDiarmid. "Na verdade, vamos
perder a liderança na produção
em menos tempo do que o previsto pelo doutor
McDiarmid. Três anos será o
tempo para que os EUA dominem o processo
inteiro, ou seja, produção
e industrialização. Eles não
são mais eficientes na produção,
mas na transformação da biomassa
em energia já são melhores
do que nós", acrescentou. Um
exemplo são as pesquisas norte-americanas
para retirada da ricina, substância
tóxica existente na torta de mamona.
"Se tirar a ricina, pode-se aproveitar
a torta para alimentação de
animais na pecuária", explicou.
O presidente da Embrapa
destacou que os EUA têm uma outra
motivação que os levará
rapidamente à liderança: a
opinião pública não
quer que o país continue com a imagem
de 'vilão' do Protocolo de Kyoto.
Ele lembrou que o Estado da Califórnia,
governado por Arnold Schwarzenegger, do
Partido Republicano, vem adotando a mistura
do álcool na gasolina por conta também
da pressão dos eleitores. Outros
Estados, como Minnesota, Wisconsin e Colorado,
também têm leis para a adição
de álcool (de milho) ao combustível.
Um ponto importante para
o Brasil é o etanol se transformar
em commodity, como forma de conquistar
mercados. "O grande problema hoje é
que praticamente só o Brasil está
produzindo e nenhum país do mundo
vai se colocar na dependência de um
único fornecedor", disse. Ele
contou que o Japão está interessado
em adotar a mistura de álcool na
gasolina, mas que não quer ficar
dependente apenas do Brasil para aquisição
do etanol, especialmente pelo fato de que
os produtores brasileiros fazem álcool
e açúcar. Crestana lembrou
que o Brasil venceu recentemente uma disputa
na Organização Mundial do
Comércio (OMC) contra o subsídio
europeu dado para os produtores de açúcar,
o que abriu um enorme mercado para o açúcar
brasileiro. Os japoneses receiam que os
produtores subam os preços do etanol
porque vão produzir mais açúcar
ou que exportem menos álcool porque
precisam atender à crescente demanda
brasileira por conta da produção
dos veículos bicombustível,
ou flex fuel.
"Para podermos exportar
mais, precisamos ensinar os outros a plantar
cana. Se vamos fazer isso por meio de transferência
de tecnologia ou por disseminação
do conhecimento é algo a ser determinado",
apontou. Caso o País realmente adote
essa estratégia, precisará
investir cada vez mais no conhecimento de
ponta no setor, para continuar dominando
a tecnologia e poder transferir tecnologia
já dominada. Crestana revelou que
a Embrapa está se preparando para
fazer negócios tecnológicos
na área de álcool, ou seja,
vender tecnologia no mercado internacional.
Até o momento, a
Embrapa não tem trabalhado com cana,
o que ocorreu por questões históricas.
A instituição preferiu não
se dedicar à cana por conta da existência
de vários outros centros de pesquisa
voltados para isso, como o extinto Instituto
do Açúcar e Álcool,
o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC),
antigamente da Copersucar, o Instituto Agronômico
de Campinas (IAC) e algumas universidades.
"Agora, vamos fazer com a cana o que
fizemos com a soja, pegar os cultivares
existentes e pesquisar para produzi-los
em outras áreas, como Tocantins,
Maranhão, Piauí, no semi-árido
nordestino", disse.
Ministro
destaca papel da ciência, tecnologia
e inovação na agricultura
Em uma palestra sobre a
agropecuária em geral, o ministro
da Agricultura, Roberto Rodrigues, lembrou
que tem se queixado há meses da falta
de recursos financeiros para o setor. "Faltam
recursos para defesa sanitária, para
infra-estrutura, para pesquisa; temos ainda
problemas com marco legal e insegurança
em relação ao processo produtivo
brasileiro", enumerou. Como fatores
de crescimento do setor, o ministro apontou
disponibilidade de terras, tecnologia para
agricultura tropical, recursos humanos qualificados,
preços internacionais favoráveis
e políticas públicas para
suportar a produção: tudo
isso resultou em baixo custo e produção
com qualidade. "O grande fator foi
tecnologia, temos a melhor, disparado, graças
à ação dos institutos
de pesquisa públicos e privados e
especialmente da Embrapa", afirmou.
O ministro disse esperar
que ciência, tecnologia e inovação
tragam alimentos saudáveis, redução
de custos de produção, eliminação
da pobreza rural, humanização
do trabalho, minimização dos
riscos climáticos, racionalização
no uso dos recursos naturais, alinhamento
das políticas conservacionistas à
agricultura, prevenção de
pragas e doenças, maior eficiência,
eficácia e efetividade de pesquisa,
incorporação de conhecimentos
científicos internacionais. "Contudo,
mais do que gerar respostas para o que já
existe, nossos cientistas precisam criar
respostas para perguntas que ainda não
foram realizadas. Formar gente nas universidades
com uma visão que não está
posta: que olhe o que não está
visível, que enxergue mais longe",
disse. "Graças a ciência,
tecnologia e inovação, a agricultura
é o setor mais competitivo que nós
temos", concluiu. (J.S.)
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