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..Publicada em 21 de novembro 2005


III Conferência de Ciência, Tecnologia e Inovação
Brasil tem vantagem tecnológica em etanol, mas está em vias
de perdê-la, diz Prêmio Nobel; presidente da Embrapa concorda

O Brasil perderá a vantagem tecnológica que tem na produção de etanol em, no máximo, três anos. Esse foi o alerta dado pelo Prêmio Nobel de Química, o PhD Alan MacDiarmid, na terceira sessão plenária do segundo dia da III Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, promovida em Brasília entre 16 e 18 de novembro. Em entrevista a Inovação, o presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Silvio Crestana, concordou com a previsão de MacDiarmid e revelou que a Embrapa vai fazer com a cana-de-açúcar o mesmo trabalho de pesquisa que fez com a soja. Desenvolverá variedades geneticamente modificadas para resistir a estresse hídrico, de forma a poder ampliar a produção de cana para áreas fora da região Centro-Sul do Brasil. A janela de oportunidade para o Brasil quando se trata de etanol também foi mencionada, no dia anterior à palestra de MacDiarmid, na mesa sobre economia do conhecimento, por Carlos Henrique de Brito Cruz. "O Brasil deveria jogar-se nessa janela, para aproveitar a vantagem que temos neste momento", disse o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Antes da palestra de MacDiarmid, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, havia apontado como gargalos sérios para a agricultura nacional a limitação de recursos, incluindo dinheiro para pesquisa e desenvolvimento, ressaltando a queda de investimentos na Embrapa ao longo dos anos. "Falta de investimentos em C&T implica diminuição relativa da produtividade da agropecuária, menor crescimento em relação à agricultura de outros países e, conseqüentemente, perda de competitividade, além da disseminação de pragas e doenças", destacou o ministro, na segunda plenária do dia 17 da conferência.

Prêmio Nobel fala sobre a liderança do Brasil na produção de etanol

MacDiarmid abriu sua palestra falando sobre as potencialidades em torno dos polímeros condutores ou metais sintéticos, plásticos que têm propriedades ópticas, magnéticas, eletrônicas de um metal, mas que mantêm as propriedades mecânicas de polímero. Depois, ele passou para o tema energia, afirmando que essa é uma área na qual o Brasil tem grande experiência e possibilidades de explorar, dado o crescimento da demanda de energia, a exaustão das fontes de energia baseada em combustíveis fósseis e as preocupações ambientais em torno do aumento do dióxido de carbono e do aquecimento global.

Ao tratar de biocombustíveis, o pesquisador fez um rápido histórico sobre o Proálcool, mostrando que acompanha de perto o que o Brasil faz na área. "O País está muitíssimo à frente, mas o resto do mundo não sabe o que vocês fizeram ou estão fazendo. Um desafio importante para o futuro será como o Brasil vai mostrar isso ao resto do mundo", apontou. Ele mostrou uma edição da revista Time da semana da conferência que trazia uma reportagem da Ford falando de novos modelos que usam álcool, mas não citava nada sobre o Brasil.

"O mundo está rapidamente se aproximando e em dois ou três anos o Brasil não será mais o líder mundial na área de biodiesel e álcool, a menos que pense no que precisa ser feito para estar um passo à frente de todos", alertou o pesquisador. Outros países estão desenvolvendo fontes para etanol, que MacDiarmid chama de bioálcool, e ele vê uma oportunidade única para o Brasil. "O País pode realmente oferecer uma contribuição enorme para o combustível mundial, mas a questão é: será um líder ou vai apenas acompanhar os demais? O que pode fazer imediatamente para se manter nessa liderança?"

Em seguida, o pesquisador projetou no telão uma frase de um relatório do Departamento de Energia dos Estados Unidos: "A capacidade de usar a gama completa de material celulósico, de grama a árvores e resíduos de papel possibilitam que a produção de etanol atenda a toda a demanda de gasolina dos EUA." Ele repetiu a frase durante sua exposição por outras duas vezes. Contou que os EUA pesquisam os chamados materiais celulósicos — celulose, madeira, jornais, bagaço, restos da produção de cana — que podem ser convertidos em bioálcool. Como alternativa, recomendou que o Brasil desenvolva as biorrefinarias, que podem produzir uma grande gama de químicos junto com biocombustíveis e biomassa.

Ele destacou ainda que os EUA e outros países estão dominando a hidrólise enzimática, processo de quebra da celulose para produzir açúcares e enzimas que podem ser fermentadas para produzir etanol. "O país que liderar isso terá um produto muito valioso", apontou. "Imagino que haverá um mercado muito interessante no qual o Brasil se desenvolverá, talvez em parceria com outros atores, como os países da Austrália, Malásia, China, até como forma de driblar os EUA e ter acesso a mercados potencialmente enormes", indicou.

Uma fonte abundante de material celulósico que pode ser convertido em álcool é a soja. "Não seria maravilhoso para o Brasil e outros países ter capacidade de obter 100% de energia, sob a forma de bioálcool, a partir da soja ou de qualquer outro grão? Essa perspectiva é a que estamos vendo para o Brasil", animou-se, sugerindo que o País procure parcerias internacionais no setor para partilhar os custos da pesquisa básica. Outra grande oportunidade, segundo ele, está na economia do hidrogênio. "O uso de etanol é uma maneira incrível de armazenar e transportar hidrogênio", disse.

Crestana comenta palestra de McDiarmid e conta o que a Embrapa vai fazer

O presidente da Embrapa, Silvio Crestana, assistiu à palestra de Alan McDiarmid. Ele concordou com a previsão do Prêmio Nobel sobre a perda de liderança do Brasil em etanol, baseado principalmente no que está acontecendo nos Estados Unidos. "Eles estão encostando no Brasil em termos de produção de álcool, que fazem a partir do milho, principalmente por causa do subsídio ao setor que o governo norte-americano dá", apontou.

Para Crestana, o Brasil está bem na produção agronômica, mas na tecnologia industrial ainda é muito frágil. Daí ter uma visão ainda mais pessimista do que McDiarmid. "Na verdade, vamos perder a liderança na produção em menos tempo do que o previsto pelo doutor McDiarmid. Três anos será o tempo para que os EUA dominem o processo inteiro, ou seja, produção e industrialização. Eles não são mais eficientes na produção, mas na transformação da biomassa em energia já são melhores do que nós", acrescentou. Um exemplo são as pesquisas norte-americanas para retirada da ricina, substância tóxica existente na torta de mamona. "Se tirar a ricina, pode-se aproveitar a torta para alimentação de animais na pecuária", explicou.

O presidente da Embrapa destacou que os EUA têm uma outra motivação que os levará rapidamente à liderança: a opinião pública não quer que o país continue com a imagem de 'vilão' do Protocolo de Kyoto. Ele lembrou que o Estado da Califórnia, governado por Arnold Schwarzenegger, do Partido Republicano, vem adotando a mistura do álcool na gasolina por conta também da pressão dos eleitores. Outros Estados, como Minnesota, Wisconsin e Colorado, também têm leis para a adição de álcool (de milho) ao combustível.

Um ponto importante para o Brasil é o etanol se transformar em commodity, como forma de conquistar mercados. "O grande problema hoje é que praticamente só o Brasil está produzindo e nenhum país do mundo vai se colocar na dependência de um único fornecedor", disse. Ele contou que o Japão está interessado em adotar a mistura de álcool na gasolina, mas que não quer ficar dependente apenas do Brasil para aquisição do etanol, especialmente pelo fato de que os produtores brasileiros fazem álcool e açúcar. Crestana lembrou que o Brasil venceu recentemente uma disputa na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra o subsídio europeu dado para os produtores de açúcar, o que abriu um enorme mercado para o açúcar brasileiro. Os japoneses receiam que os produtores subam os preços do etanol porque vão produzir mais açúcar ou que exportem menos álcool porque precisam atender à crescente demanda brasileira por conta da produção dos veículos bicombustível, ou flex fuel.

"Para podermos exportar mais, precisamos ensinar os outros a plantar cana. Se vamos fazer isso por meio de transferência de tecnologia ou por disseminação do conhecimento é algo a ser determinado", apontou. Caso o País realmente adote essa estratégia, precisará investir cada vez mais no conhecimento de ponta no setor, para continuar dominando a tecnologia e poder transferir tecnologia já dominada. Crestana revelou que a Embrapa está se preparando para fazer negócios tecnológicos na área de álcool, ou seja, vender tecnologia no mercado internacional.

Até o momento, a Embrapa não tem trabalhado com cana, o que ocorreu por questões históricas. A instituição preferiu não se dedicar à cana por conta da existência de vários outros centros de pesquisa voltados para isso, como o extinto Instituto do Açúcar e Álcool, o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), antigamente da Copersucar, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e algumas universidades. "Agora, vamos fazer com a cana o que fizemos com a soja, pegar os cultivares existentes e pesquisar para produzi-los em outras áreas, como Tocantins, Maranhão, Piauí, no semi-árido nordestino", disse.

Ministro destaca papel da ciência, tecnologia e inovação na agricultura

Em uma palestra sobre a agropecuária em geral, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, lembrou que tem se queixado há meses da falta de recursos financeiros para o setor. "Faltam recursos para defesa sanitária, para infra-estrutura, para pesquisa; temos ainda problemas com marco legal e insegurança em relação ao processo produtivo brasileiro", enumerou. Como fatores de crescimento do setor, o ministro apontou disponibilidade de terras, tecnologia para agricultura tropical, recursos humanos qualificados, preços internacionais favoráveis e políticas públicas para suportar a produção: tudo isso resultou em baixo custo e produção com qualidade. "O grande fator foi tecnologia, temos a melhor, disparado, graças à ação dos institutos de pesquisa públicos e privados e especialmente da Embrapa", afirmou.

O ministro disse esperar que ciência, tecnologia e inovação tragam alimentos saudáveis, redução de custos de produção, eliminação da pobreza rural, humanização do trabalho, minimização dos riscos climáticos, racionalização no uso dos recursos naturais, alinhamento das políticas conservacionistas à agricultura, prevenção de pragas e doenças, maior eficiência, eficácia e efetividade de pesquisa, incorporação de conhecimentos científicos internacionais. "Contudo, mais do que gerar respostas para o que já existe, nossos cientistas precisam criar respostas para perguntas que ainda não foram realizadas. Formar gente nas universidades com uma visão que não está posta: que olhe o que não está visível, que enxergue mais longe", disse. "Graças a ciência, tecnologia e inovação, a agricultura é o setor mais competitivo que nós temos", concluiu. (J.S.)

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