.NOTÍCIAS

..Publicada em 2 de maio 2006

Unicamp — 40 anos de Desenvolvimento Tecnológico
Parceria Telebrás-Unicamp criou capacidade em telecomunicações;
José Ellis Ripper, um dos principais articuladores, conta como foi

Em 1970, dois marcos tecnológicos abriram a possibilidade das telecomunicações, tal como a conhecemos hoje: a invenção da fibra ótica e o desenvolvimento de certo tipo de laser, adequado à operação contínua em temperatura ambiente. José Ellis Ripper fazia parte do grupo que, nos Laboratórios Bell, da AT&T — a maior companhia telefônica do mundo, na época —, chegou a esse laser. Logo depois, o doutor pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) aceitou o convite do reitor e fundador da Unicamp, Zeferino Vaz, para ser professor no recém-fundado Instituto de Física. A partir dali, articulou a parceria com a Telebrás, a estatal recém-fundada cuja missão era ligar o Brasil. Leia o depoimento, concedido à jornalista Mônica Teixeira, o primeiro da série sobre as histórias de desenvolvimento tecnológico da Unicamp:

Do ITA à Unicamp, passando pelos Laboratórios Bell, em dez anos
Eu me formei no ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica] em 1961; e pensava em trabalhar na indústria. O assunto semicondutores estava começando a aparecer. Decidi ir para os Estados Unidos fazer o mestrado nesse tema. Pretendia passar nove meses, mas fiquei dez anos. Fiz mestrado e doutorado no MIT — dois cursos de engenharia; nunca estudei física na minha vida, e nunca decidi ser físico. Quando voltei para a Unicamp, avaliei o que eu fazia, e pensei que era mais física do que engenharia, e por isso escolhi ir para o Instituto de Física. Mas voltando: durante o doutorado, que terminei em 1966, comecei a trabalhar com laser. Como a situação no Brasil nessa época parecia muito instável, e com meu visto ainda válido, resolvi trabalhar um ano antes de voltar. Fui trabalhar nos Laboratórios Bell, no grupo dedicado ao desenvolvimento do laser para telecomunicações. O Bell Labs, nessa época, era imenso: no prédio em que trabalhava, que era o maior, mas não o único, havia mais de 1.500 PhDs; o Brasil tinha uns 500. Esse um ano durou cinco. Terminei voltando só em 1971. Havia um grupo de brasileiros trabalhando nos Estados Unidos, que buscava uma maneira de voltar para um mesmo lugar, e ter ali uma massa crítica. Rogério Cerqueira Leite era o líder informal do grupo, para negociar a volta. Várias tentativas se frustraram. Finalmente, o Zeferino Vaz, da Unicamp, ouviu falar desse grupo e resolveu comprar nosso passe. Uma excelente decisão: o Zeferino era uma pessoa incrível, por um lado; por outro, se tivéssemos voltado como 'grupo' para a USP [Universidade de São Paulo], como chegou a estar quase acertado, teria havido o risco de nos tornarmos um quisto e, por isso, ser expelidos; na Unicamp, isso não aconteceu porque participamos do processo de formação da universidade.

Laser e fibra ótica: as telecomunicações de hoje, 35 anos atrás
Um ano antes de eu voltar, em 1970, aconteceram duas coisas: conseguimos, na Bell, viabilizar um laser semicondutor capaz de operar, continuamente, à temperatura ambiente; ao mesmo tempo, a Corning anunciou a primeira fibra ótica. Na verdade, a idéia-chave que viabilizou esse laser veio de um russo — Zorhes Alferov. Por isso, ele ganhou o Prêmio Nobel de Física em 2000, com outros dois físicos. Havia dois grandes laboratórios industriais competindo por um laser com essas características — Bell e RCA, ambos em Nova Jersey, a 100 quilômetros um do outro. Alferov veio visitar os Laboratórios Bell — no meio da Guerra Fria! —; e fomos encarregados de hospedá-lo. Essas visitas seguem uma certa rotina: alguém hospeda o visitante e se encarrega de acompanhá-lo; no fim, há um seminário. Foi assim com o Alferov — de quem depois me tornei muito amigo —; no seminário, apresentou resultados de suas pesquisas e propôs uma nova geometria para o laser. A solução de que precisávamos estava nessa geometria. A questão, na época, era a seguinte, em linhas gerais: a eficiência dos lasers de então na conversão da energia dos elétrons em luz era muito baixa. Usávamos uma corrente muito alta; por causa da eficiência baixa, ocorria geração de calor, e o laser não podia operar em temperatura ambiente. Simultaneamente, na Bell e na RCA, surgiu a idéia de criar uma barreira, para aumentar a eficiência da conversão em luz. A barreira foi feita com material diferente do usado no laser — daí esses lasers foram chamados de lasers de heteroestrutura simples. O que não percebemos — mas o Alferov sim — é que essa barreira espalhava a luz. Ele então pôs mais uma barreira — e os lasers em que se usou a idéia dele foram chamados de lasers de heteroestrutura dupla —, o que permitiu usar correntes 15 a 20 vezes mais baixas, e operar na temperatura ambiente. O mérito da invenção desse laser — semicondutor de heteroestrutura dupla — ficou com o Bell Labs; mas, de fato, Alferov percebeu antes de nós. Por causa da invenção, disparamos à frente da RCA. Quando souberam como havíamos chegado à solução, ficaram muito chateados, porque o russo quis visitá-los, mas o sistema de segurança deles vetou sua ida por pensar que Alferov roubaria segredos da RCA. Esse laser viabilizou as telecomunicações óticas.

1973: governo e universidade, juntinhos
Para alguém como eu, operando no negócio, parecia óbvio que comunicação por fibra ótica ia ser o que foi. Um parêntese: não é bem verdade que tecnologia anda rápido. Pondo em preto e branco o que é cinzento, existem duas maneiras pelas quais a tecnologia evolui: por evolução ou revolução. Quando ocorre uma revolução, uma ruptura tecnológica, de 15 a 20 anos se passam antes que a revolução seja de fato implantada; além disso, o mercado muda completamente, e mudam as empresas dominantes. Quando se trata de evolução, as empresas dominantes têm uma vantagem brutal e se mantêm. Eu sabia que a comunicação por fibra ótica seria uma revolução: comecei a vender a idéia de que era hora de o Brasil investir nessa tecnologia, pois, se começássemos logo, estaríamos no mesmo ponto que o resto do mundo: teríamos 15 anos para formar gente, criar centros de pesquisa, até que a tecnologia se tornasse economicamente importante. É muito raro perceber a revolução que vai acontecer; era uma oportunidade. No final de 1972, o governo criou a Telebrás, e escolheu o Quandt [Euclides Quandt de Oliveira] para ser o presidente; e o Pelúcio [José Pelúcio Ferreira], da Finep [Financiadora de Estudos e Projetos] — que acreditou muito no nosso grupo —, soube que a empresa montaria um centro de pesquisa e sugeriu que levássemos a idéia a eles. A primeira administração da Telebrás teve uma visão incrível. Eles perceberam que quem fazia pesquisa em telecomunicações estava na universidade; por isso, decidiram começar não pela implantação do centro de pesquisa, mas investindo na academia, para formar massa crítica. Durante quatro anos, a Telebrás financiou universidades, pois não queria matar a galinha de ovos de ouro. O governo criou a empresa em novembro de 1972; em junho de 1973, os três primeiros contratos foram assinados: um, de antenas, com a PUC-Rio [Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro], e dois com a Unicamp: um comigo, no Instituto de Física, de Comunicações Óticas, e outro com Rege Scarabucci, da Engenharia, de Transmissão Digital. Muitos anos depois, encontrei o Quandt, já aposentado e fora do governo. Perguntei: "Ministro, quando o senhor aprovou esse projeto, acreditava que fibra ótica ia ser o que é?". "Eu, não", ele respondeu, "achava isso uma *** completa. Mas me falaram que você iria formar gente boa, e era isso o que interessava".

Lugar de laboratório de estatal é no Fundão
Nessa altura, eu já tinha montado o primeiro Departamento de Física Aplicada no Brasil; havia uma idéia muito difundida de que fazia física aplicada quem não conseguia fazer física "pura" decente. Por isso, quando decidimos montar o departamento, nossa primeira preocupação foi publicar nas melhores revistas, para atrair bons alunos. Assim, o departamento ganhou credibilidade científica; e de repente tinha dinheiro. O contrato com a Telebrás era de mais de US$ 1 milhão por ano, para formar gente e desenvolver as tecnologias básicas para comunicações óticas: lasers, detectores, mais tarde as fibras óticas; e um projeto na Engenharia de desenvolver equipamentos, tudo fazia parte do programa. Foi o começo da fotônica no Brasil. Em 1976, finalmente a Telebrás decidiu que era o momento de criar o CPqD [Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações]. Nessa altura, o presidente era o [Ernesto] Geisel, o Quandt já era o Ministro das Comunicações e o presidente da Telebrás era o general Alencastro [José Antonio Alencastro e Silva]. O Geisel, quando presidente da Petrobras, havia criado o Cenpes [Centro de Pesquisas da Petrobras]; na cabeça dele, todas as estatais tinham de ter o seu centro de pesquisa e tinham de ser todos no Fundão [na Ilha do Fundão, na Baía de Guanabara, instala-se o maior campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), N. do E.]. A Eletrobrás criou o Cepel [Centro de Pesquisas de Energia Elétrica], instalado no Fundão; o Cenpes estava lá. Mas o Quandt e o Alencastro resolveram enfrentar essa regra. Eles queriam o CPqD junto a uma universidade com que a Telebrás já se relacionasse. Ora, com a UFRJ não havia nada; havia com a PUC — mas lá não existiam as condições físicas necessárias.

Mas não o CPqD!
Rômulo Furtado, meu colega de turma no ITA, havia se tornado Secretário Geral do Ministério das Comunicações. Ele quis levar o CPqD para São José dos Campos, para apoiar o ITA. Campinas era a segunda opção. Havia uma negociação avançada em São José: o CPqD ocuparia as instalações do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], que mudaria totalmente para Cachoeira Paulista — as instalações já estavam até sendo compradas. Mas uma circunstância ajudou Campinas: quando contei ao Zeferino o que estava acontecendo, ele convidou o Alencastro a visitar a Unicamp. Depois que mostrei o campus, deixei o Alencastro conversando com o Zeferino, que era capaz de vender geladeira a esquimó. Ele convenceu o Alencastro, e ao mesmo tempo realizou um sonho próprio.

Um sonho de universidade
Vou voltar um pouco para trás: em 1970, a Unicamp me convidou para vir dar seminários. O Rogério Cerqueira Leite já tinha vindo; o convite para os seminários era também para o Zeferino ter a chance de me cantar, para eu ficar na Unicamp. Os prédios do campus estavam ainda em construção, a Reitoria funcionava no centro da cidade, no Colégio Bento Quirino. O Zeferino começava a conversar, e eu começava a ver um pólo industrial centrado na Unicamp; o modelo de Stanford, do MIT, era o que estava na cabeça dele. "Você tem que vir nos ajudar a construir isso", disse-me o Zeferino. Pedi desculpas, mas recusei o convite: minha filha tinha um problema cardíaco, contei, e pretendia ficar mais dois ou três anos nos Estados Unidos, até ela ser operada. Ele me pediu detalhes: "Você pode operá-la no Brasil com toda a segurança, sou amigo do [Euryclides] Zerbini, peço a ajuda ele" [Zerbini (1912-1993) foi cirurgião da Faculdade de Medicina da USP, primeiro a realizar um transplante cardíaco no País, N. do E.]. Retruquei que queria mesmo operá-la nos Estados Unidos. "Garanto a você uma licença com vencimento pelo tempo que for necessário, quando chegar a hora de operar", ele me disse. Zeferino havia descoberto meu preço, e estava se dispondo a pagá-lo. Aceitei a proposta. Sobre o modelo de universidade como centro de um pólo industrial e tecnológico, Zeferino não tinha a menor dúvida. Ele transmitiu a certeza ao Alencastro; e como a visão coincidia com o ponto de vista da Telebrás, o CPqD foi instalado em Campinas.

Os militares, as comunicações e o CPqD
No tempo da ditadura, comunicações era considerado um negócio absolutamente estratégico e vital, do ponto de vista militar. Os ministros das Comunicações consideravam que a missão deles era organizar as comunicações como um todo. A Telebrás era um instrumento para isso. Eles sentiam a empresa responsável pela operação do sistema e também pelo desenvolvimento, pela formação de recursos humanos. O CPqD não era um laboratório da Telebrás — estava na Telebrás por causa da flexibilidade operacional. O CPqD era um laboratório do governo do Brasil para desenvolver telecomunicações.

Militares também sonham
Reli recentemente o primeiro projeto apresentado pela Unicamp à Telebrás, que escrevi em 1972. Prometíamos resultados práticos para 1984, 12 anos depois, quando teríamos os primeiros sistemas implantados. A Telebrás aprovou um projeto que teria resultado três administrações mais tarde, por terem a visão estratégica. Na prática, o projeto mudou muito; os resultados apareceram antes, em 1983. Da parceria, surgiu o pólo de fotônica. A filosofia era: a universidade gerava recursos humanos e tecnologia básica; o CPqD tinha a missão de pegar essa tecnologia básica e transformar em tecnologia industrial para transferir para a indústria; sempre eram selecionadas de duas a quatro indústrias para receber a tecnologia, e a Telebrás garantia o mercado. Garantia o mercado impedindo a instalação no sistema Telebrás de tecnologias que competissem com a tecnologia transferida; e a competição entre as duas ou mais indústrias, na mesma base tecnológica, garantia bom preço, etc. Primeiro, o CPqD transferiu tecnologia para equipamentos — para a Elebra, NEC, GTE, que depois virou Multitel, e uma quarta. Essas empresas receberam todo o pacote de transmissão — todos os MCPs e o elo, que era o equipamento ótico. Na fibra ótica, a Telebrás resolveu criar um monopólio temporário, e selecionou o Grupo ABC. Componentes óticos eletrônicos, lasers e detectores ficaram para mais tarde, porque claramente era preciso um volume maior de mercado: em um link, há dez quilômetros de fibra, e um laser ou um detector. Só bem mais tarde então essa tecnologia foi transferida; quando aconteceu, a Elebra já tinha decidido criar uma empresa de componentes, e me colocado para dirigi-la. As empresas que a Telebrás selecionou para transferir a tecnologia foram a Elebra Microeletrônica e a ABC Xtal. Mas, nesse caso, não houve competição: como eu tinha montado o grupo da Unicamp e a maior parte do pessoal que trabalhava nisso ou estava na Unicamp ou no CPQd, e em geral me conhecia, foi muito mais fácil para a Elebra montar a equipe do que seria para a Xtal. Rapidamente, começamos a implantar o projeto: eles perceberam que não poderiam competir.

Da Elebra, a maior das filhas da Telebrás, à AsGa
Durante a implantação desse projeto na Elebra, veio o Plano Cruzado. A empresa se endividou, e o colapso do Cruzado foi o colapso da Elebra. A Elebra cresceu 45% ao ano durante nove anos; em nove anos, saiu de um faturamento de US$ 2 milhões para um faturamento de US$ 300 milhões. A Elebra, nessa época, era maior do que a Nokia. A direção decidiu então vender a unidade de Microeletrônica; e era mesmo preciso vender, porque tínhamos incentivos enormes da Lei de Informática. Se não conseguíssemos cumprir os compromissos assumidos, seria melhor fugir do País porque a multa era absolutamente impagável. A Secretaria Especial de Informática concordou em permitir a transferência se o comprador topasse assumir os compromissos da Elebra. A parte de circuitos integrados foi vendida para o Itaú, que já tinha um projeto próprio e topou assumir os compromissos dos dois. Mas o Itaú não quis a parte de optoeletrônica. A Elebra tinha se livrado de um problemão, mas continuava com esse probleminha — porque nessa área também tinha usado incentivos. A direção da empresa me perguntou se eu acreditava no negócio; respondi que sim, e a proposta deles foi para eu tentar encontrar um sócio, enquanto a Elebra manteria a equipe. Procurar esse sócio foi frustrante. A última porta em que bati foi a do Grupo Odebrecht. Um amigo meu era consultor do grupo, pediu meu plano de negócios, e três dias depois fui convidado a apresentar o projeto primeiro a diretores, depois ao dono. O encontro, no Rio, coincidia com o casamento da filha de um colega meu de turma. A Odebrecht não se interessou, porque o projeto era pequeno para ela; e eu fui para a festa de casamento na maior fossa. Lá encontrei um colega que não via havia 20 anos. Contei a história. Ele me perguntou de quanto dinheiro eu precisava — calculei em, no mínimo, US$ 1 milhão em capital próprio. Para minha surpresa, ele declarou que queria ser meu sócio, investiu metade, pedi para uma tia minha a outra metade, e assim compramos a optoeletrônica da Elebra. Nasceu a AsGa, para fabricar lasers e detectores. Desde então, já mudamos duas vezes o perfil da empresa. Estamos na AsGa 3 — a terceira reformulação.

Balanço rápido
Da parceria com a Telebrás, a Xtal foi a maior empresa de fotônica das que surgiram. Quando estava perto de terminar o monopólio da tecnologia da fibra ótica, começamos a montar um programa de fibra ótica na Elebra. Quem cuidava disso era o Walter Carvalho. Ele montou a Fotônica, que faz para nós a conectorização de componentes, que agora fazemos também internamente. Outra empresa que nasceu daí foi a Optolink, onde está o ex-diretor técnico da Xtal. A Xtal foi vendida para uma multinacional e está à beira de fechar. O mercado de fibras óticas despencou; a Pirelli e a Furukawa resolveram se unir no Brasil, e essa joint venture é a única fornecedora. Tem também a PadTec, que nasceu dentro do CPqD. Já é uma indústria de certo porte, ainda menor que a AsGa. Ela faz o que se chama WDM — Wave Division Multiplex. Os WDMs mandam sinais óticos diferentes dentro da mesma fibra. A tecnologia que usam foi desenvolvida dentro do CPqD, que é o principal acionista da empresa.