Empresa que Inova
Maior petroquímica da América Latina
apóia-se em inovação para
crescer; agora, prepara-se para ser mais que "seguidora rápida"
Por Mônica
Teixeira*
A maior indústria petroquímica brasileira
quer deixar de ser uma "seguidora
rápida" das maiores do mundo quando se
trata de tecnologia e passar a outra posição — a de
"supridora de tecnologias diferenciadas". No pensamento de seu
diretor de Tecnologia e Inovação, Luis Fernando Cassinelli,
e de engenheiros responsáveis pelo desenvolvimento das tecnologias
da empresa, a área fez conquistas importantes em 2005 — o
que atesta a capacidade de dar o passo à frente. Entre essas conquistas,
são citados o bom acordo de atualização tecnológica
firmado com a Basell pela tecnologia da nova planta de polipropileno já
em construção no Pólo Petroquímico de Paulínia,
no interior de São Paulo; a instalação plena do grupo
de ciências dos polímeros no Centro de Tecnologia e Inovação
instalado no Pólo Petroquímico de Triunfo, no Rio Grande
do Sul, com oito doutores já contratados; a montagem de um centro
de pesquisa e desenvolvimento (P&D) para atender às necessidades
da planta de polietileno de ultra-alto peso molecular — o Utec,
um plástico de engenharia de altíssima resistência,
do qual a Braskem é a única fabricante no Brasil (em Camaçari),
e a segunda maior fornecedora mundial, entre quatro fabricantes.
O investimento em P&D da empresa, comparado à
receita bruta, pode parecer pouco expressivo — R$ 50 milhões
para cerca de R$ 15 bilhões. Mas inovação, desenvolvimento,
tecnologia são palavras freqüentes no vocabulário da
Braskem, e levadas a sério. No dia 8 de fevereiro, a administração
publicou seu balanço de 2005 (uma obrigação legal
das companhias com ações em bolsa) em cinco páginas
inteiras de jornal. O primeiro dos destaques escolhido para aparecer em
letras grandes no balanço diz: "Braskem, a primeira petroquímica
brasileira a depositar patente em nanotecnologia, nova fronteira na ciência
dos polímeros". A patente, de julho de 2005, cobre o processo
de manipulação de uma argila natural para incorporá-la
a polímeros — plásticos são polímeros.
Essa argila, formada por lâminas muito finas — da espessura
de um nanômetro —, quando adicionada a um plástico,
dá origem a materiais novos, "nanocompósitos poliméricos",
com propriedades muito especiais, que agregam valor ao produto.
O mercado da Braskem e o lugar
da inovação na empresa
Plástico, no mundo de hoje, é commodity — quer dizer, produto que tem competitividade dada pelo preço.
Como a tecnologia para sua produção é madura e bem
estabelecida, o preço é o diferencial que resta entre os
produtos dos diversos fornecedores. Há plásticos que fogem
à regra; o mercado refere-se a eles como "especialidades",
ou plásticos de engenharia — o Utec, por exemplo. Esses plásticos
especiais não são core business para a Braskem.
A empresa — que informa ser uma das três maiores do País
no setor privado — define-se como uma petroquímica integrada,
de primeira e segunda geração. De primeira geração,
por fabricar, a partir de derivados de petróleo, as matérias-primas
para a produção de plásticos. Na sua parte primeira
geração, a Braskem usa nafta para produzir, principalmente,
os gases eteno e propeno, no Pólo Petroquímico de Camaçari,
na Bahia, e em Maceió, Alagoas. De segunda geração,
porque, além daqueles petroquímicos básicos, produz
também plásticos. A Braskem fabrica principalmente polipropileno,
polietilenos e PVC. Todos termoplásticos: ou seja, plásticos
que, quando aquecidos, amolecem (em contraposição aos termofixos
que, quando aquecidos, se dissolvem). A indústria obtém
essas resinas por meio de reações de polimerização
do eteno, do propeno e do butadieno (no caso da Braskem). A polimerização
do eteno resulta em polietileno; do propeno, em polipropileno. Eteno e
propeno são olefinas, na nomenclatura dos hidrocarbonetos; por
isso, polietileno e polipropileno, os polímeros obtidos deles,
chamam-se "poliolefinas".
A estratégia de inovação da Braskem
nasceu para competir nesse mercado comoditizado. Na primeira geração,
a tecnologia é tão madura que o investimento em P&D
é praticamente nenhum — porque não há o que
inovar, na visão dominante do setor. Já na segunda geração,
avalia-se, aqui e no exterior, que ainda há oportunidades de desenvolvimento
na produção das poliolefinas. A oportunidade reside em diferenciar
esses plásticos, não com base no preço, mas agregando
valor a eles. Diferenciar significa customizar, torná-los o mais
possível adequados às necessidades dos clientes. É
por isso que 95% do investimento em P&D da empresa se concentra na
Unidade Poliolefinas.
Centro de Tecnologia e Inovação
de Triunfo
O centro dedica-se à tecnologia e à inovação
da Unidade Poliolefinas — essa que concentra o esforço de
P&D. Está bem instalado em um prédio exclusivo dentro
do Pólo Petroquímico de Triunfo; a empresa considera-o uma
jóia de sua coroa — razão pela qual convidou Inovação
Unicamp a visitá-lo. Há ali — dados
declarados pela Baskem no balanço de 2005 — R$ 330 milhões
em infra-estrutura atualizada, incluídas sete plantas piloto de
produção de polipropileno e polietilenos; máquinas
semelhantes às utilizadas pelos clientes para transformar seus
produtos; equipamentos de última geração para caracterização
e análise de materiais; laboratórios de ensaio. Trabalhavam
no centro, segundo Alexandre Elias, gerente de inovação,
no dia 19 de janeiro de 2005, 171 pessoas. Elias formou-se engenheiro
de materiais na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em
1997— mesma escola onde se graduou o diretor Cassinelli —;
em seguida, entrou na então OPP, com uma bolsa RHAE do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Mas, na função atual, ocupa-se principalmente de administrar
e gerir a inovação. Em suas palavras, Elias é "o
guardião do fluxo". Fluxo, no vocabulário interno,
é a seqüência de etapas pelas quais passa qualquer projeto
da área de inovação. Essas etapas existem para tornar
máxima a remuneração da empresa com os projetos de
inovação, e mínimo o risco de o investimento feito
não ser ressarcido.
Mas o que é inovação para a Braskem?
Em parte, os profissionais do centro resolvem problemas das unidades industriais;
também há venda de serviços de análise e caracterização
de materiais; e estudos para redução de custos dos processos.
Mas acima de tudo, os projetos ativos em janeiro de 2006 eram de desenvolvimento
de produtos — da própria Braskem ou de clientes da Braskem.
Os problemas que chegam ao centro são de muitos tipos. Por exemplo,
um cliente que compra polietilenos ou polipropileno da Braskem quer fazer
um produto igual ao de um concorrente. Para isso, precisa saber qual a
composição do produto. A Braskem pode realizar a caracterização
para o cliente, nos laboratórios do centro. Pode também,
para aumentar seu mercado e para agregar valor à sua resina, introduzir
uma modificação nela que dê condições
ao cliente de alcançar aquele concorrente — por exemplo,
se uma empresa quer embalar seu feijão com um plástico produzido
pela Braskem, o centro pode ajustá-lo para que deslize na embaladora,
ou para que não deslize quando os sacos forem empilhados. Os técnicos
e engenheiros também podem sugerir aperfeiçoamento de processo
— elaborado e testado em condições similares à
da linha de produção do cliente —, de tal forma que
ele ganhe as condições para ter mais competitividade com
a resina da Braskem.
Outro tipo de problema surge para o centro quando as
equipes percebem uma oportunidade no mercado, e querem desenvolver o produto
para aproveitá-la. Por exemplo: copo de requeijão. As fabricas
de requeijão usavam exclusivamente copos de vidro para embalar
o produto. Substituir copos de vidro por copos plásticos poderia
aumentar as vendas da Braskem. A Diretoria de Tecnologia e Inovação
dedicou-se a isso, desenvolveu o produto necessário, mostrou aos
fabricantes de requeijão que havia vantagem e conseguiu entrar
nesse mercado. Assim a área de inovação garante que
o investimento feito nela retorne para a empresa. O Centro de Tecnologia
e Inovação está voltado para solucionar essa gama
de problemas.
História
A Braskem foi criada em 2002, resultado da união
de muitas empresas com participação acionária do
grupo Odebrecht do intrincado setor petroquímico brasileiro. No
Pólo Petroquímico de Triunfo, o que hoje é Braskem,
foi no passado OPP; e, antes ainda, PPH — que produzia polipropileno
—; mais a Poliolefinas, produtora de um tipo de polietileno. Antonio
Bragança, executivo responsável de Parcerias Estratégicas
da área de inovação da Braskem — as parcerias
com universidades, por exemplo, estão entre as estratégicas
—, "nasceu" na PPH. Em sua sala no prédio administrativo
da área de inovação, ao lado do prédio do
Centro de Tecnologia, o engenheiro químico lembra-se que, na origem
do bem equipado centro, esteve uma política pública.
A partir do final da década de 1960, e marcadamente na década
de 1970, o governo militar definiu a necessidade da criação
da indústria petroquímica. A Petrobras liderou o processo
de criação das empresas — por meio da participação
acionária principalmente da Petroquisa; e adotou-se com freqüência
o modelo tripartite: além da Petroquisa, as empresas em formação
tinham a participação de uma empresa nacional e de uma estrangeira
— que, em geral, aportava a tecnologia. Na PPH, o H indicava a participação
da Hercules, depois Himont, que veio a ser comprada por uma antecessora
da Basell — junção da Shell e da Basf para poliolefinas
e líder mundial no setor. No final dos anos 1980, o governo, entre
diversos critérios, para conceder acesso à matéria-prima,
privilegiou as empresas do setor que investissem em tecnologia. Na rememoração
de Bragança, começou aí a nascer um embrião
do que hoje é o Centro de Tecnologia e Inovação da
Braskem.
O investimento inicial da PPH deu-se por meio de um acordo com a Himont.
A empresa decidiu licenciar a tecnologia Spheripol, de propriedade da
Himont (hoje da Basell). Ao decidir pela compra da nova tecnologia e por
investir em ativos próprios de P&D, a PPH instalou uma planta
piloto de polipropileno, laboratórios de desenvolvimento de produto
e de processo. Um investimento de cerca de US$ 30 milhões. No processo
de instalação da nova planta industrial e transferência
de tecnologia, a empresa capacitou-se a desenvolver produtos em seus laboratórios
e na planta piloto e a aperfeiçoar o próprio processo industrial.
Todos os 60 tipos diferentes de polipropileno customizados que a Braskem
hoje fabrica foram desenvolvidos internamente e testados na planta piloto
de Spheripol — ainda em funcionamento e permanentemente atualizada.
O esforço iniciado na década de 1990 resultou naquilo que
apareceu no balanço anual, item "Inovação e
Tecnologia" da Mensagem da Administração, como "captura
de R$ 58 milhões de valor na capitalização na Petroquímica
Paulínia com a tecnologia de processo de produção
de polipropileno detida pela Braskem" — um resultado do investimento
em tecnologia iniciado na década de 1990.
Investimento em P&D e o faturamento
Em seu balanço, a empresa declara investir R$
50 milhões em P&D; e uma receita bruta de R$ 15,2 bilhões
— o que resulta, grosso modo, em um investimento da ordem de 0,3%.
A empresa também declara que quer se posicionar "entre as
empresas petroquímicas internacionais com maior potencial de criação
de valor". Os rankings de dispêndio em P&D publicados
por revistas especializadas mostram que as maiores do mundo da indústria
química despendem no mínimo 1% das vendas em P&D —
mas poucas ficam nesse patamar mais baixo. Com o nível de investimento
atual, perguntei a todos os executivos com quem conversei, como a empresa
pretende ser uma grande no mundo?
A primeira parte da resposta dos engenheiros à
questão fala na "contaminação" que a ex-Copene
impõe aos números. A ex-Copene é a atual Unidade
Insumos Básicos da Braskem; ela vende pelo menos o dobro da Unidade
Poliolefinas e não investe nada em P&D. Fazendo essa "descontaminação"
— ou seja, tomando o investimento em P&D em relação
à receita bruta da Unidade Poliolefinas, que ficou em torno de
R$ 4 bilhões em 2005 — então o esforço chegaria
a cerca de 1% do faturamento.
O segundo ponto do argumento da empresa — os engenheiros
não concordam com a avaliação de que o investimento
é pequeno — é que a estratégia traçada
em 2002, de seguidora rápida, não previa mesmo um investimento
maior. Luis Fernando Cassinelli explica ser difícil comparar a
Braskem com petroquímicas mundiais. A empresa inova para competir
no mercado interno e na América Latina, fundamentalmente, diz ele.
Aqui, continua, o cliente transformador das resinas precisa de muito suporte;
e a Braskem organizou sua área de inovação para isso.
No entanto, o investimento veio crescendo, e vai continuar a crescer —
e aqui entra a instalação do grupo de ciências de
polímeros e a atenção aos novos nanocompósitos
poliméricos.
Pesquisa e Desenvolvimento
Desenvolvimento e inovação integraram-se
ao vocabulário da empresa; e a Braskem parece ter certeza de que
lucra com isso. Mas pesquisa, o P de P&D, ainda não se incorporou
com o mesmo vigor. Entre os 74 projetos em curso na Diretoria de Tecnologia
e Inovação, de acordo com Alexandre Elias, quatro ou cinco
podem ser chamados de projetos de pesquisa. Entre eles, o citado com destaque
na Mensagem da Administração na área de nanotecnologia.
Outros devem nascer com a consolidação do grupo de ciências
de polímeros e a contratação de mais doutores. Os
projetos mais exploratórios são levados em conjunto com
universidades, e não dentro da empresa.
As petroquímicas com as quais a Braskem ambiciona
competir publicam artigos em revistas científicas — sinal
de que fazem pesquisa mais próxima da fronteira do conhecimento.
Nesse ponto, os engenheiros não mostram a menor hesitação:
a política da empresa não é publicar. Às vezes,
nem patentear — se patentear significar dar divulgação
a detalhes que é melhor "deixar em casa".
Mas os "projetos de ruptura", como Luis Cassinelli
classifica os que envolvem pesquisa e exploração de conhecimento
mais avançado, estão definitivamente na pauta da Braskem.
O modelo é o projeto dos nanocompósitos. Como ele explica
em sua entrevista, resinas com a nanoargila incorporada já serão
lançadas este ano. Os produtos gerados daí, ele assegura,
têm performance ótima. "O investimento vai crescer.
Mas sempre cumprindo as expectativas da empresa."
* A jornalista tem ações da Braskem; e sua viagem a Triunfo
foi paga pela empresa. |