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Sobre
Biotecnologia, pesquisas e negócios
"O Futuro
da Terapia Genética"
O
artigo The future of gene therapy,
publicado na revista Nature de 26
de fevereiro, faz um balanço
dos testes clínicos envolvendo terapias
genéticas realizados por grupos de
Paris, Londres e Milão. Esses grupos,
dos quais fazem parte os autores
Marina Cavazzana-Calvo, da Unidade de Imunologia
e Hematologia Pediátrica do hospital
Necker, em Paris; Adrian Thrasher, do Instituto
de Saúde da Criança, em Londres;
e Fulvio Mavilio, do Instituto Científico
H. San Raffaele, de Milão, e do Departamento
de Ciências Biomédicas da Universidade
de Módena, na Itália ,
começaram, no final dos anos 1990,
a tratar crianças que sofriam de
SCID (severe combined immunodeficiencies,
ou severas imunodeficiências combinadas).
Existem várias formas de SCID. Elas
são provocadas por raras falhas genéticas
no desenvolvimento do sistema imunológico
e são fatais logo nos primeiros anos
de vida. Nas três cidades européias,
o tratamento foi feito com a inserção
de um gene terapêutico em um retrovírus
'incapacitado', conhecido como vetor. Esse
vetor foi utilizado para 'infectar' células-tronco
retiradas da medula óssea de cada
paciente. Em seguida, as células
foram inseridas novamente na corrente sanguínea
dos pacientes, e esperava-se que lá
se multiplicassem como células imunológicas
normais. A princípio, contam os três
pesquisadores, os resultados foram positivos
e reportados com entusiasmo. No entanto,
no final de 2002, duas entre dez crianças
tratadas na França desenvolveram
leucemia. O episódio atraiu a atenção
de cientistas, autoridades reguladoras e
do público em geral. O receio em
relação a esse tipo de abordagem
terapêutica aumentou. O artigo afirma
que a segurança do paciente é,
obviamente, a primeira preocupação
de qualquer pessoa que tente desenvolver
um novo tratamento médico. Apesar
disso, diz que "seria lamentável
que o futuro da terapia genética
fosse decidido por razões emocionais,
e não por análises cuidadosas
de seus riscos e benefícios".
A
terapia genética, escrevem os autores,
"tem o potencial de tratar doenças
hereditárias devastadoras, para as
quais há pouca esperança de
se encontrar uma cura convencional".
Na opinião deles, entretanto, a combinação
de notícias negativas, ceticismo
por parte dos colegas e reações
heterogêneas entre as autoridades
reguladoras levou o campo da terapia genética
à recessão. A crença
de que o tratamento provoca câncer,
aliada à incerteza em torno dos efeitos
de uma legislação mais rigorosa,
acabaram por desencorajar os cientistas
a iniciar novos teste clínicos. Segundo
o texto, os investidores também se
assustaram e a indústria de biotecnologia
se afastou da terapia genética. Em 2003,
empresas líderes no ramo, como a
norte-americana Gene Therapy, do estado
de Maryland, fecharam suas operações.
Outras, como a Cell Genesys, da Califórnia,
redirecionaram seus esforços para
bem longe dos vetores retrovirais. De acordo
com o artigo, sem os investimentos da indústria
é improvável que a terapia
genética consiga alcançar os
resultados que prometia.
"Nós
gostaríamos que a terapia genética
fosse vista, e tratada, como qualquer outra
terapia experimental, o que significa reconhecer
seus sucessos assim como seus fracassos",
dizem os autores no texto. E é isso
que eles fazem. Como exemplo de sucesso,
contam que de 18 pacientes com SCDI também
tratados em Paris, Londres e Milão
com terapia genética, 17 reconstituíram
suas funções imunológicas
e continuam vivos até hoje, há
mais de cinco anos. A solução
convencional mais adequada para as duas
variantes da doença apresentadas
por esses pacientes, o transplante de medula
óssea a partir de um doador perfeitamente
compatível, só é possível
para menos de uma em cada três pessoas.
O exemplo de fracasso fica por conta dos
dois casos de leucemia registrados no final
de 2002. De acordo com o texto, o aparecimento
da doença não era esperado
em parte
porque nenhum dos estudos pré-clínicos
havia apontado qualquer evidência
de câncer em animais tratados da mesma
maneira. As análises genéticas
feitas nas células malignas demonstraram
que o vetor retroviral se inseriu em um
oncogene relacionado à leucemia infantil
e o ativou. Segundo os autores, esse evento
não foi a única causa do câncer,
mas provavelmente foi o que disparou o processo.
Nenhum caso semelhante havia sido observado
em mais de uma década de testes clínicos
em humanos envolvendo grandes quantidades
de células sanguíneas geneticamente
modificadas.
O artigo
da Nature continua com uma discussão
ética. Os pacientes que desenvolveram
leucemia receberam um número elevado
de células-tronco geneticamente modificadas.
Quanto maior a quantidade de células
recebidas, maior a chance de que uma delas
seja potencialmente maligna. É aí
que mora o dilema: diminuir a eficiência
dos experimentos pode reduzir o risco de
efeitos colaterais, mas é quase certo
que também reduza as chances de sucesso
do tratamento. Segundo o texto, após
o aparecimento dos casos de leucemia, cientistas
e autoridades reguladoras pediram uma pausa
nos testes clínicos. Na maioria dos
países, foi permitido que eles prosseguissem
após uma parada temporária,
desde que os potenciais benefícios
para os pacientes superassem os riscos.
Na Alemanha, o uso da terapia genética
no tratamento de SCIDs e outras doenças
recomeçou em fevereiro de 2003, enquanto
na França os testes foram retomados
somente em janeiro deste ano. Os autores
concordam que é necessário
desenvolver vetores mais seguros, que não
ativem oncogenes, e fazer mais estudos pré-clínicos
para levantar as taxas de risco. Contudo,
argumentam que esse trabalho poderá
levar muitos anos e dizem que mesmo os melhores
modelos animais estão longe de prever
todos os possíveis fatores de risco
no tratamento de pacientes. Além
disso, afirmam que a terapia genética
funciona na maioria dos casos e salva vidas
de pacientes sem alternativa de tratamento,
ou com alternativas ainda mais arriscadas.
Na opinião deles, a protelação
dos testes clínicos "impediria
os pesquisadores de estimar seu completo
potencial terapêutico, adiaria seu
desenvolvimento em uma terapia efetiva e,
por último, afetaria o direito dos
pacientes de ter acesso a um melhor tratamento".
Segundo
o texto, tem sido proposto que as células
geneticamente modificadas sejam analisadas
antes e depois de inseridas na corrente
sanguínea. Sobre esse assunto, os
autores são categóricos: "Infelizmente,
as análises moleculares destroem
as células. Portanto, controlar todas
as amostras antes do transplante é
tecnicamente impossível
cada célula-tronco modificada é
única e pegar 10% das células
para análise não dirá
nada sobre os outros 90%". Além
disso, eles dizem que até que se
saiba mais sobre o que torna essas células
malignas, não há evidências
de que detectá-las seguramente eliminaria
a possibilidade de leucemia. Isso porque
há muitos fatores que impedem que
células com potencial maligno se
tornem de fato cancerosas e o risco varia
de acordo com o paciente e com a doença.
O monitoramento molecular, diz o texto,
poderia ser feito para estimar a freqüência
de eventos com potencial nocivo e para fornecer
taxas de risco mais precisas para os futuros
testes clínicos. No caso dos pacientes
que desenvolveram leucemia, por exemplo,
as análises posteriores de amostras
de sangue, tiradas em intervalos regulares,
revelaram como os clones das células
malignas cresceram e se proliferaram. "O
monitoramento molecular obrigatório
colocaria uma carga desnecessária
nos centros clínicos com testes de
terapia genética em andamento, sem
reduzir significantemente os riscos de leucemia",
argumentam os autores. Ao invés disso,
eles recomendam um arquivamento sistemático
de amostras de sangue e medula óssea
dos pacientes em terapia genética
com células-tronco, o que permitiria
aos pesquisadores fazer análises
retrospectivas a qualquer momento.
Como forma
de facilitar o planejamento e a execução
de testes clínicos em cooperação
com vários centros, os três
cientistas afirmam que a legislação
entre os países europeus e entre
a Europa e os Estados Unidos deve ser rapidamente
harmonizada. Segundo eles, a Agência
Européia de Avaliação
Médica (European Medical Evaluation
Agency), EMEA, não possui uma
jurisdição formal sobre os
testes que estão começando
e os países resistem à idéia
de abdicar da autoridade nacional nessa
questão. Se não houver um
consenso dentro do continente, dizem que
será improvável que qualquer
acordo entre a EMEA e o FDA (Food and
Drug Administration), o órgão
regulador norte-americano, tenha o impacto
vantajoso esperado por pesquisadores, indústria
e pacientes. "Nós acreditamos
que é essencial encontrar um balanço
racional entre o que é praticável,
a segurança e a eficácia para
decidir os usos clínicos desses vetores,
assim como para conceber normas e regulamentos
apropriados", dizem os autores na conclusão
do artigo.
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