.LEITURAS
..Publicada em 6 de fevereiro 2006

O Estado de S. Paulo e Valor Econômico, 30 de janeiro de 2006
Setor sucroalcooleiro se expande; exportação de álcool limitada
pelo mercado interno; Minas e Maranhão entram no negócio

Por Rachel Bueno

O jornal O Estado de S. Paulo publicou, no dia 30 de janeiro, as reportagens "Álcool ganha status de 'ouro branco'", de Renée Pereira, e "Maranhão, nova fronteira". Na mesma data, o Valor Econômico divulgou as matérias "Minas atrai investimento de 'novatos' para setor de cana" e "Plantadores vão receber mais pela matéria-prima", ambas assinadas por Mônica Scaramuzzo. Os textos destacam a boa fase do setor sucroalcooleiro, que vem recebendo elevados investimentos — inclusive de empresários de outros ramos —, devido ao crescimento da demanda e ao aumento dos preços do açúcar e do álcool. O Estadão afirma que o combustível "ganhou status de 'ouro branco'", numa referência à expressão "ouro negro", usada para denominar o petróleo. Diz que há vários fatores por trás dessa "euforia" e cita três deles: o sucesso dos carros bicombustível no Brasil, a possibilidade de outros países adotarem o álcool como combustível (motivados pelas preocupações ambientais e incertezas em relação ao petróleo) e a expectativa de que o açúcar brasileiro consiga chegar ao mercado europeu. Mas, apesar da previsão de abertura de novas usinas e do plano do governo do Maranhão de transformar o Estado na "nova fronteira do álcool", o jornal observa que "a oferta está justa" — para garantir o abastecimento interno, os produtores terão de optar por exportar ou açúcar ou álcool, afirma.

Segundo as informações fornecidas pela União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica) ao Estadão, 19 usinas (14 novas e 5 reativadas) começarão a funcionar em 2006. O investimento total é da ordem de US$ 700 milhões. Essas usinas só atingirão sua capacidade máxima nos próximos anos, mas já serão responsáveis, na safra deste ano, pela moagem de cerca de 10 milhões de toneladas de cana-de-açúcar — volume suficiente para a produção de 800 milhões de litros de álcool. Outras 89 usinas, com capacidade para 120 milhões de toneladas de cana, deverão entrar em operação dentro de dois a oito anos. De acordo com o jornal, o investimento ficará em torno de US$ 8,4 bilhões — para um custo de US$ 70 por tonelada.

Antônio de Pádua, diretor da Unica, disse ao Estadão que em 2006 a venda de carros bicombustível provocará um acréscimo de 1 bilhão de litros no consumo de álcool, mas garantiu que não haverá problemas com o abastecimento. O jornal explica que, além de surgirem novas usinas, as unidades já existentes expandirão sua produção, pois a área a ser colhida foi ampliada. Contudo, Pádua chamou a atenção para o fato de haver uma discussão no setor sobre as estratégias para este ano. As usinas teriam duas opções: aumentar a produção de açúcar para exportar mais e aproveitar o preço do produto, o mais alto nos últimos 24 anos, ou manter "o mix atual". No primeiro caso, a exportação de álcool teria de cair, para atender ao mercado interno — o que, segundo o jornal, "vai contra a política de tornar o combustível popular no exterior".

Onze das 19 usinas previstas para entrar em funcionamento este ano ficam em São Paulo. O Estadão conversou com os dirigentes de três dos empreendimentos paulistas. Antonio Toniello Filho, diretor do Grupo Virálcool, que já possui duas usinas, foi um deles. Ele revelou ao jornal sua expectativa de que a terceira unidade do grupo, no município de Castilho, comece a operar em junho com capacidade para moer 600 mil toneladas de cana-de-açúcar. Por enquanto, a usina só produzirá álcool — cerca de 55 milhões de litros. O plano é iniciar a produção de açúcar em 2008 e, até 2010, elevar a capacidade de moagem para 2 milhões de toneladas de cana. Toniello também contou que o grupo estuda a possibilidade de construir sua quarta usina em Mato Grosso, mas disse que ainda não há nada definido.

Bom também para quem planta

O Valor mostra que a alta no preço do açúcar e do álcool será positiva também para os agricultores. O diretor da Associação dos Plantadores de Cana do Oeste de São Paulo (Canaoeste), Osvaldo Alonso, contou à publicação que as usinas do Estado deverão pagar, em média, R$ 42,50 por tonelada de cana-de-açúcar na safra 2005/06 — 19,7% a mais que a média da safra 2004/05, que foi de R$ 35,50. "Os dados consolidados serão divulgados em abril, quando for calculada a média do pagamento da safra 2005/06, de maio de 2005 a abril deste ano", completa o jornal.

Alonso atribuiu o reajuste não só à valorização dos preços do açúcar e do álcool no Brasil e no exterior, mas também às negociações de quase um ano entre indústrias e plantadores sobre a mudança no Consecana, o atual modelo de pagamento. "Houve um aumento expressivo nos custos de produção, sobretudo com insumo", contou ele ao Valor. O diretor da entidade disse ainda que os plantadores estão preocupados em conseguir com o governo linhas de crédito com taxas mais baixas, para poderem acompanhar a expansão das usinas na Região Centro-Sul. O crescimento do setor sucroalcooleiro, observa o jornal, é dificultado pela "limitada infra-estrutura logística, sobretudo para o álcool". "São poucos os portos que têm condições de recepcionar o produto", reforçou outro entrevistado, Marco Aurélio Dias, diretor comercial da Frette & Cargo Intermodal.

Minas Gerais

Empresários "novatos" no setor sucroalcooleiro estão sendo atraídos pelos elevados preços do açúcar e do álcool, como demonstra a primeira das reportagens do Valor. O piloto da Fórmula Mundial Bruno Junqueira e o deputado federal Vittorio Medioli (PV-MG) são os dois exemplos que aparecem no texto. Bruno é sócio do pai, José Alberto Tavares Junqueira, na destilaria G5, localizada na cidade de Santo Hipólito, região central de Minas Gerais. O projeto já está em andamento: a destilaria começará a funcionar em julho, com capacidade para moer 70 mil toneladas de cana-de-açúcar. O objetivo, conta o jornal, é elevar o processamento em 150 mil toneladas por ano. Segundo José Alberto, foram investidos cerca de R$ 10 milhões na destilaria, que inicialmente produzirá apenas álcool. O Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Minas Gerais (Siamig) divulgou um valor maior: US$ 16,4 milhões.

O deputado Medioli tem planos mais ambiciosos: de acordo com o Valor, ele pretende investir R$ 80 milhões no projeto Jaíba 1 — ainda em análise —, na cidade de Jaíba, no semi-árido de Minas Gerais. A intenção é construir uma destilaria de álcool e uma fábrica de biodiesel. A parte industrial da usina consumirá R$ 45 milhões do valor total e a parte agrícola, R$ 16 milhões. Para a planta de biodiesel estão reservados R$ 20 milhões. Medioli, informa o jornal, é o controlador do grupo Dasa, que fatura R$ 1 bilhão e atua nas áreas de transporte, autopeças e mídia impressa.

Sempre segundo o Valor, Minas Gerais abriga "boa parte" das cerca de 50 usinas que deverão entrar em funcionamento na Região Centro-Sul do País até 2010. O Siamig constatou que o Estado receberá investimentos de US$ 744 milhões até essa data, considerando os projetos já em andamento de instalação de sete novas usinas, com capacidade para moer 14 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. Se forem levados em conta os projetos ainda em análise de cinco outras usinas, para processar mais 6,4 milhões de toneladas de cana, o montante chega a US$ 1,13 bilhão. Os projetos concentram-se no Triângulo Mineiro. De acordo com o jornal, a região reúne condições de solo e clima favoráveis, como São Paulo, e possui infra-estrutura de armazenagem e logística, "o que facilita o escoamento da produção até o porto de Santos (SP)".

Minas Gerais já conta com 21 usinas, que serão responsáveis pela moagem de 24,5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2005/06. "Nosso projeto é expandir 3 milhões de toneladas de cana por ano", declarou o presidente do Siamig, Luiz Cotta, ao Valor. O grupo alagoano Coruripe, que não é novato no setor, já havia anunciado, em entrevista recente ao jornal, que irá investir R$ 260 milhões em duas usinas no Estado: União de Minas, que começará a operar na safra 2007/08, e Carneirinho, para a safra 2009/10.

Maranhão

O bom momento por que passa o setor sucroalcooleiro também despertou o interesse de um Estado sem tradição na área: o Maranhão. O governo estadual lançou um plano para estimular a produção de álcool na região sudeste do Maranhão — onde há cerca de 400 mil hectares de terra disponíveis para o plantio de cana-de-açúcar, de acordo com as informações do secretário estadual de Indústria e Comércio, Ronaldo Braga, publicadas pelo Estadão. O secretário contou que o objetivo é iniciar o projeto com a construção de 20 usinas, e alcançar uma produção de 100 milhões de litros de álcool num período de dez anos. Ele acrescentou que já há empresas interessadas em atuar no Estado, como o grupo Costa Pinto e a Coimex Trading. Esta construiria uma usina capaz de moer 2 milhões de toneladas de cana, mas, segundo o jornal, a decisão "depende dos investimentos do governo do Estado em logística no Porto de Itaqui, como a construção de armazéns".

2006 - Inovação Unicamp - Direitos Reservados