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Sobre uma campeã
do investimento em P&D
GlaxoSmithKline enfrenta
acusação de fraude
O
jornal New York Times publicou
em 3 de junho as matérias "New
York State Official Sues Drug Maker Over
Test Data", assinada por Gardiner
Harris, e "Two Studies, Two Results,
and a Debate Over a Drug", por
Barry Meier. Ambos os textos tratam
da controvérsia que emergiu nos Estados
Unidos em torno da não publicação
de resultados negativos obtidos em testes
clínicos com medicamentos antidepressivos.
A reportagem de Gardiner Harris conta que
o procurador geral de Nova Iorque, Eliot
Spitzer, entrou no dia 2 de junho com ação
civil na Suprema Corte do Estado, em Manhattan,
contra a 'gigante' farmacêutica GlaxoSmithKline
(GSK). A companhia é acusada de fraude
contra o consumidor por não divulgar
um estudo sobre o Paxil, antidepressivo
classificado pelo jornal como 'popular',
que revelava a ineficiência do remédio
no tratamento da depressão em crianças
e adolescentes. Segundo o jornal, a ação
sustenta que ao invés de alertar
os médicos, a empresa encorajou-os
a prescrever o medicamento aos jovens. Em
resposta, a GSK divulgou uma declaração
afirmando que "agiu com responsabilidade
na condução de estudos clínicos
com pacientes pediátricos e na difusão
dos dados desses estudos". Acrescentou
que "todos os estudos pediátricos
foram postos à disposição
do FDA (Food and Drug Administration,
órgão americano que regulamenta
os medicamentos) e das agências reguladoras
mundiais" e, por fim, afirmou: "Nós
comunicamos publicamente os dados de todos
os estudos pediátricos". No
entanto, a declaração não
evitou que os papéis da GSK em Wall
Street caíssem US$ 1,38, ou
3,2%, para US$ 41,39.
'Esta é
uma área na qual estamos interessados
e penso que existam outros casos análogos',
disse Eliot Spitzer ao NYT, revelando
que ações similares contra
outras companhias farmacêuticas provavelmente
virão. De acordo com o promotor,
o objetivo do processo contra a Glaxo é
assegurar que os médicos tenham informações
completas sobre os medicamentos para que
possam decidir o que prescrever. Na opinião
dele, a companhia fez ‘divulgações
seletivas’ e não apresentou
aos médicos todos os fatos de que
tinha conhecimento. O jornal afirma que
o promotor entrou com a ação
num momento em que aumentam as críticas
à tendência da indústria
de publicar somente os estudos com resultados
positivos. O repórter
Gardiner Harris também informa
que Spitzer disputa a vaga de candidato
a governador do Estado de Nova Iorque pelo
Partido Democrata.
Onde
estaria a fraude
No caso
da GSK, a confusão envolve os estudos
329 e 377, conduzidos pela SmithKline —
antes da fusão com a Glaxo Wellcome,
em 2000 — durante a metade da década
de 1990. De acordo com o NYT,
apenas o estudo 329 foi divulgado amplamente.
Feito em hospitais dos Estados Unidos e
apresentado no começo de 1998, ele
sugere que o Paxil funciona em adolescentes
deprimidos. Segundo o jornal, um relatório
do trabalho foi aceito para publicação
no The Journal of the Academy of Child
and Adolescent Psychiatry (Revista
da Academia de Psiquiatria de Crianças
e Adolescentes) em 2001. Já o estudo
377, afirma a reportagem de Barry Meier,
só veio à tona quando o pesquisador
Robert Milin decidiu revelá-lo em
uma conferência médica. Milin,
do Royal Ottawa Hospital, no Canadá,
fez parte da equipe que conduziu os testes
em centros no Canadá, México,
Europa, África do Sul e Emirados
Árabes Unidos. Completado pouco tempo
depois do 329, o estudo 377 indicou que,
para os jovens, o Paxil tem o mesmo efeito
de uma "pílula de açúcar"
— ou seja, é tão eficaz
quanto um placebo. Segundo o jornal, esse
resultado negativo não apareceu em
nenhuma publicação ou press
release. 'Aquele estudo em particular
teria sido enterrado', disse o pesquisador
ao NYT.
Milin contou
ao jornal que quis divulgar os resultados
do estudo 377 porque acreditava que eles
revelavam falhas na elaboração
dos testes — as quais não deveriam
ser repetidas no futuro. De acordo com o
NYT, Milin e outros pesquisadores
afirmam que um dos problemas com os testes
de antidepressivos em crianças e
adolescentes é que geralmente existem
poucos pacientes jovens com depressão
em hospitais e centros clínicos.
Dessa maneira, os testes precisam se espalhar
por mais de uma dúzia de instituições.
Segundo o texto, Milin assumiu que a SmithKline
teria divulgado o teste, apesar dos possíveis
problemas na elaboração, se
os resultados tivessem sido diferentes.
O pesquisador tomou a decisão de
revelar as informações depois
que representantes da SmithKline disseram
a ele, em 1998, que não pretendiam
publicar o estudo. De acordo com o jornal,
um memorando interno da empresa, também
de 1998 — e divulgado somente este
ano —, dizia a mesma coisa. A respeito
do memorando, a declaração
da GSK afirma que ele é "inconsistente
com os fatos e não reflete a posição
da companhia". O jornal informa que
Milin contou aos executivos da SmithKline
que planejava apresentar os resultados do
estudo em um encontro da American Academy
of Child and Adolescent Psychiatry,
em 1999, e não recebeu nenhuma objeção.
Segundo o pesquisador, seu último
contato com a GSK foi há cerca de
seis meses. A companhia queria confirmar
se a cópia do relatório que
possuía em seus arquivos era a mesma
que Milin havia apresentado cinco anos atrás.
Segundo
o jornal, o processo contra a Glaxo é
parte de um extenso ataque dos promotores
públicos às praticas de marketing
da indústria farmacêutica.
"Enquanto os médicos são
livres para prescrever um medicamento aprovado
para qualquer uso, os fabricantes têm
a obrigação de limitar a propaganda
aos usos liberados pelo FDA",
escreve Gardiner Harris em seu texto. Quando
isso não acontece, as companhias
enfrentam processos como o que acusou a
Warner-Lambert, uma das unidades da Pfizer,
de promover a droga Neurontin para um determinado
tratamento antes de comprovar se haveria
benefícios. A Pfizer, maior fabricante
de medicamentos do mundo de acordo com o
NYT, fez no mês passado um
acordo com os promotores federais de Boston.
O jornal informa que a companhia comprometeu-se
a pagar US$ 430 milhões e a declarar-se
culpada das acusações. A reportagem
de Barry Meier explica que os fabricantes
não precisam divulgar os testes que
investigam outras aplicações
para drogas já existentes até
que peçam autorização
à agência para o novo uso —
"um processo que pode durar anos".
O NYT
conta que as companhias farmacêuticas
devem apresentar ao FDA todos os
resultados dos testes clínicos que
conduzem com seus medicamentos; no entanto,
diz o jornal, a agência mantém
as informações em sigilo até
que o produto seja aprovado para venda.
Após a liberação, continua
o texto, resumos e descrições
dos testes — e não os dados
completos — são divulgados
publicamente. Em alguns casos, acrescenta
o NYT, os médicos nem ficam
sabendo que tais testes foram feitos. Segundo
o jornal, nos Estados Unidos é o
FDA que decide alertar para possíveis
problemas de segurança com os medicamentos.
"Foi o que ele fez ano passado, quando
alertou os médicos sobre o uso do
Paxil em adolescentes e crianças",
escreve Gardiner Harris. Além disso,
conta a reportagem, no começo deste
ano o órgão americano requisitou
aos fabricantes de antidepressivos que destacassem
o risco de suicídio nas embalagens
dos produtos. Em 2003, quando as autoridades
britânicas pediram às companhias
farmacêuticas os dados não
publicados dos testes com esse tipo de medicamento,
as informações encontradas
sugeriam que os antidepressivos poderiam
justamente levar alguns usuários
jovens a ter pensamentos suicidas. A Grã-Bretanha,
diz o NYT, proibiu o uso de todos
os antidepressivos no tratamento de pacientes
dessa faixa etária, com exceção
do Prozac.
O
jornal afirma que a maioria dos testes clínicos
é patrocinada pelas companhias farmacêuticas
e que, há mais de uma década,
existe uma pressão para que elas
publiquem mais informações
sobre os testes e criem uma maneira uniforme
de divulgar os resultados através
de centrais de bancos de dados. Mas, para
os representantes das companhias, são
os editores das publicações
médicas — e não os executivos
das empresas — que decidem quais relatórios
publicar. Sempre segundo o jornal, até
mesmo os críticos da indústria
reconhecem que as publicações
favorecem os estudos que relatam grandes
descobertas. Além disso, os pesquisadores
dizem que recebem pouco incentivo para publicar
trabalhos que não chegam a um resultado
conclusivo. "Com poucas exceções",
diz o NYT, "os fabricantes de
medicamentos resistem à idéia
de estabelecer registros dos experimentos".
Segundo o jornal, existem poucos desses
registros, como o banco de dados do National
Institute of Health (Instituto Nacional
de Saúde) sobre os testes com medicamentos
contra doenças fatais. Os legisladores
da American Medical Association (Associação
Médica Americana) devem votar em
duas semanas uma proposta que, de acordo
com o NYT, impulsionaria o governo
a criar registros públicos dos testes
clínicos com medicamentos. A reportagem
de Barry Meier conta que em 1998 a então
Glaxo Wellcome se propôs a fazer um
registro público de seus testes.
No mesmo dia em que o procurador geral de
Nova Iorque entrou com a ação,
diz o jornal, a GSK divulgou uma breve declaração
dizendo que estaria trabalhando em uma versão
aprimorada desse registro.
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