Economist
Intelligence Unit, setembro 2004
Globalização
de P&D: Brasil pouco citado;
destaque são recursos humanos
A Economist Intelligence
Unit (EIU) divulgou em setembro o documento
"Scattering the seeds of invention:
the globalisation of research and development"
(Espalhando as sementes da invenção:
a globalização da pesquisa
e desenvolvimento). O documento
traz os resultados de um levantamento conduzido
pela EIU, unidade de análises econômicas
pertencente ao mesmo grupo que edita a revista
The Economist, e patrocinado pela
Scottish Development International, agência
do governo britânico que auxilia companhias
e instituições a expandir
seus negócios no exterior. Nos meses
de julho e agosto deste ano, 104 executivos
seniores de empresas de todo o mundo responderam
um questionário on-line
sobre o tema globalização
da pesquisa e desenvolvimento. O documento
atenta pouco ao Brasil. No corpo do texto,
o País é citado apenas uma
vez. No segundo capítulo, intitulado
"Today's R&D hot spots",
o executivo Hakan Djuphammar, ligado à
administração das atividades
de P&D da Ericsson em Estocolmo, na
Suécia, diz: "No Brasil, você
precisa pagar muito de imposto de importação
para os produtos que você vende —
a não ser que você tenha P&D
lá." As vantagens do País,
segundo ele, são o baixo custo e
a capacitação dos profissionais,
o que coloca o Brasil na sexta posição
da lista de países mais atrativos
para a localização de laboratórios
industriais.
A China, os Estados Unidos
e a Índia são as principais
estrelas do documento. Na tabela que relaciona
as localidades onde as empresas pretendem
investir em P&D nos próximos
três anos, o Brasil tem 11% das menções.
À sua frente estão China (39%),
Estados Unidos (29%), Índia (28%),
Reino Unido (24%) e Alemanha (19%). O maior
atrativo da China é seu imenso mercado,
que soma quase 1,3 bilhão de pessoas.
O número crescente de pesquisadores
é outro ponto positivo para o país,
que se destaca na fabricação
de celulares. A Índia tem a seu favor
a maior população asiática
com domínio do idioma inglês,
o acesso às instituições
de ensino ocidentais e o baixo valor dos
salários. Software e biotecnologia
são seus setores mais fortes. Estados
Unidos, Reino Unido e Alemanha contam com
infra-estrutura estabelecida, vínculos
acadêmicos consistentes, rigorosas
leis de proteção à
propriedade intelectual, histórico
de sucesso em P&D e experiência
em projetos com outros países. Os
Estados Unidos reúnem as principais
companhias farmacêuticas, enquanto
a Escócia, no Reino Unido, chama
atenção por suas pesquisas
com células-tronco. Além da
biotecnologia, os escoceses também
estão avançados na optoeletrônica.
As sedes das companhias
onde trabalham os executivos consultados
pela EIU concentram-se na América
do Norte (37%) e na Europa (35%); apenas
3% estão na América Latina.
A maioria dessas companhias (35%) tem receita
anual inferior a US$ 250 milhões,
enquanto 10% faturam acima dos US$ 8 bilhões.
Setenta por cento delas já empregam
profissionais de P&D no exterior. Está
nos planos de 52% dos executivos aumentar
os investimentos externos nessa área
nos próximos três anos. Outros
38% pretendem manter os gastos atuais. O
relatório atribui a redistribuição
das atividades de P&D em redes internacionais
ao esforço das companhias para acessar
novos mercados — e à conseqüente
necessidade de adaptar as tecnologias às
demandas locais. Mas a razão mais
importante é outra: "Nas atividades
em que um fluxo constante de inovações
de alta tecnologia é crucial para
a sobrevivência, as companhias irão
aonde for preciso para ter acesso aos melhores
talentos em P&D."
A qualificação
dos recursos humanos é apontada no
texto como o principal fator para um país
atrair investimentos em P&D. Ela é
mais valorizada pelas empresas que o baixo
custo da mão-de-obra, uma boa infra-estrutura,
um regime de impostos favorável ou
a existência de incentivos governamentais.
Para 30% dos executivos, a qualidade do
sistema de educação local
é um aspecto crucial na hora de decidir
onde instalar centros de P&D. Só
perde para a proteção aos
direitos de propriedade intelectual, mencionada
por 38% dos respondedores do questionário.
O documento afirma que os países
com sistemas mais sólidos de preservação
desses direitos têm vantagem significativa
sobre os demais, e acrescenta que mercados
emergentes como a China terão de
aprimorar esse ponto se quiserem aproveitar
seu potencial para abrigar centros de inovação.
Na falta de uma proteção legal
forte, a solução para as companhias
é "encontrar novas estratégias
para salvaguardar sua propriedade intelectual".
Isso significa, por exemplo, reforçar
a segurança interna de modo a evitar
o vazamento de informações
preciosas.
O tamanho do mercado local
ocupa a terceira posição no
ranking dos fatores mais relevantes
para a escolha do destino dos investimentos,
e foi assinalado por 29% dos executivos.
Nos casos da China e da Índia, o
texto diz que essa característica
se contrapõe a deficiências
como a fraca proteção à
propriedade intelectual. Em relação
aos mercados emergentes, afirma que a maioria
das atividades de P&D instaladas pelas
multinacionais está focada nas pesquisas
de produto ("aperfeiçoamento
ou extensão dos produtos existentes")
e de processo ("por exemplo, inovações
na fabricação"). A pesquisa
de produto é a maior prioridade para
60% dos executivos. Contudo, o documento
ressalta que os países em desenvolvimento
estão começando a abrigar
atividades de maior destaque na cadeia de
valor da pesquisa e desenvolvimento. Das
companhias participantes do levantamento,
22% já conduzem algumas pesquisas
aplicadas nesses países.
A EIU conclui a partir
do estudo que a inovação internacionalizada,
para ser bem-sucedida, depende de novas
estratégias organizacionais. Os principais
desafios identificados são as diversidades
culturais, a viabilização
de uma real colaboração entre
equipes de P&D espalhadas pelo mundo,
o alinhamento das atividades de pesquisa
global com a estratégia de negócios
da empresa e a necessidade de reduzir o
tempo que uma inovação leva
para ser comercializada. O relatório
lista dez "princípios para o
sucesso da P&D", um pequeno guia
para as empresas interessadas em investir
fora de seus países-sede. A primeira
delas é a velha máxima "o
barato pode sair caro" — ou seja,
salários mais baixos não significam,
necessariamente, economia. Estar preparado
para acusações de que a empresa
está exportando empregos, começar
os investimentos no exterior com pesquisas
de produtos e de processos e padronizar
os procedimentos são algumas das
outras recomendações.
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