.LEITURAS
..Publicada em 21 de outubro 2004

Economist Intelligence Unit, setembro 2004
Globalização de P&D: Brasil pouco citado;
destaque são recursos humanos

A Economist Intelligence Unit (EIU) divulgou em setembro o documento "Scattering the seeds of invention: the globalisation of research and development" (Espalhando as sementes da invenção: a globalização da pesquisa e desenvolvimento). O documento traz os resultados de um levantamento conduzido pela EIU, unidade de análises econômicas pertencente ao mesmo grupo que edita a revista The Economist, e patrocinado pela Scottish Development International, agência do governo britânico que auxilia companhias e instituições a expandir seus negócios no exterior. Nos meses de julho e agosto deste ano, 104 executivos seniores de empresas de todo o mundo responderam um questionário on-line sobre o tema globalização da pesquisa e desenvolvimento. O documento atenta pouco ao Brasil. No corpo do texto, o País é citado apenas uma vez. No segundo capítulo, intitulado "Today's R&D hot spots", o executivo Hakan Djuphammar, ligado à administração das atividades de P&D da Ericsson em Estocolmo, na Suécia, diz: "No Brasil, você precisa pagar muito de imposto de importação para os produtos que você vende — a não ser que você tenha P&D lá." As vantagens do País, segundo ele, são o baixo custo e a capacitação dos profissionais, o que coloca o Brasil na sexta posição da lista de países mais atrativos para a localização de laboratórios industriais.

A China, os Estados Unidos e a Índia são as principais estrelas do documento. Na tabela que relaciona as localidades onde as empresas pretendem investir em P&D nos próximos três anos, o Brasil tem 11% das menções. À sua frente estão China (39%), Estados Unidos (29%), Índia (28%), Reino Unido (24%) e Alemanha (19%). O maior atrativo da China é seu imenso mercado, que soma quase 1,3 bilhão de pessoas. O número crescente de pesquisadores é outro ponto positivo para o país, que se destaca na fabricação de celulares. A Índia tem a seu favor a maior população asiática com domínio do idioma inglês, o acesso às instituições de ensino ocidentais e o baixo valor dos salários. Software e biotecnologia são seus setores mais fortes. Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha contam com infra-estrutura estabelecida, vínculos acadêmicos consistentes, rigorosas leis de proteção à propriedade intelectual, histórico de sucesso em P&D e experiência em projetos com outros países. Os Estados Unidos reúnem as principais companhias farmacêuticas, enquanto a Escócia, no Reino Unido, chama atenção por suas pesquisas com células-tronco. Além da biotecnologia, os escoceses também estão avançados na optoeletrônica.

As sedes das companhias onde trabalham os executivos consultados pela EIU concentram-se na América do Norte (37%) e na Europa (35%); apenas 3% estão na América Latina. A maioria dessas companhias (35%) tem receita anual inferior a US$ 250 milhões, enquanto 10% faturam acima dos US$ 8 bilhões. Setenta por cento delas já empregam profissionais de P&D no exterior. Está nos planos de 52% dos executivos aumentar os investimentos externos nessa área nos próximos três anos. Outros 38% pretendem manter os gastos atuais. O relatório atribui a redistribuição das atividades de P&D em redes internacionais ao esforço das companhias para acessar novos mercados — e à conseqüente necessidade de adaptar as tecnologias às demandas locais. Mas a razão mais importante é outra: "Nas atividades em que um fluxo constante de inovações de alta tecnologia é crucial para a sobrevivência, as companhias irão aonde for preciso para ter acesso aos melhores talentos em P&D."

A qualificação dos recursos humanos é apontada no texto como o principal fator para um país atrair investimentos em P&D. Ela é mais valorizada pelas empresas que o baixo custo da mão-de-obra, uma boa infra-estrutura, um regime de impostos favorável ou a existência de incentivos governamentais. Para 30% dos executivos, a qualidade do sistema de educação local é um aspecto crucial na hora de decidir onde instalar centros de P&D. Só perde para a proteção aos direitos de propriedade intelectual, mencionada por 38% dos respondedores do questionário. O documento afirma que os países com sistemas mais sólidos de preservação desses direitos têm vantagem significativa sobre os demais, e acrescenta que mercados emergentes como a China terão de aprimorar esse ponto se quiserem aproveitar seu potencial para abrigar centros de inovação. Na falta de uma proteção legal forte, a solução para as companhias é "encontrar novas estratégias para salvaguardar sua propriedade intelectual". Isso significa, por exemplo, reforçar a segurança interna de modo a evitar o vazamento de informações preciosas.

O tamanho do mercado local ocupa a terceira posição no ranking dos fatores mais relevantes para a escolha do destino dos investimentos, e foi assinalado por 29% dos executivos. Nos casos da China e da Índia, o texto diz que essa característica se contrapõe a deficiências como a fraca proteção à propriedade intelectual. Em relação aos mercados emergentes, afirma que a maioria das atividades de P&D instaladas pelas multinacionais está focada nas pesquisas de produto ("aperfeiçoamento ou extensão dos produtos existentes") e de processo ("por exemplo, inovações na fabricação"). A pesquisa de produto é a maior prioridade para 60% dos executivos. Contudo, o documento ressalta que os países em desenvolvimento estão começando a abrigar atividades de maior destaque na cadeia de valor da pesquisa e desenvolvimento. Das companhias participantes do levantamento, 22% já conduzem algumas pesquisas aplicadas nesses países.

A EIU conclui a partir do estudo que a inovação internacionalizada, para ser bem-sucedida, depende de novas estratégias organizacionais. Os principais desafios identificados são as diversidades culturais, a viabilização de uma real colaboração entre equipes de P&D espalhadas pelo mundo, o alinhamento das atividades de pesquisa global com a estratégia de negócios da empresa e a necessidade de reduzir o tempo que uma inovação leva para ser comercializada. O relatório lista dez "princípios para o sucesso da P&D", um pequeno guia para as empresas interessadas em investir fora de seus países-sede. A primeira delas é a velha máxima "o barato pode sair caro" — ou seja, salários mais baixos não significam, necessariamente, economia. Estar preparado para acusações de que a empresa está exportando empregos, começar os investimentos no exterior com pesquisas de produtos e de processos e padronizar os procedimentos são algumas das outras recomendações.

 

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