| The
New York Times, 24 de fevereiro de
2005
Setores médico
e farmacêutico já começam
a também
buscar as vantagens do outsourcing
nos países da Ásia
Andrew Pollack
assina "Medical Companies Joining
Offshore Trend" (Companhias médicas
acompanham tendência do offshore)
para a edição de 24 de fevereiro
do The New York Times.
A matéria revela que a exportação
de empregos para países como Índia
e China, que já atingiu a etapa de
manufatura e algumas atividades internas
de empresas norte-americanas, está
se estendendo às indústrias
médica e farmacêutica. A chamada
"indústria das ciências
da vida", afirma a reportagem, confia
fortemente na inovação científica.
Além disso, "é vista
como um mecanismo de crescimento econômico
e fonte para novos empregos, particularmente
quando o crescimento diminui em outros setores,
como o da tecnologia da informação".
Esses fatores fizeram com que a indústria
farmacêutica fosse tida, por muito
tempo, como "menos vulnerável
à tendência do outsourcing",
ou seja, da terceirização
no exterior. Mas as histórias contadas
por Pollack mostram que há bastante
gente do setor interessada nos baixos custos
asiáticos.
Um dos personagens da reportagem
é Bala Manian. Ele saiu da Índia
para estudar nos Estados Unidos e, desde
1979, tem aberto sucessivas companhias de
tecnologia na área médica
no Vale do Silício, na Califórnia.
A lista inclui, entre outras, a Quantum
Dot Corporation e a
ReaMetrix, a mais nova delas, que faz kits
de testes para pesquisa farmacêutica.
Vinte de seus 28 funcionários estão
no país natal de Manian. "Vejo
na Índia o mesmo tipo de oportunidade
que vi no Vale em 1979", disse ele
ao jornal. Segundo o empresário,
"um milhão de dólares
não dura mais do que três meses"
nos Estados Unidos. Já na Índia
a situação é bem diferente:
"Posso gerenciar um grupo de 20 pessoas
durante um ano inteiro por meio milhão",
afirma. Ele acredita que o "êxodo"
de postos de trabalho é inevitável
e assegura que não há como
"sustentar a ineficiente pesquisa e
desenvolvimento que existe nos EUA".
O New York Times
diz que a exportação de empregos
no setor é pequena até agora.
Os últimos dados do Departamento
de Comércio dos Estados Unidos mostram
que "menos de 6% das companhias norte-americanas
com operações de biotecnologia
empregaram trabalhadores no exterior em
2002". Mas os especialistas dizem que
a porcentagem aumentou ao longo dos últimos
três anos. "É uma tendência
que está se tornando mais pronunciada
ao mesmo tempo em que os orçamentos
das pessoas ficam apertados", declarou
ao repórter Riccardo Pigliucci, diretor-executivo
da Discovery Partners International. A empresa,
com sede em San Diego, Califórnia,
presta serviços na área química
para fabricantes de medicamentos e começou
uma pequena operação na Índia.
Para isso, fechou uma unidade em Tucson,
Arizona, e dispensou 28 empregados. De acordo
com Pigliucci, um químico ganha por
ano de US$ 20 mil a US$ 40 mil na Índia,
contra de US$ 80 mil a US$ 100 mil nos Estados
Unidos.
Os ensaios clínicos
de novos medicamentos já estão
sendo feitos em países da Ásia,
Leste Europeu e América Latina; a
fabricação de remédios
é outra candidata à mudança,
prevê a matéria. A Índia,
destaca, já possui uma indústria
"próspera" de genéricos
e "está se movendo para a biotecnologia".
A Biocon, empresa indiana de biotecnologia,
é líder na produção
de genéricos redutores de colesterol
e também faz pesquisas e ensaios
clínicos para grandes companhias
farmacêuticas européias e norte-americanas.
Sua receita superou os US$ 100 milhões
no ano passado. Outra que atende os principais
nomes do setor farmacêutico é
a WuXi Pharmatech, de Xangai, na China.
Ge Li, seu fundador, voltou ao país
em 2001, após passar 12 anos nos
Estados Unidos. Lá, doutorou-se em
química orgânica pela Universidade
de Columbia e ajudou a montar a empresa
Pharmacopeia, em Nova Jersey. A WuXi possui
570 funcionários e gerou US$ 21,5
milhões no ano passado.
De acordo com o jornal,
as atividades levadas para o exterior poderiam
ser chamadas de "'back laboratory'
work" — ou seja, funções
secundárias, de apoio —, mas
há sinais de que a migração
ultrapassará esse limite. Um exemplo
é a suíça Roche, uma
das "grandes" da indústria
farmacêutica. Ela abriu recentemente
um centro de pesquisas em Xangai, para empregar
cientistas chineses que foram estudar fora
e estão voltando para o país.
Além da biotecnologia, na qual China
e Índia começam a investir,
o texto aponta a "postura mais permissiva
sobre a pesquisa com células-tronco
de embriões" como "vantagem
potencial para alguns países asiáticos".
Na opinião de um grupo de especialistas
britânicos em células-tronco
que visitou China, Cingapura e Coréia
do Sul, os cientistas dessas três
nações são talentosos
como os da Grã-Bretanha, mas seus
equipamentos e financiamentos são
melhores.
A reportagem observa que,
"mesmo sem o outsourcing",
a indústria das ciências da
vida "não é tão
grande para compensar os empregos perdidos
em outros setores". Ela oferece 885
mil postos de trabalho — considerando
dispositivos médicos, fármacos
e certas partes da agricultura e dos produtos
químicos —, segundo estudo
do Battelle Memorial Institute para a Organização
da Indústria de Biotecnologia. Por
outro lado, cerca de 225 mil empregos, ligados
principalmente a computadores e atividades
de suporte, foram para o exterior em 2004,
de acordo com uma estimativa da companhia
de pesquisas Forrester Research.
A matéria também
aponta fatores que sugerem uma migração
mais lenta do que a enfrentada pelo setor
de tecnologia da informação.
Os fabricantes de medicamentos, afirma,
sofrem menos pressão para cortar
custos, pois suas margens de lucro são
"relativamente altas". As companhias
também preferem, em geral, ficar
perto das melhores universidades de pesquisa,
que hoje em dia se concentram nos Estados
Unidos "por causa do amplo financiamento
dos Institutos Nacionais de Saúde".
É o caso da "gigante farmacêutica"
suíça Novartis, que transferiu
seu centro de pesquisas da Europa para Cambridge,
no Estado de Massachusetts.
"Mover a pesquisa
e o desenvolvimento para longe dos consumidores
nos Estados Unidos também pode apresentar
problemas", continua o New York
Times. O jornal conta o que aconteceu
com a Aviva Biosciences, que faz chips
para pesquisa biológica. A empresa
foi fundada em San Diego por cientistas
chineses, que pretendiam desenvolver grande
parte da tecnologia na China. Como isso
não foi possível, a maioria
dos trabalhos é feita na Califórnia.
De acordo com Jia Xu, vice-presidente para
pesquisa e desenvolvimento da Aviva, os
pesquisadores na China não souberam
entender as necessidades de seus colegas
norte-americanos. Mas essas barreiras provavelmente
não irão retardar a tendência
da exportação de empregos,
dizem as pessoas que estão no negócio.
"Além disso, elas argumentam,
as economias de gastos provenientes do outsourcing
podem liberar recursos para mais desenvolvimento
de medicamentos nos Estados Unidos",
completa a publicação. (R.B.)
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