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..Publicada em 03 de março 2005
The New York Times, 24 de fevereiro de 2005
Setores médico e farmacêutico já começam a também
buscar as vantagens do outsourcing nos países da Ásia

Andrew Pollack assina "Medical Companies Joining Offshore Trend" (Companhias médicas acompanham tendência do offshore) para a edição de 24 de fevereiro do The New York Times. A matéria revela que a exportação de empregos para países como Índia e China, que já atingiu a etapa de manufatura e algumas atividades internas de empresas norte-americanas, está se estendendo às indústrias médica e farmacêutica. A chamada "indústria das ciências da vida", afirma a reportagem, confia fortemente na inovação científica. Além disso, "é vista como um mecanismo de crescimento econômico e fonte para novos empregos, particularmente quando o crescimento diminui em outros setores, como o da tecnologia da informação". Esses fatores fizeram com que a indústria farmacêutica fosse tida, por muito tempo, como "menos vulnerável à tendência do outsourcing", ou seja, da terceirização no exterior. Mas as histórias contadas por Pollack mostram que há bastante gente do setor interessada nos baixos custos asiáticos.

Um dos personagens da reportagem é Bala Manian. Ele saiu da Índia para estudar nos Estados Unidos e, desde 1979, tem aberto sucessivas companhias de tecnologia na área médica no Vale do Silício, na Califórnia. A lista inclui, entre outras, a Quantum Dot Corporation e a ReaMetrix, a mais nova delas, que faz kits de testes para pesquisa farmacêutica. Vinte de seus 28 funcionários estão no país natal de Manian. "Vejo na Índia o mesmo tipo de oportunidade que vi no Vale em 1979", disse ele ao jornal. Segundo o empresário, "um milhão de dólares não dura mais do que três meses" nos Estados Unidos. Já na Índia a situação é bem diferente: "Posso gerenciar um grupo de 20 pessoas durante um ano inteiro por meio milhão", afirma. Ele acredita que o "êxodo" de postos de trabalho é inevitável e assegura que não há como "sustentar a ineficiente pesquisa e desenvolvimento que existe nos EUA".

O New York Times diz que a exportação de empregos no setor é pequena até agora. Os últimos dados do Departamento de Comércio dos Estados Unidos mostram que "menos de 6% das companhias norte-americanas com operações de biotecnologia empregaram trabalhadores no exterior em 2002". Mas os especialistas dizem que a porcentagem aumentou ao longo dos últimos três anos. "É uma tendência que está se tornando mais pronunciada ao mesmo tempo em que os orçamentos das pessoas ficam apertados", declarou ao repórter Riccardo Pigliucci, diretor-executivo da Discovery Partners International. A empresa, com sede em San Diego, Califórnia, presta serviços na área química para fabricantes de medicamentos e começou uma pequena operação na Índia. Para isso, fechou uma unidade em Tucson, Arizona, e dispensou 28 empregados. De acordo com Pigliucci, um químico ganha por ano de US$ 20 mil a US$ 40 mil na Índia, contra de US$ 80 mil a US$ 100 mil nos Estados Unidos.

Os ensaios clínicos de novos medicamentos já estão sendo feitos em países da Ásia, Leste Europeu e América Latina; a fabricação de remédios é outra candidata à mudança, prevê a matéria. A Índia, destaca, já possui uma indústria "próspera" de genéricos e "está se movendo para a biotecnologia". A Biocon, empresa indiana de biotecnologia, é líder na produção de genéricos redutores de colesterol e também faz pesquisas e ensaios clínicos para grandes companhias farmacêuticas européias e norte-americanas. Sua receita superou os US$ 100 milhões no ano passado. Outra que atende os principais nomes do setor farmacêutico é a WuXi Pharmatech, de Xangai, na China. Ge Li, seu fundador, voltou ao país em 2001, após passar 12 anos nos Estados Unidos. Lá, doutorou-se em química orgânica pela Universidade de Columbia e ajudou a montar a empresa Pharmacopeia, em Nova Jersey. A WuXi possui 570 funcionários e gerou US$ 21,5 milhões no ano passado.

De acordo com o jornal, as atividades levadas para o exterior poderiam ser chamadas de "'back laboratory' work" — ou seja, funções secundárias, de apoio —, mas há sinais de que a migração ultrapassará esse limite. Um exemplo é a suíça Roche, uma das "grandes" da indústria farmacêutica. Ela abriu recentemente um centro de pesquisas em Xangai, para empregar cientistas chineses que foram estudar fora e estão voltando para o país. Além da biotecnologia, na qual China e Índia começam a investir, o texto aponta a "postura mais permissiva sobre a pesquisa com células-tronco de embriões" como "vantagem potencial para alguns países asiáticos". Na opinião de um grupo de especialistas britânicos em células-tronco que visitou China, Cingapura e Coréia do Sul, os cientistas dessas três nações são talentosos como os da Grã-Bretanha, mas seus equipamentos e financiamentos são melhores.

A reportagem observa que, "mesmo sem o outsourcing", a indústria das ciências da vida "não é tão grande para compensar os empregos perdidos em outros setores". Ela oferece 885 mil postos de trabalho — considerando dispositivos médicos, fármacos e certas partes da agricultura e dos produtos químicos —, segundo estudo do Battelle Memorial Institute para a Organização da Indústria de Biotecnologia. Por outro lado, cerca de 225 mil empregos, ligados principalmente a computadores e atividades de suporte, foram para o exterior em 2004, de acordo com uma estimativa da companhia de pesquisas Forrester Research.

A matéria também aponta fatores que sugerem uma migração mais lenta do que a enfrentada pelo setor de tecnologia da informação. Os fabricantes de medicamentos, afirma, sofrem menos pressão para cortar custos, pois suas margens de lucro são "relativamente altas". As companhias também preferem, em geral, ficar perto das melhores universidades de pesquisa, que hoje em dia se concentram nos Estados Unidos "por causa do amplo financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde". É o caso da "gigante farmacêutica" suíça Novartis, que transferiu seu centro de pesquisas da Europa para Cambridge, no Estado de Massachusetts.

"Mover a pesquisa e o desenvolvimento para longe dos consumidores nos Estados Unidos também pode apresentar problemas", continua o New York Times. O jornal conta o que aconteceu com a Aviva Biosciences, que faz chips para pesquisa biológica. A empresa foi fundada em San Diego por cientistas chineses, que pretendiam desenvolver grande parte da tecnologia na China. Como isso não foi possível, a maioria dos trabalhos é feita na Califórnia. De acordo com Jia Xu, vice-presidente para pesquisa e desenvolvimento da Aviva, os pesquisadores na China não souberam entender as necessidades de seus colegas norte-americanos. Mas essas barreiras provavelmente não irão retardar a tendência da exportação de empregos, dizem as pessoas que estão no negócio. "Além disso, elas argumentam, as economias de gastos provenientes do outsourcing podem liberar recursos para mais desenvolvimento de medicamentos nos Estados Unidos", completa a publicação. (R.B.)

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