| Valor
Econômico, 12 de julho; The
Economist, 7 de julho
Revista inglesa identifica
interesse revivido no uso de energia
nuclear; e relata o reinício de construções
na Ásia e na América
No dia
12 de julho de 2005, o jornal Valor Econômico
trouxe uma matéria publicada originalmente
pela edição do dia 7 de julho
da revista The Economist, intitulada
"A volta da energia nuclear como opção
mais 'limpa'". A reportagem destaca
os anos em que a indústria nuclear
passou por uma crise, por conta de questões
relacionadas a segurança e a dificuldades
econômicas, e uma espécie de
renascimento da energia nuclear por causa
da necessidade de alternativas para diminuição
da emissão de carbono, um dos causadores
do aquecimento global. Essa emissão
tornou as usinas de gás e óleo
as "vilãs" do meio ambiente.
Esse movimento,
identifica a reportagem, se inicia na Ásia,
onde não houve uma reação
forte contra a energia nuclear como ocorreu
no Ocidente. A China, diz o jornal, tem
nove reatores e pretende ter mais 30. Outros
países também planejam ampliar
o número de usinas: Índia,
Japão, Taiwan e Coréia do
Sul. A própria Rússia —
vizinha da Ucrânia, onde ocorreu há
nove anos um dos maiores desastres nucleares,
Chernobyl — está construindo
várias usinas, diz a The Economist.
Contudo,
não é só nos países
asiáticos que a energia nuclear tem
despertado interesse. Um consórcio
da Finlândia, a empresa TVO, iniciou
seus trabalhos sobre a construção
de uma usina. Seria a primeira nova usina
do lado ocidental em uma década.
Pertti Simola, principal executivo da TVO,
tem certeza de que a Finlândia será
exemplo para outros países. Há
também a aprovação
do Parlamento da França para a construção
de uma nova usina no país.
Por trás
das questões ambientais estão
também os aspectos econômicos.
A Areva, maior distribuidora de energia
nuclear do mundo, de acordo com a The
Economist, mostra que a indústria
nuclear "ainda é um negócio
considerável". A revista relata
que, em 2004, a Areva teve faturamento de
US$ 8,2 bilhões. A divisão
nuclear da General Electric, que projeta
e constrói usinas, teve uma receita
de cerca de US$ 1,1 bilhão no ano
passado. A Westinghouse, colocada à
venda recentemente pela sua controladora,
a BNFL, teve receita de US$ 2 bilhões
em 2004. "Estamos bastante convencidos
de um renascimento nuclear e precisamos
nos preparar para ele. Precisamos contratar
mil engenheiros", disse Guillaume Dureau,
da Areva.
Nesse contexto,
uma aliança inesperada entre ambientalistas
e indústria nuclear está se
desenhando, afirma a reportagem. Keith Parker,
da Nuclear Industry Association, um grupo
comercial britânico, destacou uma
observação que, segundo ele,
partiu de um dos fundadores do Greenpeace,
James Lovelock: "apenas a energia nuclear
pode conter o aquecimento global",
teria dito o ativista ambiental.
Esse lobby
conta também com o apoio de integrantes
da comunidade acadêmica, como Sir
David King, cientista ligado ao primeiro-ministro
inglês, Tony Blair. King, de acordo
com a matéria, afirmou que uma nova
geração de usinas nucleares
é necessária no Reino Unidos
para diminuir a emissão de gases
estufa, pelo menos enquanto as tecnologias
não-nucleares e não emissoras
de carbono ainda estão em desenvolvimento.
A World Nuclear Association, outro órgão
do setor, critica o potencial de alcance
de outras fontes de energia, como eólica
e solar, por serem "difusas, intermitentes
e não confiáveis".
Ambientalistas
estão menos resistentes
A reportagem
conta ainda que mesmo na Europa, onde o
movimento ambiental contra a energia nuclear
foi muito forte, há um abrandamento.
Na Alemanha e na Suécia, por exemplo,
locais em que se baniu a construção
de novas usinas e se desativou usinas em
atividade, respectivamente, pesquisas de
opinião estão indicando uma
diminuição na resistência
da população à opção
nuclear.
Nos Estados
Unidos também há um movimento
de construção de novas usinas,
apoiado pelo presidente George W. Bush.
Ele tenta alocar no orçamento de
energia nuclear cerca de US$ 500 milhões
em apólices de seguros contra o risco
de atraso provocado por agentes reguladores
na construção das novas usinas
e mais US$ 6 bilhões em subsídios
para esses projetos. Um poderoso lobby
norte-americano vem se opondo ao comércio
de cotas de emissão de poluentes
com a Europa. Subsidiar a energia nuclear
seria, assim, uma forma de contentar esse
grupo, ao mesmo tempo em que atenderia à
crescente pressão do eleitorado norte-americano,
exigindo medidas do país em relação
ao aquecimento global.
Entre o
movimento ambiental, há quem siga
a postura de que é melhor uma revitalização
nuclear do que não se fazer nada
em relação às mudanças
climáticas. Líderes de movimentos
como o Environmental Defense e o World Resources
Institute "emitiram sinais favoráveis"
quanto ao uso da energia nuclear como parte
da resposta ao aquecimento global.
Contudo,
a energia nuclear seria apenas uma parte
do esforço. Outras opções
apontadas no texto da The Economist
incluem tornar a produção
de energia mais eficiente e reduzir o desperdício.
Além disso, fontes alternativas,
como eólica e das marés, encontram
muitos defensores. As usinas que consomem
combustíveis fósseis com captura
de carbono são rivais diretas das
usinas nucleares. Há projetos nessa
área desde a Argélia até
a China, passando pelos Estados Unidos.
Para poder
competir, as usinas nucleares também
partiram para a melhoria em eficiência.
A Constellation Energy é uma usina
que controla várias unidades e com
isso mantém bons administradores,
divide as melhores práticas, economiza
em manutenção de peças
e estoques. As dez maiores empresas do setor
controlam 61% das usinas. A maior delas,
a Exelon, tem uma participação
de 15%. A eficiência é mostrada
pelos EUA: a capacidade de utilização
de suas usinas cresceu de 56% em 1984 para
90%, hoje.
A consultoria
CERA calcula que 31 países, juntos,
têm 439 reatores nucleares comerciais.
Estes produzem 16% da eletricidade consumida
no mundo, avaliada entre US$ 100 bilhões
e US$ 125 bilhões anuais. Esses números
estão aumentando. Somente a expansão
na China deverá movimentar US$ 50
bilhões. Contudo, mesmo que o país
construa as 30 usinas, elas vão representar
apenas 5% do mix de eletricidade
da matriz nacional em 2030; ou seja, o interesse
chinês pela energia nuclear é
apenas relativo, aponta a reportagem. Em
contrapartida, a Agência Internacional
de Energia (IEA) estima que o gás
natural, hoje representando 1%, deverá
chegar a mais de 6% na China.
Outro fator
importante é que o custo da energia
nuclear hoje é mais barato do que
outras fontes. Vicent Gilles, do banco de
investimentos UBS, disse para a The Economist
que o custo das usinas alemãs é
de 1,5 centavo de dólar por quilowatt-hora,
mas que podem vender essa energia por três
vezes mais ao incluir os créditos
do programa de negociação
de carbono da Europa. Já o gasto
para produção de energia a
partir do gás natural na Alemanha
é de 3,1 centavos a 3,8 centavos
de dólar por kW-hora; a produção
de energia a partir do carvão pode
variar de 3,8 centavos a 4,4 centavos de
dólar. Nos Estados Unidos, a energia
produzida a partir do carvão custa
2 centavos de dólar por kW-hora,
a energia do gás natural custa 5,7
centavos e a energia nuclear custa 1,7 centavo.
Vantagens
relativas
As vantagens
da adoção da energia nuclear,
porém, parecem ser relativas. Isso
porque, apontam os críticos, os melhores
projetos que a indústria nuclear
pode criar não são competitivos
com as tecnologias de energia concorrentes.
Suas vantagens dependem do comportamento
das outras fontes. Alguns estudos sugerem
que a energia nuclear "pode ser viável
economicamente apenas se os benefícios
de seu 'ciclo de vida', como a ausência
de emissão de gases estufa, e as
desvantagens de seus concorrentes, como
o elevado custo de produção
do gás natural, forem mantidos".
"O maior agente motivador da energia
nuclear hoje é o preço do
gás natural de US$ 6 por milhão
de BTU (unidade britânica para medir
o poder calórico). Se o preço
voltar para US$ 3,50, então as usinas
nucleares já não serão
tão competitivas", disse Ed
Cummins, da Westinghouse, na reportagem.
De qualquer forma, muitos apostam na competitividade
da energia nuclear no caso da elevação
da tributação sobre gás
carbônico.
Outro grande
empecilho é como se desfazer do lixo
radioativo. A Grã-Bretanha decidiu
reprocessar o lixo, o que ficou muito caro.
Nos EUA, a solução é
depositar o lixo em piscinas localizadas
nas próprias usinas — solução
adotada no Brasil também. Hoje, especialistas
indicam que a melhor solução
é a armazenagem geológica,
enterrar profundamente o lixo. Isso que
enfrenta problemas com os grupos ambientais
e políticos (em que lugares seriam
enterrados, que cidade estaria disposta
a ceder terreno para isso?), além
do problema de custos.
Considerando
esses elementos, a maioria dos estudos indica
que as novas usinas a serem construídas
pelo setor privado precisarão do
suporte de investidores e só seriam
economicamente viáveis com subsídios.
Os empreendimentos novos, mais seguros,
são mais caros do que as alternativas
já existentes. Os defensores da energia
nuclear dizem que é possível
construir usinas novas ao custo de US$ 1,5
mil por kW de capacidade instalada, mas
os mais realistas afirmam que os novos complexos
custarão US$ 2 mil por kW. Isso é
o dobro do custo de capital para uma usina
térmica, por exemplo.
Muitos
riscos desestimulam investidores
Os investidores
estão desanimados, dadas as incertezas
de um projeto desse tipo. Uma usina de mil
megawatts poderia custar US$ 2 bilhões
e levar cinco anos para ser construída.
Uma planta de carvão custaria US$
1,2 bilhão e demoraria até
quatro anos; uma planta de ciclo combinado
de gás precisaria de US$ 500 milhões
e em menos de dois anos estaria produzindo.
"O legado da indústria referente
ao crescimento dos custos, problemas de
ordem tecnológica, políticas
ineficazes e a supervisão dos agentes
reguladores e os novos riscos provocados
pela concorrência e terrorismo poderão
manter o risco de crédito em patamar
muito elevado, sendo difícil de ser
superado", disse a agência de
classificação de risco Standard
& Poor's, recentemente.
Além
do risco econômico, há o político,
dada a ligação entre energia
nuclear e armamentos. Um exemplo citado
pela revista foi a Westinghouse, que estava
participando da negociação
de um contrato chinês, disputando
com empresas francesas e russas. O Congresso
norte-americano, temeroso de transferir
tecnologia nuclear para a China, vetou a
concessão de um empréstimo
do Banco de Importação e Exportação
dos EUA de US$ 5 bilhões para a empresa.
Se
parece assim tão arriscado e pode
até ser desvantajoso, por que esse
boom nuclear? A revista responde:
cada caso é um caso. Analisando a
China, que tem o maior programa de expansão
em energia nuclear, os analistas dizem que
isso pode ser a tentativa de atingir uma
tecnologia que os EUA não querem
compartilhar. Ou ainda uma questão
de segurança, para que os importadores
de energia possam ter uma parcela de suas
necessidades gerada por fontes sobre as
quais podem controlar. (J.S.)
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