The New
York Times, 22 de fevereiro de 2005
As nanopartículas
chegam ao mercado; da área médica
à indústria
química, propriedades do muito
pequeno encantam, relata jornal
O The New York
Times publicou em 22 de fevereiro a
reportagem "Tiny Is Beautiful:
Translating 'Nano' Into Practical"
(Minúsculo é bonito: transformando
'nano' em prático), assinada por
Kenneth Chang. O texto fala das
propriedades e aplicações
das nanopartículas, apresentadas
como "os primeiros frutos" da
nanotecnologia. Feitas, na maioria das vezes,
de materiais com os quais já estamos
familiarizados, elas "ganham assombrosas
novas capacidades simplesmente por serem
tão pequenas". Já existem
em produtos do dia-a-dia, como tintas e
protetores solares, e variedades "mais
exóticas" despontam como esperanças
na medicina. O auxílio no diagnóstico
da doença de Alzheimer e a destruição
de tumores são algumas possibilidades
de utilização prática
das nanopartículas descritas pelo
jornal.
O New York Times
explica que as nanopartículas medem
de poucos a algumas centenas de nanômetros.
O nanômetro, que equivale à
bilionésima parte do metro, "é
bem menor que o mundo dos objetos comuns
descritos pelas leis de movimento de Newton,
mas maior que um átomo ou uma simples
molécula, partículas regidas
pela mecânica quântica".
As nanopartículas contêm de
dezenas a milhares de átomos e, segundo
a publicação, vacilam entre
as mecânicas quântica e newtoniana.
O ouro serve de exemplo para mostrar que
nessas proporções "tudo,
independente do que seja, tem novas propriedades",
como afirma Chad Mirkin, diretor do Instituto
para Nanotecnologia da Northwestern University.
"No nível quântico, um
átomo de ouro age como qualquer outro
átomo de ouro, e uma pepita de ouro
grande o suficiente para ser segurada possui
as mesmas propriedades químicas e
elétricas de outra pepita",
escreve o repórter. Mas, no caso
das nanopartículas, duas delas, ambas
feitas de ouro puro, podem apresentar cor,
condutividade elétrica e temperatura
de fusão diferentes se uma for maior
do que a outra.
"Isso cria uma nova
maneira de se controlar as propriedades
dos materiais", diz na reportagem o
professor de química A. Paul Alivisatos,
da Universidade da Califórnia em
Berkeley. "Ao invés de mudar
a composição, você pode
mudar o tamanho." Alivisatos trabalha
com pontos quânticos feitos de material
semicondutor e é um dos cientistas
fundadores da Quantum
Dot Corporation (Leia
mais sobre a empresa),
sediada em Hayward, na Califórnia.
Segundo ele, a forma e o tamanho dos pontos
quânticos podem ser moldados para
fazê-los fluorescer em cores específicas.
De acordo com o New York Times,
os corantes comuns usados para identificar
DNA e proteínas no organismo perdem
a cor rapidamente, enquanto os pontos quânticos
"poderiam permitir o rastreamento de
reações biológicas
em células vivas durante dias".
David Kelley, professor
da Universidade da Califórnia em
Merced, está trabalhando com diminutos
discos feitos de "semicondutores exóticos".
Ele planeja usar as estruturas, que têm
apenas quatro átomos de espessura,
em células solares. "Como as
nanopartículas quase sempre contêm
uma estrutura cristalina impecável,
Kelly espera que suas nanocélulas
solares sejam mais eficientes para captar
a luz e transformá-la em eletricidade",
diz o jornal. O professor pretende estudar
mais as propriedades básicas dos
discos; ele calcula que em um ano ou dois
saberá se poderá conectá-los
em uma célula solar.
Voltando ao ouro, o artigo
conta que Chad Mirkin, da Northwestern University,
usa nanopartículas desse metal em
sensores para detectar doenças. Normalmente,
os diagnósticos são feitos
com uma molécula fluorescente, que
emite luz ultravioleta quando o anticorpo
ao qual está fixada se liga a uma
proteína associada à doença.
No método de Mirkin, vários
anticorpos e fragmentos de DNA, "que
agem como códigos de barras",
são presos a nanopartículas
de ouro. Em artigo no Proceedings Of
National Academy of Sciences (PNAS),
ele relatou com colegas que a técnica
originou um teste para detectar a doença
de Alzheimer em seu início. O pesquisador
abriu a empresa Nanosphere
Inc. para levá-la
ao mercado.
Como curiosidade, o texto
revela que os "artistas medievais tornaram-se
nanotecnólogos sem saber" quando
adicionaram cloreto de ouro ao vidro derretido
para fazer vitrais vermelhos. A mistura
fez surgir minúsculas esferas de
ouro, com aproximadamente 25 nanômetros
de diâmetro, que produzem uma "cor
rubi intensa" pela maneira como absorvem
e refletem a luz do Sol.
O metal também aparece
nas pesquisas de Naomi Halas, professora
de engenharia elétrica e da computação
na Rice University e inventora das "nanoconchas".
As nanoconchas, esclarece a matéria,
são esferas de ouro ou prata que
contêm uma cavidade preenchida por
sílica. Injetadas em um tumor e submetidas
à luz infravermelha, elas se aqueceriam
e matariam as células cancerosas.
O laboratório da professora fez demonstrações
com nanoconchas inseridas em pedaços
crus de frango, que pegaram fogo durante
a exposição ao infravermelho.
"Em tratamentos verdadeiros, uma intensidade
muito menor de luz seria usada", observa
o repórter, deixando claro que apenas
as células cancerosas seriam afetadas.
Naomi Halas e sua colega Jennifer West,
professora de bioengenharia na Rice, fundaram
a Nanospectra
Biosciences Inc.
Ainda na área médica,
a reportagem fala sobre a Altair
Nanotechnologies, localizada
em Reno, no Estado norte-americano de Nevada.
A empresa desenvolveu nanopartículas
de uma substância química que
se liga ao fosfato, impedindo que o fosfato
não removido por rins debilitados
penetre nos tecidos. Segundo Alan Gotcher,
diretor-executivo da empresa, os pacientes
precisariam de apenas uma pastilha do produto
— que deverá se chamar RenaZorb
— por refeição, contra
de duas a três pastilhas no caso dos
medicamentos concorrentes. O New York
Times explica que as nanopartículas
do RenaZorb permitem que uma área
maior da substância química
entre em contato com o fosfato, aumentando
a absorção.
A relação
entre menor tamanho e maior área
de superfície exposta também
é fundamental na pesquisa de Weixian
Zhang, professor de engenharia civil e ambiental
na Lehigh University, que trabalha há
quase dez anos com nanopartículas
de ferro. O ferro, segundo o texto, é
eficiente para destruir agentes contaminadores
da água como o tricloroetileno (TCE),
um solvente químico causador de câncer.
O método comum para eliminar o solvente
é "abrir uma vala e despejar
dentro dela uma tonelada ou mais de pó
de ferro", mas Zhang afirma que 453,59
gramas de nanopartículas poderiam
purificar de 4,53 toneladas a 13,6 toneladas
de água. Os testes que realizou em
duas localidades demonstraram uma redução
de mais de 90% nos níveis de TCE.
O pesquisador disse ao jornal que as nanopartículas
de ferro eventualmente se transformariam
em nanopartículas de óxido
de ferro, através de um processo
natural de oxidação. Ele acredita
que não haveria danos ao meio ambiente,
mas mesmo assim assinala a necessidade de
estudos sobre o assunto antes que o material
comece a ser amplamente utilizado.
A reportagem diz que as
nanopartículas podem oferecer "riscos
que ainda não são bem entendidos".
Ela cita um estudo (Leia
mais sobre o estudo),
realizado no ano passado, que apontou danos
nos cérebros de peixes provocados
pela presença de fulerenos —
nanoestruturas formadas por átomos
de carbono — na água. Por outro
lado, lembra que "nem todas nanopartículas
são consideradas igualmente nocivas".
O óxido de zinco serve como exemplo:
ele é usado há tempos em cosméticos
e, portanto, suas nanopartículas,
empregadas em protetores solares, não
são tidas como perigosas. (R.B.)
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