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..Publicada em 03 de fevereiro 2005
As empresas e a inovação em 2004

Aumento de investimentos em inovação se concentra
em fármacos, tecnologia e biotecnologia

A Technology Review, revista sobre inovação do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicou em dezembro de 2004 a reportagem especial "R&D 2004" (P&D 2004). Além do texto de abertura, assinado por David Rotman, há três perfis sobre projetos de pesquisa em andamento na Philips, na Nokia e na Texas Instruments. Os títulos correspondentes aos perfis são "Polymers to pixels" (Polímeros para fazer pixels), por Jéssica Gorman; "Peer-to-peer phones" (Telefones ponto-a-ponto), por Patric Hadenius; e "Single-electron transistors" (Transistores de um único elétron), por Peter Fairley.

A revista fez um levantamento das 150 empresas que mais investiram em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no mundo em 2003. Os gastos corporativos nessa área, afirma o texto de abertura, "continuam sendo a força motriz por trás da inovação". Os valores são altos: juntas, as companhias que ocupam os cinco lugares no topo da lista reservaram US$ 33,6 bilhões para as atividades de seus laboratórios naquele ano, cifra superior à que as agências federais receberam do governo dos Estados Unidos. A Technology Review também elaborou um indicador de inovação, baseado no valor destinado por cada empresa à P&D, nos aumentos porcentual e absoluto da verba em relação a 2002 e na porcentagem do faturamento que essa quantia representa. O curioso é que as companhias com maiores investimentos nem sempre conseguem as melhores pontuações no índice. A Ford, por exemplo, lidera o ranking de gastos com P&D — foram US$ 7,5 bilhões no período avaliado —, mas não está entre as 15 primeiras do indicador de inovação. A montadora norte-americana cortou US$ 200 milhões de seus recursos para pesquisa.

As alemãs DaimlerChrysler e Siemens, donas da terceira e da quinta maior verba, também fizeram reduções "significativas": de US$ 600 milhões e de US$ 900 milhões, respectivamente. De acordo com a publicação do MIT, as verbas começaram a encolher em 2001, após mais de meia década de "crescimento robusto". A tendência continua até hoje, em vários setores industriais — em 2003 a queda foi de 0,6%. "O quadro, entretanto, está longe de ser universalmente desanimador", escreve David Rotman. O motivo são os "sadios" e "crescentes" gastos com P&D feitos pelas principais companhias farmacêuticas, de tecnologia e de biotecnologia. De modo geral, como informa o texto que acompanha o gráfico intitulado "O negócio da inovação", os maiores aumentos nos investimentos acontecem nesses três setores. No caso da Pfizer, campeã do índice e segunda maior investidora, a elevação foi de 38%, ou US$ 1,955 bilhão. Já as verbas mais altas para pesquisa ficam com os "conglomerados industriais" e empresas do ramo de transportes.

Em relação ao índice de inovação, a revista destaca algumas "surpresas": BMC Software (quinta colocada), a companhia suíça de biotecnologia Serono (nona) e as duas únicas representantes da indústria automotiva entre os 15 primeiros lugares, Volkswagen (sexta) e Nissan (15ª). As cinco maiores pontuações ficaram, na seqüência, com Pfizer, Amgen, Nokia, Johnson & Johnson e BMC Software. Sobre as 150 empresas que mais gastam com P&D, a Technology Review oferece os seguintes dados: 42% têm sede nos Estados Unidos, 33% na Europa e 25% no Japão; 28 produzem fármacos e dispositivos médicos e 19 fabricam equipamentos eletrônicos. Em alguns casos, é grande a diferença no valor do investimento da primeira para a segunda colocada em cada setor. A Intel, por exemplo, empregou US$ 4,36 bilhões em P&D, contra US$ 1,72 bilhão de sua concorrente no negócio de semicondutores com melhor posicionamento na lista.

Philips desenvolve TV de tela plana baseada em polímeros

O perfil do projeto de pesquisa da Philips fala sobre uma espécie diferente de TV de tela plana. Nela, as imagens aparecem graças a uma camada de diodos emissores de luz (LEDs, em inglês) que usam novas moléculas orgânicas. De acordo com o texto, a empresa começou suas investigações logo após a descoberta de um tipo de plástico capaz de emitir luz quando colocado entre eletrodos, feita em 1989 na Universidade de Cambridge. A implicação "óbvia" dessa descoberta para a Philips é que pequenas áreas de uma camada de polímero poderiam ser selecionadas para receber eletricidade e, portanto, emitir luz — "em outras palavras, seria possível fazer pixels".

O laboratório da empresa em Eindhoven, na Holanda, trabalha há mais de uma década no aperfeiçoando de telas baseadas em polímeros. A tecnologia já foi empregada em pequenos displays de um barbeador elétrico, em 2002, e de um celular, no ano passado. Nijs van der Vaart, líder do projeto, disse à revista que celulares com telas maiores e de melhor resolução provavelmente aparecerão este ano. Ele acredita que os LEDs poderão equipar aparelhos de TV com 30 polegadas ou mais a partir de 2008.

Vaart enumerou diversas vantagens relacionadas à qualidade da imagem, mas o principal atrativo das TVs baseadas em polímeros, em relação às de plasma ou cristal líquido, deverá ser o preço. "Em teoria, pelo menos, fabricar displays a partir de plásticos que emitem luz será bem mais barato", afirma a matéria. Apesar do futuro promissor, a empresa ainda tem problemas a resolver, como a duração da capacidade de emissão de luz dos polímeros e o fato de algumas partes da tela "apagarem" antes do que outras. "E para fazer uma tela de TV com 30 polegadas, os pesquisadores da Philips devem melhorar a eficiência do display, de modo que correntes menores extraiam a luz necessária dos polímeros", acrescenta.

Nokia pesquisa compartilhamento de arquivos por celular

A finlandesa Nokia, maior fabricante de celulares do mundo, trabalha na adaptação da tecnologia ponto-a-ponto à telefonia móvel. Essa tecnologia possibilitou a existência do Napster e hoje é comumente utilizada no compartilhamento de arquivos digitais pela Internet. No caso dos celulares, ela permitiria, por exemplo, que amigos trocassem as fotos tiradas com seus aparelhos. O perfil do projeto diz que a companhia pressiona seus departamentos de pesquisa a planejar melhorias que diferenciem seus produtos dos da concorrência, pois a competição é crescente no setor. Atualmente, a Nokia detém um terço do mercado. No ano passado, suas vendas atingiram US$ 36,2 bilhões e o lucro foi de US$ 6,3 bilhões.

O primeiro passo dado por Jukka Nurminen e Balázs Bakos, que conduzem a pesquisa em Helsinque, na Finlândia, foi verificar se "uma típica rede móvel suportaria um protocolo de compartilhamento de arquivos amplamente usado chamado Gnutella". A resposta foi negativa, mas os pesquisadores conseguiram resolver esse "desafio técnico fundamental". Eles então apresentaram seu trabalho às unidades de negócios da Nokia, nas quais, conta o repórter, encontraram mais um empecilho: "Com o destino do Napster ainda fresco na mente de todos, a área de negócios não quis começar a promover uma tecnologia que poderia facilitar a troca de material protegido por direitos autorais." Erich Hugo, administrador de marketing tecnológico da empresa, disse à Technology Review que "a tecnologia ainda está em desenvolvimento". "Talvez sim", comenta a revista, "mas se o fenômeno do Napster é um indicador, uma vez que os potenciais usuários entenderem as possibilidades dos celulares ponto-a-ponto, pode ser quase impossível voltar atrás."

Texas Instruments quer produzir chips com bilhões de transistores

O artigo sobre a Texas Instruments enfoca a pesquisa com transistores de um único elétron. Ao contrário dos transistores convencionais, eles são ligados e desligados pela adição ou subtração de apenas um elétron. Essa característica os faz funcionar sem se aquecer, o que viabilizaria a construção de chips com bilhões de transistores — algo que não pode ser feito com a atual tecnologia. Além disso, eles poderiam permitir a fabricação de dispositivos eletrônicos muito menores, mais eficientes e com menor consumo de energia. "Os primeiros usos dos transistores de um único elétron seriam provavelmente em chips de memória e eletrômetros ultra-sensíveis para testar circuitos elétricos", disse à revista o físico Konstantin Likharev, da Universidade do Estado de Nova Iorque em Stony Brook. Ele estima que os chips equipados com esses transistores poderão armazenar 100 vezes mais dados que as melhores memórias atuais.

Quando a Texas Instruments decidiu investir em pesquisas nessa área, o pesquisador Christoph Wasshuber pôde transformar seu hobby em trabalho. Wasshuber, revela o texto, tinha outra atividade na empresa, mas costumava desenhar transistores de um único elétron nas horas vagas. Junto com seus colaboradores no Instituto Federal de Tecnologia Suiço, em Lausanne, conseguiu contornar o principal obstáculo para a utilização desses transistores no mundo real. "Incorporado a um típico componente de circuito de silício", o transistor que projetou "é imune a interferências". Outra vantagem é que o dispositivo seria compatível com os processos padrões de fabricação de semicondutores.

Segundo a publicação do MIT, os especialistas nesse tipo de transistor são cautelosos com o entusiasmo excessivo. Likharev, por exemplo, "considera as idéias de Wasshuber 'inteligentes', mas quer ver a prova de que o novo projeto funcionará em circuitos reais". Outro desafio que a revista aponta é a fabricação dos dispositivos, visto que, para operar em temperatura ambiente, eles deverão medir de um a dois nanômetros. "A indústria de semicondutores está bem longe de fazer isso de maneira controlável", declara Greg Snider, engenheiro elétrico da Universidade de Notre Dame especialista em transistores de um único elétron. Wasshuber, diz o artigo, concorda que ainda há muito trabalho a ser feito antes de os novos transistores "aparecerem em telefones celulares e computadores pessoais". A Texas Instruments espera conseguir reduzir os transistores convencionais até 2015; por enquanto, consegue patentes e "observa de perto o campo emergente". (R.B.)

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