| As
empresas e a inovação em 2004
Aumento
de investimentos em inovação
se concentra
em fármacos, tecnologia e biotecnologia
A Technology
Review, revista sobre inovação
do Instituto de Tecnologia de Massachusetts
(MIT), publicou em dezembro de 2004 a reportagem
especial "R&D 2004"
(P&D 2004). Além do texto de
abertura, assinado por David Rotman, há
três perfis sobre projetos de pesquisa
em andamento na Philips,
na Nokia
e na Texas
Instruments. Os títulos
correspondentes aos perfis são "Polymers
to pixels" (Polímeros para
fazer pixels), por Jéssica
Gorman; "Peer-to-peer phones"
(Telefones ponto-a-ponto), por Patric
Hadenius; e "Single-electron transistors"
(Transistores de um único elétron),
por Peter Fairley.
A revista fez um levantamento
das 150 empresas que mais investiram em
pesquisa e desenvolvimento (P&D) no
mundo em 2003. Os gastos corporativos nessa
área, afirma o texto de abertura,
"continuam sendo a força motriz
por trás da inovação".
Os valores são altos: juntas, as
companhias que ocupam os cinco lugares no
topo da lista reservaram US$ 33,6 bilhões
para as atividades de seus laboratórios
naquele ano, cifra superior à que
as agências federais receberam do
governo dos Estados Unidos. A Technology
Review também elaborou um indicador
de inovação, baseado no valor
destinado por cada empresa à P&D,
nos aumentos porcentual e absoluto da verba
em relação a 2002 e na porcentagem
do faturamento que essa quantia representa.
O curioso é que as companhias com
maiores investimentos nem sempre conseguem
as melhores pontuações no
índice. A Ford, por exemplo, lidera
o ranking de gastos com P&D
— foram US$ 7,5 bilhões no
período avaliado —, mas não
está entre as 15 primeiras do indicador
de inovação. A montadora norte-americana
cortou US$ 200 milhões de seus recursos
para pesquisa.
As alemãs DaimlerChrysler
e Siemens, donas da terceira e da quinta
maior verba, também fizeram reduções
"significativas": de US$ 600 milhões
e de US$ 900 milhões, respectivamente.
De acordo com a publicação
do MIT, as verbas começaram a encolher
em 2001, após mais de meia década
de "crescimento robusto". A tendência
continua até hoje, em vários
setores industriais — em 2003 a queda
foi de 0,6%. "O quadro, entretanto,
está longe de ser universalmente
desanimador", escreve David Rotman.
O motivo são os "sadios" e "crescentes"
gastos com P&D feitos pelas principais companhias
farmacêuticas, de tecnologia e de biotecnologia.
De modo geral, como informa o texto que
acompanha o gráfico intitulado "O
negócio da inovação",
os maiores aumentos nos investimentos acontecem
nesses três setores. No caso da Pfizer,
campeã do índice e segunda
maior investidora, a elevação
foi de 38%, ou US$ 1,955 bilhão.
Já as verbas mais altas para pesquisa
ficam com os "conglomerados industriais"
e empresas do ramo de transportes.
Em relação
ao índice de inovação,
a revista destaca algumas "surpresas":
BMC Software (quinta colocada), a companhia
suíça de biotecnologia Serono
(nona) e as duas únicas representantes
da indústria automotiva entre os
15 primeiros lugares, Volkswagen (sexta)
e Nissan (15ª). As cinco maiores pontuações
ficaram, na seqüência, com Pfizer,
Amgen, Nokia, Johnson & Johnson e BMC
Software. Sobre as 150 empresas que mais
gastam com P&D, a Technology Review
oferece os seguintes dados: 42% têm
sede nos Estados Unidos, 33% na Europa e
25% no Japão; 28 produzem fármacos
e dispositivos médicos e 19 fabricam
equipamentos eletrônicos. Em alguns
casos, é grande a diferença
no valor do investimento da primeira para
a segunda colocada em cada setor. A Intel,
por exemplo, empregou US$ 4,36 bilhões
em P&D, contra US$ 1,72 bilhão
de sua concorrente no negócio de
semicondutores com melhor posicionamento
na lista.
Philips
desenvolve TV de tela plana baseada em polímeros
O perfil do projeto de
pesquisa da Philips fala sobre uma espécie
diferente de TV de tela plana. Nela, as
imagens aparecem graças a uma camada
de diodos emissores de luz (LEDs, em inglês)
que usam novas moléculas orgânicas.
De acordo com o texto, a empresa começou
suas investigações logo após
a descoberta de um tipo de plástico
capaz de emitir luz quando colocado entre
eletrodos, feita em 1989 na Universidade
de Cambridge. A implicação
"óbvia" dessa descoberta
para a Philips é que pequenas áreas
de uma camada de polímero poderiam
ser selecionadas para receber eletricidade
e, portanto, emitir luz — "em
outras palavras, seria possível fazer
pixels".
O laboratório da
empresa em Eindhoven, na Holanda, trabalha
há mais de uma década no aperfeiçoando
de telas baseadas em polímeros. A
tecnologia já foi empregada em pequenos
displays de um barbeador elétrico,
em 2002, e de um celular, no ano passado.
Nijs van der Vaart, líder do projeto,
disse à revista que celulares com
telas maiores e de melhor resolução
provavelmente aparecerão este ano.
Ele acredita que os LEDs poderão
equipar aparelhos de TV com 30 polegadas
ou mais a partir de 2008.
Vaart enumerou diversas
vantagens relacionadas à qualidade
da imagem, mas o principal atrativo das
TVs baseadas em polímeros, em relação
às de plasma ou cristal líquido,
deverá ser o preço. "Em
teoria, pelo menos, fabricar displays
a partir de plásticos que emitem
luz será bem mais barato", afirma
a matéria. Apesar do futuro promissor,
a empresa ainda tem problemas a resolver,
como a duração da capacidade
de emissão de luz dos polímeros
e o fato de algumas partes da tela "apagarem"
antes do que outras. "E para fazer
uma tela de TV com 30 polegadas, os pesquisadores
da Philips devem melhorar a eficiência
do display, de modo que correntes
menores extraiam a luz necessária
dos polímeros", acrescenta.
Nokia
pesquisa compartilhamento de arquivos por
celular
A finlandesa Nokia, maior
fabricante de celulares do mundo, trabalha
na adaptação da tecnologia
ponto-a-ponto à telefonia móvel.
Essa tecnologia possibilitou a existência
do Napster e hoje é comumente utilizada
no compartilhamento de arquivos digitais
pela Internet. No caso dos celulares, ela
permitiria, por exemplo, que amigos trocassem
as fotos tiradas com seus aparelhos. O perfil
do projeto diz que a companhia pressiona
seus departamentos de pesquisa a planejar
melhorias que diferenciem seus produtos
dos da concorrência, pois a competição
é crescente no setor. Atualmente,
a Nokia detém um terço do
mercado. No ano passado, suas vendas atingiram
US$ 36,2 bilhões e o lucro foi de
US$ 6,3 bilhões.
O primeiro passo dado por
Jukka Nurminen e Balázs Bakos, que
conduzem a pesquisa em Helsinque, na Finlândia,
foi verificar se "uma típica
rede móvel suportaria um protocolo
de compartilhamento de arquivos amplamente
usado chamado Gnutella". A resposta
foi negativa, mas os pesquisadores conseguiram
resolver esse "desafio técnico
fundamental". Eles então apresentaram
seu trabalho às unidades de negócios
da Nokia, nas quais, conta o repórter,
encontraram mais um empecilho: "Com
o destino do Napster ainda fresco na mente
de todos, a área de negócios
não quis começar a promover
uma tecnologia que poderia facilitar a troca
de material protegido por direitos autorais."
Erich Hugo, administrador de marketing
tecnológico da empresa, disse à
Technology Review que "a tecnologia
ainda está em desenvolvimento".
"Talvez sim", comenta a revista,
"mas se o fenômeno do Napster
é um indicador, uma vez que os potenciais
usuários entenderem as possibilidades
dos celulares ponto-a-ponto, pode ser quase
impossível voltar atrás."
Texas
Instruments quer produzir chips
com bilhões de transistores
O artigo sobre a Texas
Instruments enfoca a pesquisa com transistores
de um único elétron. Ao contrário
dos transistores convencionais, eles são
ligados e desligados pela adição
ou subtração de apenas um
elétron. Essa característica
os faz funcionar sem se aquecer, o que viabilizaria
a construção de chips
com bilhões de transistores —
algo que não pode ser feito com a
atual tecnologia. Além disso, eles
poderiam permitir a fabricação
de dispositivos eletrônicos muito
menores, mais eficientes e com menor consumo
de energia. "Os primeiros usos dos
transistores de um único elétron
seriam provavelmente em chips de
memória e eletrômetros ultra-sensíveis
para testar circuitos elétricos",
disse à revista o físico Konstantin
Likharev, da Universidade do Estado de Nova
Iorque em Stony Brook. Ele estima que os
chips equipados com esses transistores
poderão armazenar 100 vezes mais
dados que as melhores memórias atuais.
Quando a Texas Instruments
decidiu investir em pesquisas nessa área,
o pesquisador Christoph Wasshuber pôde
transformar seu hobby em trabalho.
Wasshuber, revela o texto, tinha outra atividade
na empresa, mas costumava desenhar transistores
de um único elétron nas horas
vagas. Junto com seus colaboradores no Instituto
Federal de Tecnologia Suiço, em Lausanne,
conseguiu contornar o principal obstáculo
para a utilização desses transistores
no mundo real. "Incorporado a um típico
componente de circuito de silício",
o transistor que projetou "é
imune a interferências". Outra
vantagem é que o dispositivo seria
compatível com os processos padrões
de fabricação de semicondutores.
Segundo a publicação
do MIT, os especialistas nesse tipo de transistor
são cautelosos com o entusiasmo excessivo.
Likharev, por exemplo, "considera as
idéias de Wasshuber 'inteligentes',
mas quer ver a prova de que o novo projeto
funcionará em circuitos reais".
Outro desafio que a revista aponta é
a fabricação dos dispositivos,
visto que, para operar em temperatura ambiente,
eles deverão medir de um a dois nanômetros.
"A indústria de semicondutores
está bem longe de fazer isso de maneira
controlável", declara Greg Snider,
engenheiro elétrico da Universidade
de Notre Dame especialista em transistores
de um único elétron. Wasshuber,
diz o artigo, concorda que ainda há
muito trabalho a ser feito antes de os novos
transistores "aparecerem em telefones
celulares e computadores pessoais".
A Texas Instruments espera conseguir reduzir
os transistores convencionais até
2015; por enquanto, consegue patentes e
"observa de perto o campo emergente".
(R.B.) |