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Carlos Rossell, consultor da Dedini
S/A
Principal especialista
em obtenção de etanol
a partir de resíduos
de cana diz quais são as vantagens
do Brasil e como mantê-las
Pesquisador
associado do Núcleo Interdisciplinar
de Planejamento Energético
(Nipe) da Unicamp, com mais de 30
anos de experiência em pesquisa
no setor sucroalcooleiro, Carlos
Eduardo Vaz Rossell é o principal
especialista brasileiro em tecnologia
de hidrólise ácida
para produção de etanol.
A tecnologia, ainda não desenvolvida
até o nível comercial,
nem no Brasil nem no exterior, é
uma das apostas do setor para a
produção de mais etanol
sem aumento da área plantada
— a hidrólise ácida
utiliza o bagaço e a palha
da cana para produzir etanol. Hoje,
as usinas aproveitam esses resíduos
para gerar energia.
Na
Europa, na África do Sul,
nos Estados Unidos, no Canadá
e no Brasil, há um esforço
de pesquisa e desenvolvimento com
o objetivo de dominar essa tecnologia
e torná-la comercial. Disso
pode depender a competitividade
dos produtores de etanol. Além
da hidrólise ácida
— cujo fundamento é
a quebra das moléculas de
celulose por meio da adição
de ácido sulfúrico
aos resíduos —, há
também a possibilidade de
se realizar o processo de quebra
através de enzimas, chamada
por isso de hidrólise enzimática.
Também a tecnologia da hidrólise
enzimática não tem
ainda aplicabilidade comercial.
Rossell
é engenheiro químico,
e mestre e doutor em Engenharia
de Alimentos pela Unicamp. Gosta
de aliar os desafios científicos
à aplicação
do conhecimento, buscando soluções
para problemas tecnológicos
das empresas. Essa sua característica
o levou a participar de uma parceria
do Centro de Tecnologia Copersucar,
hoje Centro de Tecnologia Canavieira
(CTC), com a empresa paulista Dedini,
grande fabricante de equipamentos
para a indústria sucroalcooleira.
Ele coordenou o Processo Dedini
Hidrólise Rápida (DHR),
ajudando a empresa a desenvolver
a tecnologia da hidrólise
ácida até chegar à
escala industrial. Hoje, a empresa
já opera uma unidade de demonstração.
Deverá ser uma das primeiras
empresas a conseguir utilizar a
hidrólise ácida para
a obtenção de etanol
em larga escala.
Atualmente,
Rossell é consultor da Dedini
e integra o Grupo Energia Projeto
Etanol do Ministério da Ciência
e Tecnologia (MCT). Para falar sobre
a importância do processo
de hidrólise ácida,
do projeto da Dedini e das iniciativas
que o Brasil vem adotando para manter
a competitividade na produção
de etanol, Rossell concedeu essa
entrevista a Janaína
Simões no dia
17 de julho, em Campinas.
Qual
a importância da aplicação
do processo de hidrólise ácida
na produção de etanol?
Hoje, quando processamos a cana, deixamos
uma grande quantidade de material
celulósico no campo, que terminamos
por queimar. Essa prática não
é eficiente. O caldo de cana
é processado para a produção
de etanol ou de açúcar,
um processo que requer energia térmica
ou eletromecânica para ser realizado.
A fonte dessa energia em nossas usinas
tem sido o bagaço, um material
fibroso e celulósico que se
torna combustível depois de
extraído o açúcar.
Caminhamos para um uso cada vez mais
eficiente desse bagaço, e por
isso podemos produzir com ele a quantidade
de energia necessária para
a usina e ainda gerar um excedente
de bagaço. O bagaço
e a palha não recolhida do
campo são materiais constituídos
fundamentalmente por celulose, que
é um polímero da glicose;
por hemicelulose, um heteropolímero
mais complexo e formado por açúcares
de cinco carbonos, as chamadas pentoses
— diferentes da glicose, um
açúcar de seis carbonos
—; e por lignina, material estrutural
da planta, que pode ser fonte de outras
matérias químicas ou
de combustíveis. A celulose
e a hemicelulose podem ser transformadas
em açúcares, que são
então fermentados. Aí
está o grande impacto: por
meio do bagaço gerado como
excedente e daquele resíduo
celulósico recolhido no campo
estarão disponíveis
açúcares que, fermentados,
produzirão mais etanol. Isso
sem aumentar a área plantada.
É justamente o resultado que
queríamos, visto que o preço
do petróleo está em
elevação e nada indica
que ele passará por uma queda.
Além disso, a exportação
de etanol é uma das metas do
Brasil. Não digo do governo,
digo do Brasil, porque vejo que cada
governo que vem e virá tem
suas contribuições,
mas isso não é uma questão
apenas do governo que está
no poder, mas do País. É
um assunto irreversível.
Temos
dois caminhos, a hidrólise
ácida e a enzimática.
Qual a diferença entre eles?
A diferença está no
catalisador. No caso da hidrólise
ácida, o catalisador é
um ácido. Pelo fato de ser
um catalisador muito rápido,
o ácido precisa ser muito controlado
para não levar a reações
paralelas indesejáveis ou incontroláveis.
Por outro lado, o catalisador enzimático
é um biocatalisador, é
uma molécula biológica
que tem a particularidade de promover
certas reações em um
meio muito específico. Ele
faz o trabalho certo, com o máximo
de eficiência, mas o ataque
é mais lento. Ele é
mais propenso a bloqueios, a inibições,
por isso o desenvolvimento da tecnologia
é mais complexo. No curto prazo,
no caso específico do Brasil,
a hidrólise ácida pode
ser um caminho mais rápido
para se gerar um processo comercial
de aproveitamento do bagaço
e da palha para produção
de etanol. Isso não significa
que a hidrólise enzimática
não tenha interesse, muito
pelo contrário, mas é
uma tecnologia mais complexa e levará
mais tempo para ser viabilizada.
Outros
países estão seguindo
esse mesmo caminho. Qual a vantagem
brasileira?
O desenvolvimento dessa tecnologia
deve ser feito dentro de um modelo
específico para o Brasil. Outros
países do mundo estão
perseguindo o mesmo, mas suas matérias-primas
de partida são mais caras.
Como o custo da matéria-prima
é fundamental, eles têm
de chegar a um processo muito aperfeiçoado,
que aproveite o máximo de conversão.
Precisam produzir o máximo
de etanol para compensar o investimento.
Isso é um novo empreendimento
que envolve riscos. O modelo do Brasil
é diferente porque a matéria-prima
— o bagaço — está
quase pronto para entrar em hidrólise.
O bagaço é o resíduo
de um processo em que a cana foi passada
por faca de corte e por desfibradores.
Esse processo já reduz o tamanho
das partículas. Além
disso, o bagaço já está
na usina, que tem facilidade de administração
de emissão de efluentes, de
energia, de processos — coisas
que nos outros países ainda
é preciso desenvolver. O grande
diferencial do Brasil está
na integração da usina
já existente com a hidrólise.
E essa integração vai
além da produção,
pois há a parte de estocagem,
transporte, escoamento, enfim, tudo
que se relaciona à logística
para distribuição interna
e externa. Ou seja, o Brasil tem menores
riscos quando se fala em investimentos,
se comparado a outros países.
E
qual o caminho para o País
continuar competitivo?
Dada essas vantagens comparativas,
o Brasil tem necessidade de chegar
depressa a um processo comercial,
ou seja, não podemos esperar
um processo totalmente aperfeiçoado,
como se faz nos Estados Unidos, Canadá
e Europa. Precisamos chegar a um processo
que seja desenvolvido o suficiente
para entrar no mercado e que possa
ser aperfeiçoado no caminho.
Esse seria o típico modelo
de aproximação da tecnologia
do setor açucareiro e de muito
setores aqui no Brasil, aliado ao
empreendedorismo: começar com
o que temos e irmos aperfeiçoando
até chegar ao ótimo.
É o caso do desenvolvimento
da hidrólise ácida.
É um pouco diferente da situação
dos Estados Unidos e Europa, que precisam
ter tecnologia totalmente desenvolvida
para apresentar ao cliente ou, pelo
menos, fazer uma joint-venture
para compartilhar riscos. No Brasil,
temos riscos, mas estão muito
bem controlados.
O
senhor participa do desenvolvimento
do processo de hidrólise ácida
da empresa Dedini. Do que se trata
esse projeto?
A Dedini é uma das mais
tradicionais fábricas da indústria
de equipamentos para o setor sucroalcooleiro.
Ela definiu como objetivo desenvolver
um processo e levar essa tecnologia
à prática, por meio
de um pacote que pode ser entregue
na mão do cliente. Esse pacote
baseia-se no tratamento específico
do bagaço, por uma mistura
de um solvente que faz um 'afrouxamento'
do material lignocelulósico
[chamado de pré-tratamento
organosolv], e que permite simultaneamente
um ataque ácido muito rápido.
A tecnologia é um processo
de hidrólise ácida combinada
com um pré-tratamento organosolv.
Buscando desenvolver uma tecnologia
confiável e economicamente
viável, a Dedini passou do
laboratório para o piloto e
agora para uma unidade de demonstração.
A Dedini procurou uma solução
simples, partindo da fração
mais fácil de fermentar, que
são as hexoses — compostos
de seis carbonos. Com o tempo será
incorporada nova tecnologia e o processo
será melhorado. Aqui entram
os centros de pesquisa. Essa tecnologia
precisa de um input forte de
desenvolvimento básico em ciências,
em química, em física.
A biologia molecular pode trazer grandes
avanços. Há um papel
grande para a genética no conhecimento
da matéria-prima, das metodologias
analíticas. Temos toda a engenharia
conceitual de processos, a parte de
bioprocessos, em especial aqueles
relacionados a enzimas, a biotecnologia
aplicada à fermentação,
ao desenvolvimento de novas linhagens,
para a parte de biocatálises,
ao desenvolvimento de enzimas, capazes
de fazer a transformação
do material celulósico em açúcares
redutores. Veja, os desafios não
são pequenos e, para isso,
o País precisa de uma força-tarefa.
Em
que ponto está a tecnologia
desenvolvida na Dedini?
A empresa montou uma unidade de demonstração
de grande escala e está produzindo
cinco mil litros de etanol por dia.
O objetivo é testar o processo,
fazer a otimização energética
e desenvolver os equipamentos, os
periféricos, a automação
e os sistemas de segurança,
de forma a ter um projeto pronto para
o cliente. É preciso ressaltar
que essa tecnologia da Dedini não
é rígida. Os processos
de hidrólise ácida e
hidrólise enzimática
se complementam, não concorrem
entre si, há uma série
de questões comuns. Por exemplo,
o Brasil vai trabalhar com uma matéria-prima
única [cana] e o resto do mundo
tem de trabalhar com vários
tipos de matérias-primas. Depois
há o pré-tratamento,
necessário para ser uma hidrólise
eficiente. A seguir vem a reação
da hidrólise em si, seja ácida
ou enzimática, combinada, separada,
em um ou vários estágios;
após isso vem a purificação
do licor e a fermentação
das diferentes frações.
Os problemas, como o pré-tratamento
do bagaço, o sistema de alimentação,
de automação, de corrosão,
são comuns a todos os processos
de hidrólise.
Estamos
longe de ter uma tecnologia pronta
para o mercado?
Uma primeira unidade pioneira não
está tão longe. Em pesquisa,
as previsões são difíceis,
dada a quantidade de imponderáveis,
mas, em um prazo mais próximo,
daqui a dois anos deveremos ter as
respostas para os desafios tecnológicos
e estaremos em condições
de fabricar e comercializar uma unidade
pioneira que dê um mínimo
de rentabilidade. Será importante
alavancar essa fase para acelerar
processos, e isso é uma questão
para as agências de financiamento.
E
essa tecnologia seria algo semelhante
ao que faz a Dedini hoje?
Sim, mas com um aumento de dez vezes
na escala de produção.
Mas precisamos acertar todos os tipos
de problemas e ter um produto confiável.
Não pode ser algo que requeira
muito esforço ainda em desenvolvimento.
Sempre vamos ter algo a corrigir,
mas precisam ser coisas mínimas,
aceitáveis.
Como
é a questão da propriedade
intelectual no projeto da Dedini?
Fizemos um acordo entre as partes:
a Dedini, o Centro de Tecnologia Canavieira
(CTC), a Fapesp [Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo] e um quarto parceiro
— que é o braço
da Dedini que responde pela produção
de açúcar e álcool.
Todos entraram com uma parte e as
ações de cada um foram
contabilizadas para estabelecer a
base da propriedade intelectual da
tecnologia. A Fapesp tem 12% fixos
do valor obtido com eventuais lucros,
vendas e licenciamentos, por ter apoiado
com auxílio financeiro, por
meio de um dos seus programas de inovação,
o PITE [Parceria para Inovação
Tecnológica]. Ela participa
na propriedade intelectual porque
almeja reverter seus ganhos no financiamento
de novas pesquisas.
Quanto
tempo demorou do começo da
pesquisa até chegar a essa
unidade de demonstração?
Pouco mais de 15 anos. A implantação
da última unidade começou
em 2000 e ela demorou dois anos para
ser construída. Para esse tipo
de processo, que envolve alta capacidade
de produção de commodities,
costuma-se demorar pelo menos dez
anos para se chegar a um processo
ou produto final para o mercado. Uma
coisa é você projetar
uma nova janela, outra é levar
para a prática um negócio
que nunca foi feito e com base em
um material que é muito refratário,
como é caso do material trabalhado
na hidrólise ácida.
Os Estados Unidos colocaram o primeiro
processo de hidrólise ácida
em uma planta depois de 1945. Pararam
e só retomaram de forma forte
a partir de 1975. Os próprios
EUA, uma potência em ciência
e tecnologia, ainda não têm
um produto disponível. O Instituto
Francês de Petróleo fez
um trabalho muito forte no início
dos anos 1980, que foi desativado
no fim dessa mesma década,
por questões estratégicas
e retomado só agora. Esse processo
leva muito tempo e não tem
relação com nossa capacidade
de pesquisa. Pelo contrário,
o Brasil tem a experiência prática
no etanol, tem a consolidação
do mercado e as competências.
Como essas competências não
puderam ter a dedicação
que desejavam, ficamos um pouco atrasados,
mas não é um atraso
por questão de capacidade,
e sim de aplicação.
Não
corremos o risco de a produção
de etanol deixar de ser estratégica
e receber menos atenção
do governo, como já aconteceu?
De termos novos atrasos?
O Brasil teve altos e baixos.
A parte científica foi, em
certa medida, uma coisa de pioneiros,
de institutos e, em especial, de pesquisadores
que formaram grupos e seguiram nisso.
O trabalho desses profissionais foi
fundamental para manter essa chama
viva, e se hoje somos competitivos
em produção de etanol,
devemos isso a eles. Por um certo
período, tivemos uma queda
no preço do petróleo,
a exportação de etanol
inexistiu, houve falta de álcool,
descrédito em relação
à indústria, um quadro
que já conhecemos. Nesse contexto,
havia outras atividades em pesquisa
e os recursos das agências de
pesquisa são escassos. Seria
injustiça dizer que as agências
se omitiram. Elas estavam direcionando
recursos para outras coisas, por uma
questão de lógica. Agora
a situação é
diferente: o preço do petróleo
tende a subir, o Brasil tem a meta
de se transformar em exportador de
etanol, temos um mercado consolidado,
a demanda está aumentando,
temos linhas de utilização
de etanol em veículos, estamos
nos organizando. Este é o momento
de as agências de fomento federais
e estaduais se voltarem para a promoção
dos grupos de pesquisa em etanol —
claro que dentro de um plano estratégico,
buscando atingir um objetivo: o de
recuperar as diferenças em
conhecimento científico entre
nós e outros países.
Temos duas coisas a fazer: recuperar
essa diferença e partir para
o desenvolvimento de uma tecnologia
que seja voltada para a realidade
do Brasil.
Em
palestra durante a Terceira Conferência
Nacional de Ciência, Tecnologia
e Inovação, em novembro
de 2005, o PhD Alan
MacDiarmid, Prêmio
Nobel de Química, afirmou que
o Brasil perderá a vantagem
tecnológica que tem na produção
de etanol em dois a três anos.
O senhor concorda com esse diagnóstico?
Se estivéssemos falando de
time de futebol, eu até ficaria
ofendido. Mas a realidade é
a seguinte: o Brasil está atendendo
às suas necessidades de etanol
e já vislumbra um mercado exportador.
Prepara-se para expandir a produção
de uma forma organizada, planejada.
Temos exemplos disso. Um é
o projeto Grupo Estratégico
de Etanol, que tem o objetivo de planejar,
no médio e longo prazos, o
aumento da produção
sem promover a expansão de
área plantada, de forma a evitar
a competição com as
áreas produtoras de alimentos
ou entrar em áreas protegidas
como florestas. No curto prazo, pouco
interessa se o Brasil é primeiro
ou último, isso não
é uma competição.
Os governos federal e estaduais, o
setor privado, as associações
de classe, os fabricantes de equipamentos
estão vendo isso e há
um plano para se pensar de forma ordenada
nosso crescimento. E temos alguns
trunfos: saímos de um esquema
fortemente subsidiado para um sistema
de alta produtividade agrícola
e elevada eficiência industrial,
o que nos tornou competitivos. Nosso
custo de produção de
matéria-prima, a cana, e do
produto final, o açúcar
e o etanol, nos dá um diferencial
quando comparados com outros países.
O balanço energético
da produção de etanol
no Brasil é favorável,
pois o excedente de biomassa é
transformado em energia elétrica
e, futuramente, será transformado
em etanol. Não temos necessidade
de usar uma fonte de energia fóssil
para fazer a transformação.
Nos Estados Unidos, há um subsídio
— pelo menos é o que
indicam os artigos de analistas sérios
apresentados na mídia. A base
deles, a cultura de milho, não
é auto-energética; eles
precisam de combustível fóssil
para produzir etanol. Nós vamos
seguir nosso caminho, que está
bem traçado. São duas
situações diferentes.
Respeito a opinião dele, mas
tenho 30 anos no setor e minha experiência
diz que o Brasil está no caminho
certo.
O
que é o Grupo Estratégico
de Etanol que o senhor citou?
O Grupo Energia — Projeto Etanol
é um dos grupos de estudos
estratégicos do Ministério
da Ciência e Tecnologia (MCT).
Esse projeto está sendo executado
junto ao Núcleo Interdisciplinar
de Planejamento Energético
(Nipe), da Unicamp, e é coordenado
pelo professor Rogério Cezar
de Cerqueira Leite. Eu participo desse
grupo, que está estudando os
impactos do aumento da produção
atual de etanol. Trata-se de um estudo
complexo, com metas agrícolas,
econômicas, sociais, ambientais,
fazendo um diagnóstico da situação
de forma organizada e imparcial, buscando
benefícios econômicos
e sociais. Há novos estudos
preocupados em como o setor sucroalcooleiro
deve atender a esse crescimento e
as agências do governo estão
tomando suas medidas. Uma delas é
o Projeto Etanol da Rede Hidrólise,
também sustentado pelo MCT.
Esse projeto visa a desenvolver a
hidrólise enzimática
no Brasil e congrega uma rede nacional
de cientistas para resolver algumas
das problemáticas relacionadas
a esse processo. Temos de lembrar
que um material lignocelulósico
é um material dificilmente
atacável — a natureza
o fez assim para proteger os seres,
para compor estruturas. Atacar isso
e obter compostos requer muito conhecimento
e precisa de uma rede ligando grupos
de cientistas. É uma tarefa
que vai levar tempo, mas vai nos ajudar
a chegar ao mesmo nível científico
de Estados Unidos, Canadá,
União Européia e Japão
no que diz respeito ao conhecimento
de hidrólise. No âmbito
estadual, a Fapesp também está
preocupada, já que o Estado
de São Paulo é o que
mais produz etanol hoje no Brasil,
acumula tecnologia, tem um setor produtivo
organizado, com indústrias
que fornecem equipamentos baseados
em tecnologias próprias, que
não pagam licenças e
não dependem do exterior. A
Fapesp tem tomado medidas, como um
projeto de políticas públicas
cujo objetivo é diagnosticar
a situação atual do
setor sucroalcooleiro paulista, congregando
todos os organismos que vêm
atuando no Estado de São Paulo
em pesquisas relacionadas ao setor
sucroalcooleiro. Esse projeto servirá
para congregar todas as atividades,
dar diretrizes, estabelecer linhas,
promover a interação
entre os participantes mais relevantes
para criar um arcabouço de
tecnologia que depois será
continuado por meio de projetos que
possam ser financiados pela agência.
Foi idealizado e é coordenado
pelo professor Luiz Cortez, coordenador
da Cori [Coordenadoria de Relações
Institucionais e Internacionais] da
Unicamp. São ações
como essas que vão consolidar
um setor sucroalcooleiro fortemente
apoiado em tecnologia, o que vai trazer
um desenvolvimento sócio-econômico
grande para o Estado e o País,
com geração de emprego,
desenvolvimento das cidades, criação
de infra-estrutura.
O
Brasil fala muito em exportar etanol.
Não deveríamos olhar
a exportação de tecnologia
também?
Essa é uma questão difícil
de responder, envolve muitos setores.
No caso da indústria de equipamentos,
os fabricantes mais tradicionais do
setor sucroalcooleiro são muito
competitivos, têm tecnologia
brasileira que compete em preço
com o resto do mundo. Nesse caso específico,
no dia em que tiverem essa tecnologia
disponível, ela será
exportada. A Dedini, por exemplo,
está se organizando e protegendo
suas tecnologias para comercializá-las
no resto do mundo. Projetos como os
que estão inseridos na rede
de hidrólise e apoiados pela
Fapesp também contêm
uma orientação clara
para proteger a tecnologia, em função
do potencial comercial. No caso do
produtor de açúcar e
álcool, a questão da
proteção e comercialização
não está muito clara,
no meu entender. O produtor ainda
não está acostumado
a acompanhar e reivindicar propriedade
intelectual, comercializar ou licenciar
a terceiros. O que talvez explique
essa pouca atenção é
o fato de que todo esse processo de
gestão da propriedade intelectual
é dispendioso. Como
se organizar para proteger, quando
vender ou não a tecnologia
— ainda não vi uma política
muito definida para esses temas, mas
isso deverá mudar.
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