.ENTREVISTA
..Publicada em 19 de agosto 2004

Ronald Martin Dauscha

“Os empresários precisam inovar para o mercado e
enxergar a atividade de P&D como meio, e não como fim”

Em junho, a Anpei -- Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras – divulgou os resultados do estudo “Como alavancar a inovação tecnológica nas empresas”. A diretoria da entidade decidiu encomendar o trabalho ao economista Mauro Arruda e e ao professor Roberto Vermuln, da USP, para entender porque as empresas fazem pouca inovação tecnológica no Brasil. “Confirmamos o que imaginávamos: que encontraríamos motivos diferentes para diferentes tipos de empresa”, explica Ronald Martin Dauscha, que acumula desde maio o cargo de presidente da Anpei e diretor de Tecnologia Corporativa da Siemens do Brasil. Os resultados confirmaram a hipótese: as dificuldades para inovar variam de acordo com o tipo da empresa; e por isso, requerem políticas diferenciadas. A seguir, os principais tópicos da entrevista que o engenheiro Ronald Dauscha concedeu a Mônica Teixeira, de Inovação Unicamp, sobre o estudo:

Quantas empresas inovam
Das 70 mil empresas que o IBGE abordou, inferindo por amostragem, a gente percebe que apenas 31% das empresas invovaram no Brasil, no período de 1998 a 2000. A percentagem é pequena em si, e ainda há duas agravantes: pelos critérios da pesquisa, “fazer inovação tecnológica” significava fazer uma inovação nesses três anos; além disso, a Pintec entendeu “inovação tecnológica” de forma muito mais abrangente do que a atividade nobre de fazer P&D – incluiu aquisição de tecnologia, compra de novas máquinas, capacitação e treinamento.

O passo da inovação
A inovação cresceu no Brasil. Se nada for feito, daqui a dois ciclos, a Pintec mostrará um aumento de 31% para 35% das empresas fazendo inovação. Mas esse será um crescimento vegetativo, enquanto outros países terão dado saltos quânticos. Se o Brasil quiser realmente dar um passo considerável, tem que largar de lado a idéia de que não se pode investir dinheiro público em empresa, porque essa é a única forma de dar um salto.

O mercado e as empresas maiores
Quanto maior a empresa, maior importância assume ‘inovar para o mercado’. Para as estrangeiras, ainda mais que para as nacionais, e com taxas maiores. As empresas globais trazem essa cultura de estratégia; e talvez tenham acesso mais fácil a recursos para P&D do que empresas que só podem atuar no mercado brasileiro. As empresas nacionais têm taxa de inovação ao redor de 30%;
as estrangeiras, 62%. Caso consideremos empresas com mais de quinhentos funcionários, estes valores ficam mais próximos – respectivamente, 72% e 87%.

Onde está o problema das pequenas e micros
Nossa pesquisa revela que as pequenas e micros empresas estão muito distantes do mercado. Muitas vezes, a gente acha que o problema da pequena empresa é o gargalo tecnológico. Não, nosso estudo mostra que é o distanciamento do mercado. Por isso, para que essas empresas passem a inovar, é necessária uma atuação muito mais abrangente, extensionista – considerando outras atividades como técnicas de marketing e de pesquisa, por exemplo, para depois chegar à inovação e ao P&D.

Diretriz para inovar
Para as empresas nacionais, tem que se tornar atrativo fazer P&D. Tem que ficar bem claro que o risco pode ser mais diminuído pelo Governo. É necessário mudar o paradigma do empresariado, de que comprar pronto é mais rápido e tem menos risco – embora muitas vezes você faça isso uma vez e depois não continue. Nem todas as empresas nacionais têm a conscientização de que o principal é atender o mercado, o cliente; de que você tem que entender e poder traduzir qualquer demanda específica do mercado para a área de P&D e engenharia. Tem que vir junto de um pacote de benefícios, de incentivos, para o risco da decisão de fazer P&D ser realmente percebido como da mesma ordem de grandeza do risco de comprar tecnologia pronta e, depois, não dar continuidade.

A verdadeira Cultura de Inovação
Trata-se de fazer o empresário enxergar P&D e inovação como meio e não como fim. Não é fim, é meio para aumentar a produtividade, a competitividade e para reduzir custos.

Conjuntura atual
O tema da inovação está em todas as esferas. O crescimento econômico
vai dar algum gás para as empresas. O momento é bom.

Inovação e crescimento econômico
Na crise econômica, não se pensa em criar grupo de inovação; até se reduz o que já era feito. Para o crescimento não ser o tal “vôo de galinha”, a inovação é chave. Só nas tecnologias mais avançadas é que se tem chance de agregar valores e diferenciais.

Decisão sobre P&D na multinacional e as Universidades
O P&D das empresas globais irá necessariamente para os países com melhor relação custo-benefício. Entenda-se “benefício”, quando se trata de P&D, por tempo, desenvolvimento e qualidade. A Siemens é um caso: a gente não tem um P&D centralizado no país A, B ou C. Para a área de PABX, o Brasil é um entre cinco centros mundiais de P&D, com cadeira no board de decisão mundial. Para a escolha recair sobre um país, conta também a estabilidade política, marcos regulatórios claros, e a qualidade da pesquisa na Universidade. Nesse ponto, o Brasil está muito bem. Não temos hoje problemas para definir projetos mundiais trabalhando com Universidades e Centro de Pesquisas.

Modelo de universidade
Tem que ter uma parcela de pesquisa básica, financiada a fundo perdido, naquilo que é muito avançado. Mas a grande parte tem que ser alinhada com o mercado – aí o país todo ganha, os impostos aumentam e você reinveste na Universidade.


Com quem concorremos
Na disputa por abrigar um centro de P&D, nós hoje concorremos com China, Índia, Rússia -- que tem enorme potencial de crescimento -- , Leste Europeu e Grécia. Mesmo as fábricas da Siemens na Alemanha sofrem concorrência do Leste Europeu. Em junho, o sindicato e a Siemens concordaram em aumentar a jornada de trabalho, de 35 para 40 horas semanais, em unidades de produção de telefones. O acordo evitou que dois mil postos de trabalho fossem transferidos para a Hungria.

Ferramentas de Fomento do Sistema C&T
Há um conjunto de ferramentas disponíveis para financiar inovação – as Fundações de Amparo à Pesquisa, a Finep, o CNPq. Mas outra das conclusões do trabalho é que falta uma postura ou uma cultura de inovação nas empresas. Essas ferramentas poderiam melhorar, ser mais e melhor utilizadas, se mais empresas as procurassem. Por isso uma das sugestões do estudo é trabalhar fortemente uma divulgação mais ampla da necessidade de inovar.

Inovação nos setores tradicionais
A causa da baixa taxa de inovação nos setores tradicionais é congênita. Eles não são tradicionais porque fazem pouca inovação; fazem pouca inovação por serem tradicionais. Os produtos do setor tradicional têm um ciclo de vida muito mais lento. Por exemplo, um transformador não tem uma inovação tecnológica a cada ano; mas um celular, sim. Na Siemens, por exemplo, há áreas que lançam um produto novo a cada meio ano; e outras que levam de cinco a dez anos para fazê-lo. Não dá para forçar uma pessoa a gastar com inovação muito mais do que precisa. Mesmo com todos essas considerações, os setores tradicionais estão fazendo menos inovação do que poderiam fazer.

A Lei de Informática
Outro tema importante: nas grandes empresas, globais ou nacionais, se percebe uma taxa de inovação muito maior em setores não-tradicionais: eletrônica, instrumentação, material elétrico, química. Muitos deles, resultado de política industrial bem sucedida, são beneficiados há alguns anos por Lei de Informática. Uma política bem feita tem o resultado de criar sinergias.

Receita para pequenas empresas
O trabalho com elas deve deixar de ser pontual, com a empresa A,B e C, e trabalhar mais no estrutural, em conjuntos maiores, onde você trabalha aspectos estruturais. Por exemplo, a própria ANPEI, antigamente tinha um trabalho que chamava MOBITEC, onde você fazia uma capacitação com uma empresa. Também é necessário um trabalho mais extensionista – quer dizer, desde a parte de marketing, análise de mercado, depois olhar para os gargalos internos, distribuição. Essa seria a tarefa dos vários SEBRAEs. Cada vez mais, as associações e órgãos vão deixar de trabalhar em balcão – por isso estão aparecendo os grandes portais. Outro aspecto é a proliferação de pequenos centros tecnológicos de apoio. O problema, às vezes, não é financiamento, mas um auxílio em tecnologia industrial básica, em metrologia, design. Temos que chegar perto das pequenas empresas com Portais, extensionismo e núcleos de apoio tecnológico.


Como pensa o pequeno empresário
O modelo das pequenas empresas é: “quero seguir as grandes”. Elas tentam seguir, mas para poder competir às vezes entram na informalidade, e não saem mais. Enxergar o mercado quer dizer elas perceberem que existem nichos específicos, que podem crescer em alguns segmentos que as grandes não exploram.

 

2004 - Inovação Unicamp - Direitos Reservados