| Ronald Martin Dauscha
“Os empresários
precisam inovar para o mercado e
enxergar a atividade de P&D como meio,
e não como fim”
Em junho,
a Anpei -- Associação Nacional
de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia
das Empresas Inovadoras – divulgou
os resultados do estudo “Como alavancar
a inovação tecnológica
nas empresas”. A diretoria da entidade
decidiu encomendar o trabalho ao economista
Mauro Arruda e e ao professor Roberto
Vermuln, da USP, para entender porque
as empresas fazem pouca inovação
tecnológica no Brasil. “Confirmamos
o que imaginávamos: que encontraríamos
motivos diferentes para diferentes tipos
de empresa”, explica Ronald Martin
Dauscha, que acumula desde maio o cargo
de presidente da Anpei e diretor de Tecnologia
Corporativa da Siemens do Brasil. Os resultados
confirmaram a hipótese: as dificuldades
para inovar variam de acordo com o tipo
da empresa; e por isso, requerem políticas
diferenciadas. A seguir, os principais
tópicos da entrevista que o engenheiro
Ronald Dauscha concedeu a Mônica
Teixeira, de Inovação Unicamp,
sobre o estudo:
Quantas
empresas inovam
Das
70 mil empresas
que o IBGE abordou, inferindo por amostragem,
a gente percebe que apenas 31% das empresas
invovaram no Brasil, no período de
1998 a 2000. A percentagem é pequena
em si, e ainda há duas agravantes:
pelos critérios da pesquisa, “fazer
inovação tecnológica”
significava fazer uma inovação
nesses três anos; além disso,
a Pintec entendeu “inovação
tecnológica” de forma muito
mais abrangente do que a atividade nobre
de fazer P&D – incluiu aquisição
de tecnologia, compra de novas máquinas,
capacitação e treinamento.
O
passo da inovação
A inovação cresceu no Brasil.
Se nada for feito, daqui a dois ciclos,
a Pintec mostrará um aumento de 31%
para 35% das empresas fazendo inovação.
Mas esse será um crescimento vegetativo,
enquanto outros países terão
dado saltos quânticos. Se o Brasil
quiser realmente dar um passo considerável,
tem que largar de lado a idéia de
que não se pode investir dinheiro
público em empresa, porque essa é
a única forma de dar um salto.
O
mercado e as empresas maiores
Quanto maior a empresa, maior importância
assume ‘inovar para o mercado’.
Para as estrangeiras, ainda mais que para
as nacionais, e com taxas maiores. As empresas
globais trazem essa cultura de estratégia;
e talvez tenham acesso mais fácil
a recursos para P&D do que empresas
que só podem atuar no mercado brasileiro.
As empresas nacionais têm taxa de
inovação ao redor de 30%;
as
estrangeiras, 62%. Caso
consideremos empresas com mais de quinhentos
funcionários, estes valores ficam
mais próximos – respectivamente,
72% e 87%.
Onde
está o problema das pequenas e micros
Nossa pesquisa revela que as pequenas e
micros empresas estão muito distantes
do mercado. Muitas vezes, a gente acha que
o problema da pequena empresa é o
gargalo tecnológico. Não,
nosso estudo mostra que é o distanciamento
do mercado. Por isso, para que essas empresas
passem a inovar, é necessária
uma atuação muito mais abrangente,
extensionista – considerando outras
atividades como técnicas de marketing
e de pesquisa, por exemplo, para depois
chegar à inovação e
ao P&D.
Diretriz
para inovar
Para as empresas nacionais, tem que se tornar
atrativo fazer P&D. Tem que ficar bem
claro que o risco pode ser mais diminuído
pelo Governo. É necessário
mudar o paradigma do empresariado, de que
comprar pronto é mais rápido
e tem menos risco – embora muitas
vezes você faça isso uma vez
e depois não continue. Nem todas
as empresas nacionais têm a conscientização
de que o principal é atender o mercado,
o cliente; de que você tem que entender
e poder traduzir qualquer demanda específica
do mercado para a área de P&D
e engenharia. Tem que vir junto de um pacote
de benefícios, de incentivos, para
o risco da decisão de fazer P&D
ser realmente percebido como da mesma ordem
de grandeza do risco de comprar tecnologia
pronta e, depois, não dar continuidade.
A
verdadeira Cultura de Inovação
Trata-se de fazer o empresário enxergar
P&D e inovação como meio
e não como fim. Não é
fim, é meio para aumentar a produtividade,
a competitividade e para reduzir custos.
Conjuntura
atual
O tema da inovação está
em todas as esferas. O crescimento econômico
vai dar algum gás para as empresas.
O momento é bom.
Inovação
e crescimento econômico
Na crise econômica, não se
pensa em criar grupo de inovação;
até se reduz o que já era
feito. Para o crescimento não ser
o tal “vôo de galinha”,
a inovação é chave.
Só nas tecnologias mais avançadas
é que se tem chance de agregar valores
e diferenciais.
Decisão
sobre P&D na multinacional e as Universidades
O P&D das empresas globais irá
necessariamente para os países com
melhor relação custo-benefício.
Entenda-se “benefício”,
quando se trata de P&D, por tempo, desenvolvimento
e qualidade. A Siemens é um caso:
a gente não tem um P&D centralizado
no país A, B ou C. Para a área
de PABX, o Brasil é um entre cinco
centros mundiais de P&D, com cadeira
no board de decisão mundial.
Para a escolha recair sobre um país,
conta também a estabilidade política,
marcos regulatórios claros, e a qualidade
da pesquisa na Universidade. Nesse ponto,
o Brasil está muito bem. Não
temos hoje problemas para definir projetos
mundiais trabalhando com Universidades e
Centro de Pesquisas.
Modelo
de universidade
Tem que ter uma parcela de pesquisa básica,
financiada a fundo perdido, naquilo que
é muito avançado. Mas a grande
parte tem que ser alinhada com o mercado
– aí o país todo ganha,
os impostos aumentam e você reinveste
na Universidade.
Com quem concorremos
Na disputa por abrigar um centro de P&D,
nós hoje concorremos com China, Índia,
Rússia -- que tem enorme potencial
de crescimento -- , Leste Europeu e Grécia.
Mesmo as fábricas da Siemens na Alemanha
sofrem concorrência do Leste Europeu.
Em junho, o sindicato e a Siemens concordaram
em aumentar a jornada de trabalho, de 35
para 40 horas semanais, em unidades de produção
de telefones. O acordo evitou que dois mil
postos de trabalho fossem transferidos para
a Hungria.
Ferramentas
de Fomento do Sistema C&T
Há um conjunto de ferramentas disponíveis
para financiar inovação –
as Fundações de Amparo à
Pesquisa, a Finep, o CNPq. Mas outra das
conclusões do trabalho é que
falta uma postura ou uma cultura de inovação
nas empresas. Essas ferramentas poderiam
melhorar, ser mais e melhor utilizadas,
se mais empresas as procurassem. Por isso
uma das sugestões do estudo é
trabalhar fortemente uma divulgação
mais ampla da necessidade de inovar.
Inovação
nos setores tradicionais
A causa da baixa taxa de inovação
nos setores tradicionais é congênita.
Eles não são tradicionais
porque fazem pouca inovação;
fazem pouca inovação por serem
tradicionais. Os produtos do setor tradicional
têm um ciclo de vida muito mais lento.
Por exemplo, um transformador não
tem uma inovação tecnológica
a cada ano; mas um celular, sim. Na Siemens,
por exemplo, há áreas que
lançam um produto novo a cada meio
ano; e outras que levam de cinco a dez anos
para fazê-lo. Não dá
para forçar uma pessoa a gastar com
inovação muito mais do que
precisa. Mesmo com todos essas considerações,
os setores tradicionais estão fazendo
menos inovação do que poderiam
fazer.
A
Lei de Informática
Outro tema importante: nas grandes empresas,
globais ou nacionais, se percebe uma taxa
de inovação muito maior em
setores não-tradicionais: eletrônica,
instrumentação, material elétrico,
química. Muitos deles, resultado
de política industrial bem sucedida,
são beneficiados há alguns
anos por Lei de Informática. Uma
política bem feita tem o resultado
de criar sinergias.
Receita
para pequenas empresas
O
trabalho com elas deve deixar de ser pontual,
com a empresa A,B e
C, e trabalhar mais no estrutural, em conjuntos
maiores, onde você trabalha aspectos
estruturais. Por exemplo, a própria
ANPEI, antigamente tinha um trabalho que
chamava MOBITEC, onde você fazia uma
capacitação com uma empresa.
Também é necessário
um trabalho mais extensionista – quer
dizer, desde a parte de marketing,
análise de mercado, depois olhar
para os gargalos internos, distribuição.
Essa seria a tarefa dos vários SEBRAEs.
Cada vez mais, as associações
e órgãos vão deixar
de trabalhar em balcão – por
isso estão aparecendo os grandes
portais. Outro aspecto é a proliferação
de pequenos centros tecnológicos
de apoio. O problema, às vezes, não
é financiamento, mas um auxílio
em tecnologia industrial básica,
em metrologia, design. Temos que
chegar perto das pequenas empresas com Portais,
extensionismo e núcleos de apoio
tecnológico.
Como pensa o pequeno empresário
O modelo das pequenas empresas é:
“quero seguir as grandes”. Elas
tentam seguir, mas para poder competir às
vezes entram na informalidade, e não
saem mais. Enxergar o mercado quer dizer
elas perceberem que existem nichos específicos,
que podem crescer em alguns segmentos que
as grandes não exploram.
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