| Hitendra
Patel
"Não é
o governo que vai decidir se o Brasil será
um grande
jogador. Serão os empresários:
eles farão o governo se mexer"
Entrevista
a Janaína
Simões
O sul-africano
Hitendra Patel, consultor responsável
pela área de crescimento estratégico,
inovação e tecnologia do
Grupo Monitor na Ásia, fez uma
pesquisa sobre inovação
na qual consultou mais de 400 empresas
em nove países: Reino Unido, Estados
Unidos, Brasil, Coréia, Cingapura,
Japão, China, Rússia e Índia.
O Grupo Monitor reúne 20 empresas
que prestam consultorias focadas em determinados
temas. O grupo conta, por exemplo, com
a empresa Innovation Management Inc.,
que assessora companhias na coordenação
das suas estratégias de negócio
e tecnologia para que seus clientes cresçam
e sejam competitivos por meio do investimento
em inovação.
Graduado
em engenharia elétrica, matemática
e física pela Washington University
em Saint Louis (EUA), PhD em ciências
dos materiais pela Iowa State University
of Science and Technology e MBA pela Northwestern
University, Patel já foi engenheiro
sênior da Motorola. Nessa companhia,
seu trabalho enfatizava a pesquisa de
tecnologias emergentes, a transferência
de tecnologia e a comercialização
de produtos.
No estudo
da Monitor, ele estabeleceu uma importante
diferenciação entre as empresas
seguidoras em inovação,
as fast followers, e as líderes.
Em sua palestra na abertura da V Conferência
da Associação Nacional de
Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia
das Empresas Inovadoras (Anpei), em Florianópolis,
no dia 11 de maio, Patel apresentou uma
estratégia para as empresas que
querem se tornar líderes em inovação
serem bem-sucedidas.
Para o consultor,
o Brasil precisa decidir não só
se inovação é importante,
mas se vai ser um país de empresas
fast followers ou se terá também
mais líderes. Nesta entrevista,
concedida a Inovação
Unicamp durante a Conferência
Anpei, Patel explica que seu estudo não
pretende que todas as companhias se tornem
líderes; mas indica que pensar
como líder faz a empresa ser muito
mais eficiente — mesmo se for uma
seguidora.
Qual
o perfil das empresas do estudo?
Entrevistamos CEOs de mais de 400 empresas
de todos os setores industriais, públicas
ou privadas, que integram a lista das 500
maiores companhias da revista Fortune:
20% delas são empresas médias,
em caminho de crescimento muito acelerado
e que devem se tornar líderes. O
faturamento dessas empresas é superior
a US$ 200 milhões. Distribuímos
um questionário com 30 a 40 questões
para cada uma das empresas e entrevistamos
pessoalmente cerca de 20% dos CEOs. Estamos
fazendo um estudo mais amplo sobre China,
Índia e Rússia e queremos
fazer novamente a pesquisa no Brasil este
ano. Os resultados foram publicados em jornais
de grande circulação, apresentados
para agências de governo e empresas
e para as empresas participantes.
Por
que selecionou esses países?
Escolhemos os líderes em inovação,
no caso Estados Unidos, Japão e Reino
Unido. Os outros países — Brasil,
Coréia, Cingapura, China, Rússia
e Índia — são de economia
emergente e têm empresas reconhecidas
como fast followers (seguidoras rápidas).
Além disso, o grupo Monitor, do qual
sou consultor, está presente nesses
países. Fast followers são
empresas que copiam tecnologia ou atuação
de mercado, de negócios, de uma empresa
líder, mais do que desenvolvem tecnologia
própria. Elas produzem produtos que
concorrem com a líder nos mercados
e chegam rapidamente ao mesmo estágio
de desenvolvimento.
A
China é um país reconhecido
no mercado global por ter um grande número
de empresas que praticam a pirataria. No
estudo, vocês consideram as empresas
chinesas como fast followers?
Vamos separar pirataria de fast followers.
Pirataria é copiar propriedade intelectual,
protegida por lei. É infringir uma
lei. As fast followers copiam algo
que não tem proteção.
É uma escolha que a companhia faz
quando não quer assumir o risco de
desenvolver uma tecnologia. No Brasil, há
exemplos em roupas, alimentação,
bicicletas, em que não há
lei proibindo a cópia. Na China,
há pirataria; mas há também
uma tremenda presença de empresas
fast followers. Mesmo nos Estados
Unidos, cerca de 70% das empresas são
fast followers. É o comum
em inovação, a maioria copia
um líder depois de algum tempo. Todas
as companhias escolhem estratégias.
Algumas querem ser fast followers,
outras escolhem ser líderes em inovação.
Por exemplo, Motorola e Nokia são
líderes; Samsung é uma fast
follower. Honda e Toyota são
líderes; Hyundai é uma fast
follower. McDonald's é um líder,
Burger King é fast follower.
Qual
o objetivo do estudo?
Ajudar os governos a desenhar políticas
de apoio à inovação
em empresas e informar os CEOs sobre como
eles podem fazer suas empresas serem mais
inovadoras. A idéia central do estudo
é levantar exemplos na América
Latina e na Europa de companhias que estão
se tornando líderes. Há diferenças
em cultura, em estilo de gestão,
em políticas, realidades de negócio.
Não podemos chegar nesses países
e dizer: sejam mais parecidos com a Nokia,
por exemplo. Não podemos dizer para
a Braskem ser como a DuPont. Temos de encontrar
essas empresas líderes nesses mercados
que sirvam como exemplos locais. O segundo
objetivo é encontrar as práticas
comuns das companhias que são fast
followers nos diversos países
emergentes que possam servir como recomendação
para alavancar a inovação
nesses países.
Quais
pontos em comum foram encontrados?
Não encontramos práticas comuns,
mas sim problemas comuns. Um deles é
a existência de um portfólio
de projetos focado em inovação
incremental, de baixo risco e de curto prazo.
Outro ponto: mais de 90% dos CEOs que entrevistamos
querem que a empresa se torne mais inovadora,
mas uma das principais barreiras que encontram
é a cultura. Nessa área, um
dos principais problemas é o management
top down, uma cultura autoritária,
de cima para baixo, e empregados com medo
de assumir riscos, com receio de perder
o emprego. Na Ásia, todos vão
para o Exército por um ou dois anos
e desenvolvem uma postura muito disciplinada,
acostumada a receber ordens sem questionamento.
Além disso, a maioria dos CEOs, apesar
de entender que a inovação
é necessária, não ligava
a inovação com crescimento.
A maioria liga a inovação
com redução de custos, melhoria
de qualidade, 'incrementalismo', e não
crescimento. Isso faz sentido porque muitas
vezes as indústrias nas quais esses
CEOs atuam fabricam commodities.
Os
governos de países desenvolvidos
aportam muitos recursos nas empresas para
suportar a inovação. Baseado
no seu estudo, o senhor concorda com isso?
Qual a participação do governo
na inovação?
É uma questão complicada.
O governo deveria estimular a inovação
nas empresas. A maneira de fazer isso é
dar uma clara direção, com
a formação de clusters
de inovação, para os quais
as empresas devem ser focadas. Uma vez priorizados
e selecionados os clusters, há
atividades de governo que são necessárias.
Ele pode convidar as principais e melhores
multinacionais para atuar nesses clusters;
dar direções e incentivos
para as universidades começarem a
adaptar e criar cursos que dão suporte
para aquele cluster; pode atuar junto
à comunidade financeira, principalmente
ao venture capital, e fomentar o
investimento desses setores nos clusters;
pode ajudar os empreendedores e as pequenas
empresas a se estabelecer, simplificando
o sistema tributário, cobrando taxas
menores, não dificultando o fechamento
das empresas; pode organizar agências
que ajudem as empresas na prática
da gestão da inovação.
Hoje
no Brasil, em termos de políticas
públicas para a inovação,
o governo está voltado basicamente
para a criação de mecanismos
de subvenção e incentivo fiscal.
Como o senhor vê essas ações?
Subsídios e renúncias fiscais
são possíveis, mas há
um conjunto de ações mais
relevantes, como as que citei anteriormente.
Subsídio, muitas vezes, é
visto como dinheiro fácil. Outro
problema desse tipo de ação
é ser difícil de controlar
(a aplicação do dinheiro).
Nos Estados Unidos, por exemplo, o programa
para colocar o homem na Lua recebeu muito
subsídio. Esse objetivo — colocar
o homem na Lua — gerou vários
produtos, como o microondas, celulares,
a nanotecnologia, etc. O governo pode fazer
subsídio nesse sentido. O Brasil
pode, por exemplo, decidir ser um líder
em biodiesel para carros. O governo pode
escolher áreas estratégicas,
colocar um objetivo de longo prazo, ambicioso,
pode ajudar a organizar as empresas para
atingir essa meta. O conhecimento disponível
no presente não é suficiente
para levar o país a atingir esse
objetivo de longo prazo; por isso, é
imprescindível investir muito mais
em pesquisa e desenvolvimento ao longo do
tempo.
E
como uma empresa pode deixar de ser uma
fast follower para se tornar uma líder?
Primeiro, é preciso ter muito claro
que quem vai decidir ser uma fast follower
é o CEO, é a empresa e sua
estratégia de negócios. Tomada
a decisão, a empresa precisa montar
uma estratégia para determinar onde
ela vai ser líder e focar os esforços
para atingir essa liderança. É
preciso organizar os parceiros, fornecedores,
pessoas em torno desse objetivo. O problema
todo é que a solução
não é muito clara, há
muita incerteza. É preciso mudar
o pensamento em relação ao
risco; em vez de pensar numa solução
certa, é preciso conviver e celebrar
o risco.
Como
assim?
É necessário mudar o modelo
mental: as líderes administram as
incertezas, as fast followers evitam
o risco. Os líderes fazem um portfólio
que é uma combinação
entre projetos de curto, médio e
longo prazos, entre alto, médio e
baixo riscos e retornos. O líder
tem de sair da visão de um caminho
único e partir para a idéia
de portfólio de iniciativas de inovação
com gerenciamento de risco. A principal
diferença é que o líder
não sabe se vai funcionar, ele faz
apostas. Pode manter alguns desenvolvimentos
mais seguros, incrementais, que vão
garantir a sobrevivência da empresa,
mas algumas das apostas em inovações
mais radicais, de ruptura, podem criar um
mercado novo e gerar muito mais valor para
a empresa. Outra coisa fundamental a se
mudar no modelo mental é que as empresas
muitas vezes têm milhares de empregados
e colaboradores que têm boas idéias.
A função do CEO é promover
um ambiente adequado para que seus funcionários
possam fazer isso. Na Coréia, o CEO
marca uma reunião e diz que quer
o celular mais bonito, mais barato, com
tais performances, o melhor do mundo. Aí,
ele sai da sala. Ele sabe o que quer, mas
não diz como fazer. Se ele falasse
como fazer, seria uma resposta para uma
pergunta. Se ele deixa o time pensar e achar
a resposta, ele pode ter mais do que cinco
diferentes soluções e provavelmente
coisas muito melhores. Esta é a cultura
das empresas líderes: otimista, positiva,
encorajadora, de apoio, não de punição.
A partir do momento em que a idéia
vira projeto, ele precisa ser acompanhado
com todos os cuidados no que se relaciona
a custos, tempo, objetivo, etc.
O
que mais seria necessário para uma
empresa se tornar líder?
Você precisa de uma diretoria de inovação.
Alguém deve ser responsável
pela inovação; é importante
que essa pessoa responda diretamente ao
presidente da empresa. Se vendas é
importante, a empresa nomeia um diretor
de vendas; se marketing é
importante, há um diretor de marketing...
Se inovação é importante,
por que não ter um diretor de inovação?
A responsabilidade por inovação
é do CEO, mas ele não tem
tempo para administrar esse processo dentro
da empresa. Ele tem de delegar para alguém
capacitado. Ao mesmo tempo, inovação
é um assunto de vários grupos
dentro da empresa. Só para fazer
um paralelo: qualidade existe em vendas,
em produção, em logística,
em marketing, recursos humanos. Inovação
é a mesma coisa, também é
uma função horizontal na empresa.
Se você delegar a função
de inovação exclusivamente
para pesquisa e desenvolvimento e para marketing,
você corre o risco de ter sua inovação
presa, de não acontecer a captura
de valor em todo o potencial possível.
Vale ressaltar que se a definição
ou missão da inovação
do CEO for algo muito simples, muito ligada
ao incremental, ela não vai ser algo
estratégico, então não
estará no alto da organização.
O
que motiva uma empresa a querer ser líder
em inovação?
Ou é porque a competição
existe ou porque o cliente/consumidor não
está satisfeito com o que você
está oferecendo. A empresa pode,
ainda, ter decidido entrar no mercado global.
Os acionistas querem uma empresa mais lucrativa.
Nos Estados Unidos, na Ásia e na
Europa muitos dos CEOs querem ser líderes
das principais companhias do mundo, ou seja,
muitas vezes é uma questão
de ego. No Brasil, algumas empresas estão
seguindo esse caminho, como a Companhia
Vale do Rio Doce (CVRD), a Embraco. Muitas
empresas no Brasil estão felizes
em ser a número um apenas no mercado
interno, mas poderiam ter uma ambição
muito maior.
Mas
todas as empresas fast followers devem se
tornar líderes?
Não é isso, claro, mas pensando
em se tornar líderes, tendo essa
cultura, as empresas podem melhorar sua
eficiência em ser uma fast follower,
podem conseguir fazer isso melhor.
E
a posição das empresas do
Brasil em relação às
dos demais países?
Muitas das empresas do Brasil não
têm a ambição de se
tornar empresa global. Quando você
decide tomar esse caminho, significa que
terá clientes globais e competidores
globais. Essas duas demandas vão
transformar sua empresa numa companhia melhor.
As empresas na Coréia, Cingapura,
China e Índia estão começando
a se adaptar para criar uma estrutura de
inovação porque reconhecem
que é algo que elas precisam necessariamente
ter, do contrário, morrem. O Brasil
está na mesma encruzilhada. A questão
é: o Brasil e as empresas brasileiras
vão escolher entre continuar fazendo
o que fazem hoje, não mudar muito,
e provavelmente não ter sucesso,
ou vão procurar criar essa capacidade
de liderança em inovação
e sentar com as empresas desses países,
entre as líderes mundiais? O Brasil
tem grandes empresas como Embraco, Petrobras,
Natura, Tigre, Braskem. Essas companhias
podem servir de modelo para outras empresas
sobre como ser líderes. Podem dividir
seus modelos e práticas para inspirar
outras companhias e o governo brasileiro
nesse caminho de liderança em inovação.
Mas, enfatizando novamente, quem tem de
decidir se a empresa vai inovar são
os presidentes das companhias, é
responsabilidade deles levar a empresa para
esse caminho.
O
Brasil ainda enfrenta dificuldades como
elevadas taxas de juros e flutuação
do dólar. Esses fatores são
apresentados pelos empresários como
empecilhos para as empresas inovarem. O
senhor considera esses fatores como impeditivos,
de fato?
Se você olhar China, Índia,
Cingapura verá que todos têm
problemas, desafios. A Índia tem
sérios gargalos em infra-estrutura.
A China precisa enfrentar a questão
da pirataria. Cingapura não tem um
marketing forte. A Coréia
enfrenta problemas financeiros e atravessa
crises. Todos têm problemas. É
obrigação achar soluções;
se não forem encontradas, as empresas
ficarão estagnadas. Se as empresas
não inovarem, ficarão cada
vez mais dedicadas a atividades de baixa
geração de valor. É
uma questão de querer fazer e realmente
fazer. Quando uma empresa dos Estados Unidos
pensa em investir, o Brasil não está
em sua lista. Os custos de se fazer software
no Brasil são os mesmos que os da
Índia. Há dois anos, o número
de programadores de computador existentes
aqui e na Índia era semelhante. O
Brasil tem condições de jogar
esse jogo e precisa tomar a decisão
agora. A China e a Índia provaram
ao mundo que podem ser importantes jogadores,
o Brasil precisa agir também. E não
é o governo que tomará a decisão,
os empresários são os agentes
que farão o governo se mexer.
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