| Fala
Heloisa Burnquist, da Esalq
Pesquisadora
da Esalq alerta: necessidade imediata
ditada por
crescimento rápido não
pode tirar atenção da
pesquisa básica
Na
mesa, o laptop, o computador de
mesa, alguns papéis e uma
pasta enorme com todas as palestras
da última conferência
internacional da Datagro
— a mais reconhecida consultoria
relacionada ao setor sucroalcooleiro
brasileiro. "Eu a separei para
reler o material porque vou dar
aula no fim de semana e há
dados que podem ser úteis
para os alunos", justifica
a atarefada Heloisa Burnquist, engenheira
agrônoma formada pela Escola
Superior de Agricultura Luiz de
Queiroz, a Esalq-USP, que fica em
Piracicaba, região produtora
de cana, açúcar e
etanol do Brasil, distante 170 quilômetros
da capital paulista.
Heloisa
se desdobra entre as várias
atividades de pesquisadora e docente
do Departamento de Economia, Administração
e Sociologia (DEAS) da Esalq. Atualmente
está trabalhando em um projeto
do Centro de Estudos Avançados
em Economia Aplicada (Cepea), que
integra o DEAS, sobre barreiras
técnicas e sanitárias
para o agronegócio. O primeiro
resultado são os boletins
semanais que elabora mostrando as
notificações feitas
pela Organização Mundial
do Comércio (OMC) nos dois
temas. Agora, Heloisa busca ampliar
o projeto, para conscientizar a
iniciativa privada da importância
do assunto. "Não quero
que tudo o que produzimos até
agora fique na prateleira",
diz.
Outro
trabalho no qual Heloisa se envolveu
no Cepea foi o desenvolvimento de
uma metodologia para acompanhar
a evolução dos preços
de açúcar, álcool
e outros produtos da agropecuária.
Os indicadores que resultaram dessa
metodologia são divulgados
semanalmente e acabaram servindo
de referência para o mercado.
A pesquisadora, mestre pela Esalq
e doutora pela Universidade de Cornell
(EUA) em mercado e macroeconomia
agrícola, publicou 49 artigos
científicos e dois livros,
no período de 1993 a 2005
— a maioria em torno do mercado
de açúcar e álcool.
Sorridente,
muito simpática, fala mansa
e pausada, Heloisa concedeu esta
entrevista à repórter
Janaína
Simões, no dia
23 de novembro, em sua sala no majestoso
prédio do Departamento de
Engenharia da Esalq, de frente para
o belo lago do campus. Na conversa,
ela destacou a importância
da continuidade dos investimentos
em pesquisa básica para o
Brasil manter a competitividade
em etanol e o papel importante das
universidades e institutos de pesquisa
no processo. Para ela, o momento
é de rápido crescimento
— que a pesquisa e o desenvolvimento
precisam acompanhar, sem abandonar
os projetos que darão sustentabilidade
futura à produção
nacional.
Em artigo
para a revista Choice,
da American Agricultural Economics
Association, a senhora e outros dois
pesquisadores da Esalq apontaram as
lições que o Brasil
pode dar ao mundo no que se relaciona
ao etanol. Quais são essas
lições em pesquisa e
desenvolvimento?
O Brasil tem competitividade em etanol
hoje porque desde a década
de 1970 o setor privado e o governo
investem em desenvolvimento tecnológico.
O melhoramento genético da
cana-de-açúcar geralmente
é o mais lembrado, mas é
apenas um aspecto. Nesse caso, estamos
falando em lavoura, no qual o desenvolvimento
de variedades mais produtivas é
o mais importante, mas há outros
avanços a se destacar, como
os obtidos em controle biológico
de pragas. São fatores como
esses que contribuíram para
o Brasil ter um aumento médio
de produtividade de 2% ao ano ao longo
dos últimos dez anos. Na indústria,
o crescimento da produtividade foi
um pouco menor, em torno de 1,2%,
mas também nesse setor tivemos
melhorias significativas, principalmente
no que se refere à eficiência
industrial, ao processamento.
O empresário
brasileiro do setor sucroalcooleiro
investe em pesquisa, desenvolvimento
e inovação?
Esse é um dos fatores mais
interessantes. O setor sucroalcooleiro
é um segmento no qual o Brasil
tem investimentos da iniciativa privada
em pesquisa e desenvolvimento, ao
contrário do que ocorre na
maioria dos setores industriais da
economia brasileira. A Embrapa tem
centros de pesquisa espalhados pelo
território, cada um deles focando
a principal cultura dos Estados onde
estão instalados. Mas a instituição
não entrou em etanol porque
não precisou. O governo paulista
incentivou as pesquisas em cana-de-açúcar
no Instituto Agronômico de Campinas
(IAC), tivemos financiamento federal
por conta da implementação
do Programa Nacional de Melhoramento
da Cana-de-Açúcar (Planalsucar),
encerrado na década de 1990.
Além disso, tivemos a importante
ação da iniciativa privada,
que entrou em pesquisa e desenvolvimento
com a criação do Centro
de Tecnologia Copersucar, hoje Centro
de Tecnologia Canavieira (CTC). Essa
estrutura era eficiente e foi fundamental
para chegarmos à competitividade
atual.
Qual
o desafio a ser enfrentado hoje para
o Brasil manter a competitividade?
O setor não tem tanto recurso
para investir em pesquisa e desenvolvimento,
apesar de haver condições
para que se invista mais. No Brasil,
em geral, e também no setor
sucroalcooleiro, notamos uma grande
diferença entre as unidades
produtoras. Há empresas muito
avançadas e outras muito atrasadas.
Em São Paulo, temos uma situação
mais homogênea, por conta da
proximidade das empresas com o CTC
e também das empresas menores,
que estão inovando e produzindo
tecnologia para o setor. O grande
problema é que os empresários
não têm recursos suficientes
para investir em pesquisa básica.
O setor está passando por uma
fase de grande dinamismo, então
se volta ao atendimento de demandas
de curto prazo, busca soluções
para problemas que precisam ser resolvidos
até a próxima safra.
Há um certo desvio, os envolvidos
com o setor estão olhando para
esse prazo de tempo, e há pesquisadores
voltados para essas tarefas —
se não fosse assim, provavelmente
estariam fazendo pesquisa básica.
Então, as universidades, os
institutos de pesquisa, as fundações
e agências de fomento têm
uma importância maior nesse
momento em que as pessoas mais diretamente
inseridas no setor estão voltadas
para atender a esse crescimento bastante
rápido. Naturalmente, a atenção
fica deslocada para essas necessidades
mais imediatas e deixamos de fazer
a pesquisa básica na intensidade
necessária para mantermos nossa
competitividade. Mas não podemos
perder isso, principalmente na área
de desenvolvimento de variedades,
na qual levamos dez anos para obter
resultados. Precisamos sempre estar
desenvolvendo e adequando tecnologia
para atender aos desafios e abraçar
as novas oportunidades, aumentando
nossa produtividade e, conseqüentemente,
nossa competitividade.
Qual
demanda atual em P&D para etanol
a senhora destacaria?
Agora estamos levando a cultura da
cana-de-açúcar para
novas áreas. Também
temos uma tendência à
maior mecanização, o
que vai exigir características
diferentes da cana. Em São
Paulo, ainda temos potencial de expansão
de área de cultivo em terrenos
de pastagem. Temos um aumento da mecanização
porque as áreas que exploramos
não precisam de muita mão-de-obra
para plantio e colheita [As áreas
de pastagens às quais a entrevistada
se refere são terrenos mais
planos e que permitem maior mecanização.
Nota do E.]. Nessas outras áreas
para as quais estamos levando a cana,
onde as condições climáticas
e de relevo não são
tão boas como nas regiões
onde já temos a cultura, será
necessário desenvolver um sistema
eficiente de irrigação.
Não podemos deixar de ter um
pacote tecnológico adequado
e atualizado para as novas condições
de produção que vão
surgindo, para não perdermos
a competitividade. Os Estados Unidos
nos passaram em produção,
mas isso só ocorreu por causa
dos subsídios. Eles não
têm competitividade [Os
EUA produzem álcool a partir
do milho, que tem menor eficiência
energética e custos de produção
muito mais elevados do que o etanol
produzido a partir da cana-de-açúcar.
Nota do E.]. Contudo, pode demorar
um pouco, mas não é
impossível deixarmos de ser
o país mais competitivo se
não tomarmos cuidado.
Os EUA
estão buscando essa competitividade
por meio do desenvolvimento tecnológico
e estão investindo muito dinheiro
nisso. O Brasil ficará para
trás?
Não. O uso de tecnologia de
hidrólise para aproveitamento
do material lignocelulósico
é uma grande área de
pesquisa. Os EUA estão investindo
nisso, mas uma vez que eles dominarem
essa tecnologia, o Brasil poderá
usá-la também, e de
forma mais eficiente do que eles.
É importante que o Brasil continue
a fazer desenvolvimento tecnológico
nessa área, até para
aproveitar a tecnologia desenvolvida
nos EUA e em outros países.
Nos EUA, a hidrólise é
uma tecnologia importante para baratear
os custos de produção
do álcool, uma vantagem que
já temos no Brasil.
Há
outros nichos estratégicos
para uso do etanol, como as aplicações
para produção de hidrogênio
e no setor químico, que podemos
aproveitar e nos mantermos à
frente, não?
No caso dessa tecnologia que você
citou, o reformador de etanol, se
tivermos isso desenvolvido, usaremos
etanol para produzir um 'biohidrogênio'.
O álcool é, hoje, o
biocombustível mais importante,
mas se pensarmos em um horizonte de
20 anos, pode ser que tenhamos tecnologias
mais baratas e interessantes para
os países desenvolvidos em
energia. Essa tecnologia das células
a combustível é a principal
candidata a dominar uma futura 'era
do hidrogênio', se pensarmos
em uma escala de tempo com base em
tecnologias dominantes. É importante
o Brasil poder aproveitar a vantagem
que já tem em etanol e produzir
'biohidrogênio', partindo já
de uma boa posição de
competitividade, oferecendo soluções
mais econômicas. Temos uma posição
privilegiada, sim, mas não
podemos ficar parados. Precisamos
acompanhar o desenvolvimento tecnológico,
tentar adequar o máximo possível
esse desenvolvimento que ocorre no
mundo aos nossos recursos. Precisamos
ver nossos potenciais para aproveitar
essas novas tecnologias. Sobre as
aplicações no setor
químico, o mercado é
menor, temos a exportação
do chamado álcool neutro, voltado
para uso no setor farmacêutico.
Isso era até mais comum do
que a exportação do
álcool combustível há
um tempo atrás. Mas não
saberia dizer como estamos nesse nicho
em termos de desenvolvimento tecnológico.
A preocupação
da indústria brasileira de
etanol é transformar o produto
em commodity e aumentar a produção
interna, principalmente por meio da
expansão da área plantada.
Não teremos conflitos entre
áreas já usadas para
outras atividades e essa necessidade
de expansão?
No caso de São Paulo e do Triângulo
Mineiro, a cana não está
deslocando culturas. Talvez em São
Paulo se observe um pouco isso em
relação à laranja,
mas aqui já existia um predomínio
da cana, que se expandiu para áreas
de pastagens, portanto já degradadas.
São Paulo é uma das
regiões com maior potencial
de aumento de produção
e menos problemas para fazê-lo.
No Mato Grosso do Sul, temos questões
ambientais. Em Goiás, há
o problema da logística, que
aumenta o custo para escoar a produção.
São Paulo é um lugar
adequado em termos de clima e tem
uma logística bem implantada.
Gostaria de destacar ainda que a cana
não leva só a lavoura,
ela leva a indústria. Piracicaba
é um exemplo interessante,
com suas indústrias de máquinas
agrícolas e de equipamentos
para as usinas. Há uma abrangência
bastante significativa de setores
beneficiados pela evolução
da produção de cana,
açúcar e álcool.
Um dos
trabalhos do qual a senhora participa
no Cepea é o dos indicadores
de preços do açúcar
e do álcool [o centro faz levantamento
dos preços em São Paulo,
Alagoas, Pernambuco e Mato Grosso].
Poderia comentar a discussão
que se faz hoje no setor sobre o preço
do etanol estar atrelado ao preço
da gasolina?
Fizemos algumas pesquisas que mostram
que o álcool tem um preço
muito mais correlacionado ao da gasolina
do que ao do açúcar,
embora álcool e açúcar
sejam feitos da mesma matéria-prima.
Esses estudos indicam ainda que a
correlação entre álcool
e gasolina tende a aumentar.
Mas países
como o Japão não investem
mais em tecnologias como os carros
flex porque não confiam nos
produtores brasileiros. Receiam que
pode haver desabastecimento no mercado
quando o açúcar estiver
remunerando melhor o produtor do que
o álcool, porque os produtores
passariam a fabricar açúcar
e deixariam o mercado de etanol 'descoberto'.
Isso é um pouco resquício
do trauma da década de 1980.
Primeiro, é preciso deixar
claro que é muito difícil
o álcool pagar mais do que
o açúcar. Basta olhar
os indicadores semanais de preços
de açúcar e álcool
que divulgamos em nosso site
e iniciou a série no ano 2000.
Eventualmente, por períodos
muito curtos, dias ou semanas, no
máximo, vimos o álcool
remunerar mais do que o açúcar.
Foram exceções. O açúcar
tem mais valor agregado e sistematicamente
remunera melhor do que o álcool.
Contudo, o produtor de açúcar
e álcool tem plena consciência
de que não conseguirá
produzir açúcar e ter
a competitividade que tem se não
produzir também o etanol. Há
também o mito da flexibilidade
na produção, que afirma
ser possível mudar a produção
do açúcar para o álcool
de maneira quase imediata. Se o produtor
estabeleceu no começo da safra
que 51% do que produzir vai para açúcar
e 49% para álcool, não
adianta tentar mudar isso no meio
da safra, não é tão
simples como muitos acreditam. Esta
safra é um exemplo: ela começou
com um caráter mais açucareiro,
porque o preço do açúcar
no mercado internacional estava bom.
Eles não conseguem reverter
agora, apesar da atual demanda por
álcool. Já tivemos um
problema de desabastecimento antes,
ligado a uma outra conjuntura, de
preços mais baixos do petróleo
e envolvendo questões políticas,
um período bastante traumático.
Se houver um segundo, talvez seja
fatal.
Por que
é importante produzir os dois,
açúcar e álcool?
Porque quanto mais você diversifica
seu portfolio de produção,
mais competitivo se torna. Você
pode administrar esse portfolio,
ter alternativas frente ao mercado.
Uma outra
linha de trabalho da qual a senhora
participa no Cepea trata das barreiras
técnicas e das análises
semanais das notificações
feitas pela Organização
Mundial do Comércio (OMC) nesse
assunto. Temos questões críticas
em etanol no que se relaciona a esse
aspecto?
Não há uma referência
internacional de qualidade para o
álcool brasileiro. Os Estados
Unidos têm um padrão
de álcool da ANSI [sigla em
inglês para Instituto Nacional
de Normas dos EUA]. Quando preciso,
ele é adotado pelo Brasil.
Isso é lamentável, porque
produzimos etanol há tantos
anos, somos os líderes no assunto,
e não temos esse padrão.
Aqui temos o padrão da ANP
[Agência Nacional do Petróleo],
mas não é reconhecido
internacionalmente. Internamente,
precisamos melhorar a calibração
dos equipamentos dos laboratórios
que podem fazer essa análise,
para padronizar os resultados. Esse
trabalho do Cepea busca estimular
o desenvolvimento nessa área
não só para o álcool,
mas para o açúcar e
para vários outros setores,
da agropecuária e industrial.
E aí trabalhamos questões
técnicas e sociais, como obtenção
dos selos que certificam que não
se utiliza mão-de-obra infantil,
por exemplo, uma exigência da
União Européia.
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