.ENTREVISTA

..Publicada em 27 de novembro 2006

Fala Heloisa Burnquist, da Esalq
Pesquisadora da Esalq alerta: necessidade imediata ditada por
crescimento rápido não pode tirar atenção da pesquisa básica

Na mesa, o laptop, o computador de mesa, alguns papéis e uma pasta enorme com todas as palestras da última conferência internacional da Datagro — a mais reconhecida consultoria relacionada ao setor sucroalcooleiro brasileiro. "Eu a separei para reler o material porque vou dar aula no fim de semana e há dados que podem ser úteis para os alunos", justifica a atarefada Heloisa Burnquist, engenheira agrônoma formada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a Esalq-USP, que fica em Piracicaba, região produtora de cana, açúcar e etanol do Brasil, distante 170 quilômetros da capital paulista.

Heloisa se desdobra entre as várias atividades de pesquisadora e docente do Departamento de Economia, Administração e Sociologia (DEAS) da Esalq. Atualmente está trabalhando em um projeto do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), que integra o DEAS, sobre barreiras técnicas e sanitárias para o agronegócio. O primeiro resultado são os boletins semanais que elabora mostrando as notificações feitas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) nos dois temas. Agora, Heloisa busca ampliar o projeto, para conscientizar a iniciativa privada da importância do assunto. "Não quero que tudo o que produzimos até agora fique na prateleira", diz.

Outro trabalho no qual Heloisa se envolveu no Cepea foi o desenvolvimento de uma metodologia para acompanhar a evolução dos preços de açúcar, álcool e outros produtos da agropecuária. Os indicadores que resultaram dessa metodologia são divulgados semanalmente e acabaram servindo de referência para o mercado. A pesquisadora, mestre pela Esalq e doutora pela Universidade de Cornell (EUA) em mercado e macroeconomia agrícola, publicou 49 artigos científicos e dois livros, no período de 1993 a 2005 — a maioria em torno do mercado de açúcar e álcool.

Sorridente, muito simpática, fala mansa e pausada, Heloisa concedeu esta entrevista à repórter Janaína Simões, no dia 23 de novembro, em sua sala no majestoso prédio do Departamento de Engenharia da Esalq, de frente para o belo lago do campus. Na conversa, ela destacou a importância da continuidade dos investimentos em pesquisa básica para o Brasil manter a competitividade em etanol e o papel importante das universidades e institutos de pesquisa no processo. Para ela, o momento é de rápido crescimento — que a pesquisa e o desenvolvimento precisam acompanhar, sem abandonar os projetos que darão sustentabilidade futura à produção nacional.

Em artigo para a revista Choice, da American Agricultural Economics Association, a senhora e outros dois pesquisadores da Esalq apontaram as lições que o Brasil pode dar ao mundo no que se relaciona ao etanol. Quais são essas lições em pesquisa e desenvolvimento?
O Brasil tem competitividade em etanol hoje porque desde a década de 1970 o setor privado e o governo investem em desenvolvimento tecnológico. O melhoramento genético da cana-de-açúcar geralmente é o mais lembrado, mas é apenas um aspecto. Nesse caso, estamos falando em lavoura, no qual o desenvolvimento de variedades mais produtivas é o mais importante, mas há outros avanços a se destacar, como os obtidos em controle biológico de pragas. São fatores como esses que contribuíram para o Brasil ter um aumento médio de produtividade de 2% ao ano ao longo dos últimos dez anos. Na indústria, o crescimento da produtividade foi um pouco menor, em torno de 1,2%, mas também nesse setor tivemos melhorias significativas, principalmente no que se refere à eficiência industrial, ao processamento.

O empresário brasileiro do setor sucroalcooleiro investe em pesquisa, desenvolvimento e inovação?
Esse é um dos fatores mais interessantes. O setor sucroalcooleiro é um segmento no qual o Brasil tem investimentos da iniciativa privada em pesquisa e desenvolvimento, ao contrário do que ocorre na maioria dos setores industriais da economia brasileira. A Embrapa tem centros de pesquisa espalhados pelo território, cada um deles focando a principal cultura dos Estados onde estão instalados. Mas a instituição não entrou em etanol porque não precisou. O governo paulista incentivou as pesquisas em cana-de-açúcar no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), tivemos financiamento federal por conta da implementação do Programa Nacional de Melhoramento da Cana-de-Açúcar (Planalsucar), encerrado na década de 1990. Além disso, tivemos a importante ação da iniciativa privada, que entrou em pesquisa e desenvolvimento com a criação do Centro de Tecnologia Copersucar, hoje Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). Essa estrutura era eficiente e foi fundamental para chegarmos à competitividade atual.

Qual o desafio a ser enfrentado hoje para o Brasil manter a competitividade?
O setor não tem tanto recurso para investir em pesquisa e desenvolvimento, apesar de haver condições para que se invista mais. No Brasil, em geral, e também no setor sucroalcooleiro, notamos uma grande diferença entre as unidades produtoras. Há empresas muito avançadas e outras muito atrasadas. Em São Paulo, temos uma situação mais homogênea, por conta da proximidade das empresas com o CTC e também das empresas menores, que estão inovando e produzindo tecnologia para o setor. O grande problema é que os empresários não têm recursos suficientes para investir em pesquisa básica. O setor está passando por uma fase de grande dinamismo, então se volta ao atendimento de demandas de curto prazo, busca soluções para problemas que precisam ser resolvidos até a próxima safra. Há um certo desvio, os envolvidos com o setor estão olhando para esse prazo de tempo, e há pesquisadores voltados para essas tarefas — se não fosse assim, provavelmente estariam fazendo pesquisa básica. Então, as universidades, os institutos de pesquisa, as fundações e agências de fomento têm uma importância maior nesse momento em que as pessoas mais diretamente inseridas no setor estão voltadas para atender a esse crescimento bastante rápido. Naturalmente, a atenção fica deslocada para essas necessidades mais imediatas e deixamos de fazer a pesquisa básica na intensidade necessária para mantermos nossa competitividade. Mas não podemos perder isso, principalmente na área de desenvolvimento de variedades, na qual levamos dez anos para obter resultados. Precisamos sempre estar desenvolvendo e adequando tecnologia para atender aos desafios e abraçar as novas oportunidades, aumentando nossa produtividade e, conseqüentemente, nossa competitividade.

Qual demanda atual em P&D para etanol a senhora destacaria?
Agora estamos levando a cultura da cana-de-açúcar para novas áreas. Também temos uma tendência à maior mecanização, o que vai exigir características diferentes da cana. Em São Paulo, ainda temos potencial de expansão de área de cultivo em terrenos de pastagem. Temos um aumento da mecanização porque as áreas que exploramos não precisam de muita mão-de-obra para plantio e colheita [As áreas de pastagens às quais a entrevistada se refere são terrenos mais planos e que permitem maior mecanização. Nota do E.]. Nessas outras áreas para as quais estamos levando a cana, onde as condições climáticas e de relevo não são tão boas como nas regiões onde já temos a cultura, será necessário desenvolver um sistema eficiente de irrigação. Não podemos deixar de ter um pacote tecnológico adequado e atualizado para as novas condições de produção que vão surgindo, para não perdermos a competitividade. Os Estados Unidos nos passaram em produção, mas isso só ocorreu por causa dos subsídios. Eles não têm competitividade [Os EUA produzem álcool a partir do milho, que tem menor eficiência energética e custos de produção muito mais elevados do que o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar. Nota do E.]. Contudo, pode demorar um pouco, mas não é impossível deixarmos de ser o país mais competitivo se não tomarmos cuidado.

Os EUA estão buscando essa competitividade por meio do desenvolvimento tecnológico e estão investindo muito dinheiro nisso. O Brasil ficará para trás?
Não. O uso de tecnologia de hidrólise para aproveitamento do material lignocelulósico é uma grande área de pesquisa. Os EUA estão investindo nisso, mas uma vez que eles dominarem essa tecnologia, o Brasil poderá usá-la também, e de forma mais eficiente do que eles. É importante que o Brasil continue a fazer desenvolvimento tecnológico nessa área, até para aproveitar a tecnologia desenvolvida nos EUA e em outros países. Nos EUA, a hidrólise é uma tecnologia importante para baratear os custos de produção do álcool, uma vantagem que já temos no Brasil.

Há outros nichos estratégicos para uso do etanol, como as aplicações para produção de hidrogênio e no setor químico, que podemos aproveitar e nos mantermos à frente, não?
No caso dessa tecnologia que você citou, o reformador de etanol, se tivermos isso desenvolvido, usaremos etanol para produzir um 'biohidrogênio'. O álcool é, hoje, o biocombustível mais importante, mas se pensarmos em um horizonte de 20 anos, pode ser que tenhamos tecnologias mais baratas e interessantes para os países desenvolvidos em energia. Essa tecnologia das células a combustível é a principal candidata a dominar uma futura 'era do hidrogênio', se pensarmos em uma escala de tempo com base em tecnologias dominantes. É importante o Brasil poder aproveitar a vantagem que já tem em etanol e produzir 'biohidrogênio', partindo já de uma boa posição de competitividade, oferecendo soluções mais econômicas. Temos uma posição privilegiada, sim, mas não podemos ficar parados. Precisamos acompanhar o desenvolvimento tecnológico, tentar adequar o máximo possível esse desenvolvimento que ocorre no mundo aos nossos recursos. Precisamos ver nossos potenciais para aproveitar essas novas tecnologias. Sobre as aplicações no setor químico, o mercado é menor, temos a exportação do chamado álcool neutro, voltado para uso no setor farmacêutico. Isso era até mais comum do que a exportação do álcool combustível há um tempo atrás. Mas não saberia dizer como estamos nesse nicho em termos de desenvolvimento tecnológico.

A preocupação da indústria brasileira de etanol é transformar o produto em commodity e aumentar a produção interna, principalmente por meio da expansão da área plantada. Não teremos conflitos entre áreas já usadas para outras atividades e essa necessidade de expansão?
No caso de São Paulo e do Triângulo Mineiro, a cana não está deslocando culturas. Talvez em São Paulo se observe um pouco isso em relação à laranja, mas aqui já existia um predomínio da cana, que se expandiu para áreas de pastagens, portanto já degradadas. São Paulo é uma das regiões com maior potencial de aumento de produção e menos problemas para fazê-lo. No Mato Grosso do Sul, temos questões ambientais. Em Goiás, há o problema da logística, que aumenta o custo para escoar a produção. São Paulo é um lugar adequado em termos de clima e tem uma logística bem implantada. Gostaria de destacar ainda que a cana não leva só a lavoura, ela leva a indústria. Piracicaba é um exemplo interessante, com suas indústrias de máquinas agrícolas e de equipamentos para as usinas. Há uma abrangência bastante significativa de setores beneficiados pela evolução da produção de cana, açúcar e álcool.

Um dos trabalhos do qual a senhora participa no Cepea é o dos indicadores de preços do açúcar e do álcool [o centro faz levantamento dos preços em São Paulo, Alagoas, Pernambuco e Mato Grosso]. Poderia comentar a discussão que se faz hoje no setor sobre o preço do etanol estar atrelado ao preço da gasolina?
Fizemos algumas pesquisas que mostram que o álcool tem um preço muito mais correlacionado ao da gasolina do que ao do açúcar, embora álcool e açúcar sejam feitos da mesma matéria-prima. Esses estudos indicam ainda que a correlação entre álcool e gasolina tende a aumentar.

Mas países como o Japão não investem mais em tecnologias como os carros flex porque não confiam nos produtores brasileiros. Receiam que pode haver desabastecimento no mercado quando o açúcar estiver remunerando melhor o produtor do que o álcool, porque os produtores passariam a fabricar açúcar e deixariam o mercado de etanol 'descoberto'.
Isso é um pouco resquício do trauma da década de 1980. Primeiro, é preciso deixar claro que é muito difícil o álcool pagar mais do que o açúcar. Basta olhar os indicadores semanais de preços de açúcar e álcool que divulgamos em nosso site e iniciou a série no ano 2000. Eventualmente, por períodos muito curtos, dias ou semanas, no máximo, vimos o álcool remunerar mais do que o açúcar. Foram exceções. O açúcar tem mais valor agregado e sistematicamente remunera melhor do que o álcool. Contudo, o produtor de açúcar e álcool tem plena consciência de que não conseguirá produzir açúcar e ter a competitividade que tem se não produzir também o etanol. Há também o mito da flexibilidade na produção, que afirma ser possível mudar a produção do açúcar para o álcool de maneira quase imediata. Se o produtor estabeleceu no começo da safra que 51% do que produzir vai para açúcar e 49% para álcool, não adianta tentar mudar isso no meio da safra, não é tão simples como muitos acreditam. Esta safra é um exemplo: ela começou com um caráter mais açucareiro, porque o preço do açúcar no mercado internacional estava bom. Eles não conseguem reverter agora, apesar da atual demanda por álcool. Já tivemos um problema de desabastecimento antes, ligado a uma outra conjuntura, de preços mais baixos do petróleo e envolvendo questões políticas, um período bastante traumático. Se houver um segundo, talvez seja fatal.

Por que é importante produzir os dois, açúcar e álcool?
Porque quanto mais você diversifica seu portfolio de produção, mais competitivo se torna. Você pode administrar esse portfolio, ter alternativas frente ao mercado.

Uma outra linha de trabalho da qual a senhora participa no Cepea trata das barreiras técnicas e das análises semanais das notificações feitas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) nesse assunto. Temos questões críticas em etanol no que se relaciona a esse aspecto?
Não há uma referência internacional de qualidade para o álcool brasileiro. Os Estados Unidos têm um padrão de álcool da ANSI [sigla em inglês para Instituto Nacional de Normas dos EUA]. Quando preciso, ele é adotado pelo Brasil. Isso é lamentável, porque produzimos etanol há tantos anos, somos os líderes no assunto, e não temos esse padrão. Aqui temos o padrão da ANP [Agência Nacional do Petróleo], mas não é reconhecido internacionalmente. Internamente, precisamos melhorar a calibração dos equipamentos dos laboratórios que podem fazer essa análise, para padronizar os resultados. Esse trabalho do Cepea busca estimular o desenvolvimento nessa área não só para o álcool, mas para o açúcar e para vários outros setores, da agropecuária e industrial. E aí trabalhamos questões técnicas e sociais, como obtenção dos selos que certificam que não se utiliza mão-de-obra infantil, por exemplo, uma exigência da União Européia.