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Edmundo
de Oliveira
O homem que
Palocci escolheu para cuidar da política
industrial e tecnológica explica
tudo, tintim por tintim
Edmundo
de Oliveira conheceu Antonio Palocci na
época em que o PT foi fundado,
quando ambos eram jovens, universitários,
e militantes da tendência trotskista
Liberdade e Luta, a famosa, barulhenta
e radical "Libelu". A morte
de Celso Daniel levou o então prefeito
de Ribeirão Preto à coordenação
do programa de governo; e o jornalista
econômico Edmundo à posição
de assessor do futuro Ministro da Fazenda.
Quando recebeu de Palocci a incumbência
de coordenar, como assessor especial,
os esforços para a elaboração
de uma política industrial - e
tecnológica, como ressaltou no
artigo que assinou com Palocci no Estadão
de 6 de janeiro último -, Edmundo
passou a estudar o assunto, viajou, conversou,
fez política. A entrevista a seguir
mostra o 'estado da arte' de seu pensamento,
e foi concedida a Janaína
Simões e Mônica
Teixeira, no dia 27 de janeiro,
na redação de Inovação
Unicamp, em São Paulo .
Depois
de Inovação Unicamp circular
no dia 11 de fevereiro, Edmundo nos pediu
que publicássemos o seguinte esclarecimento:
"As Diretrizes de Política
Industrial, Tecnológica e de Comércio
Exterior foram definidas por uma comissão
interministerial composta por representantes
dos Ministérios do Desenvolvimento,
Casa Civil, Fazenda, Planejamento, Ciência
e Tecnologia, BNDES, Finep e IPEA e redigidas
por uma comissão com alguns representantes
deste grupo. A Política Industrial
e Tecnológica é implementada
pela Câmara de Política Econômica,
que reúne os ministros da área,
e coordenada pelo Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio,
a partir de um grupo executivo interministerial"
IU - Por que o governo levou 11 meses
para divulgar as Diretrizes
sobre a política industrial?
O programa de governo, feito durante a campanha
eleitoral, estabelecia como um dos objetivos
principais desenvolver uma política
industrial e tecnológica que fosse
um instrumento importante para superação
da vulnerabilidade externa do País.
Mas a formação do governo
incluiu correntes de opinião que
não estavam representadas no grupo
que elaborou o programa. O Ministério
da Fazenda é, mais ou menos, um espelho
disso. O ministro [Antonio] Palocci faz
questão de trabalhar com posições
de origens diferentes. Quando reunimos os
diferentes ministérios para montar
a política - Fazenda, Casa Civil,
Ciência e Tecnologia, que no princípio
não estava, o Ministério do
Desenvolvimento e Comércio Exterior
-, foi necessário produzir um conjunto
de idéias que harmonizassem posições
diferentes. Até chegar a isso demorou.
A gente formulou o texto como Diretrizes
de política industrial, justamente
para abrir a discussão com a sociedade.
O Estado brasileiro perdeu a capacidade
de fazer política industrial e tecnológica
de forma articulada e moderna. Com o Sardenberg
[Ronaldo Sardenberg, ministro de C&T
no segundo mandato de Fernando Henrique
Cardoso], se fez uma política tecnológica
interessante e boa. Mas a necessidade de
o País ser competitivo no mundo requer
um pouco mais do que isso. Tecnologia é
o cerne da política industrial moderna.
Chegamos a esse texto, que é um texto
de orientação. Estamos agora
detalhando propostas para as áreas
estratégicas.
IU -
Você disse que o MCT não entrou
no começo. Por quê? O que aconteceu?
Desarticulação de início
de governo. Quando a gente aprontou o texto,
a parte de tecnologia tinha crescido tanto
que seria uma aberração se
o pessoal técnico do MCT continuasse
fora. Foram então rapidamente integrados.
IU -
Mas, por exemplo, na reunião do Conselho
de Desenvolvimento Econômico e Social
(ocorrida dia 22 de janeiro, em São
Paulo) não havia ninguém do
MCT na reunião.
São esferas diferentes.
IU -
Você disse então que houve
uma dificuldade de chegar a consensos. O
documento então é bastante
generalista. Isso se deve a essa perspectiva
de fazer um detalhamento posterior ou também
reflete o que era possível escrever
em nome do governo? No detalhamento, vai
ser difícil chegar a novos consensos,
menos vagos?
Ambas as coisas. Essa cobrança é
descontextualizada. No Brasil, o Estado
e a sociedade perderam a capacidade de iniciativas
articuladas. Passamos da reserva de mercado,
de uma economia fechada, para uma economia
aberta, sem que os órgãos
de governo fizessem um planejamento -- em
interação com a sociedade
-- para o desenvolvimento tecnológico
e industrial do País, logo na época
em que a economia do conhecimento se aprofundava
violentamente. Na minha opinião,
mesmo as pessoas que mais têm certeza
das coisas seriam incapazes de definir uma
política pública com todos
os comandos, com tudo ajustado, tantas são
as coisas a articular. O que aconteceu com
o BNDES, por exemplo? Houve uma mudança
de enfoque, a volta à idéia
de a instituição voltar a
ser um banco de fomento, de desenvolvimento.
Quer dizer: há muitos atores a serem
coordenados, há uma diversidade no
ambiente de pesquisa brasileiro muito grande,
e um problema no coração dela:
a pesquisa feita na universidade precisa
ter uma realização no mercado
em termos de empresas, produtos, melhoria
nas condições de vida das
pessoas etc. Esse é o principal alvo
hoje no Brasil. Tem gente que é abertamente
contra política industrial. Outros
acham que precisa ter só uma política
tecnológica. Outros acham que precisa
ter práticas de reserva ainda, do
passado. Então, como é que
você constrói um novo consenso
na sociedade, ou pelo menos uma corrente
de opinião majoritária, se
não com debate? O mérito das
Diretrizes é justamente
o fato de não ter entrado no detalhe
e de ter explicitado o fundamento da política
-- essa articulação de política
industrial e tecnológica que responde
ao problema fundamental de o País
vir a ser alguém no mundo. Agora,
como vai construir isso? É complexo,
vai ter muita divergência, vai ter
muita opinião diferente. No detalhe
a porca torce o rabo. Cabe ao governo fazer
as propostas, articular, mobilizar os recursos
e buscar os atores na sociedade.
A escolha
das áreas estratégicas
IU -
Como os senhores definiram as quatro prioridades?
São áreas em que o crescimento
da atividade econômica, nos últimos
25 anos, foi superior ao crescimento da
economia internacional. São áreas
que provocam dinamismo em toda a cadeia
produtiva, intensivas de conhecimento, em
que o conhecimento se move muito rapidamente.
Ficar estacionado nessas áreas é
perder competitividade no longo prazo. Então,
o critério mais abrangente é
esse. Não é por causa de balança
comercial. Balança comercial é
um reflexo disso aí. Se for fazer
uma política em função
de balança comercial, você
já perdeu na partida, a guerra.
IU -
Por quê?
Hoje a competitividade dos países
se define por sua capacidade de gerar propriedade
intelectual e transformar isso em negócio,
em produto. A indústria brasileira,
com poucas exceções, e a sociedade
brasileira, de uma forma geral, não
conseguiram acompanhar isso, que é
a essência, do meu ponto de vista,
da economia do conhecimento.
IU -
A Fiesp defende que o primeiro critério
para definição de áreas
estratégicas deveria ter sido a capacidade
de gerar empregos. Para a Fiesp, essas quatro
áreas são intensivas em conhecimento
e tecnologia e não geram emprego...
É uma opinião legítima.
Mas a política industrial e tecnológica
não se resume a esses segmentos.
O texto trata de quatro outras questões:
inovação e desenvolvimento
tecnológico, inserção
externa, modernização industrial,
capacidade e escala produtiva. Fala-se muito
mais das opções estratégicas
porque a gente começou a trabalhar
as definições por elas. Vamos
ter programas também nessas outras
linhas de ação, que são
de caráter abrangente, horizontal.
Por exemplo, o Progex
é um programa altamente indutor de
exportações. Ele capacita
as empresas a melhorarem a competitividade,
no mercado externo e no interno. Certamente,
esse tipo de iniciativa é muito importante.
Não estamos partindo do zero, tem
muita coisa boa na sociedade, no País,
nós não achamos que estamos
reinventando a roda. O negócio é
que você precisa rearticular as coisas,
focalizar as iniciativas, prover recursos
públicos em novas associações
público-privadas e potencializar
as iniciativas potencializáveis,
procurando fazer aquilo que o mundo faz
com êxito e que nós temos de
acompanhar para também não
reinventar coisas aqui.
Microeletrônica,
sim...
IU -
Eu perguntei como foi a escolha das quatro
áreas porque há um certo espanto
com a escolha de semicondutores entre elas...
O governo tem a responsabilidade de olhar
a vida como ela é, e a vida como
ela é mostra o seguinte: semicondutores
mudaram a vida das pessoas nos últimos
25 anos, mudou o jeito que se produz, mudou
o jeito que são construídos
os prédios, mudou o jeito que se
tem lazer, o jeito da vida cotidiana. A
passagem da Microeletrônica para Nanoeletrônica
vai acontecer nos próximos 25 anos.
O business todo do mundo continua
em Microeletrônica. São US$
140 bilhões que essa indústria
movimenta no mundo. Já foram US$
210 bilhões no auge da bolha tecnológica,
está certo? E isso não vai
desaparecer.
IU -
Mas quais são as chances do Brasil
em um mercado tão estabelecido e
tão caro? A Nanotecnologia é
mais cara ainda. Quantas empresas de Nanotecnologia
tem no mundo? Qual é o tamanho do
mercado de Nanotecnologia no mundo? Qual
é a capacidade que nós temos
de concorrer com os Estados Unidos, com
a Europa, que põem bilhões
e bilhões em Nanotecnologia? Qual
é a nossa capacidade de concorrer
com isso?
As coisas não são absolutas.
Há quem considere que a Microeletrônica
é coisa do passado. Não é.
Não há hipótese na
indústria, pelo menos hoje, de se
fazer Nanoeletrônica sem usar a tecnologia
CMOS, que é a tecnologia mais avançada
para a fabricação de chips.
Aqui você tem uma explosão
de novos materiais e processos: eletrônica
plástica, microssistemas, os MEMS,
e outros. A indústria no mundo está
se perguntando o que vai acontecer e onde
tem incerteza, tem oportunidade. Em alta
tecnologia não há bonde, há
um circular no qual você tem chance
de entrar em qualquer ponto.
IU -
Por que há chance de entrar em qualquer
ponto?
Porque o conhecimento não tem dono.
O problema é que não temos
no País um modelo consistente de
pesquisa e desenvolvimento industrial articulado
com um modelo vitorioso de negócio.
Em 1970, Taiwan era uma ilha que cuidava
de abacaxi, de arroz e de cana-de-açúcar.
Quem diria que essa pobre ilha teria possibilidade
de um dia revolucionar o paradigma da microeletrônica
quando eles tinham do lado gigantes como
a Texas Instrument, a Intel? Taiwan inventou
um modelo chamado foundry , que é
uma prestação de serviço,
e vende isso para o mundo inteiro. Há
outros exemplos. O importante é que
o modelo não está fechado.
Essa indústria não é
uma página virada, está cheia
de interrogações sobre para
onde ela vai.
IU -
O que o senhor está dizendo é
que existem possibilidades de inserção...
... em nichos relevantes. Nem a Coréia
quer produzir microprocessadores, isso é
mercado da Intel e ninguém vai tirar
dela. Veja como as coisas são dinâmicas:
o maior sucesso recente da microeletrônica
é uma empresa ítalo-francesa
chamado STMicroeletronics (www.st.com).
Essa empresa foi fundada em 1987, portanto
não tem nem 20 anos, produto da fusão
de uma empresa italiana falida chamada SGS
e de uma empresa francesa que perdia dinheiro
chamada Thomson.
IU - Que fez muita
câmera de televisão.
O cérebro desse negócio é
um italiano chamado Pasquale
Pistorio ,
que fundiu as duas empresas, perdeu muito
dinheiro no começo, mas modelou um
tipo de negócio que também
é uma revolução de
paradigma na indústria. Quando terminou
a bolha tecnológica, duas empresas
de semicondutores tiveram lucro no mundo,
a Intel e essa empresa. O modelo de negócio
deles é assim: eles desenvolvem soluções
para a indústria automobilística,
para a área de informática,
para a indústria de telecomunicações
etc. Ela é praticamente a criadora
de um fenômeno na indústria
chamado SOC, System on chip, que é
você colocar vários sistemas
dentro de um só chip, o que terá,
por exemplo, grande aplicação
em TV Digital. Não precisamos ter
a ambição de fazer tudo, mas
daí a não fazer nada em Microeletrônica,
temos de entrar onde as coisas estão...O
Brasil perde muito tempo em fazer falsas
oposições. Nessa questão,
há uma disputa entre físicos
e engenheiros. Físicos não
deveriam brigar tanto com engenheiros, e
vice versa. Mas não tomo partido
nisso. Quero simplesmente que a gente adote
as melhores soluções.
...mas,
biotecnologia, por que não?
IU
- Por que a biotecnologia não entrou?
Porque não houve suficiente inteligência
no governo para fazer uma definição
melhor do que a gente fez. Se eu fosse escrever
as Diretrizes hoje, escreveria
de forma diferente. Mas as coisas têm
de ser feitas um passo atrás do outro.
Não se pode querer dar passo maior
do que as pernas. Para mim é referência
o País Basco, que faz há 20
anos uma política industrial consistente.
No início, a política do País
Basco era transformar a indústria
de bens de capital deles em algo competitivo
com os países de primeira linha,
Alemanha e Itália. Dez anos depois,
as máquinas deles competem com esses
países de primeira linha. As coisas
foram se diversificando. Hoje, eles tem
um programa de biotecnologia, o BioBasco.
Em Taiwan, o coração do processo
industrial é uma instituição
chamada ITRI (Industrial
Technology Research Institute)
, que tem 7 mil pesquisadores. Na verdade,
os processos originados da Eletrônica,
da Microeletrônica, estão descendo
de escala, indo para a nano, e os processos
derivados da Química, da Biologia,
também estão indo nessa direção
e estão se cruzando. Então,
a sofisticação das pesquisas,
das empresas que vão surgir, será
muito maior. Só que nós estamos
alguns estágios atrasados.
IU - Fármacos e biotecnologia
têm muito em comum.
Vai ser um desenvolvimento natural. Hoje,
eu centraria só em Tecnologia da
Informação e Biotecnologia.
Cada uma delas é um mundo. Não
são exclusivas em relação
ao resto da indústria e da tecnologia.
O problema nosso é focar e pelo menos
fazer uma coisa direito. Quando você
põe uma opinião na mesa você
vai receber críticas e sugestões.
Estamos chamando as coisas de Diretrizes,
termos de referência, propostas iniciais....
Os obstáculos:
juros, rentabilidade baixa, impostos...
IU- Vamos
falar dos problemas macro e microeconômicos
que os empresários colocam como empecilho
para que uma política industrial
como essa vá para frente. Custo do
capital, política fiscal, desoneração,
rentabilidade média...
São coisas legítimas. A introdução
do texto trata disso. O Brasil precisa ser
arrumado no médio e longo prazos,
em relação às suas
contas, para poder se ocupar das coisas
importantes da vida. Tecnologia é
assunto de longo prazo, políticas
industriais não dão resultado
imediato e requerem um ambiente de estabilidade
macroeconômica de anos, contas fiscais
arrumadas, um Estado que não entre
tanto no mercado para se auto-financiar.
O custo do dinheiro no Brasil não
é alto porque o governo quer fazer
uma maldade, é alto porque o governo
foi irresponsável no passado. As
coisas serão feitas no seu devido
passo. Por exemplo, a redução
do IPI. O Ministério da Fazenda teve
uma atitude responsável em relação
a fazer um movimento progressivo. Eu gostaria
de desonerar os 5% de IPI, zerar o imposto
para bens de capital, porque é assim
em outros países, mas há restrições
fiscais importantes. Não adianta
ser voluntarista, para agradar hoje. Amanhã
provoca uma bolha e vai ter de promover
um ajuste muito mais doloroso. Por isso,
nas Diretrizes, está
escrito qual é o marco em que ela
deve atuar.
IU -
Mas a reforma tributária patrocinada
pelo governo não embute a preocupação
com a criação de um ambiente
mais favorável à inovação.
Você acha pouco fazer a desoneração
das exportações brasileiras?
Isso vai induzir as empresas a um estímulo
maior para as exportações.
Ao fazer isso, vai movimentar uma cadeia
que vai bater com a necessidade de melhoria
etc. O governo tem alguns instrumentos,
os recursos alocados nos fundos setoriais,
os recursos que existem nos bancos de fomento
do governo, que já vem sendo usados.
Estamos propondo focalizar melhor o uso
desses recursos hoje. Por exemplo, o governo
tem de apresentar até o final de
fevereiro um projeto de reformulação
para a Lei de Informática, como resultado
da reforma tributária. Vamos discutir
quais os melhores instrumentos, do ponto
de vista da implementação,
se por medida provisória, se por
reformulação da legislação
existente em relação à
Lei de Informática, por exemplo.
É
preciso casar academia e setor produtivo
IU -
No começo da conversa você
falou um pouco sobre esse nó brasileiro
que é essa questão de o setor
produtivo e a academia não se casarem.
Qual a visão, sua ou do governo,
sobre essa questão e como vai se
dar a superação?
Minha visão é que existe uma
preocupação cada vez maior,
de ambas as partes, de provocar esse encontro.
O desencontro não se deu porque os
pesquisadores ou a universidade têm
uma tendência atávica a fazer
pesquisa básica ou porque as empresas
não encontraram os caminhos que levam
à universidade. Foi o resultado de
políticas que o País adotou
nos últimos anos, ligadas a desajustes
macroeconômicos agudos, à reserva
de mercado, a mercado fechado ou a um regime
aberto. Então tudo isso, quando se
soma, resulta na situação
de hoje. O Brasil passou sem transição
de oito para 80, de uma economia fechada
para uma economia global. O País
tem de resolver o problema no mercado, readequar
os seus instrumentos e refazer a sua cultura
de pesquisa, de desenvolvimento e empresarial
em função dessa nova realidade.
IU -
O que você quer dizer com "o
Brasil tem de resolver isso no mercado"?
Produzir empresas vencedoras, é isso
que a gente tem de fazer.
IU -
E por que o Brasil não produz empresas
vencedoras?
Temos algumas. No agronegócio...
No caso da agricultura, houve uma confluência
melhor do que em qualquer outro setor: carga
fiscal mais baixa, financiamento e incentivo
tecnológico. Aí o problema
foi razoavelmente resolvido. Se tivesse
mais estabilidade ainda, juros mais baixos,
seríamos ainda mais competitivos.
Isso precisa se generalizar para o setor
industrial também, respeitando as
limitações fiscais. Você
precisa produzir essa interação
entre a pesquisa e o desenvolvimento com
novos negócios, com os negócios
existentes. De novo, vou falar do Progex,
que melhorou a vida de muita pequena empresa.
O programa cresceu e é induzido pela
participação no mercado externo.
Tem um foco muito forte de colocar as empresas
brasileiras no mundo. As grandes empresas
naturalmente encontram um caminho; o desafio
relevante é expandir a base exportadora
brasileira, ainda limitada a um pequeno
número de empresas, se você
compara com o que os outros países
têm. Nos Estados Unidos, as pequenas
e médias empresas exportam cerca
de 40% do total. Fazer isso acontecer é
mudar a cultura de um país. No entanto,
o Brasil faz muito empreendedorismo e a
luta para estar no mercado externo induzirá
melhorias.
IU -
O governo pretende aumentar a articulação
entre academia e setor produtivo? Como supõe
fazê-lo?
Em primeiro lugar, o grande definidor das
necessidades de mudança tecnológica
é a empresa, é ela que tem
ligação com o mercado. Nos
anos 90, as empresas, por necessidade do
negócio, de uma forma absolutamente
legítima, encontraram a melhor solução
para a atualização tecnológica
via compra de tecnologia. Isso é
produto da falta de planejamento de política
pública para responder a essas necessidades.
IU -
A política pública foi não
fazer política pública.
É, não fazer. Mesmo assim,
há casos absolutamente relevantes,
vitoriosos, vencedores. As empresas brasileiras
não são diferentes das empresas
do mundo, quando decidem vencer no mercado:
precisam de tecnologia. A Weg, por exemplo,
colocou como objetivo ser a empresa de motores
mais importante do mundo num determinado
tempo. Uma empresa assim precisa se articular
com as instituições de pesquisa.
A Petrobras tem o Cenpes mas não
faz tudo lá, faz na Coppe, faz na
Unicamp. Existe no mundo um modelo de instituição
de P&D e tecnologia industrial que não
temos no Brasil -- instituições
que reduzem o custo do risco tecnológico
para as empresas de ponta. Existe controvérsia
se devemos ter este tipo de instituição.
Eu pessoalmente acredito que há espaço
sobretudo nas áreas em que precisamos
recuperar o tempo perdido. O ITRI de Taiwan,
o Imec, da Bélgica, são exemplos
vencedores. Não sei se são
aplicáveis, strito sensu, ao Brasil,
mas o mundo mostrou que são instituições
necessárias, sobretudo em Microeletrônica,
em que a pesquisa é muito sofisticada.
Uma avaliação
do Síncrotron
IU -
Mas aí a coisa pública será
apropriada pelo setor privado, o que levanta
resistência grande dentro das universidades.
A universidade tem de repensar seus conceitos.
A Lei de Inovação vai quebrar
alguns paradigmas: por exemplo, hoje, não
se pode destinar recursos públicos
diretamente para as empresas; depois da
Lei, vai poder. Centros como os citados
são a catedral da pesquisa colaborativa,
e as empresas precisam disso. Por outro
lado, essas instituições têm
a capacidade, como Taiwan mostrou, dentro
de uma política bem articulada de
governo, e aí foi uma competência
rara deles, de fazer start-up de
empresas que mudaram os paradigmas industriais.
No princípio, essas empresas tinham
fortes estímulos do Estado, que entrava
com até 40% do capital. Temos a idéia
de fazer um Laboratório Nacional
de Tecnologia Industrial de Micro e Nanofabricação.
É como se você pegasse o Laboratório
Nacional de Luz Síncrotron (LNLS),
que é um laboratório de uso
nacional, uma espécie de hub
de uma rede hiper-avançada que existe
no País, ali se concentra uma atração
de cérebros, de pesquisas etc. Isso
funciona, está funcionando em Campinas,
precisa ser estimulado, apoiado, promovido
e atualizado cada vez mais. Acho necessário
esse mesmo tipo de armação
para explorar a Microeletrônica ou
a Microtecnologia, uma tecnologia madura
que está evoluindo para a tecnologia
disruptiva, em que não há
uma separação estanque entre
uma e outra. São modelos que geram
empresas em nichos muito interessantes.
É preciso que exista uma instituição
de integração entre Estado,
academia e setor produtivo. O LNLS foi pensando
mais ou menos assim, mas ainda não
consegue realizar integralmente o seu objetivo,
porque faz pesquisa muito avançada,
necessária para o País, formadora
de recursos humanos; mas, na ponta, você
não consegue gerar as empresas ainda.
Talvez daqui a 10, 15 anos, essas empresas
venham a ser geradas. Nas tecnologias chamadas
maduras, você pode gerar empresas
já em nichos relevantes. Esse tipo
de instituição não
existe no Brasil.
O dinheiro
virá dos Fundos Setoriais
IU -
De onde virão os recursos para a
política industrial? Dos fundos setoriais?
Vou começar pelos fundos setoriais.
O dinheiro está aí, não
tem de inventar outra coisa.
IU -
Mas o dinheiro dos fundos é pouco
para financiar a política industrial,
não é?
Pode ser. O compromisso do presidente Lula
é subir para 2% o investimento em
P&D no Brasil. Não estamos propondo
muitas coisas. O fundamento da política
industrial e tecnológica é
construir um bom modelo de desenvolvimento
tecnológico para dar suporte à
ação do BNDES, que vai alavancar
determinado tipo de empresa no mercado nacional
ou internacional.
IU -
Estamos falando então de um modelo
de desenvolvimento tecnológico a
ser financiado pelos fundos setoriais.
Uma parte com os fundos. Não tenho
ainda uma opinião desenvolvida sobre
se será necessário alavancar
mais recursos. O tempo vai mostrar. Para
o que estamos propondo agora, parece ser
suficiente uma melhor focalização
dos recursos para algumas iniciativas que
se queira alavancar.
IU -
O governo descontingenciará os fundos?
Se não contingenciar mais, já
será uma grande vitória.
IU -
Seriam R$ 2 bilhões....
O problema é que se você descontingenciar
esses R$ 2 bilhões, você poupa
a ciência e tecnologia, mas cria um
problema para as contas: compromete o superávit
primário, que precisa ser alcançado
não porque o governo quer ser mau,
mas porque dele depende a estabilização.
O País depende das contas arrumadas,
da moeda estável. Não sei
se é possível fazer o descontingenciamento
ao longo do tempo. As comunidades acadêmica
e empresarial fazem suas observações
sobre ciência e tecnologia como têm
feito e aí o governo discute.
IU -
Para utilizar os fundos setoriais, os senhores
vão precisar trabalhar em alteração
de lei?
Os fundos têm legislação
muito específica. Por exemplo, o
dinheiro tem de passar obrigatoriamente
para a universidade. Não pode ir
direto para a empresa. Isso está
mudando com a Lei de Inovação.
IU -
Mas a Lei de Inovação resolve
os problemas das leis dos fundos?
Resolve, você adapta e depois aí
é uma questão de normas. Tem
uma lei que autoriza que se faça
isso.
O governo
e o desenvolvimento tecnológico
IU -
O governo, como um todo, tem compromisso
com o desenvolvimento tecnológico?
Vou dar um exemplo claro que expressa o
compromisso do governo. Quando apresentei
na Câmara de Política Econômica
o resultado do trabalho do grupo de semicondutores,
fazendo algumas propostas iniciais, estavam
presentes os ministros José Dirceu
(Casa Civil), que é o coordenador
da Câmara, Palocci (Fazenda), Furlan
(MDIC), Mantega (Planejamento), Gushiken
(Comunicação), Dulci (secretário
da Presidência). O núcleo do
governo estava presente e aprovou entusiasticamente.
IU - O governo então reconhece
uma centralidade da inovação
tecnológica para o desenvolvimento
econômico?
O coordenador da política industrial
e tecnológica é a Câmara
de Política Econômica. Começou
nela, depois foi constituído um grupo
de coordenação executiva.
Nesse grupo estão os técnicos
dessas áreas, mais esses ministérios,
mais o diretor industrial do BNDES, mais
os diretores da Finep. Acho que vamos evoluir
para montar uma espécie de conselho,
mais amplo, que vai envolver outras instituições,
como Senai, Banco do Brasil, Sebrae. Uma
articulação maior.
IU -
E o que você tem feito? Conversado?
Tenho conversado, estou também conhecendo
os atores. É um trabalho que tem
de correr de cima para baixo. Isso ainda
é precário, vai ter de caminhar
para alguma coisa mais profissional.
IU -
É, vai ter de ter uma burocracia
mais organizada para isso.
Sou jornalista, virei funcionário
público por acaso. Voltarei a ser
jornalista assim que der. É uma profissão
muito boa. Na verdade, eu tenho a sensação
de que estou fazendo uma grande reportagem.
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