..ENTREVISTA
..Publicada em 11 de fevereiro 2004

Edmundo de Oliveira
O homem que Palocci escolheu para cuidar da política
industrial e tecnológica explica tudo, tintim por tintim

Edmundo de Oliveira conheceu Antonio Palocci na época em que o PT foi fundado, quando ambos eram jovens, universitários, e militantes da tendência trotskista Liberdade e Luta, a famosa, barulhenta e radical "Libelu". A morte de Celso Daniel levou o então prefeito de Ribeirão Preto à coordenação do programa de governo; e o jornalista econômico Edmundo à posição de assessor do futuro Ministro da Fazenda. Quando recebeu de Palocci a incumbência de coordenar, como assessor especial, os esforços para a elaboração de uma política industrial - e tecnológica, como ressaltou no artigo que assinou com Palocci no Estadão de 6 de janeiro último -, Edmundo passou a estudar o assunto, viajou, conversou, fez política. A entrevista a seguir mostra o 'estado da arte' de seu pensamento, e foi concedida a Janaína Simões e Mônica Teixeira, no dia 27 de janeiro, na redação de Inovação Unicamp, em São Paulo .

Depois de Inovação Unicamp circular no dia 11 de fevereiro, Edmundo nos pediu que publicássemos o seguinte esclarecimento: "As Diretrizes de Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior foram definidas por uma comissão interministerial composta por representantes dos Ministérios do Desenvolvimento, Casa Civil, Fazenda, Planejamento, Ciência e Tecnologia, BNDES, Finep e IPEA e redigidas por uma comissão com alguns representantes deste grupo. A Política Industrial e Tecnológica é implementada pela Câmara de Política Econômica, que reúne os ministros da área, e coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, a partir de um grupo executivo interministerial"


IU - Por que o governo levou 11 meses para divulgar as Diretrizes sobre a política industrial?
O programa de governo, feito durante a campanha eleitoral, estabelecia como um dos objetivos principais desenvolver uma política industrial e tecnológica que fosse um instrumento importante para superação da vulnerabilidade externa do País. Mas a formação do governo incluiu correntes de opinião que não estavam representadas no grupo que elaborou o programa. O Ministério da Fazenda é, mais ou menos, um espelho disso. O ministro [Antonio] Palocci faz questão de trabalhar com posições de origens diferentes. Quando reunimos os diferentes ministérios para montar a política - Fazenda, Casa Civil, Ciência e Tecnologia, que no princípio não estava, o Ministério do Desenvolvimento e Comércio Exterior -, foi necessário produzir um conjunto de idéias que harmonizassem posições diferentes. Até chegar a isso demorou. A gente formulou o texto como Diretrizes de política industrial, justamente para abrir a discussão com a sociedade. O Estado brasileiro perdeu a capacidade de fazer política industrial e tecnológica de forma articulada e moderna. Com o Sardenberg [Ronaldo Sardenberg, ministro de C&T no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso], se fez uma política tecnológica interessante e boa. Mas a necessidade de o País ser competitivo no mundo requer um pouco mais do que isso. Tecnologia é o cerne da política industrial moderna. Chegamos a esse texto, que é um texto de orientação. Estamos agora detalhando propostas para as áreas estratégicas.

IU - Você disse que o MCT não entrou no começo. Por quê? O que aconteceu?
Desarticulação de início de governo. Quando a gente aprontou o texto, a parte de tecnologia tinha crescido tanto que seria uma aberração se o pessoal técnico do MCT continuasse fora. Foram então rapidamente integrados.

IU - Mas, por exemplo, na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (ocorrida dia 22 de janeiro, em São Paulo) não havia ninguém do MCT na reunião.
São esferas diferentes.

IU - Você disse então que houve uma dificuldade de chegar a consensos. O documento então é bastante generalista. Isso se deve a essa perspectiva de fazer um detalhamento posterior ou também reflete o que era possível escrever em nome do governo? No detalhamento, vai ser difícil chegar a novos consensos, menos vagos?
Ambas as coisas. Essa cobrança é descontextualizada. No Brasil, o Estado e a sociedade perderam a capacidade de iniciativas articuladas. Passamos da reserva de mercado, de uma economia fechada, para uma economia aberta, sem que os órgãos de governo fizessem um planejamento -- em interação com a sociedade -- para o desenvolvimento tecnológico e industrial do País, logo na época em que a economia do conhecimento se aprofundava violentamente. Na minha opinião, mesmo as pessoas que mais têm certeza das coisas seriam incapazes de definir uma política pública com todos os comandos, com tudo ajustado, tantas são as coisas a articular. O que aconteceu com o BNDES, por exemplo? Houve uma mudança de enfoque, a volta à idéia de a instituição voltar a ser um banco de fomento, de desenvolvimento. Quer dizer: há muitos atores a serem coordenados, há uma diversidade no ambiente de pesquisa brasileiro muito grande, e um problema no coração dela: a pesquisa feita na universidade precisa ter uma realização no mercado em termos de empresas, produtos, melhoria nas condições de vida das pessoas etc. Esse é o principal alvo hoje no Brasil. Tem gente que é abertamente contra política industrial. Outros acham que precisa ter só uma política tecnológica. Outros acham que precisa ter práticas de reserva ainda, do passado. Então, como é que você constrói um novo consenso na sociedade, ou pelo menos uma corrente de opinião majoritária, se não com debate? O mérito das Diretrizes é justamente o fato de não ter entrado no detalhe e de ter explicitado o fundamento da política -- essa articulação de política industrial e tecnológica que responde ao problema fundamental de o País vir a ser alguém no mundo. Agora, como vai construir isso? É complexo, vai ter muita divergência, vai ter muita opinião diferente. No detalhe a porca torce o rabo. Cabe ao governo fazer as propostas, articular, mobilizar os recursos e buscar os atores na sociedade.

A escolha das áreas estratégicas

IU - Como os senhores definiram as quatro prioridades?
São áreas em que o crescimento da atividade econômica, nos últimos 25 anos, foi superior ao crescimento da economia internacional. São áreas que provocam dinamismo em toda a cadeia produtiva, intensivas de conhecimento, em que o conhecimento se move muito rapidamente. Ficar estacionado nessas áreas é perder competitividade no longo prazo. Então, o critério mais abrangente é esse. Não é por causa de balança comercial. Balança comercial é um reflexo disso aí. Se for fazer uma política em função de balança comercial, você já perdeu na partida, a guerra.

IU - Por quê?
Hoje a competitividade dos países se define por sua capacidade de gerar propriedade intelectual e transformar isso em negócio, em produto. A indústria brasileira, com poucas exceções, e a sociedade brasileira, de uma forma geral, não conseguiram acompanhar isso, que é a essência, do meu ponto de vista, da economia do conhecimento.

IU - A Fiesp defende que o primeiro critério para definição de áreas estratégicas deveria ter sido a capacidade de gerar empregos. Para a Fiesp, essas quatro áreas são intensivas em conhecimento e tecnologia e não geram emprego...
É uma opinião legítima. Mas a política industrial e tecnológica não se resume a esses segmentos. O texto trata de quatro outras questões: inovação e desenvolvimento tecnológico, inserção externa, modernização industrial, capacidade e escala produtiva. Fala-se muito mais das opções estratégicas porque a gente começou a trabalhar as definições por elas. Vamos ter programas também nessas outras linhas de ação, que são de caráter abrangente, horizontal. Por exemplo, o Progex é um programa altamente indutor de exportações. Ele capacita as empresas a melhorarem a competitividade, no mercado externo e no interno. Certamente, esse tipo de iniciativa é muito importante. Não estamos partindo do zero, tem muita coisa boa na sociedade, no País, nós não achamos que estamos reinventando a roda. O negócio é que você precisa rearticular as coisas, focalizar as iniciativas, prover recursos públicos em novas associações público-privadas e potencializar as iniciativas potencializáveis, procurando fazer aquilo que o mundo faz com êxito e que nós temos de acompanhar para também não reinventar coisas aqui.

Microeletrônica, sim...

IU - Eu perguntei como foi a escolha das quatro áreas porque há um certo espanto com a escolha de semicondutores entre elas...
O governo tem a responsabilidade de olhar a vida como ela é, e a vida como ela é mostra o seguinte: semicondutores mudaram a vida das pessoas nos últimos 25 anos, mudou o jeito que se produz, mudou o jeito que são construídos os prédios, mudou o jeito que se tem lazer, o jeito da vida cotidiana. A passagem da Microeletrônica para Nanoeletrônica vai acontecer nos próximos 25 anos. O business todo do mundo continua em Microeletrônica. São US$ 140 bilhões que essa indústria movimenta no mundo. Já foram US$ 210 bilhões no auge da bolha tecnológica, está certo? E isso não vai desaparecer.

IU - Mas quais são as chances do Brasil em um mercado tão estabelecido e tão caro? A Nanotecnologia é mais cara ainda. Quantas empresas de Nanotecnologia tem no mundo? Qual é o tamanho do mercado de Nanotecnologia no mundo? Qual é a capacidade que nós temos de concorrer com os Estados Unidos, com a Europa, que põem bilhões e bilhões em Nanotecnologia? Qual é a nossa capacidade de concorrer com isso?
As coisas não são absolutas. Há quem considere que a Microeletrônica é coisa do passado. Não é. Não há hipótese na indústria, pelo menos hoje, de se fazer Nanoeletrônica sem usar a tecnologia CMOS, que é a tecnologia mais avançada para a fabricação de chips. Aqui você tem uma explosão de novos materiais e processos: eletrônica plástica, microssistemas, os MEMS, e outros. A indústria no mundo está se perguntando o que vai acontecer e onde tem incerteza, tem oportunidade. Em alta tecnologia não há bonde, há um circular no qual você tem chance de entrar em qualquer ponto.

IU - Por que há chance de entrar em qualquer ponto?
Porque o conhecimento não tem dono. O problema é que não temos no País um modelo consistente de pesquisa e desenvolvimento industrial articulado com um modelo vitorioso de negócio. Em 1970, Taiwan era uma ilha que cuidava de abacaxi, de arroz e de cana-de-açúcar. Quem diria que essa pobre ilha teria possibilidade de um dia revolucionar o paradigma da microeletrônica quando eles tinham do lado gigantes como a Texas Instrument, a Intel? Taiwan inventou um modelo chamado foundry , que é uma prestação de serviço, e vende isso para o mundo inteiro. Há outros exemplos. O importante é que o modelo não está fechado. Essa indústria não é uma página virada, está cheia de interrogações sobre para onde ela vai.

IU - O que o senhor está dizendo é que existem possibilidades de inserção...
... em nichos relevantes. Nem a Coréia quer produzir microprocessadores, isso é mercado da Intel e ninguém vai tirar dela. Veja como as coisas são dinâmicas: o maior sucesso recente da microeletrônica é uma empresa ítalo-francesa chamado STMicroeletronics (www.st.com). Essa empresa foi fundada em 1987, portanto não tem nem 20 anos, produto da fusão de uma empresa italiana falida chamada SGS e de uma empresa francesa que perdia dinheiro chamada Thomson.

IU - Que fez muita câmera de televisão.
O cérebro desse negócio é um italiano chamado
Pasquale Pistorio , que fundiu as duas empresas, perdeu muito dinheiro no começo, mas modelou um tipo de negócio que também é uma revolução de paradigma na indústria. Quando terminou a bolha tecnológica, duas empresas de semicondutores tiveram lucro no mundo, a Intel e essa empresa. O modelo de negócio deles é assim: eles desenvolvem soluções para a indústria automobilística, para a área de informática, para a indústria de telecomunicações etc. Ela é praticamente a criadora de um fenômeno na indústria chamado SOC, System on chip, que é você colocar vários sistemas dentro de um só chip, o que terá, por exemplo, grande aplicação em TV Digital. Não precisamos ter a ambição de fazer tudo, mas daí a não fazer nada em Microeletrônica, temos de entrar onde as coisas estão...O Brasil perde muito tempo em fazer falsas oposições. Nessa questão, há uma disputa entre físicos e engenheiros. Físicos não deveriam brigar tanto com engenheiros, e vice versa. Mas não tomo partido nisso. Quero simplesmente que a gente adote as melhores soluções.

...mas, biotecnologia, por que não?

IU - Por que a biotecnologia não entrou?
Porque não houve suficiente inteligência no governo para fazer uma definição melhor do que a gente fez. Se eu fosse escrever as Diretrizes hoje, escreveria de forma diferente. Mas as coisas têm de ser feitas um passo atrás do outro. Não se pode querer dar passo maior do que as pernas. Para mim é referência o País Basco, que faz há 20 anos uma política industrial consistente. No início, a política do País Basco era transformar a indústria de bens de capital deles em algo competitivo com os países de primeira linha, Alemanha e Itália. Dez anos depois, as máquinas deles competem com esses países de primeira linha. As coisas foram se diversificando. Hoje, eles tem um programa de biotecnologia, o BioBasco. Em Taiwan, o coração do processo industrial é uma instituição chamada ITRI (
Industrial Technology Research Institute) , que tem 7 mil pesquisadores. Na verdade, os processos originados da Eletrônica, da Microeletrônica, estão descendo de escala, indo para a nano, e os processos derivados da Química, da Biologia, também estão indo nessa direção e estão se cruzando. Então, a sofisticação das pesquisas, das empresas que vão surgir, será muito maior. Só que nós estamos alguns estágios atrasados.


IU - Fármacos e biotecnologia têm muito em comum.
Vai ser um desenvolvimento natural. Hoje, eu centraria só em Tecnologia da Informação e Biotecnologia. Cada uma delas é um mundo. Não são exclusivas em relação ao resto da indústria e da tecnologia. O problema nosso é focar e pelo menos fazer uma coisa direito. Quando você põe uma opinião na mesa você vai receber críticas e sugestões. Estamos chamando as coisas de Diretrizes, termos de referência, propostas iniciais....

Os obstáculos: juros, rentabilidade baixa, impostos...

IU- Vamos falar dos problemas macro e microeconômicos que os empresários colocam como empecilho para que uma política industrial como essa vá para frente. Custo do capital, política fiscal, desoneração, rentabilidade média...
São coisas legítimas. A introdução do texto trata disso. O Brasil precisa ser arrumado no médio e longo prazos, em relação às suas contas, para poder se ocupar das coisas importantes da vida. Tecnologia é assunto de longo prazo, políticas industriais não dão resultado imediato e requerem um ambiente de estabilidade macroeconômica de anos, contas fiscais arrumadas, um Estado que não entre tanto no mercado para se auto-financiar. O custo do dinheiro no Brasil não é alto porque o governo quer fazer uma maldade, é alto porque o governo foi irresponsável no passado. As coisas serão feitas no seu devido passo. Por exemplo, a redução do IPI. O Ministério da Fazenda teve uma atitude responsável em relação a fazer um movimento progressivo. Eu gostaria de desonerar os 5% de IPI, zerar o imposto para bens de capital, porque é assim em outros países, mas há restrições fiscais importantes. Não adianta ser voluntarista, para agradar hoje. Amanhã provoca uma bolha e vai ter de promover um ajuste muito mais doloroso. Por isso, nas Diretrizes, está escrito qual é o marco em que ela deve atuar.

IU - Mas a reforma tributária patrocinada pelo governo não embute a preocupação com a criação de um ambiente mais favorável à inovação.
Você acha pouco fazer a desoneração das exportações brasileiras? Isso vai induzir as empresas a um estímulo maior para as exportações. Ao fazer isso, vai movimentar uma cadeia que vai bater com a necessidade de melhoria etc. O governo tem alguns instrumentos, os recursos alocados nos fundos setoriais, os recursos que existem nos bancos de fomento do governo, que já vem sendo usados. Estamos propondo focalizar melhor o uso desses recursos hoje. Por exemplo, o governo tem de apresentar até o final de fevereiro um projeto de reformulação para a Lei de Informática, como resultado da reforma tributária. Vamos discutir quais os melhores instrumentos, do ponto de vista da implementação, se por medida provisória, se por reformulação da legislação existente em relação à Lei de Informática, por exemplo.

É preciso casar academia e setor produtivo

IU - No começo da conversa você falou um pouco sobre esse nó brasileiro que é essa questão de o setor produtivo e a academia não se casarem. Qual a visão, sua ou do governo, sobre essa questão e como vai se dar a superação?
Minha visão é que existe uma preocupação cada vez maior, de ambas as partes, de provocar esse encontro. O desencontro não se deu porque os pesquisadores ou a universidade têm uma tendência atávica a fazer pesquisa básica ou porque as empresas não encontraram os caminhos que levam à universidade. Foi o resultado de políticas que o País adotou nos últimos anos, ligadas a desajustes macroeconômicos agudos, à reserva de mercado, a mercado fechado ou a um regime aberto. Então tudo isso, quando se soma, resulta na situação de hoje. O Brasil passou sem transição de oito para 80, de uma economia fechada para uma economia global. O País tem de resolver o problema no mercado, readequar os seus instrumentos e refazer a sua cultura de pesquisa, de desenvolvimento e empresarial em função dessa nova realidade.

IU - O que você quer dizer com "o Brasil tem de resolver isso no mercado"?
Produzir empresas vencedoras, é isso que a gente tem de fazer.

IU - E por que o Brasil não produz empresas vencedoras?
Temos algumas. No agronegócio... No caso da agricultura, houve uma confluência melhor do que em qualquer outro setor: carga fiscal mais baixa, financiamento e incentivo tecnológico. Aí o problema foi razoavelmente resolvido. Se tivesse mais estabilidade ainda, juros mais baixos, seríamos ainda mais competitivos. Isso precisa se generalizar para o setor industrial também, respeitando as limitações fiscais. Você precisa produzir essa interação entre a pesquisa e o desenvolvimento com novos negócios, com os negócios existentes. De novo, vou falar do Progex, que melhorou a vida de muita pequena empresa. O programa cresceu e é induzido pela participação no mercado externo. Tem um foco muito forte de colocar as empresas brasileiras no mundo. As grandes empresas naturalmente encontram um caminho; o desafio relevante é expandir a base exportadora brasileira, ainda limitada a um pequeno número de empresas, se você compara com o que os outros países têm. Nos Estados Unidos, as pequenas e médias empresas exportam cerca de 40% do total. Fazer isso acontecer é mudar a cultura de um país. No entanto, o Brasil faz muito empreendedorismo e a luta para estar no mercado externo induzirá melhorias.

IU - O governo pretende aumentar a articulação entre academia e setor produtivo? Como supõe fazê-lo?
Em primeiro lugar, o grande definidor das necessidades de mudança tecnológica é a empresa, é ela que tem ligação com o mercado. Nos anos 90, as empresas, por necessidade do negócio, de uma forma absolutamente legítima, encontraram a melhor solução para a atualização tecnológica via compra de tecnologia. Isso é produto da falta de planejamento de política pública para responder a essas necessidades.

IU - A política pública foi não fazer política pública.
É, não fazer. Mesmo assim, há casos absolutamente relevantes, vitoriosos, vencedores. As empresas brasileiras não são diferentes das empresas do mundo, quando decidem vencer no mercado: precisam de tecnologia. A Weg, por exemplo, colocou como objetivo ser a empresa de motores mais importante do mundo num determinado tempo. Uma empresa assim precisa se articular com as instituições de pesquisa. A Petrobras tem o Cenpes mas não faz tudo lá, faz na Coppe, faz na Unicamp. Existe no mundo um modelo de instituição de P&D e tecnologia industrial que não temos no Brasil -- instituições que reduzem o custo do risco tecnológico para as empresas de ponta. Existe controvérsia se devemos ter este tipo de instituição. Eu pessoalmente acredito que há espaço sobretudo nas áreas em que precisamos recuperar o tempo perdido. O ITRI de Taiwan, o Imec, da Bélgica, são exemplos vencedores. Não sei se são aplicáveis, strito sensu, ao Brasil, mas o mundo mostrou que são instituições necessárias, sobretudo em Microeletrônica, em que a pesquisa é muito sofisticada.

Uma avaliação do Síncrotron

IU - Mas aí a coisa pública será apropriada pelo setor privado, o que levanta resistência grande dentro das universidades.
A universidade tem de repensar seus conceitos. A Lei de Inovação vai quebrar alguns paradigmas: por exemplo, hoje, não se pode destinar recursos públicos diretamente para as empresas; depois da Lei, vai poder. Centros como os citados são a catedral da pesquisa colaborativa, e as empresas precisam disso. Por outro lado, essas instituições têm a capacidade, como Taiwan mostrou, dentro de uma política bem articulada de governo, e aí foi uma competência rara deles, de fazer start-up de empresas que mudaram os paradigmas industriais. No princípio, essas empresas tinham fortes estímulos do Estado, que entrava com até 40% do capital. Temos a idéia de fazer um Laboratório Nacional de Tecnologia Industrial de Micro e Nanofabricação. É como se você pegasse o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), que é um laboratório de uso nacional, uma espécie de hub de uma rede hiper-avançada que existe no País, ali se concentra uma atração de cérebros, de pesquisas etc. Isso funciona, está funcionando em Campinas, precisa ser estimulado, apoiado, promovido e atualizado cada vez mais. Acho necessário esse mesmo tipo de armação para explorar a Microeletrônica ou a Microtecnologia, uma tecnologia madura que está evoluindo para a tecnologia disruptiva, em que não há uma separação estanque entre uma e outra. São modelos que geram empresas em nichos muito interessantes. É preciso que exista uma instituição de integração entre Estado, academia e setor produtivo. O LNLS foi pensando mais ou menos assim, mas ainda não consegue realizar integralmente o seu objetivo, porque faz pesquisa muito avançada, necessária para o País, formadora de recursos humanos; mas, na ponta, você não consegue gerar as empresas ainda. Talvez daqui a 10, 15 anos, essas empresas venham a ser geradas. Nas tecnologias chamadas maduras, você pode gerar empresas já em nichos relevantes. Esse tipo de instituição não existe no Brasil.

O dinheiro virá dos Fundos Setoriais

IU - De onde virão os recursos para a política industrial? Dos fundos setoriais?
Vou começar pelos fundos setoriais. O dinheiro está aí, não tem de inventar outra coisa.

IU - Mas o dinheiro dos fundos é pouco para financiar a política industrial, não é?
Pode ser. O compromisso do presidente Lula é subir para 2% o investimento em P&D no Brasil. Não estamos propondo muitas coisas. O fundamento da política industrial e tecnológica é construir um bom modelo de desenvolvimento tecnológico para dar suporte à ação do BNDES, que vai alavancar determinado tipo de empresa no mercado nacional ou internacional.

IU - Estamos falando então de um modelo de desenvolvimento tecnológico a ser financiado pelos fundos setoriais.
Uma parte com os fundos. Não tenho ainda uma opinião desenvolvida sobre se será necessário alavancar mais recursos. O tempo vai mostrar. Para o que estamos propondo agora, parece ser suficiente uma melhor focalização dos recursos para algumas iniciativas que se queira alavancar.

IU - O governo descontingenciará os fundos?
Se não contingenciar mais, já será uma grande vitória.

IU - Seriam R$ 2 bilhões....
O problema é que se você descontingenciar esses R$ 2 bilhões, você poupa a ciência e tecnologia, mas cria um problema para as contas: compromete o superávit primário, que precisa ser alcançado não porque o governo quer ser mau, mas porque dele depende a estabilização. O País depende das contas arrumadas, da moeda estável. Não sei se é possível fazer o descontingenciamento ao longo do tempo. As comunidades acadêmica e empresarial fazem suas observações sobre ciência e tecnologia como têm feito e aí o governo discute.

IU - Para utilizar os fundos setoriais, os senhores vão precisar trabalhar em alteração de lei?
Os fundos têm legislação muito específica. Por exemplo, o dinheiro tem de passar obrigatoriamente para a universidade. Não pode ir direto para a empresa. Isso está mudando com a Lei de Inovação.

IU - Mas a Lei de Inovação resolve os problemas das leis dos fundos?
Resolve, você adapta e depois aí é uma questão de normas. Tem uma lei que autoriza que se faça isso.

O governo e o desenvolvimento tecnológico

IU - O governo, como um todo, tem compromisso com o desenvolvimento tecnológico?
Vou dar um exemplo claro que expressa o compromisso do governo. Quando apresentei na Câmara de Política Econômica o resultado do trabalho do grupo de semicondutores, fazendo algumas propostas iniciais, estavam presentes os ministros José Dirceu (Casa Civil), que é o coordenador da Câmara, Palocci (Fazenda), Furlan (MDIC), Mantega (Planejamento), Gushiken (Comunicação), Dulci (secretário da Presidência). O núcleo do governo estava presente e aprovou entusiasticamente.


IU - O governo então reconhece uma centralidade da inovação tecnológica para o desenvolvimento econômico?
O coordenador da política industrial e tecnológica é a Câmara de Política Econômica. Começou nela, depois foi constituído um grupo de coordenação executiva. Nesse grupo estão os técnicos dessas áreas, mais esses ministérios, mais o diretor industrial do BNDES, mais os diretores da Finep. Acho que vamos evoluir para montar uma espécie de conselho, mais amplo, que vai envolver outras instituições, como Senai, Banco do Brasil, Sebrae. Uma articulação maior.

IU - E o que você tem feito? Conversado?
Tenho conversado, estou também conhecendo os atores. É um trabalho que tem de correr de cima para baixo. Isso ainda é precário, vai ter de caminhar para alguma coisa mais profissional.

IU - É, vai ter de ter uma burocracia mais organizada para isso.
Sou jornalista, virei funcionário público por acaso. Voltarei a ser jornalista assim que der. É uma profissão muito boa. Na verdade, eu tenho a sensação de que estou fazendo uma grande reportagem.


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