| Cylon Gonçalves,
secretário do MCT, apresenta planos para
2005 - Nanotecnologia
Grupo de Trabalho apresenta
projeto para um Programa Nacional
de Nanotecnologia; implantação
custaria R$ 130 milhões em 2005
Entrevista
a Mônica
Teixeira
O senhor está envolvido com iniciativas
para a área de nanotecnologia desde
o governo passado. Como a questão
foi encaminhada em 2004?
Quando cheguei a Brasília, em meados
de março de 2004, encontrei a notícia
de que em breve o governo anunciaria a Política
Industrial, Tecnológica e de Comércio
Exterior. Fui ao lançamento das medidas,
no dia 31 de março; até com
certa surpresa, vi nas transparências
do ministro Furlan aparecer a nanotecnologia
como uma área "portadora de
futuro" e a proposta da criação
de um "Laboratório Nacional
de Tecnologia Industrial". Alguns dias
depois, fui procurado pelo Edmundo Oliveira
[assessor especial do Ministro da Fazenda.
Leia
entrevista] e pelo Mário
Salerno [diretor do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada, Ipea. Leia
Íntegra], que estavam
montando a política industrial, para
conversar sobre nano e biotecnologia e também,
mais perifericamente, sobre semicondutores.
Nano e biotecnologia são áreas
da minha secretaria.
A Secretaria
de Política e Programas de Pesquisa
e Desenvolvimento.
Isso. Semicondutores é assunto da
Secretaria de Política de Informática
e Tecnologia, mas, por razões várias,
acabei me envolvendo com a questão
do Ceitec [Centro de Excelência em
Tecnologia Avançada - Leia
mais], do Rio Grande do Sul.
O anúncio da política industrial
nos colocou a questão de como transformar
o Centro em realidade. O ministro Eduardo
Campos assumiu com o governo o compromisso
de alocar recursos do MCT para atividades
da política industrial. Das discussões
entre mim, Edmundo e Mário surgiram
várias ações.
Gostaria
que o senhor começasse por nanotecnologia.
Começamos pela discussão sobre
o que seria esse Laboratório Nacional
de Tecnologia Industrial, se seria do porte
do ITRI [Industrial Technology Research
Institute] de Taiwan - o ITRI é gigantesco.
Quando estive lá, já faz algum
tempo, eram seis mil funcionários,
cobrindo todos os setores industriais de
interesse de Taiwan; eles tinham acabado
de desovar toda uma empresa nova de lá
de dentro. É impressionante: eles
dominaram a tecnologia da litografia em
escala de 0,25 microns dentro do ITRI, simultaneamente
com as grandes empresas do setor no mundo;
e aí desovaram 500 ou 600 pessoas.
Eles aprenderam a fazer a tecnologia dentro
desse instituto e criaram uma grande empresa
- não uma spin-off de dois ou três
gatos pingados, mas um negócio enorme.
O ITRI, então, seria um modelo possível
para esse laboratório. Mas Taiwan
é um país pequeno; concentrar
todos os recursos numa grande instituição
é perfeitamente factível.
No Brasil é mais complicado.
O ITRI
cobre várias áreas industriais...
É verdade. Mas começamos a
pensar qual seria o foco - um laboratório
que queira fazer tudo não vai fazer
nada. Imaginamos então que o foco
deveria estar nas áreas portadoras
de futuro; propusemos ao ministro Eduardo
Campos que levasse ao Conselho Nacional
de Desenvolvimento Industrial a sugestão
de constituir um grupo de trabalho e encarregá-lo
de produzir um relatório sobre isto.
Constituímos o grupo de trabalho
com três empresários, três
representantes do governo, um de cada um
dos principais ministérios envolvidos,
e três representantes da comunidade
acadêmica. Nesse meio tempo, em outubro,
fiz uma apresentação rápida
sobre nanotecnologia para o presidente Lula.
Glauco Arbix, do Ipea, e o ministro Gushiken,
estavam lá; e insistiram muito para
que o presidente comprasse a idéia
de lançar um "Programa Nacional
de Nanotecnologia" como uma marca de
governo. O presidente pediu mais informação
para tomar uma decisão. O grupo de
trabalho esboçou então não
um plano, mas um roteiro, que é esse
relatório entregue ao ministro Eduardo
Campos na terceira semana de novembro, e
que deve ser objeto de apreciação
pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento
Industrial no começo do próximo
ano.
O que
está escrito no relatório?
O relatório sugere ao presidente
que a questão da nanotecnologia merece
o carinho dele. Em primeiro lugar, propõe
uma ênfase na questão de educação
em nanotecnologia, em todos os níveis
- da escola secundária, passando
pela escola técnica, pela graduação
e, certamente, na pós-graduação.
Na educação
formal, portanto.
Sim, incluída aí a educação
técnica. Em segundo lugar, propomos
que seja dada ênfase a projetos cooperativos
com empresas, ao desenvolvimento de novos
produtos e processos. Terceiro, que seja
mantido ou expandido ou rearticulado o programa
das Redes em Nanotecnologia; e que centros
regionais como o Ceitec sejam apoiados.
Mas o
Ceitec vai se voltar para nanotecnologia?
O relatório reconhece que não
é conveniente para o Brasil que se
faça uma clivagem absoluta entre
micro e nanoeletrônica. Isso deve
ser tratado como um contínuo; certas
ações focadas na área
de microeletrônica são indispensáveis
para alguns setores de nano funcionarem
no futuro.
Qual
é a missão do Ceitec, no seu
entender? Fazer protótipos de circuitos
integrados, fabricar chips?
As dimensões do Ceitec não
permitem grandes ambições.
No fundo, ele vai ser o centro de treinamento
de recursos humanos, com capacidade para
produzir protótipos de chips
e pequenas séries. O ideal seria
que funcionasse 24 horas por dia, 365 dias
por ano. Mas, para isso, precisa de clientes.
O Ceitec poderá produzir 10 mil,
50 mil peças. Disseram-me, por exemplo,
que quando uma companhia quer lançar
um novo produto, muitas vezes o número
de peças que ela precisa para fazer
os testes é dessa ordem, entre 10
e 50 mil.
Mas a
tecnologia da planta a ser instalada não
é obsoleta?
No momento sim, na medida em que aquilo
está completamente parado. Agora,
se o projeto ganhar velocidade, abre-se
a perspectiva de 'desobsoletizar' aquela
tecnologia - parceiros podem se interessar
e fazer o upgrade do que está
lá. O que me preocupa não
é isso; é conseguir R$ 120
milhões nos próximos 18 meses
para tudo funcionar. Esses R$ 50 milhões
em 2005 cobrem o necessário para
as obras. De fato, com mais R$ 70 milhões,
o presidente Lula poderia ir lá em
2006 e inaugurar o Centro em funcionamento.
O Ceitec
funcionar terá impacto na economia?
Isso vai depender de outras articulações.
Por si só, a continuar, como diriam
os economistas, ceteris paribus [o
restante do mesmo jeito que está],
o Ceitec não terá impacto.
O que estamos tentando fazer, no contexto
da ambiciosa política industrial,
é trazer alguma coisa mais consistente
de indústria de microeletrônica
para o País. Minas Gerais está
se movimentando pesadamente para trazer
uma indústria. O número que
vi, de investimento previsto da indústria,
é de U$ 600 milhões. Uma consultoria
privada foi contratada para elaborar o projeto;
e sairá a campo para encontrar os
investidores. Se isso acontecer; se reativarmos
a formação de pessoal em microeletrônica
na Unicamp, na USP, nas federais de Pernambuco
e do Rio Grande do Sul; com o Ceitec para
fazer prototipagem, para fazer pequenas
séries, para treinar mão de
obra, começa a ser criado um ecossistema
que, uma vez colocado em marcha, pode-se
imaginar, terá uma evolução
determinada pelo mercado e por políticas
governamentais que vierem a se estabelecer
no futuro.
Mas voltemos
ao relatório.
Sim. Finalmente, propomos um roteiro para
a implantação de um Laboratório
Nacional de Nano e Microeletrônica,
que ainda não posso comentar em detalhes.
A proposta envolve um processo de consulta
mais ampla e, eventualmente, um processo
de competição, com financiamento
prévio, pelo MCT, de estudos de viabilidade
técnico-financeira. Entretanto, como
tudo isto depende da aprovação
do ministro, do Conselho e, em última
instância, do próprio presidente
Lula, prefiro não falar disso neste
momento.
Seria
um laboratório como o Laboratório
Nacional de Luz Síncrotron?
Seria um laboratório nacional, aberto
aos pesquisadores, engenheiros e técnicos
de centros de pesquisa públicos e
privados.
Quanto
dinheiro?
Quanto dinheiro... Bom, em 2005, para projetos
cooperativos, para as redes e principalmente
para o Ceitec - porque as outras coisas
ainda vão ser pequenas -, estamos
pedindo R$ 130 milhões. O Ceitec
vai precisar de uns R$ 50 milhões
no ano que vem e mais em 2006. Entendo que
o governo deve terminar o Ceitec até
lá, porque não vai dar tempo
de terminar o laboratório nacional,
que ficará para o próximo
governo. Quer dizer: o governo deixará
um bom projeto para o laboratório
na mesa, bem discutido, bem arquitetado;
e termina o Ceitec.
Em 2005,
o senhor pretende chegar até que
fase do projeto do laboratório nacional?
Até o projeto. O essencial é
ter um bom projeto e reconhecer que estamos
falando aqui da sustentabilidade em um prazo
de cinco, dez anos. Não é
para amanhã. Em 2006, tem que acabar
é o Ceitec.
Esses
R$ 130 milhões estão previstos
no orçamento?
Não inteiramente. No orçamento
da União temos, só no MCT,
cerca de R$ 20 milhões. O ministro
Eduardo Campos assumiu compromisso com a
liberação de parte dos recursos
adicionais pelos fundos setoriais. Eu diria
que 50% desses recursos estão garantidos
nesta altura. Mas, em um programa nacional
haverá outros ministérios
envolvidos, que aportarão contribuições
adicionais. É uma decisão
política. Para que isso aconteça,
é preciso que alguém de alto
nível diga: vamos fazer. Para não
ficar só nos planos futuros, nesse
ano de 2004 resolvemos dar ênfase
aos projetos cooperativos. Mais de 50% dos
recursos foram para financiá-los.
Foram dois editais: um do CNPq (Leia
mais) e um da Finep. Tivemos
projetos de muito boa qualidade. Pusemos
também um pouco de recursos em um
outro edital, sobre questões éticas
e eventuais problemas ambientais na área
da nanotecnologia.
O que
aconteceu, neste ano, com as redes de pesquisa
em nanotecnologia do CNPq?
Há quatro redes, criadas em 2001,
numa época em que não se tinha
a menor idéia do que seria a demanda
de pesquisa, se haveria demanda, o que existia.
Elas terminaram não sendo, com raras
exceções, redes de pesquisa;
são redes de financiamento à
pesquisa. O que quero dizer é o seguinte:
não foram redes estruturadas em torno
de um produto a ser entregue, como, por
exemplo, as redes de genômica. Se
há um produto claramente definido,
no contrato a ser entregue, é possível
saber a quantas anda a rede. O ministro
decidiu que as redes devem ser reformuladas,
com uma governança mais clara. As
redes existentes, então, terminam
o ano que vem. O ministro já assinou
uma portaria, definindo um programa de redes,
com um conselho diretor, no qual terão
assento empresários e acadêmicos.
Esse conselho diretor vai ter a competência
para definir a estratégia do programa
de redes. Os editais vão requerer
que as redes sejam focadas, com duração
bem definida, de no máximo quatro
anos. Esperamos, a partir daí, poder
colocar recursos de verdade nas redes.
Quantas
redes serão formadas?
Vai depender de conseguirmos esse dinheiro
adicional. Redes de muita boa qualidade,
financiadas em termos das suas necessidades
básicas, requerem em torno de R$
1 milhão por ano cada uma. Além
desses recursos, é preciso outra
linha de financiamento para as redes para
equipamentos de maior porte. Idealmente,
em uma rede com excelentes projetos, com
pessoal de qualidade, deveríamos
injetar nela talvez mais US$ 2 milhões
num ano, para os pesquisadores se equiparem
com o que há de melhor na praça.
Manteríamos as redes na sua estrutura
básica, e injetaríamos a infra-estrutura
para projetos. Mas, para esta segunda parte,
não temos ainda recursos. Para as
redes, a intenção é
que esse edital saia em janeiro.
Já
há recursos para isso?
Temos recursos orçamentários,
cerca de R$ 10 milhões. Não
é uma fortuna, mas dá para
fazer alguma coisa.
E as
redes atuais?
Elas podem se reestruturar para concorrer
de novo.
Quanto
dinheiro foi investido nelas?
Calculo R$ 8 milhões, desde 2001.
Qual
será o destino dos Institutos do
Milênio na área de nanociências
e materiais?
Também vão acabar, e vai ser
lançado um novo edital. A duração
inicial prevista para eles era de três
anos. Haverá nova competição,
quem for bom, ganha de novo, quem não
for desaparece e dá oportunidade
para outros.
Que lugar
o senhor acha que será ocupado, quando
se trata de nanotecnologia, pelo LNLS?
Em primeiro lugar, ao contrário do
que se pensa, não faço o lobby
do LNLS no governo [Cylon foi diretor do
LNLS por 15 anos]. Mas a infra-estrutura
que existe aqui [a entrevista foi realizada
no LNLS] é única no País,
o que deve ser reforçado no contexto
de um Programa Nacional de Nanotecnologia.
Mas a concretização disso
vai depender muito da capacidade do laboratório
em apresentar um projeto, não vai
cair de graça no colo do laboratório
"porque o Cylon está no MCT".
E a questão
da educação em nanotecnologia?
Temos a proposta da Nanoaventura (Leia
mais), que está no
começo. Para a pós-graduação,
há uma proposta de pesquisadores
do Rio Grande do Sul de criar um doutorado
nacional em nano. Meu sonho é o seguinte:
se o aluno está inscrito na pós
graduação, em qualquer universidade,
pode cursar as suas disciplinas, para crédito
no curso em que está matriculado,
em qualquer outro curso que tenha - digamos
- nota acima de cinco na Capes. Se conseguíssemos
fazer isso, poderíamos começar
a falar na existência de uma pós-graduação
nacional. A única maneira de existir
um doutorado nacional em nanotecnologia
é implantando um sistema desses -
por causa da interdisciplinaridade. Do ponto
de vista de educação no País,
seria um tremendo avanço. Há
um certo número de cabeças
pensantes, da melhor qualidade, preocupadas
com esta questão; por isso, alguma
coisa tende a acontecer nos próximos
anos, sobretudo, se houver dinheiro.
O senhor
pensa numa articulação com
outras instâncias, as fundações
de amparo à pesquisa, outros órgãos
do governo?
Mais importante que isso é a
articulação no setor privado.
Sem a participação e o interesse
do setor privado, vamos fazer o quê?
Injetar mais dinheiro na academia, por si
só, não vai mudar nada do
ponto de vista do País. O ganho será
muito pequeno em relação ao
investimento. A mobilização
do setor privado está começando.
Já se percebe que os empresários
estão querendo saber o que é
nanotecnologia, como vai afetá-los.
Por exemplo: dei uma palestra sobre nanotecnologia
para o Conselho Nacional de Desenvolvimento
Industrial, com a presença de empresários
como Jorge Gerdau, Eugênio Staub.
O Gerdau até veio me procurar depois
da palestra. Recentemente, dei uma palestra
para os executivos e diretores do Grupo
Algar, uma centena de pessoas, de um dos
melhores grupos empresariais do País.
O senhor
mencionou que considera as redes de pesquisa
em nanotecnologia desfocadas. Mas o Brasil
produz 2,9% da produção científica
mundial de nanotecnologia, de acordo com
um dos relatórios contratados pelo
CGEE sobre o assunto, de autoria do pesquisador
Osvaldo Luiz Alves, do Instituto de Química
da Unicamp. Esse percentual é o dobro
do percentual da participação
brasileira na produção científica
em todas as áreas - 1,44
% para 2001. Essa produção
não é resultado do investimento
das redes?
Não apenas nas redes, porque esse
tipo de resposta não é obtida
em ciência no espaço de dois
a três anos. Isso é resultado
de investimentos que foram feitos ao longo
de muitos anos. Como diz Henrique Toma (do
Instituto de Química da USP), se
não fosse por alguns laboratórios
estratégicos, já montados,
as redes não teriam sido capazes
de dar essa resposta. Olhando a curva da
produção brasileira, não
se percebe um aumento expressivo a partir
de 2001, quando as redes foram criadas.
Não estou menosprezando a contribuição
das redes, tanto que trabalhei para dar
continuidade ao programa, mas é preciso
ter uma certa dose de realismo nas nossas
avaliações. A questão
da qualidade, mais do que a quantidade,
continua central.
Leia também as
outras duas partes da entrevista de Cylon
Gonçalves:
Biotecnologia
Fórum
tem até outubro de 2005 para preparar
política industrial;
em recursos humanos, há divórcio
entre oferta e demanda
Amazônia
MCT
quer articular programas existentes, investir
em cadeias
tecnoprodutivas para o desenvolvimento,
e criar nova governança
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