.ENTREVISTA
..Publicada em 16 de dezembro 2004

Cylon Gonçalves, secretário do MCT, apresenta planos para 2005 - Nanotecnologia

Grupo de Trabalho apresenta projeto para um Programa Nacional
de Nanotecnologia; implantação custaria R$ 130 milhões em 2005

Entrevista a Mônica Teixeira

O senhor está envolvido com iniciativas para a área de nanotecnologia desde o governo passado. Como a questão foi encaminhada em 2004?
Quando cheguei a Brasília, em meados de março de 2004, encontrei a notícia de que em breve o governo anunciaria a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior. Fui ao lançamento das medidas, no dia 31 de março; até com certa surpresa, vi nas transparências do ministro Furlan aparecer a nanotecnologia como uma área "portadora de futuro" e a proposta da criação de um "Laboratório Nacional de Tecnologia Industrial". Alguns dias depois, fui procurado pelo Edmundo Oliveira [assessor especial do Ministro da Fazenda. Leia entrevista] e pelo Mário Salerno [diretor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea. Leia Íntegra], que estavam montando a política industrial, para conversar sobre nano e biotecnologia e também, mais perifericamente, sobre semicondutores. Nano e biotecnologia são áreas da minha secretaria.

A Secretaria de Política e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento.
Isso. Semicondutores é assunto da Secretaria de Política de Informática e Tecnologia, mas, por razões várias, acabei me envolvendo com a questão do Ceitec [Centro de Excelência em Tecnologia Avançada - Leia mais], do Rio Grande do Sul. O anúncio da política industrial nos colocou a questão de como transformar o Centro em realidade. O ministro Eduardo Campos assumiu com o governo o compromisso de alocar recursos do MCT para atividades da política industrial. Das discussões entre mim, Edmundo e Mário surgiram várias ações.

Gostaria que o senhor começasse por nanotecnologia.
Começamos pela discussão sobre o que seria esse Laboratório Nacional de Tecnologia Industrial, se seria do porte do ITRI [Industrial Technology Research Institute] de Taiwan - o ITRI é gigantesco. Quando estive lá, já faz algum tempo, eram seis mil funcionários, cobrindo todos os setores industriais de interesse de Taiwan; eles tinham acabado de desovar toda uma empresa nova de lá de dentro. É impressionante: eles dominaram a tecnologia da litografia em escala de 0,25 microns dentro do ITRI, simultaneamente com as grandes empresas do setor no mundo; e aí desovaram 500 ou 600 pessoas. Eles aprenderam a fazer a tecnologia dentro desse instituto e criaram uma grande empresa - não uma spin-off de dois ou três gatos pingados, mas um negócio enorme. O ITRI, então, seria um modelo possível para esse laboratório. Mas Taiwan é um país pequeno; concentrar todos os recursos numa grande instituição é perfeitamente factível. No Brasil é mais complicado.

O ITRI cobre várias áreas industriais...
É verdade. Mas começamos a pensar qual seria o foco - um laboratório que queira fazer tudo não vai fazer nada. Imaginamos então que o foco deveria estar nas áreas portadoras de futuro; propusemos ao ministro Eduardo Campos que levasse ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial a sugestão de constituir um grupo de trabalho e encarregá-lo de produzir um relatório sobre isto. Constituímos o grupo de trabalho com três empresários, três representantes do governo, um de cada um dos principais ministérios envolvidos, e três representantes da comunidade acadêmica. Nesse meio tempo, em outubro, fiz uma apresentação rápida sobre nanotecnologia para o presidente Lula. Glauco Arbix, do Ipea, e o ministro Gushiken, estavam lá; e insistiram muito para que o presidente comprasse a idéia de lançar um "Programa Nacional de Nanotecnologia" como uma marca de governo. O presidente pediu mais informação para tomar uma decisão. O grupo de trabalho esboçou então não um plano, mas um roteiro, que é esse relatório entregue ao ministro Eduardo Campos na terceira semana de novembro, e que deve ser objeto de apreciação pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial no começo do próximo ano.

O que está escrito no relatório?
O relatório sugere ao presidente que a questão da nanotecnologia merece o carinho dele. Em primeiro lugar, propõe uma ênfase na questão de educação em nanotecnologia, em todos os níveis - da escola secundária, passando pela escola técnica, pela graduação e, certamente, na pós-graduação.

Na educação formal, portanto.
Sim, incluída aí a educação técnica. Em segundo lugar, propomos que seja dada ênfase a projetos cooperativos com empresas, ao desenvolvimento de novos produtos e processos. Terceiro, que seja mantido ou expandido ou rearticulado o programa das Redes em Nanotecnologia; e que centros regionais como o Ceitec sejam apoiados.

Mas o Ceitec vai se voltar para nanotecnologia?
O relatório reconhece que não é conveniente para o Brasil que se faça uma clivagem absoluta entre micro e nanoeletrônica. Isso deve ser tratado como um contínuo; certas ações focadas na área de microeletrônica são indispensáveis para alguns setores de nano funcionarem no futuro.

Qual é a missão do Ceitec, no seu entender? Fazer protótipos de circuitos integrados, fabricar chips?
As dimensões do Ceitec não permitem grandes ambições. No fundo, ele vai ser o centro de treinamento de recursos humanos, com capacidade para produzir protótipos de chips e pequenas séries. O ideal seria que funcionasse 24 horas por dia, 365 dias por ano. Mas, para isso, precisa de clientes. O Ceitec poderá produzir 10 mil, 50 mil peças. Disseram-me, por exemplo, que quando uma companhia quer lançar um novo produto, muitas vezes o número de peças que ela precisa para fazer os testes é dessa ordem, entre 10 e 50 mil.

Mas a tecnologia da planta a ser instalada não é obsoleta?
No momento sim, na medida em que aquilo está completamente parado. Agora, se o projeto ganhar velocidade, abre-se a perspectiva de 'desobsoletizar' aquela tecnologia - parceiros podem se interessar e fazer o upgrade do que está lá. O que me preocupa não é isso; é conseguir R$ 120 milhões nos próximos 18 meses para tudo funcionar. Esses R$ 50 milhões em 2005 cobrem o necessário para as obras. De fato, com mais R$ 70 milhões, o presidente Lula poderia ir lá em 2006 e inaugurar o Centro em funcionamento.

O Ceitec funcionar terá impacto na economia?
Isso vai depender de outras articulações. Por si só, a continuar, como diriam os economistas, ceteris paribus [o restante do mesmo jeito que está], o Ceitec não terá impacto. O que estamos tentando fazer, no contexto da ambiciosa política industrial, é trazer alguma coisa mais consistente de indústria de microeletrônica para o País. Minas Gerais está se movimentando pesadamente para trazer uma indústria. O número que vi, de investimento previsto da indústria, é de U$ 600 milhões. Uma consultoria privada foi contratada para elaborar o projeto; e sairá a campo para encontrar os investidores. Se isso acontecer; se reativarmos a formação de pessoal em microeletrônica na Unicamp, na USP, nas federais de Pernambuco e do Rio Grande do Sul; com o Ceitec para fazer prototipagem, para fazer pequenas séries, para treinar mão de obra, começa a ser criado um ecossistema que, uma vez colocado em marcha, pode-se imaginar, terá uma evolução determinada pelo mercado e por políticas governamentais que vierem a se estabelecer no futuro.

Mas voltemos ao relatório.
Sim. Finalmente, propomos um roteiro para a implantação de um Laboratório Nacional de Nano e Microeletrônica, que ainda não posso comentar em detalhes. A proposta envolve um processo de consulta mais ampla e, eventualmente, um processo de competição, com financiamento prévio, pelo MCT, de estudos de viabilidade técnico-financeira. Entretanto, como tudo isto depende da aprovação do ministro, do Conselho e, em última instância, do próprio presidente Lula, prefiro não falar disso neste momento.

Seria um laboratório como o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron?
Seria um laboratório nacional, aberto aos pesquisadores, engenheiros e técnicos de centros de pesquisa públicos e privados.

Quanto dinheiro?
Quanto dinheiro... Bom, em 2005, para projetos cooperativos, para as redes e principalmente para o Ceitec - porque as outras coisas ainda vão ser pequenas -, estamos pedindo R$ 130 milhões. O Ceitec vai precisar de uns R$ 50 milhões no ano que vem e mais em 2006. Entendo que o governo deve terminar o Ceitec até lá, porque não vai dar tempo de terminar o laboratório nacional, que ficará para o próximo governo. Quer dizer: o governo deixará um bom projeto para o laboratório na mesa, bem discutido, bem arquitetado; e termina o Ceitec.

Em 2005, o senhor pretende chegar até que fase do projeto do laboratório nacional?
Até o projeto. O essencial é ter um bom projeto e reconhecer que estamos falando aqui da sustentabilidade em um prazo de cinco, dez anos. Não é para amanhã. Em 2006, tem que acabar é o Ceitec.

Esses R$ 130 milhões estão previstos no orçamento?
Não inteiramente. No orçamento da União temos, só no MCT, cerca de R$ 20 milhões. O ministro Eduardo Campos assumiu compromisso com a liberação de parte dos recursos adicionais pelos fundos setoriais. Eu diria que 50% desses recursos estão garantidos nesta altura. Mas, em um programa nacional haverá outros ministérios envolvidos, que aportarão contribuições adicionais. É uma decisão política. Para que isso aconteça, é preciso que alguém de alto nível diga: vamos fazer. Para não ficar só nos planos futuros, nesse ano de 2004 resolvemos dar ênfase aos projetos cooperativos. Mais de 50% dos recursos foram para financiá-los. Foram dois editais: um do CNPq (Leia mais) e um da Finep. Tivemos projetos de muito boa qualidade. Pusemos também um pouco de recursos em um outro edital, sobre questões éticas e eventuais problemas ambientais na área da nanotecnologia.

O que aconteceu, neste ano, com as redes de pesquisa em nanotecnologia do CNPq?
Há quatro redes, criadas em 2001, numa época em que não se tinha a menor idéia do que seria a demanda de pesquisa, se haveria demanda, o que existia. Elas terminaram não sendo, com raras exceções, redes de pesquisa; são redes de financiamento à pesquisa. O que quero dizer é o seguinte: não foram redes estruturadas em torno de um produto a ser entregue, como, por exemplo, as redes de genômica. Se há um produto claramente definido, no contrato a ser entregue, é possível saber a quantas anda a rede. O ministro decidiu que as redes devem ser reformuladas, com uma governança mais clara. As redes existentes, então, terminam o ano que vem. O ministro já assinou uma portaria, definindo um programa de redes, com um conselho diretor, no qual terão assento empresários e acadêmicos. Esse conselho diretor vai ter a competência para definir a estratégia do programa de redes. Os editais vão requerer que as redes sejam focadas, com duração bem definida, de no máximo quatro anos. Esperamos, a partir daí, poder colocar recursos de verdade nas redes.

Quantas redes serão formadas?
Vai depender de conseguirmos esse dinheiro adicional. Redes de muita boa qualidade, financiadas em termos das suas necessidades básicas, requerem em torno de R$ 1 milhão por ano cada uma. Além desses recursos, é preciso outra linha de financiamento para as redes para equipamentos de maior porte. Idealmente, em uma rede com excelentes projetos, com pessoal de qualidade, deveríamos injetar nela talvez mais US$ 2 milhões num ano, para os pesquisadores se equiparem com o que há de melhor na praça. Manteríamos as redes na sua estrutura básica, e injetaríamos a infra-estrutura para projetos. Mas, para esta segunda parte, não temos ainda recursos. Para as redes, a intenção é que esse edital saia em janeiro.

Já há recursos para isso?
Temos recursos orçamentários, cerca de R$ 10 milhões. Não é uma fortuna, mas dá para fazer alguma coisa.

E as redes atuais?
Elas podem se reestruturar para concorrer de novo.

Quanto dinheiro foi investido nelas?
Calculo R$ 8 milhões, desde 2001.

Qual será o destino dos Institutos do Milênio na área de nanociências e materiais?
Também vão acabar, e vai ser lançado um novo edital. A duração inicial prevista para eles era de três anos. Haverá nova competição, quem for bom, ganha de novo, quem não for desaparece e dá oportunidade para outros.

Que lugar o senhor acha que será ocupado, quando se trata de nanotecnologia, pelo LNLS?
Em primeiro lugar, ao contrário do que se pensa, não faço o lobby do LNLS no governo [Cylon foi diretor do LNLS por 15 anos]. Mas a infra-estrutura que existe aqui [a entrevista foi realizada no LNLS] é única no País, o que deve ser reforçado no contexto de um Programa Nacional de Nanotecnologia. Mas a concretização disso vai depender muito da capacidade do laboratório em apresentar um projeto, não vai cair de graça no colo do laboratório "porque o Cylon está no MCT".

E a questão da educação em nanotecnologia?
Temos a proposta da Nanoaventura (Leia mais), que está no começo. Para a pós-graduação, há uma proposta de pesquisadores do Rio Grande do Sul de criar um doutorado nacional em nano. Meu sonho é o seguinte: se o aluno está inscrito na pós graduação, em qualquer universidade, pode cursar as suas disciplinas, para crédito no curso em que está matriculado, em qualquer outro curso que tenha - digamos - nota acima de cinco na Capes. Se conseguíssemos fazer isso, poderíamos começar a falar na existência de uma pós-graduação nacional. A única maneira de existir um doutorado nacional em nanotecnologia é implantando um sistema desses - por causa da interdisciplinaridade. Do ponto de vista de educação no País, seria um tremendo avanço. Há um certo número de cabeças pensantes, da melhor qualidade, preocupadas com esta questão; por isso, alguma coisa tende a acontecer nos próximos anos, sobretudo, se houver dinheiro.

O senhor pensa numa articulação com outras instâncias, as fundações de amparo à pesquisa, outros órgãos do governo?
Mais importante que isso é a articulação no setor privado. Sem a participação e o interesse do setor privado, vamos fazer o quê? Injetar mais dinheiro na academia, por si só, não vai mudar nada do ponto de vista do País. O ganho será muito pequeno em relação ao investimento. A mobilização do setor privado está começando. Já se percebe que os empresários estão querendo saber o que é nanotecnologia, como vai afetá-los. Por exemplo: dei uma palestra sobre nanotecnologia para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial, com a presença de empresários como Jorge Gerdau, Eugênio Staub. O Gerdau até veio me procurar depois da palestra. Recentemente, dei uma palestra para os executivos e diretores do Grupo Algar, uma centena de pessoas, de um dos melhores grupos empresariais do País.

O senhor mencionou que considera as redes de pesquisa em nanotecnologia desfocadas. Mas o Brasil produz 2,9% da produção científica mundial de nanotecnologia, de acordo com um dos relatórios contratados pelo CGEE sobre o assunto, de autoria do pesquisador Osvaldo Luiz Alves, do Instituto de Química da Unicamp. Esse percentual é o dobro do percentual da participação brasileira na produção científica em todas as áreas - 1,44 % para 2001. Essa produção não é resultado do investimento das redes?
Não apenas nas redes, porque esse tipo de resposta não é obtida em ciência no espaço de dois a três anos. Isso é resultado de investimentos que foram feitos ao longo de muitos anos. Como diz Henrique Toma (do Instituto de Química da USP), se não fosse por alguns laboratórios estratégicos, já montados, as redes não teriam sido capazes de dar essa resposta. Olhando a curva da produção brasileira, não se percebe um aumento expressivo a partir de 2001, quando as redes foram criadas. Não estou menosprezando a contribuição das redes, tanto que trabalhei para dar continuidade ao programa, mas é preciso ter uma certa dose de realismo nas nossas avaliações. A questão da qualidade, mais do que a quantidade, continua central.

Leia também as outras duas partes da entrevista de Cylon Gonçalves:

Biotecnologia
Fórum tem até outubro de 2005 para preparar política industrial;
em recursos humanos, há divórcio entre oferta e demanda

Amazônia
MCT quer articular programas existentes, investir em cadeias
tecnoprodutivas para o desenvolvimento, e criar nova governança

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