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.ENTREVISTA
..Publicada em 16 de dezembro 2004

Cylon Gonçalves, secretário do MCT, apresenta planos para 2005 - Biotecnologia

Fórum tem até outubro de 2005 para preparar política industrial;
em recursos humanos, há divórcio entre oferta e demanda

Entrevista a Mônica Teixeira

Biotecnologia é setor 'portador de futuro' da política industrial. Como está sendo tratada?
A estratégia para biotecnologia é completamente diferente. Existe muito mais de biotecnologia no Brasil, em termos industriais e empresariais, do que nanotecnologia. Decidimos pela criação do fórum de competitividade, no âmbito do Ministério do Desenvolvimento (MDIC). Só que é um fórum de competitividade diferente dos fóruns de competitividade tradicionais do MDIC - que reúnem cadeias produtivas. O caráter diferente é dado pelo fato de o Fórum ter data de validade: vai durar exatamente um ano. No final desse ano - outubro de 2005, o fórum produzirá um documento, uma espécie de livro branco para a indústria biotecnológica brasileira. A partir desse documento, a pergunta será então: o que o governo precisa fazer para implementar as recomendações do Fórum?

Como o Fórum está estruturado?
Em tópicos que chamamos de "pilares de sustentabilidade", que têm a ver com o mercado. São eles: marcos regulatórios, e agências reguladoras: se o País não tiver um sistema regulatório competitivo internacionalmente, não tem como a indústria ser competitiva internacionalmente.

Lei de Biossegurança é um desses marcos.
Sim. As articulações da Lei de Acesso ao Patrimônio Genético, que está na Casa Civil, também estão passando pelo Fórum. O segundo ponto: investimentos. É preciso criar mecanismos de investimento para esse setor industrial que sejam competitivos do ponto de vista nacional. O terceiro pilar de sustentabilidade é a questão de recursos humanos e infra-estrutura. É necessário existir um sistema capaz de atender as demandas de RH dessa indústria. Do ponto de vista do mercado, a gente organizou em três: biotecnologia aplicada à agropecuária, biotecnologia aplicada a saúde humana, e biotecnologia aplicada a outros setores industriais - biocombustíveis, meio-ambiente, indústria química. Cada um desses pilares de sustentabilidade tem um coordenador que é do governo - marcos regulatórios ficou com o Roberto Jaguaribe, investimentos ficou com o Aluísio Asti, economista do BNDES, recursos humanos e infra-estrutura, ficaram comigo. Nos outros, procurou-se fazer uma dobradinha de governo e setor privado: agropecuária ficou com a Embrapa e com o Américo Craveiro,da Vallée; saúde humana, ficou com o Ministério da Saúde e com o Guilherme Emrich, que foi um dos criadores da Biobrás; indústria química ficou com o MDIC e com o Kurt Politzer, das Indústrias Químicas Taubaté.

E na área acadêmica?
O de sempre: fomento, projetos, cooperação internacional - nada que saia da rotina.

Centro de Biotecnologia da Amazônia: qual é sua avaliação?
Primeiro, quero dizer que o CBA não está na minha secretaria. O CBA originalmente era uma ação tripartite: MCT, Meio Ambiente e MDIC. No papel, continua a ser tripartite, e essa é uma das razões pelas quais aquilo não anda: se com um ministério só já é difícil, imagine com três. Mas eu estive lá, e devo dizer que não acreditava no CBA. Aquilo tinha tudo para dar errado, por causa da forma como foi feito: uma implantação teleguiada,; um prédio antes dos recursos humanos, não se começa um laboratório com prédio e sim com neurônios. Prédios vêm depois. Por isso, na minha opinião, o CBA tinha tudo para dar errado, e ainda tem, especialmente se a questão institucional não for resolvida rapidamente. Mas, o Imar Araújo, da Suframa, mudou minha opinião sobre o Centro. Se ele tiver apoio para implementar seus planos, o CBA dá a volta por cima. E, o mais triste, é que o problema não é dinheiro. É criar uma instituição instrumentada organizacionalmente para enfrentar os desafios da inovação. No momento, só existem as organizações sociais com este perfil.


Só haverá uma política industrial para biotecnologia formulada em outubro de 2005?
Sim e não. Não vamos esperar o Fórum terminar para ter ações. A Lei de Biossegurança tem tudo a ver com isso, assim como a Lei do Acesso ao Patrimônio Genético; são assuntos que estão sendo trabalhados no momento; também a questão de instrumentos de financiamento para indústrias de base tecnológica está sendo encaminhada. O Fórum é um exercício conceitual, mas é também um instrumento para irmos fazendo o que é óbvio que tem que ser feito: não vamos esperar assinar o papel para começar a trabalhar.

O que é óbvio em infra-estrutura e recursos humanos?
A coisa mais óbvia é que não sabemos o que precisamos. Como aliás nos outros setores de ciência e tecnologia, o País conhece a oferta, mas não conhece a demanda. Nos próximos meses, faremos um levantamento sistemático e organizado da demanda, para saber se o perfil da oferta e o perfil da demanda casam. Suspeito que não casem. Se não casam, a pergunta é como poderemos atuar sobre a oferta, que sabemos fazer, para casar os perfis.

Por que a suspeita de que demanda e oferta não se casam?
Do pouco que tenho ouvido do pessoal de empresas, não estamos formando as pessoas com o perfil profissional que precisam.

O que ele precisam?
Emergencialmente, parece faltar gente na área de certificação de produtos e na área de gestão de tecnologia. Nós formamos doutores, gente que sabe ler DNA, mas quando se chega naquelas coisas que não são assim tão charmosas, mas que são fundamentais para a indústria, aí falta gente.

Leia também as outras duas partes da entrevista de Cylon Gonçalves:

Nanotecnologia
Grupo de Trabalho apresenta projeto para um Programa Nacional
de Nanotecnologia; implantação custaria R$ 130 milhões em 2005

Amazônia
MCT quer articular programas existentes, investir em cadeias
tecnoprodutivas para o desenvolvimento, e criar nova governança

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