| Cylon Gonçalves, secretário
do MCT, apresenta planos para 2005 - Biotecnologia
Fórum tem até
outubro de 2005 para preparar política
industrial;
em recursos humanos, há divórcio
entre oferta e demanda
Entrevista a Mônica
Teixeira
Biotecnologia
é setor 'portador de futuro' da política
industrial. Como está sendo tratada?
A estratégia para biotecnologia é
completamente diferente. Existe muito mais
de biotecnologia no Brasil, em termos industriais
e empresariais, do que nanotecnologia. Decidimos
pela criação do fórum
de competitividade, no âmbito do Ministério
do Desenvolvimento (MDIC). Só que
é um fórum de competitividade
diferente dos fóruns de competitividade
tradicionais do MDIC - que reúnem
cadeias produtivas. O caráter diferente
é dado pelo fato de o Fórum
ter data de validade: vai durar exatamente
um ano. No final desse ano - outubro de
2005, o fórum produzirá um
documento, uma espécie de livro branco
para a indústria biotecnológica
brasileira. A partir desse documento, a
pergunta será então: o que
o governo precisa fazer para implementar
as recomendações do Fórum?
Como
o Fórum está estruturado?
Em tópicos que chamamos de "pilares
de sustentabilidade", que têm
a ver com o mercado. São eles: marcos
regulatórios, e agências reguladoras:
se o País não tiver um sistema
regulatório competitivo internacionalmente,
não tem como a indústria ser
competitiva internacionalmente.
Lei
de Biossegurança é um desses
marcos.
Sim. As articulações da Lei
de Acesso ao Patrimônio Genético,
que está na Casa Civil, também
estão passando pelo Fórum.
O segundo ponto: investimentos. É
preciso criar mecanismos de investimento
para esse setor industrial que sejam competitivos
do ponto de vista nacional. O terceiro pilar
de sustentabilidade é a questão
de recursos humanos e infra-estrutura. É
necessário existir um sistema capaz
de atender as demandas de RH dessa indústria.
Do ponto de vista do mercado, a gente organizou
em três: biotecnologia aplicada à
agropecuária, biotecnologia aplicada
a saúde humana, e biotecnologia aplicada
a outros setores industriais - biocombustíveis,
meio-ambiente, indústria química.
Cada um desses pilares de sustentabilidade
tem um coordenador que é do governo
- marcos regulatórios ficou com o
Roberto Jaguaribe, investimentos ficou com
o Aluísio Asti, economista do BNDES,
recursos humanos e infra-estrutura, ficaram
comigo. Nos outros, procurou-se fazer uma
dobradinha de governo e setor privado: agropecuária
ficou com a Embrapa e com o Américo
Craveiro,da Vallée; saúde
humana, ficou com o Ministério da
Saúde e com o Guilherme Emrich, que
foi um dos criadores da Biobrás;
indústria química ficou com
o MDIC e com o Kurt Politzer, das Indústrias
Químicas Taubaté.
E
na área acadêmica?
O de sempre: fomento, projetos, cooperação
internacional - nada que saia da rotina.
Centro
de Biotecnologia da Amazônia: qual
é sua avaliação?
Primeiro, quero dizer que o CBA não
está na minha secretaria. O CBA originalmente
era uma ação tripartite: MCT,
Meio Ambiente e MDIC. No papel, continua
a ser tripartite, e essa é uma das
razões pelas quais aquilo não
anda: se com um ministério só
já é difícil, imagine
com três. Mas eu estive lá,
e devo dizer que não acreditava no
CBA. Aquilo tinha tudo para dar errado,
por causa da forma como foi feito: uma implantação
teleguiada,; um prédio antes dos
recursos humanos, não se começa
um laboratório com prédio
e sim com neurônios. Prédios
vêm depois. Por isso, na minha opinião,
o CBA tinha tudo para dar errado, e ainda
tem, especialmente se a questão institucional
não for resolvida rapidamente. Mas,
o Imar Araújo, da Suframa, mudou
minha opinião sobre o Centro. Se
ele tiver apoio para implementar seus planos,
o CBA dá a volta por cima. E, o mais
triste, é que o problema não
é dinheiro. É criar uma instituição
instrumentada organizacionalmente para enfrentar
os desafios da inovação. No
momento, só existem as organizações
sociais com este perfil.
Só
haverá uma política industrial
para biotecnologia formulada em outubro
de 2005?
Sim e não. Não vamos esperar
o Fórum terminar para ter ações.
A Lei de Biossegurança tem tudo a
ver com isso, assim como a Lei do Acesso
ao Patrimônio Genético; são
assuntos que estão sendo trabalhados
no momento; também a questão
de instrumentos de financiamento para indústrias
de base tecnológica está sendo
encaminhada. O Fórum é um
exercício conceitual, mas é
também um instrumento para irmos
fazendo o que é óbvio que
tem que ser feito: não vamos esperar
assinar o papel para começar a trabalhar.
O
que é óbvio em infra-estrutura
e recursos humanos?
A coisa mais óbvia é que não
sabemos o que precisamos. Como aliás
nos outros setores de ciência e tecnologia,
o País conhece a oferta, mas não
conhece a demanda. Nos próximos meses,
faremos um levantamento sistemático
e organizado da demanda, para saber se o
perfil da oferta e o perfil da demanda casam.
Suspeito que não casem. Se não
casam, a pergunta é como poderemos
atuar sobre a oferta, que sabemos fazer,
para casar os perfis.
Por
que a suspeita de que demanda e oferta não
se casam?
Do pouco que tenho ouvido do pessoal de
empresas, não estamos formando as
pessoas com o perfil profissional que precisam.
O
que ele precisam?
Emergencialmente, parece faltar gente na
área de certificação
de produtos e na área de gestão
de tecnologia. Nós formamos doutores,
gente que sabe ler DNA, mas quando se chega
naquelas coisas que não são
assim tão charmosas, mas que são
fundamentais para a indústria, aí
falta gente.
Leia também as
outras duas partes da entrevista de Cylon
Gonçalves:
Nanotecnologia
Grupo
de Trabalho apresenta projeto para um Programa
Nacional
de Nanotecnologia; implantação
custaria R$ 130 milhões em 2005
Amazônia
MCT
quer articular programas existentes, investir
em cadeias
tecnoprodutivas para o desenvolvimento,
e criar nova governança
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