| Cylon Gonçalves, secretário
do MCT, apresenta planos para 2005 - Amazônia
MCT quer articular programas
existentes, investir em cadeias tecnoprodutivas
para o desenvolvimento, e criar nova governança
Entrevista a Mônica
Teixeira
Sua
secretaria também cuida de Amazônia...
O que estamos fazendo é tentar articular
melhor os programas já existentes.
Há três programas em andamento;
um outro, que está para ser retomado,
e outro ainda que gostaríamos de
começar. O mais antigo desses programas
é o LBA [Experimento de Grande Escala
da Biosfera-Atmosfera da Amazônia],
que está chegando ao término
de sua vida natural: foi concebido para
durar quatro anos, depois estendido por
mais um, e agora, ainda mais um. A Nasa
está tirando o time de campo, por
varias razões. Estou fazendo minhas
as palavras da professora Bertha Becker
[geógrafa da Universidade Federal
do Rio de Janeiro]: ela diz que o problema
do LBA é uma agenda científica
de fora para dentro. O que estamos tentando
fazer é recapturar essa agenda científica.
Isso passa por redefinir a governança
da LBA; e, obviamente, passa por colocar
dinheiro brasileiro de verdade no programa.
Claro que com a segunda parte está
todo mundo feliz; mas quanto à primeira...
Essa discussão está na agenda
do começo de 2005. O segundo programa
já existente é o Geoma [Rede
Temática de Pesquisa em Modelagem
Ambiental da Amazônia] - o complemento
do LBA.
Complemento
do LBA em que sentido?
A agenda de pesquisa do Geoma foi definida
por nós, pelos pesquisadores da Amazônia,
pelas necessidades das políticas
públicas do País. Começamos
por definir uma governança para o
Geoma - foi a primeira rede redefinida na
secretaria. Houve uma portaria do ministro
que instituiu um conselho diretor, formado
pelos diretores das instituições
envolvidas - ao contrário da LBA,
o Geoma é muito mais institucional
do que uma rede de pesquisadores; um coordenador-executivo,
com responsabilidades executivas - que é
o Peter Toledo, do Museu Goeldi. Fizemos
questão de separar as instâncias
deliberativas das instâncias executivas.
Há também um conselho científico
que assessora o coordenador executivo na
discussão das políticas científicas.
O conselho diretor já foi implantado
e tomou uma decisão muito sábia:
os pesquisadores da rede Geoma terão
que assinar um termo de compromisso, um
decálogo, em que eles assumem que
o programa funciona como uma rede auxiliar
de políticas governamentais, e não
uma rede acadêmica para as pessoas
fazerem o que bem entendem; trata-se de
fazer pesquisa de qualidade em função
de uma agenda que tenha tudo a ver com as
necessidades das políticas. Isso
é uma inovação. Estamos
também injetando recursos.
O
governo já definiu uma agenda para
o programa?
No momento, estão concluindo um relatório
sobre a região do Iriri-Xingu. É
uma daquelas zonas conturbadas, de rápido
desmatamento. Vi uma seqüência
de fotos, é impressionante: no mês
um, é mata; dois meses depois, caiu
a mata, se vê uma clareira de seis
mil hectares; é inacreditável.
Fiquei boquiaberto. Outra linha de ação
é o Programa de Pesquisa de Biodiversidade
(PPBIO). Estamos tentando dar recursos para
a PPBIO, organizá-lo, criar um sistema
de governança. O que vamos precisar?
Do LBA, para a questão de mudanças
climáticas, da interação
da floresta com a atmosfera, dos rios -
enfim, vai precisar dessa visão física,
geoquímica da Amazônia; do
Geoma, para a questão socioambiental,
abastecido das informações
do LBA; e, absolutamente fundamental, precisamos
do PPBIO, porque não dá para
falar dessa região do mundo sem falar
em biodiversidade. O que não existe,
mas estamos tentando criar - não
vai ser fácil, vai demorar - é
a abordagem da questão da costa.
Estamos chamando de "programa Costa
Norte".
O
que seria o Costa Norte?
Basicamente o estudo da região costeira,
da plataforma continental, da interação
do rio com o mar.
Das
espécies marinhas também,
ou não?
De fato, essas espécies vão
para o PPBIO, mas em interação
muito próxima com o Costa Norte.
Um quinto componente que já está
sendo estudado, mas não tem ainda
a visibilidade necessária, e talvez
a gente crie um programa especial para isso,
são os recursos hídricos,
que hoje são um problema.
Por
que é um problema? É um patrimônio...
Há muito pouca ciência sendo
feita nesse capítulo. Hoje, o assunto
está embutido no LBA; mas o foco
é mais a questão de trocas
de carbono, quanto carbono os rios absorvem,
quanto carbono os rios emitem, e obviamente
a questão dos recursos hídricos
é muito mais ampla. A professora
Bertha fez um trabalho sobre os programas,
aprendi muito com ela nesses últimos
meses. No começo de 2005, o estudo
dela vai ser publicado na revista Parcerias
Estratégicas. Mas pedi que ela preparasse,
para entregar ao ministro, um documento-síntese
do estudo, que enfatize menos o diagnóstico
e mais as ações concretas
para os próximos dois anos. Ações
em dois grandes blocos: geração
e gestão do conhecimento, que é
a organização desses vários
programas; e transferência e uso do
conhecimento. Com dois complementos importantes:
colocar o CBA para funcionar; e criar aquilo
que a Bertha chama de cadeias tecnoprodutivas.
Quer dizer, atividade econômica que
vai precisar de tecnologia, que vai precisar
de ciência, voltadas para a produção.
Queremos lançar dois programas pilotos,
um no Pará e outro no Amazonas. Estamos
tentando identificar, com pessoas de lá,
em que cadeias valeria a pena atuar, no
curto prazo, para ter um efeito demonstração.
Por
exemplo.
Por exemplo, produção de frutas
tropicais; ou produção de
biodiesel em unidades autônomas para
ter energia no meio da floresta; ou no setor
madeireiro, a extração sustentável
da madeira até o produto final de
alto valor agregado. Ou a indústria
pesqueira. Vai ser necessário estruturar
desde o extrativista lá no meio da
mata até o exportador que vai colocar
o produto na Europa ou Japão. Ainda
estamos escolhendo. O governo entra para
articular, fomentar, financiar.
Em
cima de atividades já existentes.
Claro. O CBA é parte disso também,
pode vir a ser um elo em várias cadeias
tecnoprodutivas. O segundo ponto desse documento-síntese
seriam ações de médio
e longo prazo. Começando por recursos
humanos: uma política diferenciada,
com instrumentos diferenciados, para atrair
e fixar o pessoal lá. Esses instrumentos
diferenciados passam, por um lado, pela
existência da demanda, e imaginamos
criar a demanda por meio dessas cadeias
tecnoprodutivas; e por outro, realmente
pela diferenciação dos instrumentos
de fomento - uma bolsa no Amazonas deveria
ser maior do que uma bolsa no Rio de Janeiro,
pelo menos até que os indicadores
da região se aproximem da média
nacional. A outra proposta é que
se comece a falar e agir em termos de "Pólo
Científico e Tecnológico e
Industrial" de Manaus, em vez de se
falar apenas "Pólo Industrial"
de Manaus, reforçando o componente
científico e tecnológico.
De novo, o CBA é um elemento, mas
também talvez a parte da indústria
eletrônica, talvez nanotecnologia,
para atrair recursos humanos de qualidade.
Nas ações de médio
e curto prazo, elencamos esses programas
que não existem ainda, como o Costa
Norte, que vai levar um pouco mais de tempo
para desenhar, implantar. Não é
só sacudir a árvore e pegar
o que cai dela.
O senhor falou
de Nanotecnologia, Biotecnologia, Amazônia.
Tem mais?
Há ainda um quarto programa, mais
desafiador, mais incipiente, uma aposta
ainda mais ambiciosa, que é a organização
do sistema nacional de meteorologia. Existe
uma disputa histórica entre o Ministério
da Agricultura, com o Instituto Nacional
de Meteorologia, que sempre teve um foco
muito mais prático, de interagir
com o agricultor, e o Ministério
da Ciência e Tecnologia com o CPTEC
(Centro
de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos),
com um viés muito mais científico
e tecnológico, de estudos de clima,
modelagem, supercomputadores. Há
também que se mencionar os Sistemas
Estaduais de Meteorologia, em que há
alguns de grande de qualidade - o Ceará,
por exemplo, São Paulo também
-, mas a maior parte precisando urgentemente
ser reconstruída. Estamos tentando
fazer três coisas: primeiro, fazer
com que o INMET e o CPTEC trabalhem juntos.
Conseguimos uma portaria interministerial,
assinada pelo ministro Roberto Rodrigues
e pelo ministro Eduardo Campos, nomeando
uma comissão, que tem a Maria Assumpção
do CPTEC e o Antonio Divino do INMET. Felizmente,
em nível pessoal se dão muito
bem; se eles vão conseguir carregar
suas tropas consigo, vamos ver. Esse é
um aspecto, articular essas duas instituições,
dar uma repartição equilibrada
de atribuições e fazer com
que elas trabalhem juntas. Segundo, organizar
o Sistema Nacional de Meteorologia, não
mais por estados, mas por regiões
meteorológicas, que não reconhecem
as fronteiras estaduais. Terceiro, a parte
do mar está muito desfalcada. Uma
boa parte do nosso clima vem do mar. Estamos
tentando injetar recursos substanciais para
esse programa - a Comissão de Meio
Ambiente da Câmara aprovou uma emenda
de R$ 150 milhões no orçamento
de 2005.
Leia também as
outras duas partes da entrevista de Cylon
Gonçalves:
Nanotecnologia
Grupo
de Trabalho apresenta projeto para um Programa
Nacional
de Nanotecnologia; implantação
custaria R$ 130 milhões em 2005
Biotecnologia
Fórum
tem até outubro de 2005 para preparar
política industrial;
em recursos humanos, há divórcio
entre oferta e demanda
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