| Clima
e Produção de Alimentos
Agronegócio
precisa de pesquisa e inovação
para diminuir
emissão de gases do efeito estufa,
alerta professor da Esalq/USP
Carlos Clemente
Cerri graduou-se agrônomo, doutorou-se
em geologia e começou a se ocupar
do assunto mudança climática
e agricultura em 1994, incumbido pelo
governo brasileiro, com outros cientistas,
a integrar o Intergovernmental Panel on
Climate Change (IPCC). O IPCC reúne
pesquisadores que se debruçam sobre
a produção científica
internacional no assunto mudança
climática para extrair deles o
que está bem estabelecido e assim
informar os governos. O fato de participar
do IPCC mudou o rumo de seu trabalho de
pesquisa; e ele elegeu o estudo do papel
da chamada "mudança do uso
da terra" na produção
dos gases do efeito estufa. Mudança
do uso da terra, para exemplificar, ocorre
na Amazônia quando ao desmatamento
segue-se a formação de uma
pastagem; ou quando a pastagem é
substituída pela cultura da soja.
Aprendi conversando com o professor Cerri
que a agricultura gera 14% dos gases do
efeito estufa presentes na atmosfera;
e que é necessário pesquisar
e desenvolver novas tecnologias que diminuam
as emissões e permitam à
humanidade continuar a produzir alimentos.
A Convenção
Quadro das Nações Unidas
sobre Mudança do Clima prevê
que os países signatários
elaborem relatórios sobre sua própria
emissão de gases que causam aquecimento
global. O Brasil publicou sua Comunicação
Nacional em novembro de 2004, e o professor
Carlos Cerri foi o responsável
pelo capítulo sobre que quantidade
de gases resulta das mudanças do
uso da terra no País. Cerri tem
vínculos de colaboração
com pesquisadores importantes; coordena
um grupo de pesquisa profícuo no
Centro de Energia Nuclear na Agricultura
(Cena/USP). Eles conhecem os métodos
para captar, analisar e medir os gases
do efeito estufa; têm a colaboração
da Nasa para transferência de tecnologia
em sensoriamento remoto; e estudam emissões
resultantes do uso de diferentes técnicas
agrícolas.
A entrevista
que Inovação
publica a seguir foi concedida por telefone,
em conversas mantidas em agosto e setembro.
Mônica
Teixeira
O que é
chamado de mudança do uso da terra,
e qual o efeito sobre a emissão dos
gases do efeito estufa?
A mudança do uso da terra caracteriza-se
pela ocupação de regiões
originalmente cobertas por vegetação
nativa, como florestas, cerrado ou caatinga,
pela agricultura. Esse processo, em geral,
diminui a quantidade de matéria orgânica
no solo. Nos sistemas nativos, os microrganismos
do solo decompõem os resíduos
orgânicos; a decomposição
é compensada pela caída de
folhas, galhos, etc. No sistema agrícola,
esse equilíbrio desaparece —
a decomposição de matéria
orgânica do solo pelos microrganismos
não é mais compensada. O balanço
torna-se deficitário. Por um lado,
a reposição é mais
lenta, já que depende exclusivamente
dos resíduos das culturas, que nem
sempre são deixados no campo. Por
outro, as arações e gradagens,
necessárias à agricultura,
ativam a população de microrganismos
— que então consomem mais rapidamente
as reservas de nutrientes do solo. Os microrganismos
decompõem a matéria orgânica,
quebrando suas moléculas, que contêm
carbono e nitrogênio; como resultado
do processo, liberam CO2
(gás carbônico), CH4
(metano), N2O
(óxido nitroso), os chamados gases
do efeito estufa, além de outros.
A combinação de reposição
mais lenta com microrganismos mais ativos
resulta em que eles passam a consumir também
as reservas estocadas no húmus do
solo. Ao fazê-lo, geram os gases mencionados
— que, antes, estavam 'presos' no
solo na forma de húmus — matéria
orgânica. Quer dizer, o resultado
da mudança do uso do solo é
um aumento da quantidade dos gases do efeito
estufa na atmosfera.
Mas qual a parcela da agricultura na emissão
de gases?
Da quantidade total de gases do efeito estufa
que é lançada na atmosfera,
66% provêm da queima dos combustíveis
fósseis, 20% são gerados pela
agricultura e 14% vêm da mudança
do uso da terra. A agricultura mais a mudança
do uso da terra somam 34%, ou seja, um terço
de todas as emissões: é significativo.
Essa é a situação global.
No Brasil, as proporções são
diferentes: 75% do CO2
vêm da agricultura e da mudança
do uso da terra. Isso porque, proporcionalmente,
não queimamos tanto combustível
fóssil, uma vez que dispomos de energia
hidrelétrica e 20% do nosso combustível
é álcool. A queima do álcool
não aumenta a concentração
de CO2
na atmosfera.
Por quê?
Quando há queima de combustível
fóssil, o CO2
gerado vai para a atmosfera e não
volta mais para seu lugar de origem —
por exemplo, no caso do petróleo,
para os depósitos de onde foram extraídos.
A queima do álcool também
gera CO2;
mas a concentração na atmosfera
não aumenta porque o que é
emitido será recaptado, na fotossíntese,
pelas plantações de cana.
Trata-se de um circuito fechado, similar
à situação da mata
nativa.
E como o senhor
descreve as emissões e absorções
na Amazônia de hoje?
O desmatamento na Amazônia tem sido
feito principalmente para dar lugar a pastagens.
Por quê? Porque é fácil
desmatar e colocar pastagens. Não
há necessidade de tecnologia para
isso. Quem desmata, retira as árvores
economicamente interessantes; o resto seca
e depois é queimado. Isso deixa na
superfície do solo muitos tocos de
árvores e as raízes permanecem
praticamente intactas; as máquinas
agrícolas não conseguem entrar
para fazer o trabalho de aração
e gradagem. O jeito mais simples então
é semear uma forrageira, no caso
o capim Brachiaria, que não
exige plantio e cresce em meio aos resíduos
deixados pela queima da floresta. O pastejo
do gado também não fica restringido
pela presença dos tocos. O investimento
é pequeno, e o retorno também
— é necessário dispor
de muita área para sustentar poucos
animais. A pastagem que se forma logo após
o desmatamento é bastante produtiva:
as cinzas da queima tendem a compensar a
acidez natural do solo e também introduzem
nutrientes. No entanto, com o passar do
tempo, haverá um esgotamento das
reservas minerais se a pastagem não
for bem manejada. A produtividade decresce,
e mais área ainda se torna necessária
para manter a mesma quantidade de animais.
A solução para a queda da
produtividade é fazer novos desmatamentos.
E como a conjuntura
internacional é de crescimento da
procura por soja...
...justamente por causa da entrada da China
no mercado global e do crescimento econômico
deles. A expansão da fronteira agrícola
para aumentar a produção de
soja acontece na Amazônia, sobretudo
em áreas que até agora eram
pastagens.
Está
havendo então uma segunda mudança
de uso do solo.
Isso mesmo, sobretudo em áreas que
até agora eram pastagens. A agricultura
é melhor em pastagens mais antigas.
Por quê? Porque o solo já está
corrigido e os resíduos do desmatamento
já se decompuseram. A entrada das
máquinas, por isso, torna-se menos
cara — não vou dizer mais barata.
Como há uma demanda muito grande,
a soja está substituindo não
apenas as pastagens: áreas de cerrado,
de cerradinho e também os campos
estão sendo convertidos diretamente
para agricultura.
Por que é
mais fácil?
A densidade de árvores no cerrado
é menor, o que torna mais fácil
"limpar", entre aspas, a área.
Os cerrados de solos mais férteis
foram ocupados primeiro; mas a pressão
é tão grande que, agora, até
as áreas mais fracas de cerrado estão
sendo convertidas. Nesse caso, precisa-se
de mais insumos para corrigir o solo: calcário,
fósforo, fosfato, nitrogênio
e fertilizantes de um modo geral. Ainda
assim, compensa: a exportação
crescente torna viável a cultura
nesses solos. O que está acontecendo
hoje na Amazônia é um segundo
uso da terra.
E que conseqüências
essas mudanças trazem — de
pastagem para agricultura, de cerrado para
agricultura?
Há impactos sócio-econômicos.
Para converter uma floresta ou um sistema
nativo em pastagem, basta meia dúzia
de peões: pouca gente maneja os animais.
Em geral, essas pessoas não se fixam
na terra. Mas nessa segunda onda é
diferente: o cultivo da soja na Amazônia
necessita de mecanização,
precisa de técnicos e engenheiros.
E para atendê-los se forma um comércio
de máquinas, de insumos, defensivos
agrícolas. Tudo isso cria desenvolvimento
sócio-econômico. Em regiões
que até cinco anos atrás eram
muito pobres, já são encontradas
casas melhores, comércio, estradas,
hospitais, escolas. No entanto, embora a
agricultura favoreça o desenvolvimento
sócio-econômico, faz também
pressão sobre o ambiente. Novas áreas
serão convertidas; haverá
impacto sobre a qualidade da água,
e efeito estufa. Essa região é
a maior zona de expansão agrícola
do mundo, e tem uma participação
muito importante dentro daqueles 14% das
emissões globais referentes à
mudança do uso da terra que mencionei
anteriormente. Atualmente, ainda não
sabemos avaliar de quanto seria essa contribuição.
Do ponto de
vista da emissão de gases, o que
é melhor: a cultura ou a pastagem?
Não há resposta simples para
essa questão. A Brachiaria
forrageira tem um sistema radicular muito
vigoroso que se espalha por todo o solo.
Considerando que a parte aérea das
plantas também cobre o solo todo
e gera quantidade significativa de resíduos
de forma perene, podemos afirmar que o sistema
pastagem, quando bem manejado, pode resultar
em aumento do estoque de carbono do solo.
Mas, além disso, há que se
considerar que o gado emite metano por eructação
— que também é gás
do efeito estufa, mais ativo que o CO2
no aquecimento global. Por outro lado, quando
se plantam grãos, a adição
de fertilizantes, principalmente nitrogenados,
causa mais emissões de óxido
nitroso, que é 300 vezes mais ativo
que o CO2
na geração de efeito estufa.
Mais carbono
no solo, menos carbono na atmosfera —
quer dizer, há seqüestro de
carbono...
É, mas esse aumento, por mais significativo
e duradouro que seja, não consegue
compensar a enorme quantidade de carbono
que a derrubada e queima da floresta jogou
na atmosfera. Agora, vamos passar para a
agricultura — essa segunda fase, em
que ela substitui a pastagem. Para a implantação
da cultura, o solo será arado e gradeado.
A soja será semeada em linha —
para a máquina colher — e não
vai cobrir todo o solo. Nesse sistema, o
retorno para o solo da matéria orgânica
é menor e periódico. Quer
dizer, a mudança de pastagem para
agricultura provoca aumento da taxa de emissão
de gases para a atmosfera.
Então
é pior?
Do ponto de vista ambiental é pior,
pois além da quantidade de resíduos
ser menor, a agricultura exige o revolvimento
do solo e o uso de fertilizantes. O fertilizante
é composto em parte por nitrogênio
na forma de nitrato. No solo, parte desse
nitrato vai se transformar em óxido
nitroso, também um gás do
efeito estufa.
Então
a soja é o pior dos mundos?
Não, porque traz desenvolvimento
econômico e social — não
dá para fazer a omelete sem quebrar
ovos. Mas é preciso avançar
em direção a uma agricultura
e pecuária sustentáveis.
Mas é
possível evitar ou diminuir a perda
de matéria orgânica no solo
e a emissão de gases?
Há técnicas de plantio que
podem minimizar os efeitos. Por exemplo,
o sistema de plantio direto. Nessa tecnologia,
não se revolve a terra. Depois da
colheita, o resíduo da soja fica
na superfície do solo e outra cultura
é plantada sobre os resíduos.
Outra tecnologia é a agricultura
de precisão. Tradicionalmente, antes
da fertilização de uma área
em que se pretende plantar soja ou milho,
um técnico percorre o campo e coleta
amostras do solo aleatoriamente. Com base
no resultado da análise das amostras
em laboratório, calcula-se então
a fórmula para o fertilizante a ser
aplicado em toda a área. O cálculo
da fórmula é feito com base
nos resultados médios; a concentração
do fertilizante aplicado é a mesma
em todo lugar. Mas o solo não é
homogêneo; haverá locais que
precisam de mais fertilizante, outros, de
menos. Atualmente já é possível
fazer uma amostragem georreferenciada do
solo. Usando um GPS, o agrônomo determina
a variabilidade espacial dos nutrientes
no solo e máquinas novas, inteligentes,
distribuem o fertilizante em taxas variáveis,
segundo a necessidade do local. Dessa forma,
consegue-se um aumento da produtividade
com diminuição do impacto
ambiental.
Mas e a outra
mudança, de cerrado, ou campos, para
soja?
Bem, a técnica para derrubar o cerrado
é diferente — mas a vegetação
também é queimada. A emissão
de gases devido à queima do cerrado
é menor, em relação
à queima da floresta — porque
há muito menos biomassa. Se o sistema
do plantio direto for usado desde o início
do uso da terra, as taxas de emissão
dos gases do efeito estufa serão
menores. Há estudos indicando que
o plantio direto, em média, causa
um aumento de meia tonelada por hectare,
por ano, no estoque de carbono no solo.
Em alguma região
do Brasil se faz plantio direto?
Já estamos com mais de 20 milhões
de hectares com plantio direto no Brasil.
E a produtividade
do plantio direto, em relação
à técnica convencional?
Não há diferença. Em
certos casos, ocorre aumento na produtividade.
Mas os custos de produção
diminuem — quer dizer, se a produtividade
for a mesma, há vantagem para o agricultor.
Com agricultura de precisão e plantio
direto, a produção de gases
do efeito estufa diminui?
Isso; e também uma sucessão
adequada de culturas. O ideal é que
o solo fique coberto durante todo o ano.
O planejamento de uso do solo deve ser muito
bem feito, de modo que sempre haja retorno
de resíduos ao sistema. Nessas condições,
e aplicando menos fertilizantes, o impacto
no ambiente ou na água será
menor. |