.ENTREVISTA
..Publicada em 26 de setembro 2005

Clima e Produção de Alimentos
Agronegócio precisa de pesquisa e inovação para diminuir
emissão de gases do efeito estufa, alerta professor da Esalq/USP

Carlos Clemente Cerri graduou-se agrônomo, doutorou-se em geologia e começou a se ocupar do assunto mudança climática e agricultura em 1994, incumbido pelo governo brasileiro, com outros cientistas, a integrar o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). O IPCC reúne pesquisadores que se debruçam sobre a produção científica internacional no assunto mudança climática para extrair deles o que está bem estabelecido e assim informar os governos. O fato de participar do IPCC mudou o rumo de seu trabalho de pesquisa; e ele elegeu o estudo do papel da chamada "mudança do uso da terra" na produção dos gases do efeito estufa. Mudança do uso da terra, para exemplificar, ocorre na Amazônia quando ao desmatamento segue-se a formação de uma pastagem; ou quando a pastagem é substituída pela cultura da soja. Aprendi conversando com o professor Cerri que a agricultura gera 14% dos gases do efeito estufa presentes na atmosfera; e que é necessário pesquisar e desenvolver novas tecnologias que diminuam as emissões e permitam à humanidade continuar a produzir alimentos.

A Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima prevê que os países signatários elaborem relatórios sobre sua própria emissão de gases que causam aquecimento global. O Brasil publicou sua Comunicação Nacional em novembro de 2004, e o professor Carlos Cerri foi o responsável pelo capítulo sobre que quantidade de gases resulta das mudanças do uso da terra no País. Cerri tem vínculos de colaboração com pesquisadores importantes; coordena um grupo de pesquisa profícuo no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena/USP). Eles conhecem os métodos para captar, analisar e medir os gases do efeito estufa; têm a colaboração da Nasa para transferência de tecnologia em sensoriamento remoto; e estudam emissões resultantes do uso de diferentes técnicas agrícolas.

A entrevista que Inovação publica a seguir foi concedida por telefone, em conversas mantidas em agosto e setembro.

Mônica Teixeira

O que é chamado de mudança do uso da terra, e qual o efeito sobre a emissão dos gases do efeito estufa?
A mudança do uso da terra caracteriza-se pela ocupação de regiões originalmente cobertas por vegetação nativa, como florestas, cerrado ou caatinga, pela agricultura. Esse processo, em geral, diminui a quantidade de matéria orgânica no solo. Nos sistemas nativos, os microrganismos do solo decompõem os resíduos orgânicos; a decomposição é compensada pela caída de folhas, galhos, etc. No sistema agrícola, esse equilíbrio desaparece — a decomposição de matéria orgânica do solo pelos microrganismos não é mais compensada. O balanço torna-se deficitário. Por um lado, a reposição é mais lenta, já que depende exclusivamente dos resíduos das culturas, que nem sempre são deixados no campo. Por outro, as arações e gradagens, necessárias à agricultura, ativam a população de microrganismos — que então consomem mais rapidamente as reservas de nutrientes do solo. Os microrganismos decompõem a matéria orgânica, quebrando suas moléculas, que contêm carbono e nitrogênio; como resultado do processo, liberam CO2 (gás carbônico), CH4 (metano), N2O (óxido nitroso), os chamados gases do efeito estufa, além de outros. A combinação de reposição mais lenta com microrganismos mais ativos resulta em que eles passam a consumir também as reservas estocadas no húmus do solo. Ao fazê-lo, geram os gases mencionados — que, antes, estavam 'presos' no solo na forma de húmus — matéria orgânica. Quer dizer, o resultado da mudança do uso do solo é um aumento da quantidade dos gases do efeito estufa na atmosfera.

Mas qual a parcela da agricultura na emissão de gases?

Da quantidade total de gases do efeito estufa que é lançada na atmosfera, 66% provêm da queima dos combustíveis fósseis, 20% são gerados pela agricultura e 14% vêm da mudança do uso da terra. A agricultura mais a mudança do uso da terra somam 34%, ou seja, um terço de todas as emissões: é significativo. Essa é a situação global. No Brasil, as proporções são diferentes: 75% do CO2 vêm da agricultura e da mudança do uso da terra. Isso porque, proporcionalmente, não queimamos tanto combustível fóssil, uma vez que dispomos de energia hidrelétrica e 20% do nosso combustível é álcool. A queima do álcool não aumenta a concentração de CO2 na atmosfera.

Por quê?
Quando há queima de combustível fóssil, o CO2 gerado vai para a atmosfera e não volta mais para seu lugar de origem — por exemplo, no caso do petróleo, para os depósitos de onde foram extraídos. A queima do álcool também gera CO2; mas a concentração na atmosfera não aumenta porque o que é emitido será recaptado, na fotossíntese, pelas plantações de cana. Trata-se de um circuito fechado, similar à situação da mata nativa.

E como o senhor descreve as emissões e absorções na Amazônia de hoje?
O desmatamento na Amazônia tem sido feito principalmente para dar lugar a pastagens. Por quê? Porque é fácil desmatar e colocar pastagens. Não há necessidade de tecnologia para isso. Quem desmata, retira as árvores economicamente interessantes; o resto seca e depois é queimado. Isso deixa na superfície do solo muitos tocos de árvores e as raízes permanecem praticamente intactas; as máquinas agrícolas não conseguem entrar para fazer o trabalho de aração e gradagem. O jeito mais simples então é semear uma forrageira, no caso o capim Brachiaria, que não exige plantio e cresce em meio aos resíduos deixados pela queima da floresta. O pastejo do gado também não fica restringido pela presença dos tocos. O investimento é pequeno, e o retorno também — é necessário dispor de muita área para sustentar poucos animais. A pastagem que se forma logo após o desmatamento é bastante produtiva: as cinzas da queima tendem a compensar a acidez natural do solo e também introduzem nutrientes. No entanto, com o passar do tempo, haverá um esgotamento das reservas minerais se a pastagem não for bem manejada. A produtividade decresce, e mais área ainda se torna necessária para manter a mesma quantidade de animais. A solução para a queda da produtividade é fazer novos desmatamentos.

E como a conjuntura internacional é de crescimento da procura por soja...
...justamente por causa da entrada da China no mercado global e do crescimento econômico deles. A expansão da fronteira agrícola para aumentar a produção de soja acontece na Amazônia, sobretudo em áreas que até agora eram pastagens.

Está havendo então uma segunda mudança de uso do solo.
Isso mesmo, sobretudo em áreas que até agora eram pastagens. A agricultura é melhor em pastagens mais antigas. Por quê? Porque o solo já está corrigido e os resíduos do desmatamento já se decompuseram. A entrada das máquinas, por isso, torna-se menos cara — não vou dizer mais barata. Como há uma demanda muito grande, a soja está substituindo não apenas as pastagens: áreas de cerrado, de cerradinho e também os campos estão sendo convertidos diretamente para agricultura.

Por que é mais fácil?
A densidade de árvores no cerrado é menor, o que torna mais fácil "limpar", entre aspas, a área. Os cerrados de solos mais férteis foram ocupados primeiro; mas a pressão é tão grande que, agora, até as áreas mais fracas de cerrado estão sendo convertidas. Nesse caso, precisa-se de mais insumos para corrigir o solo: calcário, fósforo, fosfato, nitrogênio e fertilizantes de um modo geral. Ainda assim, compensa: a exportação crescente torna viável a cultura nesses solos. O que está acontecendo hoje na Amazônia é um segundo uso da terra.

E que conseqüências essas mudanças trazem — de pastagem para agricultura, de cerrado para agricultura?
Há impactos sócio-econômicos. Para converter uma floresta ou um sistema nativo em pastagem, basta meia dúzia de peões: pouca gente maneja os animais. Em geral, essas pessoas não se fixam na terra. Mas nessa segunda onda é diferente: o cultivo da soja na Amazônia necessita de mecanização, precisa de técnicos e engenheiros. E para atendê-los se forma um comércio de máquinas, de insumos, defensivos agrícolas. Tudo isso cria desenvolvimento sócio-econômico. Em regiões que até cinco anos atrás eram muito pobres, já são encontradas casas melhores, comércio, estradas, hospitais, escolas. No entanto, embora a agricultura favoreça o desenvolvimento sócio-econômico, faz também pressão sobre o ambiente. Novas áreas serão convertidas; haverá impacto sobre a qualidade da água, e efeito estufa. Essa região é a maior zona de expansão agrícola do mundo, e tem uma participação muito importante dentro daqueles 14% das emissões globais referentes à mudança do uso da terra que mencionei anteriormente. Atualmente, ainda não sabemos avaliar de quanto seria essa contribuição.

Do ponto de vista da emissão de gases, o que é melhor: a cultura ou a pastagem?
Não há resposta simples para essa questão. A Brachiaria forrageira tem um sistema radicular muito vigoroso que se espalha por todo o solo. Considerando que a parte aérea das plantas também cobre o solo todo e gera quantidade significativa de resíduos de forma perene, podemos afirmar que o sistema pastagem, quando bem manejado, pode resultar em aumento do estoque de carbono do solo. Mas, além disso, há que se considerar que o gado emite metano por eructação — que também é gás do efeito estufa, mais ativo que o CO2 no aquecimento global. Por outro lado, quando se plantam grãos, a adição de fertilizantes, principalmente nitrogenados, causa mais emissões de óxido nitroso, que é 300 vezes mais ativo que o CO2 na geração de efeito estufa.

Mais carbono no solo, menos carbono na atmosfera — quer dizer, há seqüestro de carbono...
É, mas esse aumento, por mais significativo e duradouro que seja, não consegue compensar a enorme quantidade de carbono que a derrubada e queima da floresta jogou na atmosfera. Agora, vamos passar para a agricultura — essa segunda fase, em que ela substitui a pastagem. Para a implantação da cultura, o solo será arado e gradeado. A soja será semeada em linha — para a máquina colher — e não vai cobrir todo o solo. Nesse sistema, o retorno para o solo da matéria orgânica é menor e periódico. Quer dizer, a mudança de pastagem para agricultura provoca aumento da taxa de emissão de gases para a atmosfera.

Então é pior?
Do ponto de vista ambiental é pior, pois além da quantidade de resíduos ser menor, a agricultura exige o revolvimento do solo e o uso de fertilizantes. O fertilizante é composto em parte por nitrogênio na forma de nitrato. No solo, parte desse nitrato vai se transformar em óxido nitroso, também um gás do efeito estufa.

Então a soja é o pior dos mundos?
Não, porque traz desenvolvimento econômico e social — não dá para fazer a omelete sem quebrar ovos. Mas é preciso avançar em direção a uma agricultura e pecuária sustentáveis.

Mas é possível evitar ou diminuir a perda de matéria orgânica no solo e a emissão de gases?
Há técnicas de plantio que podem minimizar os efeitos. Por exemplo, o sistema de plantio direto. Nessa tecnologia, não se revolve a terra. Depois da colheita, o resíduo da soja fica na superfície do solo e outra cultura é plantada sobre os resíduos. Outra tecnologia é a agricultura de precisão. Tradicionalmente, antes da fertilização de uma área em que se pretende plantar soja ou milho, um técnico percorre o campo e coleta amostras do solo aleatoriamente. Com base no resultado da análise das amostras em laboratório, calcula-se então a fórmula para o fertilizante a ser aplicado em toda a área. O cálculo da fórmula é feito com base nos resultados médios; a concentração do fertilizante aplicado é a mesma em todo lugar. Mas o solo não é homogêneo; haverá locais que precisam de mais fertilizante, outros, de menos. Atualmente já é possível fazer uma amostragem georreferenciada do solo. Usando um GPS, o agrônomo determina a variabilidade espacial dos nutrientes no solo e máquinas novas, inteligentes, distribuem o fertilizante em taxas variáveis, segundo a necessidade do local. Dessa forma, consegue-se um aumento da produtividade com diminuição do impacto ambiental.

Mas e a outra mudança, de cerrado, ou campos, para soja?
Bem, a técnica para derrubar o cerrado é diferente — mas a vegetação também é queimada. A emissão de gases devido à queima do cerrado é menor, em relação à queima da floresta — porque há muito menos biomassa. Se o sistema do plantio direto for usado desde o início do uso da terra, as taxas de emissão dos gases do efeito estufa serão menores. Há estudos indicando que o plantio direto, em média, causa um aumento de meia tonelada por hectare, por ano, no estoque de carbono no solo.

Em alguma região do Brasil se faz plantio direto?
Já estamos com mais de 20 milhões de hectares com plantio direto no Brasil.

E a produtividade do plantio direto, em relação à técnica convencional?
Não há diferença. Em certos casos, ocorre aumento na produtividade. Mas os custos de produção diminuem — quer dizer, se a produtividade for a mesma, há vantagem para o agricultor.

Com agricultura de precisão e plantio direto, a produção de gases do efeito estufa diminui?

Isso; e também uma sucessão adequada de culturas. O ideal é que o solo fique coberto durante todo o ano. O planejamento de uso do solo deve ser muito bem feito, de modo que sempre haja retorno de resíduos ao sistema. Nessas condições, e aplicando menos fertilizantes, o impacto no ambiente ou na água será menor.

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