.ENTREVISTA
..Publicada em 04 de novembro 2004

Quase como no filme "Viagem Fantástica"

Software desenvolvido em tese de doutorado antecipa
medicina do futuro baseada em nanotecnologias

Leia a entrevista de Adriano Cavalcanti, criador do software
que simula a navegação de nanorrobôs no interior do corpo


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Leia a entrevista de Adriano Cavalcanti, criador do software
que simula a navegação de nanorrobôs no interior do corpo

Entrevista a Rachel Bueno

Adriano Cavalcanti é aluno de doutorado da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação (Feec) da Unicamp. Nesta entrevista ele fala sobre o software que desenvolveu com a colaboração de pesquisadores de outros países, as aplicações do programa na medicina e como serão os nanorrobôs que, no futuro, entrarão em nosso corpo para diagnosticar e tratar doenças.

O que é exatamente o Nanorobot Control Design (NCD)? Para que serve, o que faz, como funciona, por que é importante?
O NCD é um software que utiliza a computação gráfica para reproduzir em três dimensões o interior do corpo humano, que é o local onde os nanorrobôs irão operar. Nesse software há protótipos computadorizados dos futuros nanorrobôs. A pessoa que o utiliza pode fazer com que esses nanorrobôs virtuais se movimentem pelo corpo humano virtual, simulando uma situação clínica real. A experiência no ambiente virtual fornece informações úteis para a construção de nanorrobôs e mostra como eles se comportarão dentro do corpo humano quando forem construídos e usados pela medicina. Podemos assim fazer a especificação do modelo de controle, atuação e reação física de nanorrobôs.

O que o motivou a desenvolvê-lo?
A inexistência de ferramentas para análise, prototipagem, construção e controle de nanorrobôs. Foram três anos de trabalho, com dedicação em tempo integral.

O software foi patenteado?
Já demos entrada no processo de patentes, direitos autorais e propriedade intelectual de todos os trabalhos que desenvolvemos durante esses anos. Também já entramos com processo de direitos autorais com relação a dois livros que estamos terminando e que já contam com convite para publicação nos Estados Unidos — em co-autoria com Robert A. Freitas Jr e Tad Hogg, respectivamente. O título e capa de ambos os livros serão disponibilizados em breve no nosso site (www.nanorobotdesign.com).

Há empresas interessadas no NCD?
Sim. São as empresas que vêm contribuindo tecnicamente com o desenvolvimento do sistema. Entre outros planos, pretendemos avançar o modelo do software para sua comercialização. Outro aspecto importante do NCD é que o software está nos auxiliando no desenvolvimento dos principais parâmetros para a confecção física de nanorrobôs.

Por que há empresas contribuindo para o desenvolvimento do NCD? Qual o interesse delas?
Dado que está tecnicamente clara a viabilidade da manufatura de nanorrobôs dentro de cinco a dez anos, fica fácil de entender a importância estratégica do desenvolvimento eficaz de sistemas para controle de nanorrobôs. Assim, o interesse de empresas norte-americanas em participar do desenvolvimento do trabalho que estamos fazendo se deve ao fato de que elas estão, por um lado, contribuindo, mas por outro, ganhando domínio sobre uma nova tecnologia sem precedentes na história da humanidade.

Você disse que os nanorrobôs serão construídos dentro de cinco a dez anos. O que ainda precisa ser feito para que isso aconteça?
Os passos necessários para a confecção de nanorrobôs estão avançando rapidamente. O desenvolvimento das ferramentas e técnicas tende a viabilizar a construção de nanorrobôs em menos de cinco anos. Nanorrobôs mais sofisticados, com revestimento de materiais com base em estruturas de diamantes mecanicamente manipuladas, estarão disponíveis dentro de dez anos.

O que são estruturas de diamantes mecanicamente manipuladas?
São novos materiais que estão em desenvolvimento através de técnicas oriundas da nanotecnologia, química e engenharia de materiais. São extremamente resistentes, o que possibilita sua montagem e manipulação mesmo em escalas tão diminutas, nanoscópicas. Tal resistência possibilita a confecção e montagem de estruturas com maior especificação, sem que o material se desmanche durante o processo.

O diamante não é um material duro demais para ser trabalhado em proporções tão pequenas?
Estamos falando de escalas de manipulação extremamente diminutas. Para partir ao meio com os dedos da mão um pequeno lápis com apenas 5 centímetros de comprimento, uma pessoa necessita fazer um esforço considerável. Mas se puder contar com as pontas bem pequenas de dois alicates, fixados em cada extremidade do pequeno lápis, então ficará fácil manipulá-lo e mesmo dividi-lo ao meio. O mesmo princípio se aplica à manipulação biomolecular de estruturas de diamantes, com o diferencial facilitador que, em escala nanoscópica, você pode contar com a atração e repulsão de moléculas para facilitar a moldagem das estruturas de diamantes.

Já existem grupos desenvolvendo nanorrobôs para usos médicos?
Sim, existem. Alguns exemplos: Center for Automation in Nanobiotech (CAN) e Departamento de Microonda e Óptica (DMO) da Feec-Unicamp, no Brasil; Laboratório de Nanorrobótica da Universidade Politécnica de Montreal, no Canadá; Grupo de Nanorrobótica do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Laboratório de Nanorrobótica da Universidade Carnegie Mellon e curso de Nanorrobótica da Southern University California, nos Estados Unidos; curso de Sistemas de Engenharia Biomédica da Universidade Central Nacional, em Taiwan, na China; Laboratório de Nanorrobótica da Universidade de Lausanne, na Suíça, apenas para citar alguns grupos. Vale lembrar que boa parte desses centros tem utilizado o trabalho que estamos desenvolvendo como ponto de referência na área de sistemas de controle para nanorrobôs.

O que é e onde fica o Center for Automation in Nanobiotech?
A abertura do CAN tem como objetivo congregar pesquisadores da área e viabilizar projetos e cooperações com centros nacionais e internacionais. A princípio registramos o CAN no meu endereço residencial, ou seja, no momento sua sede física é no Brasil. A meta é a formação de vários centros em diferentes paises onde já contamos com várias parcerias — Estados Unidos, Canadá, Israel, por exemplo. Devido à repercussão internacional e à ampla rede de pesquisadores envolvidos no trabalho que estamos desenvolvendo, esse processo de internacionalização do centro está se formando de forma tranqüila e gradativa. Além disso, o número de universidades, institutos de pesquisas e empresas que estão nos procurando está crescendo a cada dia.
Atualmente as grandes empresas e corporações construtoras de navios, aviões e carros, antes de montar em larga escala os respectivos protótipos, projetam os novos modelos computacionalmente de forma a avaliar sua aerodinâmica, funcionalidade e eficácia. Esse é o mesmo procedimento que adotamos. Utilizamos o NCD como ferramenta facilitadora para a confecção e montagem em larga escala de nanorrobôs. Através do CAN estamos desenvolvendo a estrutura necessária para a confecção real de nanorrobôs.
Também vale lembrar que corporações gigantes e empresas multinacionais que hoje estão consolidadas começaram com boas idéias e bons integrantes. Apenas alguns exemplos de empresas da área de tecnologia fundadas por alunos que resolveram colocar em prática a teoria adquirida nos bancos de boas universidades, e que começaram como pequenos negócios: Hewlett-Packard, Intel, McDonnell-Douglas, Raytheon, Google.

O CAN foi inaugurado por causa do NCD ou esse grupo de pesquisadores já trabalhava junto antes do software aparecer?
Foi a participação desse grupo de pesquisadores de áreas interdisciplinares, atuantes em diversos paises e instituições distintas, que resultou no NCD. Naturalmente o CAN surgiu como resultado da interação dos membros desse grupo interessados no desenvolvimento aplicado e eficaz na área de nanorrobótica.

Quantos pesquisadores trabalham na empresa?
O CAN na realidade tem como seu maior patrimônio o know-how (conhecimento técnico) dos participantes que vêm se empenhando para o rápido desenvolvimento de nanorrobôs aplicados à medicina. Os integrantes dos projetos que são coordenados pelo CAN estão distribuídos em diversos institutos, universidades e empresas de vários países.

De onde veio o financiamento para abrir o CAN?
O capital inicial para tal empreendimento veio de contribuições de diversos simpatizantes dos trabalhos que estamos desenvolvendo. O CAN, fundado como empresa jurídica, resulta da materialização de um conjunto de projetos que englobam sistemas de controle para nanorrobótica, investigação da utilização de nanorrobôs em aplicações biomédicas e implementação de protótipos físicos de nanorrobôs.

Quais serão as aplicações médicas dos nanorrobôs?
Possíveis aplicações são tratamento e combate ao câncer, solução de problemas cardiovasculares, tratamento de pedra nos rins, diabete, mal de Alzheimer, entre outras possibilidades.

Como eles serão?
Teremos dois tipos de nanorrobôs em funcionamento. Nanorrobôs para intervenção cirúrgica e nanorrobôs para monitoramento de funções vitais do corpo humano, para pessoas que necessitem de acompanhamento e monitoramento médico constante.

Que tipo de simulação pode ser feita usando o software?
A gama de aplicações do software é ampla. No momento estamos trabalhando em diversos projetos além dos já anunciados em nosso site. Naturalmente disponibilizaremos o título dos novos trabalhos que estiverem em fase de conclusão. Mais recentemente fomos contatados para também desenvolver um estudo sobre a utilização de nanorrobôs e células-tronco para a solução do mal de Alzheimer.

Como são os estudos envolvendo células-tronco?
A utilização de células-tronco e nanorrobôs resultará em um impacto expressivo quanto à expectativa de melhoria na qualidade e na duração da vida do ser humano. Estamos trabalhando em modelagem, análise e simulação para demonstrar a viabilidade e importância da utilização de nanorrobôs e células-tronco para avanços no tratamento de diversos problemas que afetam a saúde das pessoas.

Como o software foi usado para simular o monitoramento de níveis nutricionais?
O trabalho de monitoramento de níveis nutricionais foi aplicado ao caso de pessoas com problemas críticos de anorexia. Para esse tipo de problema o trabalho que desenvolvemos demonstra de forma eficaz o controle de nanorrobôs para o processamento e monitoramento de níveis nutricionais do organismo em questão. Esse estudo foi feito através de simulação e modelagem computacional para o desenvolvimento de técnicas eficazes de controle para nanorrobôs em aplicações biomédicas.



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