03/07/2009

Times Higher Education, 25 de junho de 2009

Consultoria ligada a empresa de indexação de artigos científicos diz em estudo que Brasil tem lugar na "nova geografia da ciência"

Bias Arrudão

Está no ar na página da revista semanal britânica Times Higher Education na rede mundial de computadores o artigo "Established powers must link up with Latin tiger" (Potências estabelecidas precisam se conectar com tigre latino), de autoria de Phil Baty. A fera em questão é o Brasil, descrito pelo autor como força emergente numa variedade de campos científicos. As informações contidas no texto são reproduzidas de um estudo da consultoria de pesquisas analíticas Evidence a ser publicado em julho, intitulado The new geography of science (A nova geografia da ciência).

As estatísticas que o artigo cita mostram que em anos recentes o Brasil se transformou em ator importante no cenário mundial da ciência, no qual ocupa espaço cada vez maior. O texto ressalta que o País forma a cada ano centenas de milhares de universitários e milhares de doutores pesquisadores — houve "um aumento de dez vezes em 20 anos", informa a Evidence —, publica cada vez mais artigos científicos e seus gastos com pesquisa e desenvolvimento somaram US$ 13 bilhões em 2007. E já pode ser considerado potência nos campos de medicina tropical e parasitologia, e player relevante em áreas como agricultura, medicina e cirurgia bucal, e entomologia, entre outras.

Com foco no Brasil, o trabalho que o artigo da Times Higher Education comenta é o primeiro de uma nova série de estudos, em preparação, que farão parte dos Global Research Reports by Evidence — Relatórios de Pesquisa Global pela Evidence. A empresa pertence à Thomson Reuters, especializada na indexação de periódicos científicos e trabalhos acadêmicos.

O artigo começa com um alerta: a Europa e os Estados Unidos podem ficar para trás se não tirarem proveito da oportunidade de fazer alianças na área de pesquisa com os países que a Evidence chama de "tigres latinos" — Argentina, México e, em especial, Brasil. O risco, avisa, seria concreto: segundo o estudo citado, as atuais potências na pesquisa ainda "ignoram, por sua conta e risco", a crescente força do País. "O custo de não se estabelecer um compromisso de parceria com o Brasil vai ser significativo em termos de desenvolvimento, tanto o intelectual como o econômico", prevê o relatório. 
  
Hoje o conhecimento é imprescindível, e "a Europa e os EUA precisam se envolver por inteiro com seu futuro comércio ou ficarão intelectualmente marginalizados". Para a Evidence, "o perfil, a excelência cada vez maior, o tamanho e a relação do Brasil com o restante do universo internacional de pesquisa fazem dele um parceiro essencial em qualquer cenário mundial de pesquisa futuro".

Produção científica multiplicada

Citando a Web of Knowledge (rede de conhecimento), que também faz parte da Thomson Reuters, o artigo revela que a participação da América Latina na produção de papers científicos aumentou de 1,7% do total mundial em 1990 para 4,8% em 2008. No caso do Brasil — e esta informação provém do relatório da Evidence —, a produção de papers com pelo menos um autor residente no País saltou de 2 mil em 1981 para 20 mil em 2008. Nesse período — o que a Times Higher Education não menciona — a Thomson Reuters passou a incluir em sua base muitas revistas científicas brasileiras. Isso fez aumentar o número total de artigos indexados publicados por brasileiros — mas não significa que tenha crescido na mesma velocidade a produção científica do País.

"A característica mais impressionante da nova geografia da ciência é a escala do investimento e da mobilização de gente que está por trás da inovação que vem sendo executada, norteada por uma visão altamente tecnológica de como triunfar na economia global", diz o relatório em referência ao Brasil. Para fundamentar essa afirmação, apresenta cifras que mostram um retrato positivo do País. Por exemplo, destaca o fato de que em 2007 o Brasil investiu em P&D o equivalente a 1% do Produto Interno Bruto (PIB). E que a cada ano 500 mil brasileiros recebem um diploma universitário e aproximadamente 10 mil pesquisadores terminam o doutorado. "O Brasil", resume a publicação da Evidence, "é uma economia de pesquisa cada vez mais importante e competitiva".

Ciências naturais

De acordo com o texto da Times Higher Education, entre 2003 e 2007 a Thomson Reuters indexou por volta de 85 mil artigos oriundos do Brasil, o que equivale a 1,83% do total. Durante esses anos a produção científica nacional respondeu por 3,91% de todos os papers nas áreas ligadas a plantas e animais, 3,72% nas ciências agrícolas, 2,86% no campo da microbiologia, e 2,63% no segmento de meio ambiente/ecologia. E o País se destacou na medicina tropical (18,4% dos papers publicados no mundo) e na parasitologia (12,3%).

"O Brasil é, claramente, muito forte nas ciências da vida, em especial as relacionadas aos recursos naturais. É a autêntica economia do conhecimento natural", constata o relatório da Evidence. A expressão, aliás, já fora usada por Kirsten Bound no documento Brazil, The Natural Knowledge Economy, publicado em 2008 pela organização britânica Demos e reproduzido por Inovação. O título da publicação tem duplo sentido: chama a atenção para o fato de a economia brasileira ter forte base em produtos naturais, mas ainda assim ser uma economia do conhecimento — porque a produção agrícola e a produção de petróleo do País se desenvolveram graças à pesquisa científica.

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