Está no ar na página da revista semanal britânica Times Higher Education na rede mundial de computadores o artigo "Established powers must link up with Latin tiger" (Potências estabelecidas precisam se conectar com tigre latino), de autoria de Phil Baty. A fera em questão é o Brasil, descrito pelo autor como força emergente numa variedade de campos cientÃficos. As informações contidas no texto são reproduzidas de um estudo da consultoria de pesquisas analÃticas Evidence a ser publicado em julho, intitulado The new geography of science (A nova geografia da ciência).
As estatÃsticas que o artigo cita mostram que em anos recentes o Brasil se transformou em ator importante no cenário mundial da ciência, no qual ocupa espaço cada vez maior. O texto ressalta que o PaÃs forma a cada ano centenas de milhares de universitários e milhares de doutores pesquisadores — houve "um aumento de dez vezes em 20 anos", informa a Evidence —, publica cada vez mais artigos cientÃficos e seus gastos com pesquisa e desenvolvimento somaram US$ 13 bilhões em 2007. E já pode ser considerado potência nos campos de medicina tropical e parasitologia, e player relevante em áreas como agricultura, medicina e cirurgia bucal, e entomologia, entre outras.
Com foco no Brasil, o trabalho que o artigo da Times Higher Education comenta é o primeiro de uma nova série de estudos, em preparação, que farão parte dos Global Research Reports by Evidence — Relatórios de Pesquisa Global pela Evidence. A empresa pertence à Thomson Reuters, especializada na indexação de periódicos cientÃficos e trabalhos acadêmicos.
O artigo começa com um alerta: a Europa e os Estados Unidos podem ficar para trás se não tirarem proveito da oportunidade de fazer alianças na área de pesquisa com os paÃses que a Evidence chama de "tigres latinos" — Argentina, México e, em especial, Brasil. O risco, avisa, seria concreto: segundo o estudo citado, as atuais potências na pesquisa ainda "ignoram, por sua conta e risco", a crescente força do PaÃs. "O custo de não se estabelecer um compromisso de parceria com o Brasil vai ser significativo em termos de desenvolvimento, tanto o intelectual como o econômico", prevê o relatório.
Hoje o conhecimento é imprescindÃvel, e "a Europa e os EUA precisam se envolver por inteiro com seu futuro comércio ou ficarão intelectualmente marginalizados". Para a Evidence, "o perfil, a excelência cada vez maior, o tamanho e a relação do Brasil com o restante do universo internacional de pesquisa fazem dele um parceiro essencial em qualquer cenário mundial de pesquisa futuro".
Produção cientÃfica multiplicada
Citando a Web of Knowledge (rede de conhecimento), que também faz parte da Thomson Reuters, o artigo revela que a participação da América Latina na produção de papers cientÃficos aumentou de 1,7% do total mundial em 1990 para 4,8% em 2008. No caso do Brasil — e esta informação provém do relatório da Evidence —, a produção de papers com pelo menos um autor residente no PaÃs saltou de 2 mil em 1981 para 20 mil em 2008. Nesse perÃodo — o que a Times Higher Education não menciona — a Thomson Reuters passou a incluir em sua base muitas revistas cientÃficas brasileiras. Isso fez aumentar o número total de artigos indexados publicados por brasileiros — mas não significa que tenha crescido na mesma velocidade a produção cientÃfica do PaÃs.
"A caracterÃstica mais impressionante da nova geografia da ciência é a escala do investimento e da mobilização de gente que está por trás da inovação que vem sendo executada, norteada por uma visão altamente tecnológica de como triunfar na economia global", diz o relatório em referência ao Brasil. Para fundamentar essa afirmação, apresenta cifras que mostram um retrato positivo do PaÃs. Por exemplo, destaca o fato de que em 2007 o Brasil investiu em P&D o equivalente a 1% do Produto Interno Bruto (PIB). E que a cada ano 500 mil brasileiros recebem um diploma universitário e aproximadamente 10 mil pesquisadores terminam o doutorado. "O Brasil", resume a publicação da Evidence, "é uma economia de pesquisa cada vez mais importante e competitiva".
Ciências naturais
De acordo com o texto da Times Higher Education, entre 2003 e 2007 a Thomson Reuters indexou por volta de 85 mil artigos oriundos do Brasil, o que equivale a 1,83% do total. Durante esses anos a produção cientÃfica nacional respondeu por 3,91% de todos os papers nas áreas ligadas a plantas e animais, 3,72% nas ciências agrÃcolas, 2,86% no campo da microbiologia, e 2,63% no segmento de meio ambiente/ecologia. E o PaÃs se destacou na medicina tropical (18,4% dos papers publicados no mundo) e na parasitologia (12,3%).
"O Brasil é, claramente, muito forte nas ciências da vida, em especial as relacionadas aos recursos naturais. É a autêntica economia do conhecimento natural", constata o relatório da Evidence. A expressão, aliás, já fora usada por Kirsten Bound no documento Brazil, The Natural Knowledge Economy, publicado em 2008 pela organização britânica Demos e reproduzido por Inovação. O tÃtulo da publicação tem duplo sentido: chama a atenção para o fato de a economia brasileira ter forte base em produtos naturais, mas ainda assim ser uma economia do conhecimento — porque a produção agrÃcola e a produção de petróleo do PaÃs se desenvolveram graças à pesquisa cientÃfica.