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Publicado em 15 de Dezembro de 2008






Bioware, pequena que inova
Planta experimental da Bioware, instalada na Unicamp, queima
resíduos agrícolas para produzir carvão, óleo vegetal e gases

Rachel Bueno

A Bioware vive há seis anos dos recursos que recebe de agências de fomento e da prestação de serviços para empresas que querem reaproveitar resíduos de origem vegetal. Em 2009, contudo, pode tornar-se também fornecedora de tecnologia. A lista de potenciais clientes inclui companhias como as brasileiras Petrobras e Votorantim e a norte-americana Georgia-Pacific, que já estudam a possibilidade de encomendar à empresa uma planta de pirólise. Na pirólise, resíduos agrícolas são queimados e transformados, a cada passo do processo, em carvão, em bioóleo  que pode ser usado em caldeiras industriais e na produção de plástico, entre outras aplicações , e em um líquido inseticida. Palha de cana-de-açúcar, serragem, bagaço de laranja são alguns dos materiais que a Bioware processa em sua planta experimental.

"Quando tivermos só um caso de sucesso com um desses clientes grandes, todo mundo vai querer instalar uma planta", acredita o engenheiro químico com doutorado em engenharia agrícola Juan Miguel Mesa Pérez, um dos donos da Bioware. "Esse momento já está aí na porta." O sócio de Juan, José Dilcio Rocha, engenheiro químico com doutorado em engenharia mecânica e pós-doutorado pelo Laboratório Nacional de Energia Renovável dos Estados Unidos, está de acordo: "Em 2009, a Bioware vai colocar de duas a três plantas de duas toneladas de biomassa por hora", opina.

Se a previsão de José Dilcio para 2009 se confirmar, o faturamento da empresa vai passar para a casa dos milhões. Uma planta de pirólise capaz de processar meia tonelada de biomassa por hora custa mais ou menos R$ 500 mil; uma de uma tonelada, em torno de R$ 800 mil; e uma de duas toneladas, o máximo oferecido pela empresa, entre R$ 1,3 milhão e R$ 1,5 milhão.

"As plantas se pagam em um ano, um ano e pouco; economicamente, são muito viáveis", afirma Juan. Apesar disso, a Bioware só montou uma planta de pirólise além da sua própria. Foi em Conceição de Macabu (RJ), em um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com recursos da prefeitura, do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e da Caixa Econômica Federal. A planta da empresa processa 200 toneladas de biomassa por hora e está instalada no Campo Experimental da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp.

"Existe um interesse muito grande pela tecnologia, porém o mercado não está totalmente pronto para assimilar os produtos gerados por ela", justifica Juan. Para diminuir a desconfiança dos potenciais clientes, a Bioware fornece-lhes amostras para testes e ajuda-os a adequar os produtos da pirólise a condições e necessidades específicas. A Petrobras, por exemplo, está preparando o bioóleo para ser misturado ao gasóleo (um derivado do petróleo). Já a Votorantim quer usá-lo como combustível industrial, enquanto a Georgia-Pacific, de Atlanta (EUA), pensa em empregá-lo na fabricação de resina fenólica. A Georgia-Pacific é uma das líderes em produção de celulose, papel, embalagens, tecidos e alguns tipos de produtos químicos, como as resinas fenólicas, as primeiras resinas sintéticas produzidas no mundo, que apresentam vantagens como rápida secagem, resistência a agentes químicos e à umidade.

Mas a Bioware não se resume à tecnologia de pirólise. Com financiamento do PIPE, o programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que apóia as pequenas firmas inovadoras, a empresa montou uma planta que transforma 120 quilos de biomassa de baixa densidade em pequenos "tijolos" chamados briquetes, que podem ser queimados em churrasqueiras, fornos de pizza e até caldeiras industriais. Juan explica que a densidade dos briquetes é de 1,2 tonelada por metro cúbico, superior à da madeira. "Ao invés de transportar dez caminhões de palha, pode-se transportar um de briquetes de biomassa compactada", ressalta. Segundo José Dilcio, o outro sócio da empresa, o custo de uma planta de briquetagem é de até R$ 500 mil.  Em 2007, a prestação de serviços para o reaproveitamento de resíduos rendeu R$ 450 mil à Bioware; os contratos fechados até outubro de 2008 chegam a R$ 350 mil.

Projetos antigos

Fundada em 2002, a Bioware foi uma das oito primeiras residentes da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp). Quando saíram da incubadora, em junho de 2005, os sócios da empresa montaram um laboratório no Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), na própria universidade, numa parceria com o Grupo de Combustíveis Alternativos. Foi nesse laboratório que Inovação conversou com eles pela primeira vez, em junho de 2006.

Nessa época, a planta de pirólise da Bioware, que já havia funcionado em uma usina de açúcar e álcool de Piracicaba (SP), estava desmontada. A empresa dedicava-se a um projeto da Fase II do PIPE, concluído no segundo semestre de 2008. Esse PIPE deu origem a um forno de torrefação e à planta de compactação de biomassa. "Conseguimos montar e operar a máquina", diz Juan. "Vários protótipos já estão funcionando, e estamos oferecendo máquinas de até meia tonelada por hora de capacidade, prontas para ser comercializadas."

Nesse mesmo período, a empresa aguardava o julgamento de quatro propostas apresentadas à Fapesp e a outras agências de fomento à pesquisa. Só uma foi aprovada: a Bioware recebeu recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Petrobras para desenvolver, em parceria com o Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) da Unicamp, um gaseificador de biomassa, que entrará em operação na empresa ainda este ano.

Entre as três propostas restantes, uma não foi para frente porque o Ministério de Minas e Energia, que liberaria os recursos, cancelou os investimentos em uma determinada cartela de projetos. As outras duas não foram aprovadas pelo PIPE. Uma delas, para a segunda fase do programa, visava ao melhoramento do processo de produção do bioóleo. A outra, para a primeira fase, tratava da montagem de uma planta-piloto para produção de alginato, um polímero natural feito de algas marinhas. "Descobrimos que a matéria-prima para fazer alginato aqui no Brasil era pouca e que a existente era de difícil acesso", diz Juan. O problema realmente não era falta de tecnologia. Durante o mestrado em Cuba, seu país de origem, Juan desenvolveu um processo para obter alginato de sódio a partir de algas pardas.

Belém e Brasília

Em meados de 2007, os sócios da Bioware colocaram a planta de pirólise desmontada em um caminhão e rumaram para Belém (PA). Eles haviam sido convidados pela professora Brígida Ramati Pereira da Rocha, da Universidade Federal do Pará (UFPA), a demonstrar a tecnologia de pirólise para autoridades e empresários locais. A planta foi montada dentro da universidade em 15 dias e lá ficou durante três meses, operando com serragem de madeira de lei. "Ela trabalhou melhor do que nunca", lembra Juan. "Ficamos muito animados. Foi um ponto crucial para o amadurecimento da tecnologia."

A planta voltou para Campinas em dezembro de 2007 e foi instalada em um pequeno galpão no Campo Experimental da Feagri. Nesse mesmo mês, José Dilcio mudou-se para Brasília para trabalhar na unidade de Agroenergia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). "Continuo sendo sócio da Bioware", diz ele. "Para mim, é muito bom ver que os negócios continuam acontecendo, que o faturamento está aumentando e que a vida da empresa não se abalou com a minha saída. Isso é muito saudável."

Segundo José Dilcio, a entrada na Embrapa significou a abertura de novas perspectivas de desenvolvimento na área de aproveitamento de biomassa. "Antes mesmo da minha vinda já tínhamos um grande projeto envolvendo Unicamp, Bioware, Embrapa e outras organizações, denominado "Florestas energéticas", financiado pela Embrapa dentro da linha Macroprogramas 1", diz ele. "A visão empresarial privada é bem focada em resultados imediatos e faturamento, enquanto a visão empresarial pública, que é o caso do negócio da Embrapa, é mais estratégica e macroeconômica. Isso realmente é uma possibilidade de estreitar as sinergias entre esses dois mundos e tentar fazer o melhor de cada um."

Na Feagri

Em 2008, já no Campo Experimental da Feagri, a entrada de recursos provenientes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da prestação de serviços permitiu que a Bioware montasse uma versão mais aprimorada da planta de pirólise. "A tecnologia já está praticamente pronta", garante Juan. "Vamos passar agora à etapa de automação." A principal novidade da segunda versão da planta é o novo reator, para o qual a empresa solicitou patente em setembro de 2006.

A Bioware tem outros dois pedidos de patente: um depositado em maio de 2007, intitulado "Dispositivo para recuperação de aerossóis em sistema de pirólise ou carbonização de biomassa e outras aplicações", e outro em fevereiro de 2008, feito em parceria com a Unicamp. Os inventores da última tecnologia, batizada de "Sistema para obtenção de biocombustível/bio-óleo, carvão vegetal em pó, extrato ácido e gases pirolíticos por degradação térmica acelerada de biomassa", são os dois sócios da empresa e o professor da Feagri Luis Augusto Barbosa Cortez.

A montagem da segunda versão da planta foi acompanhada da ampliação das instalações da Bioware na Feagri. Hoje, a área de 600 metros quadrados ocupada pela empresa está toda cercada. Nela há o galpão onde ficam as plantas de pirólise e de compactação de biomassa, escritório, almoxarifado e containeres que funcionam como laboratórios. De acordo com Juan, a empresa investiu entre R$ 60 mil e R$ 70 mil no local e recebeu R$ 3 mil da Feagri para comprar alguns materiais de consumo. Toda a estrutura física, com exceção dos containeres, ficará para a faculdade quando a empresa mudar-se para uma sede fora do campus da Unicamp.

A parceria entre a Bioware e a Feagri faz parte de um projeto do Programa Nacional de Pós-Graduação (PNPD), já aprovado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo CNPq. O objetivo do projeto é reforçar a área de pós-graduação em bioenergia da faculdade. Nele está incluído o pagamento de bolsas para dois alunos de pós-doutorado, que alternam períodos na faculdade e na empresa, e de R$ 12 mil anuais por bolsista para aquisição de material de consumo.

Graças à parceria, os alunos da Feagri podem visitar a Bioware e ver as plantas de pirólise e de compactação de biomassa funcionando. Além disso, alguns dos pesquisadores da empresa dão aula na faculdade. "Essa parte de interação é o motivo pelo qual ainda estamos aqui na Unicamp", afirma Juan. "É uma parceria em que tanto a parte acadêmica como a comercial se beneficiam."

Novos projetos

A Bioware tem outros seis projetos novos já aprovados: dois pela Finep, dois pelo CNPq e dois por fundos setoriais. Um dos projetos com recursos da Finep envolve uma empresa francesa e foca-se no estudo de diversas tecnologias relacionadas à termoconversão de biomassa. O segundo envolve a empresa Bimetal, de Cuiabá (MT), e trata da montagem de uma planta de pirólise com capacidade para processar duas toneladas de biomassa por hora. A Bimetal atua no setor metal-mecânico de construção metálica e infra-estrutura para telecomunicações e energia. De acordo com Juan, o contrato com a empresa ainda está em negociação, mas os recursos, da ordem de R$ 3 milhões, já foram liberados.

Entre os projetos financiados pelo CNPq, um enquadra-se no Edital Universal e outro no programa Recursos Humanos para Atividades Estratégicas (RHAE). O Fundo Setorial de Energia (CT-Energ) financia um projeto voltado para a produção de briquetes com qualidade siderúrgica e briquetes para gaseificação. Já o financiado pelo Fundo Setorial de Petróleo e Gás Natural (CT-Petro) pretende investigar se a adição de bioóleo facilitaria o transporte de petróleo de alta viscosidade.

A empresa aguarda o julgamento de mais quatro propostas. Duas delas foram encaminhadas ao CNPq: uma refere-se ao Edital Universal e outra ao Edital Universal de Fertilizantes. As outras duas encaixam-se nas chamadas lançadas pela Fapesp com a Dedini e com a Braskem.

O objetivo da proposta enviada para a chamada da Braskem é produzir gás de síntese a partir do bioóleo. A enviada para a chamada da Dedini diz respeito ao aproveitamento da palha da cana-de-açúcar para geração de energia e ao beneficiamento da lignina (um dos componentes das plantas, ao lado da celulose e da hemicelulose) residual do processo de hidrólise (por meio de enzimas ou ácidos, a hidrólise "quebra" a celulose e a hemicelulose em açúcares que podem ser fermentados e convertidos em etanol). O aproveitamento da palha liberaria o bagaço, que é a atual fonte de energia das usinas, para produção de etanol por hidrólise.

Equipe

Hoje, oito pessoas trabalham diretamente na Bioware — sem contar o sócio José Dilcio, que está em Brasília. Duas pessoas cuidam da parte administrativa da empresa. As outras seis dividem-se entre a parte operacional (operação das plantas, tratamento de biomassa, etc.) e a de captação de recursos junto a agências de fomento, coordenação de projetos e preparação de publicações científicas.

Cinco das seis pessoas do grupo de pesquisa têm pós-graduação: são quatro doutores e um mestre. Dois dos doutores são os alunos de pós-doutorado que recebem as bolsas do PNPD; os outros dois e o mestre recebem bolsas do programa Recursos Humanos para Atividades Estratégicas (RHAE), do CNPq — um desses doutores, no entanto, recebe bolsa que seria para nível de mestrado. A sexta pessoa estuda na Universidade de São Paulo (USP) e conduz seu projeto de iniciação científica na Bioware. Há também uma aluna de iniciação científica da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná, que testa amostras de produtos fabricados pela empresa.

 

 

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