PHB
Industrial
Crise adia
meta de 2008; agora, empresa afirma que
só em
2011 fabricará 36 mil toneladas/ano
de plástico biodegradável
Davi
Molinari
A Usina
da Pedra, em Serrana, região de
Ribeirão Preto (SP), é o
principal pólo de produção
de plástico derivado de açúcar
de cana do País. Em meio à
vasta área de plantações
de cana funciona, desde 2002, uma fábrica-piloto
de PHB. PHB abrevia polihidroxibutirato,
nome de um composto orgânico, sintetizado
por bactérias que se alimentam
de açúcar, com propriedades
similares aos plásticos —
que também são compostos
orgânicos, mas derivados do petróleo.
A empresa que construiu a planta-piloto,
e é responsável por sua
operação, leva o mesmo nome:
PHB Industrial S/A. Não por acaso
a planta-piloto está na Usina da
Pedra: a empresa resulta da associação
do Grupo Irmãos Biagi, proprietário
da usina, com o Grupo Balbo, também
do setor sucroalcooleiro. Além
da planta-piloto, a PHB é proprietária
de uma marca registrada: Biocycle. Esse
é o nome do PHB fabricado em Serrana.
Os sócios investiram R$ 30 milhões
na planta-piloto, que trabalha 24 horas
por dia e produz 60 toneladas de Biocycle
por ano. Praticamente toda a produção
da PHB, que tem 20 funcionários,
é exportada para empresas nos Estados
Unidos, Japão e Europa —
com as quais possui contratos de sigilo
que impedem a identificação,
mas absorvem todos os produtos desenvolvidos.
Segundo a diretoria da PHB, o momento
ainda é de investimentos, mas o
volume de vendas e de produção
não tem compensado os esforços.
Uma nova planta industrial estava prevista
para operar a partir deste ano, colocando
10 mil toneladas anuais de PHB no mercado.
Com a crise financeira, contudo, os planos
foram postergados. Mesmo assim, a idéia
é que se chegue a 2011 com uma
produção de 36 mil toneladas
por ano. "A partir desta escala de
produção será possível
começar a ter retorno do investimento
e a mudar o perfil do mercado de plástico",
afirma Jefter Fernandes do Nascimento,
engenheiro de materiais que coordena o
projeto de pesquisa e desenvolvimento
para melhoria do processo de obtenção
do PHB financiado pelo PIPE, da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (Fapesp).
Mas por
que o Biocycle mudaria o perfil do mercado
de plástico, como diz o engenheiro?
Pelo fato de o PHB ser biodegradável.
Embalagens feitas de PHB — a aplicação
na qual a empresa aposta mais —,
quando jogadas fora, "viram"
água e gás carbônico
em um período que varia de seis
a 12 meses. Já o plástico
convencional utilizado mais freqüentemente
em embalagens — o polipropileno,
derivado do petróleo — passa
200 anos no ambiente antes de se decompor.
O PHB
não é o único plástico
biodegradável disponível
no mercado. Hoje, existem quatro classes
diferentes deles — nenhuma, no entanto,
tão boa no quesito biodegradabilidade/sustentabilidade.
Outra vantagem é o preço:
sempre segundo os envolvidos no projeto,
o quilo do polímero de cana-de-açúcar
custa em torno de US$ 5, enquanto o quilo
de outros plásticos biodegradáveis
provenientes, por exemplo, da beterraba
ou do milho, custa US$ 14. Plásticos
mais baratos, de fontes não-renováveis,
como o petróleo, custam US$ 8 em
média por quilo. Uma das razões
do preço competitivo é o
fato de as instalações da
fábrica serem totalmente auto-suficientes:
a cana fornece a matéria-prima,
o açúcar e um álcool
especial, chamado superior, usado na etapa
final da fabricação. O bagaço
de cana é usado para gerar energia
elétrica e vapor, necessários
ao processo industrial. "A grande
sacada inicial foi a elaboração
de um processo que não dependesse
de energia externa. Isto derrubou o preço
para valores comercializáveis",
afirma José Geraldo da Cruz Pradella,
pesquisador do Instituto de Pesquisas
Tecnológicas (IPT) envolvido na
história de 20 anos que conduziu
à fábrica-piloto da PHB
Industrial.
Atualmente,
o mundo produz 200 milhões de toneladas
de polipropileno por ano. "O PHB
não é indicado para substituir
todas as aplicações do polipropileno,
mas alcançará nos próximos
anos algo entre 1% e 2% deste mercado",
afirma Jefter, mestre em engenharia química
pela Unicamp em 2001. O projeto elaborado
por ele e apresentado à Fapesp
recebeu um total de R$ 838.840,00. Passou
pela Fase I, em 2001, para provar a viabilidade
do produto; depois, na Fase II, mostrou
que era possível produzi-lo; finalmente,
no final de 2004, foi selecionado para
a Fase III — quando vieram os recursos
para a montagem de um laboratório
de determinação das características
físicas e termomecânicas
do PHB. "A caracterização
foi fundamental para calibrar o processo
de produção", explica
o coordenador.
O passo
fundamental para aumentar a escala de
produção foi o domínio
das especificações para
a produção dos pellets
de PHB. O polipropileno é comercializado
em pellets — bolinhas do
plástico, que são fundidas
nas máquinas dos compradores para
produzir as diferentes embalagens. Essa
tarefa também foi cumprida com
recursos do PIPE. Em novembro de 2006,
a Injecom, empresa de São Paulo
que produz objetos de plástico
injetado, lançou uma embalagem
para mudas de eucalipto feita com o plástico
da PHB. Três meses depois de a muda
ser plantada, o invólucro de PHB
se degrada na terra. A produtividade cresce
— o que já interessa a grandes
indústrias de papel e celulose.
Quem acompanha a produção
da embalagem para mudas é a Escola
Superior de Agricultura Luis de Queiroz
(Esalq).
Investimento
público continuado
Não
foi o PIPE o primeiro programa público
de investimento a apoiar as atividades
de pesquisa e desenvolvimento que levaram
ao produto fabricado pela PHB Industrial
— foi a Financiadora de Estudos
e Projetos (Finep). Com recursos do Programa
de Apoio ao Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (PADCT), a agência
investiu cerca de R$ 5 milhões.
Mas a iniciativa para a obtenção
do bioplástico partiu do extinto
Proálcool. No final dos anos 1980,
o programa incumbiu o então Centro
de Tecnologia da Copersucar — hoje
Centro
de Tecnologia Canavieira (CTC)
— de buscar novas alternativas para
o uso da cana-de-açúcar.
Na época, o engenheiro químico
Carlos
Rossell, doutor em
engenharia de alimentos pela Unicamp,
trabalhava no centro. "Existia uma
visão econômica de longo
prazo associada, já naquela época,
a uma visão ambiental. Pensávamos
que era possível produzir em larga
escala um substituto para o plástico
da petroquímica", conta. Mais
tarde, o engenheiro tornou-se um dos coordenadores
do projeto.
O CTC
estrategicamente procurou parceiros que
pudessem enfrentar o desafio. "Foi
reunida uma massa crítica de 25
cientistas, um feito inédito para
as condições do Brasil",
lembra Rossell. Um grupo de pesquisa do
Instituto de Ciências Biomédicas
da Universidade de São Paulo (ICB-USP),
liderado pela bióloga Ana Clara
Schemberg, selecionou a bactéria
— a Alcaligenes eutrophus,
encontrada no solo dos canaviais —
e produziu uma cepa transgênica
mais eficiente para sintetizar o PHB.
Enquanto isso, o IPT e o CTC buscaram
soluções tecnológicas
para a fermentação, em que
as bactérias "produtoras"
do plástico se multiplicam, alimentadas
por uma mistura que contém açúcar;
e para a extração do PHB
de dentro delas.
O IPT
testou mais de 300 espécies de
bactérias. Quando ficou claro que
o processo industrial era viável,
o CTC apresentou o projeto aos canavieiros
associados à instituição:
apenas os grupos Balbo e Biagi encararam
o desafio. Em 1997, foi feito o projeto
da unidade-piloto de Serrana. A fábrica
passou por diversas modificações
até alcançar o processo
produtivo atual. "A realidade nos
mostrou que não bastava pegar a
matéria-prima e transformá-la
em produto com o menor custo possível:
faltava conhecimento do negócio",
lembra Rossell.
O engenheiro
explica que cada aplicação
— frasco, garrafa ou filme (como
se designa, no jargão, a forma
do plástico usada em sacos) —
necessita uma composição
diferente do produto final. "Faltava
um ajuste à demanda do mercado
que se refletia no processo de produção.
Foi quando firmamos uma parceria com o
Departamento de Engenharia de Materiais
da UFSCar [Universidade Federal de São
Carlos] que nos permitiu chegar a uma
metodologia de produção
para os plásticos injetáveis
e soprados", afirma Rossell.
Cinco
patentes de processo e desenvolvimento
de bactéria resultaram do projeto.
Três pertenciam ao IPT e ao CTC;
duas, à USP e ao CTC. Eram licenciadas
à PHB Industrial S/A, que pagava
aos detentores da propriedade intelectual
3% de royalties sobre as vendas
da fábrica. Atualmente, a PHB detém
as parcelas que eram do CTC, sendo ela
mesma sócia do IPT e da USP. Essas
patentes descrevem o processo de produção,
fermentação e extração
do PHB. Além das cinco, a PHB Industrial
detém sozinha outras 13 patentes
internacionais de processo de aplicação
do material. As etapas do processo, por
sua vez, organizam o funcionamento da
fábrica, que é dividida
em três grandes blocos: a fermentação,
onde a bactéria se reproduz e sintetiza
o polímero; a extração,
onde se tira o polímero da bactéria;
e a purificação e secagem,
onde se eliminam os resíduos orgânicos
— restos de bactéria —
do polímero.
Chegando
ao mercado
Hoje,
o mercado se prepara para as novas aplicações
possíveis do plástico biodegradável.
A Injecom saiu na frente e começou
a comercializar em novembro de 2006 os
invólucros de PHB para mudas. No
mercado, esses invólucros —
tubos — são chamados de tubets.
O tempo de decomposição
depois de enterrado e seu formato foram
projetados especialmente para a reprodução
de mudas de eucalipto. Votorantim e International
Papers, gigantes da indústria de
papel e celulose, já estavam na
lista de interessados pelo novo produto
desde o início. Segundo Marcos
Maglio, dono da Injecom, o processo de
reprodução in vitro
de eucaliptos é feito normalmente
em tubets de plástico
convencional. As pequenas mudas saem dos
viveiros nesses tubos, de onde são
retiradas antes de ser plantadas na terra.
Os tubets
de plástico convencional são
reutilizáveis, mas pagam custos
de frete, lavagem, esterilização
e de reposição da ordem
de 20% ao ano. Testes feitos em tubets
de PHB mostraram que, como as mudas são
plantadas direto na terra, a eliminação
do manuseio evita a contaminação
— que atinge cerca de 20% das plantas
quando são usados os tubets
convencionais. "O aumento da nossa
produtividade provoca forte demanda pelos
tubets biodegradáveis
— para a cultura de eucaliptos e
também para café, pupunha
e mamão", conta Marcos Maglio.
Por ser
biocompatível, o PHB também
pode atender a área da medicina.
Poderá ser transformado, por exemplo,
em fios de sutura que serão naturalmente
absorvidos pelo organismo. Fabricantes
de computadores também estudam
trocar pelo biodegradável o plástico
petroquímico de seus produtos,
que viram sucata rapidamente e entulham
os lixões. Na Alemanha, as leis
ambientais estão cada vez mais
rígidas e obrigam as empresas a
dar destinação ao seu próprio
lixo. A indústria automobilística
também tem notado as vantagens
do material, que é aplicado em
revestimentos internos e painéis,
proteções laterais de porta
ou isolamento acústico.
Saldo positivo
Nestes
20 anos de pesquisa, todos os institutos
envolvidos conseguiram aproveitar o conhecimento
adquirido no desenvolvimento de outras
tecnologias. O IPT, por exemplo, obteve
três outras patentes de polímeros
fabricados a partir de outras matérias-primas,
como bagaço de cana, palha de arroz
e resíduos de madeira. "Estudamos
também como aproveitar os resíduos
de óleo diesel, óleo vegetal
e até soro de leite", conta
Pradella. "Os institutos conquistaram
o conhecimento para estabelecer a tecnologia
que vira produção industrial.
Aprenderam a interagir as pesquisas em
três níveis: fundamental,
tecnológico e industrial",
avalia Rossell.
No processo
de interação entre academia,
pesquisa e indústria, todos os
entrevistados ressaltam o papel do pesquisador
Celso Lellis Bueno Netto, engenheiro químico
graduado na Escola Politécnica
(Poli) da USP e doutorado em biotecnologia
em Tolouse, na França. Celso, falecido
em 2004, coordenou durante quase dez anos
o projeto do PHB. "Ele coordenou
os grupos de pesquisa dentro da USP e
teve participação importante
na gestão do projeto", concluiu
Rossell. "Celso foi um entusiasta
do projeto. Comprou a idéia de
uma maneira que nos dava segurança
em torno do objetivo que buscávamos.
Foi dele a ousadia de juntar 20 pesquisadores,
56 técnicos e 20 alunos em torno
de uma idéia que, para mim, no
início, parecia coisa de ficção
científica", homenageia Pratella.