WhitePix
Sistemas Computacionais
Empresa licenciada
da Embrapa Instrumentação vai lançar tomógrafo
portátil com recursos do PIPE; prazo de
entrega é para daqui um ano
Evanildo
da Silveira
e
Giovanny Gerolla
A técnica
da tomografia chega à agricultura
e à silvicultura. Desde 1985, pesquisadores
da Embrapa Instrumentação
Agropecuária, unidade da Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária,
vêm trabalhando em um tomógrafo
portátil que possa ir ao campo
e "ver" as entranhas das árvores
e do solo sem precisar destruí-los.
Por meio de um contrato de transferência
de tecnologia, o novo equipamento será
produzido comercialmente pela pequena
que inova WhitePix Sistemas Computacionais,
de São Carlos, interior de São
Paulo, onde também está
a Embrapa Instrumentação.
De acordo
com o dono da empresa, Edson Minatel,
o equipamento — um cubo de um metro
de aresta de 30 quilos — que deveria
ter entrado no mercado em 2008, ainda
não foi lançado. Mesmo com
recursos do programa PIPE da FAPESP que
apóia a pesquisa na pequena empresa
e com a tecnologia já transferida,
Edson afirma que não cumpriu cronograma
inicial porque "a empresa priorizou
fazer uma avaliação profunda
do mercado antes de fabricar seu protótipo".
Assim,
os recursos do PIPE foram direcionados
para modelagem e fabricação
de tomógrafos adaptados, ou "personalizados",
como diz Minatel, a cada um dos possíveis
usos do equipamento. "Para análise
de celulose, por exemplo, é preciso
que o tomógrafo possa ser levado
a campo, e não dependa de fornecimento
de eletricidade; assim, adaptamos a ele
uma pastilha de césio ou amerício",
explica o empresário. "Acreditamos
que essa estratégia aumenta as
chances de sucesso do tomógrafo
quando for oficialmente lançado
no mercado", contou o empresário.
A empresa obteve da Fapesp a prorrogação
dos prazos do projeto financiado pelo
PIPE. Agora, a conclusão ficou
para novembro de 2009.
Para
que serve o tomógrafo?
Álvaro
Macedo da Silva, chefe geral da Embrapa
Instrumentação, onde nasceu
o tomógrafo portátil, conhece
a utilidade que o equipamento tem para
a agropecuária. Primeiro emprego
citado: o tomógrafo permite a análise
do solo, para verificar se ele facilita
ou não o transporte de líquidos.
"O solo é um meio poroso",
diz, na linguagem dos agrônomos,
"e sua estrutura afeta a forma em
que nutrientes e pesticidas são
absorvidos". A vantagem do tomógrafo
sobre outros meios de análise é
ser "não invasivo", continua
o chefe geral. Por isso mesmo, o instrumento
também será útil
para acompanhar o desenvolvimento da cultura:
a germinação das sementes,
o crescimento das raízes. Outra
vantagem: como as amostras analisadas
pelo tomógrafo portátil
ficam intactas, podem ser reutilizadas
em metodologias diferentes de análise.
Para a
silvicultura — cultivo de florestas
—, além de útil para
a análise do solo, o tomógrafo
poderá vir a ser aplicado na caracterização
e prescrição da utilização
da madeira, por meio da tomografia da
árvore em pé. Por isso,
será importante às empresas
que cultivam florestas para produção
de papel e celulose.
Nova
estratégia
O adiamento
do inicio da comercialização
para o final de 2009 não significa
inatividade na empresa. A nova tecnologia
foi apresentada, em 2008, a grandes empresas
dos setores agroindustrial (como Votorantim
Celulose e Papel), automobilístico
(TRW, Valeo e HUF do Brasil), eletrônico
(Motorola), e de automação
industrial (Festo). Segundo Minatel, todas
mostraram grande interesse em análises
não-destrutivas e indicaram quais
seriam as características técnicas
desejáveis, voltadas evidentemente
às suas aplicações.
Um protótipo
da Whitepix já poderia ter sido
montado como previsto no plano de negócio
original. Porém, sem se ouvir os
clientes, as chances de sucesso seriam
mínimas. Com a nova abordagem de
negócios, o lançamento se
realizará com a formalização
dos contratos. “Isso vai garantir
nossos objetivos de repasse tecnológico
e sua continuidade”, diz Minatel,
o dono da empresa.
Tudo
começou com o atual presidente!
O tomógrafo
portátil começou a ser desenvolvido
em 1985 pelo físico Silvio Crestana,
em sua tese de doutorado. Silvio, que
ajudou a fundar a unidade de São
Carlos nos anos 70, agora é diretor-presidente
da Embrapa. "Ele criou uma metodologia
inédita no mundo, que permitiu
estudar quantitativamente as propriedades
físicas do solo, utilizando um
tomógrafo médico em um hospital
da Universidade de Roma", conta João
de Mendonça Naime, pesquisador
da Embrapa Instrumentação
Agropecuária e responsável
pelo desenvolvimento dos protótipos
do equipamento para a WhitePix.
Segundo
ele, comprovada a viabilidade da técnica,
surgiu a necessidade de desenvolver equipamentos
versáteis para estudo de solo,
que fossem mais acessíveis do que
os tomógrafos médicos (custam
cerca de U$ 1 milhão). "Em
1987, Paulo Estevão Cruvinel, outro
pesquisador da Embrapa Instrumentação
Agropecuária, desenvolveu o minitomógrafo
de raios X e raios gama para estudos agrícolas",
lembra Naime. "Depois disso, diversos
trabalhos, dissertações
e teses foram desenvolvidas com essa técnica
e equipamento. Pouco mais tarde, o doutor
Crestana orientou meu mestrado (1994)
e meu doutorado (2001), nos quais foram
desenvolvidas as versões de primeira
e terceira geração, respectivamente,
do tomógrafo portátil."
Prestação
de serviços
Os interessados
em usar o tomógrafo portátil
não precisarão necessariamente
comprá-lo. "O modelo de negócios
da WhitePix também é inovador
e o aparelho será disponibilizado
prioritariamente como um serviço",
explica Minatel. "Por ser portátil,
ele poderá ser levado e operado
nas instalações do cliente."
Instituições de pesquisa
ou grandes indústrias, se quiserem,
também vão poder comprar
seu próprio equipamento. Mas, após
uma análise de mercado criteriosa,
a WhitePix concluiu que a forma de uso
do equipamento por tempo ou quantidades
pré-estabelecidas é mais
adequada. "Apesar de prevermos a
possibilidade de compra do equipamento
por universidades e centros de pesquisa,
ainda não temos idéia de
quanto vai custar", declara.
Para o
presidente da Associação
Brasileira das Indústrias do Mobiliário
(Abimovel), José Luiz Fernandez,
o tomógrafo portátil pode
ser usado pelo setor no controle de qualidade
da madeira, principalmente na serraria.
Segundo ele, hoje não há
nenhum tipo de equipamento para detectar
cupins, carunchos e outras pragas. "A
verificação da infestação
é feita no 'olhômetro', isto
é, por exame visual", explica.
"Esse tomógrafo seria uma
ferramenta a mais para o controle. Mas
seu o emprego pela indústria moveleira
vai depender dos custos."
Tecnologia
multidisciplinar
A WhitePix
foi fundada em outubro de 2005, em São
Carlos. Para entender os motivos de sua
criação é preciso
antes conhecer um pouco da história
da primeira empresa criada por Minatel,
a Ablevision, em 1999. Ela surgiu com
o objetivo de pesquisar, desenvolver e
disponibilizar softwares de visão
computacional. "Durante nossa experiência
no mercado, observamos que o leque de
aplicações dessa tecnologia
é multidisciplinar", conta
Minatel. "Isso permitiu que a Ablevision
tivesse experiências de sucesso
no desenvolvimento de sistemas complexos
em áreas diversas como no agronegócio,
indústrias automobilística,
cerâmica, eletrônica, de segurança,
medicina, alimentos, entre outras."
Segundo
Minatel, na época (e ainda agora),
a maioria dos sistemas de visão
computacional era importada e muitas vezes
inviável economicamente. "Além
do custo, do ponto de vista técnico,
os 'pacotes comerciais' de sistemas de
visão computacional eram e ainda
são limitados, pois oferecem um
escopo pré-definido de rotinas
que muitas vezes não atendem à
demanda do cliente", diz Minatel.
"Essa baixa flexibilidade já
colocou muitas empresas integradoras de
automação industrial em
situações críticas,
pois elas não conseguiam atender
o cliente de forma adequada (e contratada)
com uso dos 'pacotes'."
Minatel
garante que a Ablevision vai além.
"Nossa empresa se diferencia por
desenvolver sua própria biblioteca
de soluções, inéditas",
garante. "Se em nosso escopo de rotinas
não tiver uma função
que seja adequada para a aplicação
do cliente, nós a desenvolvemos.
Assim, resolvemos o problema incrementando
nossa base de soluções.
Em nosso histórico há diversos
casos de soluções criativas
e patenteáveis."
Essa característica
enriqueceu o portfólio da empresa
e apresentou uma tendência de crescimento
significante. "Isso começou
a exigir que a Ablevision se estruturasse
para atender essa demanda", diz seu
fundador. "Neste contexto, a diretoria
da empresa decidiu, de forma estratégica,
manter o foco da Ablevision no desenvolvimento
de software e de soluções
baseadas em visão computacional,
podendo assim viabilizar novas parcerias
comerciais com outras empresas integradoras,
que antes a consideravam uma possível
concorrente."
Grandes
projetos
Com essa
decisão, alguns projetos importantes
já iniciados ficaram fora do novo
escopo de atuação da Ablevision.
"Com isso, surgiu uma excelente oportunidade
que nos motivou a criar a WhitePix",
lembra Minatel. A nova empresa passou
a ser cliente da Ablevision e herdou grandes
projetos, como o inspetor de revestimentos
cerâmicos, que teve um Pipe Fase
2 aprovado, no valor de R$ 278.960,00,
iniciado em 1º de dezembro de 2005
e concluído em novembro de 2007.
O dinheiro foi usado na contratação
de consultorias especializadas e na aquisição
de hardware para visão computacional.
O projeto
Inspeção Automática
de Revestimentos Cerâmicos por Visão
Computacional prevê o desenvolvimento
de um equipamento que será acoplado
sobre as linhas transportadoras de revestimentos
cerâmicos nas fábricas, pouco
depois deles saírem dos fornos.
"Sua função é
inspecionar a presença de trincas,
manchas, diferenças de tonalidades,
bordas quebradas, entre outras não-conformidades
estabelecidas pela Associação
Brasileira de Normas Técnicas (ABNT)",
explica Minatel. "Hoje, essa tarefa
é realizada por pessoas de forma
subjetiva, imprecisa e insalubre."
A Embrapa
é titular da patente do tomógrafo.
De acordo com Álvaro da Silva,
a transferência da tecnologia para
a WhitePix aconteceu dentro do Programa
de Apoio ao Desenvolvimento de Novas Empresas
de Base Tecnológica Agropecuária
e à Transferência de Tecnologia
(PROETA). Financiado pelo Banco Interamericano
de Desenvolvimento (BID), o programa tem
como objetivo apoiar a criação
de empresas de base tecnológica
para atuarem no agronegócio.
Direito
a royalties
Pelo contrato
de transferência das tecnologias
do tomógrafo e do analisador de
alimentos, a Embrapa recebeu R$ 2 mil
no ato do repasse e terá direito
a 5% de royalties para a comercialização
dos produtos, ou 8% para prestação
de serviços com base nos produtos.
"Os serviços significam à
WhitePix construir equipamentos para seu
próprio uso, prestando serviços
de análise para terceiros",
explica Álvaro. "Temos hoje
18 contratos de licença para exploração
de patente e dois de cooperação.
As transferências geraram em torno
de R$ 35 mil. Os royalties variam, de
acordo com a tecnologia, entre 1,5% e
15%."
Para Silva,
essas transferências de tecnologias
trazem benefícios para a Embrapa,
para a empresa e para a sociedade. "Para
a Embrapa, a importância principal
reside no fato de colocarmos uma tecnologia
inovadora ao alcance da sociedade, além
de possibilitar a criação
de empresas de base tecnológica
e geração de empregos",
diz.
Segundo
ele, isso é o retorno social que
a empresa tem divulgado. "Para a
Embrapa como um todo, e não apenas
para essas transferências de base
tecnológica, cada Real aplicado
dá um retorno de R$ 14,00",
explica Silva. "O lucro social estimado
foi de R$ 12,9 milhões, com 102,3
mil empregos por tecnologias da Embrapa."
Incentivo
fundamental
De acordo
com Edson Minatel, a missão da
WhitePix está em seu próprio
nome. Essa palavra reflete a intenção
do fundador da empresa de criar uma marca
universal, com vistas ao mercado internacional.
"A palavra 'white', branco em inglês,
cor que contém todas as componentes
das outras cores em suas intensidades
máximas, apresenta a WhitePix como
uma empresa integradora de soluções
de alta tecnologia", explica. "'Pix',
por sua vez, vem da abreviação
'pics', de 'pictures', emoldurando as
cores em um quadro: a empresa. Enfim,
um jogo de palavras que ilustra muito
bem o espírito de uma equipe criativa,
ousada e competente."
Para levar
adiante esse espírito, o PIPE tem
sido fundamental. "Esse incentivo
da Fapesp permitiu que trouxéssemos
para dentro de nossa empresa a motivação
de se criar novas tecnologias para aplicações
reais, levando para uso prático
muitos conhecimentos que antes ficavam
apenas no escopo acadêmico",
diz Minatel. "Nossas empresas hoje
investem cerca de 50% de seus lucros em
pesquisas de novos produtos e acreditamos
que esta decisão nos dará
vantagens competitivas. Prova disso é
que a maioria de nossas soluções
implementadas até o momento não
possui similares comerciais."
O empresário
admite, contudo, que além do investimento
em P&D, nos últimos dois anos
procurou melhorar produtos já existentes,
além de estruturar administrativa
e comercialmente suas empresas, o que
tem sido revertido em faturamento mais
expressivo, e pode novamente ser injetado
na investigação de inovações
tecnológicas.
O aparelho
desenvolvido pelo pesquisador da Embrapa
e responsável pelo protótipo,
João de Mendonça Naime,
é similar ao tomógrafo médico
de raio X. Ele também utiliza raios
gama, emitidos pelos elementos químicos
amerício-241 ou césio-137,
que fazem imagens bi e tridimensionais
dos objetos analisados. A diferença
é que é alimentado por bateria
automotiva e seu mecanismo permite ser
transportado para o campo, podendo ser
instalado em torno de uma árvore.
Outra diferença é que, em
vez do corpo humano, o tomógrafo
portátil pode obter imagens do
interior de amostras de solos e árvores.
"Essas imagens correspondem às
características de densidade e
de umidade de um corte transversal à
amostra", explica Naime. "Com
essa técnica, a distribuição
da densidade e da umidade pode ser estudada
detalhadamente".
As aplicações
do tomógrafo portátil são
muitas. Naime detalha as aplicações
mencionadas por Álvaro: determinar
o nível de compactação
do solo, estudar a ação
de implementos de preparação
e plantio e o comportamento da água
na terra, detectar rachaduras e infestação
de pragas em árvores, como cupins
e besouros, e determinar a densidade da
madeira em condições de
campo. Minatel, da WhitePix, dá
outros exemplos: "Pode ser usado
na inspeção de componentes
internos de equipamento eletrônicos
como telefones celulares, ou mesmo de
peças automotivas, como travas
de segurança, injetores de combustíveis,
outros."
Entre
os possíveis usuários do
tomógrafo portátil estão
indústrias de celulose e papel
e de móveis. Os municípios,
por meio da defesa civil, também
poderão usá-lo na identificação
preventiva de árvores com infestação
de cupins ou de postes de concreto com
fissuras estruturais.
"Indústrias
de autopeças, de injetados plásticos,
metalúrgicas e até mesmo
de eletroeletrônicos já demonstraram
muito interesse durante a pesquisa de
mercado", revela Minatel. "As
universidades e os centros de pesquisa
merecerão atenção
especial no uso do tomógrafo. Acreditamos
que, assim, muitas pesquisas serão
viabilizadas com a possibilidade de análises
não-invasivas."