Tecam
Laboratórios
Empresa bem-sucedida
em análises laboratoriais de produtos
espera definição sobre rotulagem de OGMs
para crescer mais
Davi
Molinari
Janete
Moura, Cynthia Bomfim e Regina Sawaia
Sáfadi freqüentaram na mesma
época as aulas do curso de graduação
em Biologia no Instituto de Biociências
da Universidade de São Paulo (USP).
Quando se formaram, em 1982, cada uma
escolheu especializar-se em uma área:
Janete fez seu doutorado em genética;
Cynthia, em biologia celular; e Regina
Sawaia, em ecologia. A diversidade de
escolhas — elas não sabiam
— acabou por ajudar as amigas quando,
em 1992, resolveram unir suas competências
para fundar o Tecam Laboratórios.
As três jovens empresárias
detectaram uma oportunidade concreta,
que a sinergia de suas especialidades
permitia aproveitar: uma mudança
na legislação introduziu
a exigência de que os testes de
segurança dos defensivos agrícolas
— para saber, por exemplo, seu grau
de toxicidade — passassem a ser
feitos aqui no Brasil. As fábricas
de defensivos se tornaram os primeiros
clientes do Tecam; mas não os únicos:
a empresa comemorou, em 2008, seus 16
anos de vida, um aumento de 10% em relação
ao faturamento de 2007 — R$ 2,7
milhões — e sua carteira
de mil clientes.
O começo
Uma técnica para
avaliação da toxicidade
consiste em expor organismos aquáticos
(como algas, crustáceos e peixes)
e mamíferos (como ratos e coelhos)
aos defensivos agrícolas. Entre
outros testes, é preciso comprovar
se o produto químico traz risco
de mutagenicidade — ou seja, de
causar mutação genética
nos organismos em contato com o defensivo.
Como o Tecam já tinha know-how
para analisar contaminação
de organismos aquáticos, não
foi difícil analisar a qualidade
da própria água. Por isso,
passou também a atender distribuidoras
que precisavam certificar a potabilidade
da água que vendiam. Esse serviço,
o Tecam presta até hoje. Por extensão,
a empresa também passou a prestar
serviço na análise físico-química
de alimentos industrializados, dando informações,
por exemplo, para a rotulagem nutricional,
com a quantificação e detecção
de vitaminas, colesteróis, açúcares
etc.
Mas... E o
PIPE?
A trajetória bem-sucedida
teve sua prova de fogo quando chegaram
ao mercado produtos contendo organismos
geneticamente modificados (OGMs). As biólogas
do Tecam perceberam que ali nascia um
novo nicho de negócios. "Não
foi uma decisão simples, pois havia
muita incerteza sobre a postura que o
Brasil adotaria em relação
aos transgênicos, já que
no mundo dois cenários se desenrolavam:
a Europa exigia a rotulagem dos alimentos
contendo transgênicos e os EUA,
não", explica Janete sentada
à mesa de seu escritório,
uma sala sem divisórias de onde
ela pode interagir com todas as mesas
da diretoria.
Para ganhar a capacidade
de detectar a presença ou não
de OGMs em um produto e assim disputar
esse novo mercado, o Tecam teria de assumir
o risco de investir na montagem de um
laboratório de biologia molecular,
sem saber — naquele momento —
quais seriam as regras do negócio.
Em 1999, quando planejou o Laboratório
de Biologia Molecular, o Tecam não
tinha sede própria. À medida
que a empresa crescia, mais uma casa de
aluguel era agregada às instalações.
Em 2000, seus 15 funcionários atuavam
numa seqüência de três
casas no bairro da Lapa. A arquitetura
definitivamente não era a desejada
pelas sócias.
O problema central para a empresa, naquele
momento, era o custo elevado dos equipamentos
necessários para realizar a tarefa.
O principal deles, uma "máquina
de PCR", peça fundamental
em laboratórios de biologia molecular.
PCR é a sigla, em inglês,
para Polymerase Chain Reaction —
ou, em português, Reação
em Cadeia da Polimerase. Esse processo
permite fabricar moléculas de DNA
em quantidade grande a partir de fragmentos
de moléculas de DNA — quer
dizer, a partir de quantidades pequenas
de DNA. Genes são feitos de DNA.
A descoberta desse processo foi tão
importante para as tecnologias da engenharia
genética que deu o Prêmio
Nobel de Química a seu inventor
— o bioquímico norte-americano
Kary Mullins —; a máquina
de PCR faz o processo de reações
encadeadas inventado por ele acontecer
automaticamente.
E o que isso tem a ver
com o mercado que as empresárias
do Tecam almejavam, o de rotulagem de
transgênicos? É que a quantidade
de DNA de material transgênico presente
em cada amostra de alimento é pequena.
Sem aumentar essa quantidade, não
é possível analisar as características
do produto necessárias para definir
os dados para a rotulagem. Por isso é
que Janete, Cynthia e Regina precisavam
da máquina de PCR. Preço:
US$ 100 mil. Naquela época, em
janeiro de 1999, a cotação
do dólar passou de R$ 1,20 para
R$ 2. Não dava para a empresa bancar
o investimento, com sete anos de vida
e faturamento anual perto dos R$ 300 mil.
O que elas fizeram então? Pediram
o dinheiro ao PIPE, é claro. "Na
época não tínhamos
sequer noção de como montar
um plano de negócios", afirma
a sócia Regina Sáfadi.
Para aprender a lidar com administração
do negócio e captar recursos novos,
Janete participava de todas as reuniões
que pudessem ajudar neste sentido. Um
encontro promovido pela Financiadora de
Estudos e Projetos (Finep) entre pequenos
empresários e investidores foi
o estopim para que as sócias decidissem
buscar ajuda no PIPE. As pesquisadoras
recearam que uma eventual injeção
de capital de risco na empresa poderia
lhe tirar a autonomia — sócios
capitalistas têm como objetivo principal
a remuneração do dinheiro
empregado no negócio. "O caminho
do PIPE nos pareceu melhor", conta
Regina. Para montar o laboratório,
o Tecam apresentou, em 1999, o projeto
PIPE e conseguiu que a Fapesp investisse
US$ 105 mil e R$ 73,1 mil. Recursos necessários
para comprar a máquina de PCR,
um espectrofotômetro de raios UV
visível, uma capela de fluxo laminado,
duas geladeiras, dois freezers, um moedor,
uma centrífuga e três mini-centrífugas.
Durante a implantação do
laboratório, outra ocorrência
não prevista ameaçou os
propósitos do Tecam: os órgãos
internacionais de segurança biológica,
especialmente da Europa, não mais
se satisfaziam apenas com a informação
sobre a presença ou não
de OGMs em alimentos — passaram
a exigir também a informação
sobre a quantidade deles presente nas
amostras. A Europa exige rotulagem para
produtos com mais de 1% de material transgênico;
o Japão, por exemplo, só
exige rótulo quando o índice
for de 5%. A mudança impôs
uma nova necessidade para a empresa: um
equipamento de PCR mais sofisticado do
que o previsto no projeto de pesquisa
aprovado pela Fapesp — antes mesmo
de ele ter chegado. Para saber a quantidade
de transgênicos em um determinado
alimento é preciso usar a técnica
do PCR em tempo real — a mesma usada
na área médica para quantificar
a carga viral de uma amostra de sangue.
"Felizmente, para o sucesso do projeto,
a Fapesp concordou com as alterações
propostas", explica Janete.
Mas as moças
não ficaram só no PIPE —
o total investido para o desenvolvimento
do serviço de detecção
de OGMs foi de R$ 450 mil, dos quais um
terço eram recursos próprios.
O Tecam tornou-se a primeira empresa nacional
a ostentar o certificado da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) para atuar em análises
de detecção de OGMs em alimentos.
É credenciada pelos Ministérios
de Saúde e da Agricultura, e certificada
pela Comissão Técnica Nacional
de Biossegurança (CTNBio), do Ministério
da Ciência e Tecnologia (MCT). Sem
este documento, o Tecam não trabalharia
com OGMs. Esse pioneirismo deu credibilidade
ao laboratório.
Hoje em dia...
Hoje em dia, oito anos
depois do primeiro PIPE, trabalham no
Tecam 80 funcionários, sendo 41%
com formação superior. Em
2002, a empresa se mudou para um prédio
de quatro andares e mil metros quadrados
no bairro da Vila Romana, na Zona Oeste
de capital de São Paulo. O prédio
foi projetado com a finalidade de abrigar
cinco laboratórios diferentes.
São dois blocos de concreto ligados
por pontes metálicas. No último
andar, a Diretoria fica no bloco da frente.
No bloco de trás estão os
Laboratórios de Biologia Molecular
e de Ecotoxicologia. São duas salas
independentes que não se comunicam
diretamente. O acesso é feito por
um corredor lateral, onde ficam disponíveis
os paramentos que os pesquisadores colocam
antes de entrar. É condição
importante para não contaminar
o local. Enquanto o Laboratório
de Biologia Molecular abriga as máquinas
de PCR convencional e em tempo real, o
Laboratório de Ecotoxicologia guarda
aquários com algas e com uma espécie
de peixe comum na costa brasileira, o
paulistinha, entre outros equipamentos.
Os laboratórios de análises
físico-químicas, microbiológicas,
microscópicas ficam no andar térreo
para facilitar o acesso de entrada de
amostras. Há, ainda, o Laboratório
de Análises Toxicológicas
sediado numa área de 20 mil metros
quadrados em São Roque, interior
do Estado, onde ratos e cobaias são
usados em ensaios.
Dos mil clientes da empresa,
20 usam os serviços de detecção
de OGMs. A maioria é formada por
empresas exportadoras de soja para Europa,
China e Japão, que precisam se
proteger contra a comercialização
involuntária de grãos transgênicos.
Janete acredita que o perfil da clientela
deverá mudar assim que a comercialização
e a rotulagem de transgênicos no
Brasil estiverem mais bem definidas. Em
2007 e 2008, o Brasil aprovou para comercialização
dois tipos de algodão e três
tipos de milho transgênicos. O laboratório
espera esse mercado se abrir para poder
ocupar intensivamente todo o Laboratório
de Biologia Molecular, que, podendo fazer
até 200 análises por mês,
tem uma capacidade ociosa de quase 50%.
"Enquanto o mercado doméstico
ainda não se desenvolveu por falta
de regulamentação da lei,
o mercado exportador é dominado
pelos laboratórios estrangeiros",
explica Janete.
Dos mil clientes da empresa, apenas 20
são usuários dos serviços
de detecção de OGMs. A maioria
é formada por empresas exportadoras
de soja para Europa, China e Japão,
que precisam se proteger contra a comercialização
involuntária de grãos transgênicos.
Janete acredita que o perfil da clientela
deverá mudar assim que a comercialização
e rotulagem de transgênicos no Brasil
forem definidas. Atualmente, uma lei determina
a identificação na embalagem
de alimentos para o consumo humano quanto
à presença OGMs, mas uma
disputa entre lobbies de empresários,
políticos e ambientalistas adia
a regulamentação. O Tecam
espera este mercado se abrir para poder
ocupar intensivamente o Laboratório
de Biologia Molecular, que, podendo fazer
até 200 análises por mês,
tem uma capacidade ociosa de 50%. "Enquanto
o mercado doméstico ainda não
se desenvolveu por falta de regulamentação
da lei, o mercado exportador é
dominado pelos laboratórios estrangeiros",
explica Janete.
Hoje existem seis laboratórios
no País aptos a qualificar e detectar
OGMs em alimentos; quatro são estrangeiros.
O Tecam tem o quarto posto em volume de
análise neste sofisticado mercado.
Para ficar à frente da concorrência,
o Tecam monitora as novas exigências
da vigilância sanitária.
"A gente tem de se antecipar às
mudanças, como foi no caso dos
transgênicos", conta Janete.
A eficiência da empresa, que consegue
elaborar um resultado de amostra em quatro
dias, ainda não foi suficiente
para que ela galgasse posições
nesse ranking. "Existe uma relação
muito forte entre os laboratórios
estrangeiros e as empresas estrangeiras
que comercializam grãos. Geralmente,
as matrizes das empresas de comércio
exterior já têm contratos
de longo prazo com as matrizes dos laboratórios,
especialmente os europeus", afirma
Regina.
O Tecam aposta na credibilidade
e na eficiência da empresa para
quebrar "essa espécie de monopólio
ou conluio" que existe no setor.
Não há como proteger a técnica
uma vez que ela não pode ser patenteada.
Além da análise de OGMs
já constar na literatura científica,
ela deve obedecer a regras e padrões
internacionais coordenados pela União
Internacional de Química Pura e
Aplicada (Iupac, na sigla em inglês).
"Nossa perspectiva nos próximos
anos é construir uma credibilidade
que possa nos garantir acesso ao mercado
internacional. Já temos recebido
consultas de empresas estrangeiras que
querem registrar seus produtos aqui no
Brasil", afirma Regina.